É, porventura, o tipo de doenças de que menos se fala em contexto mediático e, no entanto, o que os números nos dizem é tão dramático como eloquente: em 2023, 9.177 pessoas morreram, em Portugal, na sequência de um AVC e 3.744 por enfarte agudo do miocárdio. Muitas outras sobrevivem, mas têm de enfrentar sequelas, por vezes incapacitantes. Para abordar os vários aspetos relacionados com as doenças cérebro-cardiovasculares, o Observador, em parceria com a Novartis, promoveu esta segunda-feira, 17 de novembro, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, o evento “Debater para Avançar”.
A abertura esteve a cargo de António Carrapatoso, presidente do Conselho de Administração Executivo do Observador, que fez um primeiro balanço do projeto Arterial, desenvolvido por este jornal desde março de 2024: “Impressionou-nos muito termos encontrado tanta good will por parte dos parceiros que se quiseram juntar a nós, em torno desta causa que continua a ser a principal causa de morte em Portugal.” Um desses parceiros é a Novartis Portugal e, em seu nome, falou o seu presidente, Mourad Aboubakr, que sublinhou a importância de “quebrar uma certa apatia com que muitos doentes encaram estas doenças, como se elas fossem uma inevitabilidade. Não são.” Assumindo a determinação da sua empresa em ajudar a mudar este panorama, Aboubakr afirmou: “Estamos 100% focados na inovação e, como tal, estamos a desenvolver novos medicamentos que respondam a este tipo de doenças.”
Em seguida, o host da Rádio Observador, João Miguel Santos, introduziu a primeira mesa-redonda da tarde , com o tema “Hospitais e centros de saúde: como comunicar melhor.” Participaram Cristina Gavina, presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, Francisco Araújo, presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose, Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar e Vítor Tedim Cruz, presidente da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, com moderação de Cláudia Pinto, coordenadora do projeto Arterial do Observador.
Todos foram unânimes em reconhecer que as mudanças a introduzir na abordagem deste tipo de patologias passa também pelo funcionamento interno das unidades de saúde. Nuno Jacinto salientou o facto comprovado do “sucesso no tratamento ser tanto maior quando as pessoas são seguidas pelo seu médico de família”, mas Cristina Gavina referiu as dificuldades que o sistema coloca aos próprios médicos: “Há uma grande fragmentação dos cuidados médicos, e há vários problemas com que temos de lidar. Temos muita dificuldade em marcar consultas e, sobretudo, em fazer consultas de maior duração. A verdade é que a nossa produtividade é aferida em função do número de consultas que damos e não pela sua qualidade.”
Vítor Tedim Cruz considerou que o papel da unidade de saúde é determinante na ligação com a família: “Com a alta do doente, a sua recuperação em casa, a comunicação é muito importante e aqui ainda temos uma grande falha.” Francisco Araújo também sublinhou este aspeto afirmando que “o envolvimento das famílias é muito relevante”, mas também a aposta no aumento da literacia em saúde da população. “O conhecimento tem aumentado nos últimos anos, mas ainda há que trabalhar em hábitos que ainda prevalecem como o tabagismo ou a falta de prática desportiva regular”, destacou.
A segunda mesa-redonda com o tema “Políticas de saúde: vamos fazer contas”, partiu do princípio de que os custos das doenças cardiovasculares são altos. “Mas poderiam ser menores se as políticas públicas fossem diferentes?”, foi o mote para a conversa com Fátima Franco, diretora do Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares, da Direção Geral da Saúde; Francisco Madeira, investigador da Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa (ENSP-UNL), e Oscar Gaspar, presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada, presidente da União Europeia de Hospitalização Privada, com moderação de Paulo Farinha, editor de Inovação do Observador.
Fátima Franco começou por se considerar “uma otimista”, dizendo que “já se faz muito em Potugal, mas que ainda há muitos problemas, como as grandes assimetrias entre regiões, nomeadamente ao nível dos cuidados de saúde disponibilizados”. E deu como exemplo a ULS de Coimbra, a que ela própria pertence, que abrange uma área muito vasta e diversificada, com diferentes níveis de acesso aos cuidados médicos.
Francisco Madeira falou nos enormes custos para o país que representa a prevalência deste tipo de problemas de saúde, custos que avaliou na investigação que tem vindo a conduzir, e considera que uma das maneiras de inverter a situação é a aposta na informação: “Há que trabalhar toda a parte comportamental, quer em áreas mais tradicionais como a prevenção do tabagismo, das dietas ou do exercício físico, mas também temos novos problemas, como o impacto das alterações climáticas na saúde.” Por fim, Oscar Gaspar admitiu que “os hospitais privados, muitas vezes, não se sentem envolvidos na solução do problema”, mas lembrou que há já uma parte significativa da população que recorre ao sistema privado ou a subsistemas de saúde. Assim, defendeu que cabe ao Ministério da Educação “fomentar uma maior comunicação entre os vários sistemas, porque todos temos um contributo importante a dar”.
“Inovação: Da ciência à prática” foi o tema da terceira mesa redonda da tarde, moderada por Filomena Martins, diretora-adjunta do Observador, com as intervenções de Henrique Lopes, diretor do Nova Center for Global Health, Universidade Nova de Lisboa; João Almeida Lopes, presidente da Apifarma; Rui Santos Ivo, presidente do Infarmed, presidente do Conselho de Administração da Agência Europeia de Medicamentos e Sónia Dias, diretora da ENSP-UNL. Esta última abriu o debate, contando a experiência que está a ser desenvolvida na sua escola, com “o centro de ciência da implementação, que procura perceber como a inovação científica e tecnológica pode chegar mais depressa à vida das pessoas, eliminando barreiras múltiplas que podem ter a ver com a cultura organizacional ou com a comunicação de novas rotinas e novas abordagens”.
Henrique Lopes, como especialista em ciência dos dados, falou da importância que a sua área de estudo desempenha já no desenhar de políticas de saúde e pode vir a ter numa “mais rápida e eficaz comunicação entre a ciência e a saúde dos cidadãos”. E o setor farmacêutico? Segundo foi dizendo Rui Ivo, o seu papel é fornecer “medicamentos cada vez mais específicos, em função do perfil de cada doente”. E acrescentou: “Queremos diagnosticá-los de forma cada vez mais precisa. Há condições para trabalhar nessa direção, até com a colaboração da ciência dos dados.”
João Almeida Lopes referiu-se à necessidade de estarmos atentos a uma realidade cada vez mais complexa: “Muita coisa mudou nos últimos anos, quer em Portugal, quer no mundo. No nosso país, a pressão sobre o sistema nacional de saúde aumentou muito, com mais 200 mil utentes aproximadamente. A nível global, verificamos que as alterações climáticas estão a trazer novos problemas de saúde pública.”
“Longevidade: vivemos mais mas devíamos viver melhor” foi o tema do último painel do grande evento do Observador dedicado à principal causa de morte em Portugal e contou com as participações de António Conceição, presidente da Portugal AVC; Carlos Morais, vice-presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia e Luís Filipe Pereira, presidente da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, com moderação de Leonor Riso, editora-adjunta de Sociedade do Observador. O objetivo era debater algumas das principais questões do evento: como podemos controlar as doenças crónicas e garantir a reabilitação para todos, com uma população cada vez mais envelhecida e a precisar de cuidados.
Luís Filipe Pereira, antigo ministro da Saúde, defendeu que “a literacia em saúde deve começar nas escolas porque importa dizer que este tipo de problemas de foro cardiovascular afeta pessoas cada vez mais novas e não há de todo essa consciência. Há muitos fatores que contribuem para essa realidade, desde os fatores ambientais ao stress causado pelos ambientes profissionais”. Na qualidade de presidente da associação Portugal AVC, António Conceição apelou a uma maior atenção àqueles que estão em processo de reabilitação: “Esta área não pode ser o parente pobre da intervenção em saúde. A recuperação tem de ser multidisciplinar e envolver vários agentes e saberes”.
Para Carlos Morais “a falta de recursos humanos nos nossos hospitais é uma dificuldade terrível e conseguir mobilizar a força de trabalho — que é escassa — para a prevenção é muito difícil.” Como cardiologista “da maior ULS do país, Amadora-Sintra”, afirmou ter essa consciência diariamente.”Apesar de dificuldades difíceis de superar como esta, assinalou pequenas grandes vitórias como a formação em suporte básico de vida destinada a famílias. “A adesão está a ser fantástica.”
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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.
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