A conversa de cinco minutos, por telefone, aconteceu um dia depois de o Hamas devolver os 20 reféns vivos a Israel, no momento que marcou a concretização do acordo de paz em Gaza arquitetado pelos Estados Unidos da América. A chamada, a 14 de outubro, foi entre Steve Witkoff, o enviado especial de Donald Trump, e Yuri Ushakov, conselheiro de política internacional de Vladimir Putin, e revela os bastidores das negociações entre os EUA e a Rússia para tentar um encontro entre os Presidentes russo e norte-americano e um acordo de paz para a Ucrânia.

A transcrição da conversa foi tornada pública pela Bloomberg esta terça-feira e revela que o representante norte-americano deu conselhos ao oficial russo, sugerindo que a Rússia dominasse a região de Donetsk mas que cedesse à troca de outros territórios, e que o tema fosse tratado de forma positiva. Witkoff aconselha ainda que o Presidente russo telefonasse ao homólogo ainda antes da reunião programada na Casa Branca entre Zelensky e Trump, que aconteceu três dias depois, a 17 de outubro, para o elogiar e congratular pelos esforços em Gaza. O enviado especial norte-americano recomenda que Putin chame a Trump “homem de paz”, e diz que depois deste passo russo os EUA poderiam trabalhar numa proposta de paz similar à criada para Gaza.

A chamada entre Putin e Trump acabaria, de facto, por acontecer, um dia antes de o Presidente norte-americano receber Zelensky na Casa Branca. Sobre o tema, em declarações à Fox News, Trump disse que o Presidente russo iria “levar alguma coisa” da Ucrânia, citando os territórios que a Rússia anexou ao longo da guerra. Na altura Trump ainda anunciou uma cimeira com Putin em Budapeste, encontro que nunca aconteceu.

Em reação à discussão exposta, Donald Trump disse aos jornalistas, a bordo do Air Force One, que a chamada é apenas uma “negociação comum”. “É normal. Ele precisa vender isto à Ucrânia, precisa vender a Ucrânia à Rússia. É o que negociadores fazem”, disse o Presidente norte-americano. “Não a ouvi, mas já sei que foi uma negociação comum. Imagino-o a dizer o mesmo à Ucrânia, porque cada lado precisa ceder e ganhar”, disse, em citações publicadas pelo Politico. Yuri Ushakov também reagiu à divulgação da conversa: “Falo com Witkoff com frequência, porém não comento o conteúdo das discussões”, disse ao jornalista russo Pavel Zarubin, citado pela agência TASS. Leia em baixo a transcrição da conversa na íntegra.

Steve Witkoff: Olá Yuri.
Yuri Ushakov: Sim, Steve, olá, tudo bem?
SW: Bom dia, Yuri. Como está?
YU: Estou bem. Parabéns, meu amigo.
SW: Obrigado.
YU: Fez um ótimo trabalho. Simplesmente um ótimo trabalho. Muito obrigado. Obrigado, obrigado.
SW: Obrigado, Yuri, e obrigado pelo seu apoio. Sei que o seu país apoiou o projeto e agradeço-vos.
YU: Sim, sim, sim. Sim. Sabe que é por isso que suspendemos a organização da primeira cúpula russo-árabe.
SW: Sim.
YU: Sim, porque achamos que está a fazer um trabalho realmente importante na região.
SW: Bem, escute. Vou lhe dizer uma coisa. Acho que, se conseguirmos resolver a questão Rússia-Ucrânia, todos ficarão muito felizes.
YU: Sim, sim, sim. Sim, só precisa resolver um problema. [risos]
SW: O quê?
IU: Guerra russo-ucraniana.
SW: Eu sei! Como resolvemos isso?
YU: Meu amigo, eu só queria a sua opinião. Acha que seria útil se os nossos chefes conversassem por telefone?
SW: Sim, eu concordo.
YU: Sim. E quando acha que isso seria possível?
SW: Acho que assim que sugerir, estaremos prontos para isso.
YU: Ok, ok.
SW: Yuri, Yuri, eis o que eu faria. A minha recomendação.
YU: Sim, por favor.
SW: Faria a ligação e reiteraria que o vosso lado congratula o Presidente [dos EUA] por essa conquista, que a apoiaram, que o respeitam por ser um homem de paz e que estão muito felizes por terem visto isso acontecer. Diria isso. Acho que, a partir daí, será uma ligação muito boa. Porque — deixe-me dizer o que eu disse ao Presidente. Disse ao Presidente que a Federação russa sempre quis um acordo de paz. Essa é a minha crença. Disse ao Presidente que acredito nisso. E acredito que a questão é — o problema é que temos duas nações que estão a ter dificuldades para chegar a um consenso e, quando chegarmos, teremos um acordo de paz. Estou até a pensar que talvez possamos elaborar uma proposta de paz de 20 pontos, assim como fizemos em Gaza. Elaboramos um plano de paz de 20 pontos, o Plano Trump, que era composto por 20 pontos para a paz, e estou a pensar que talvez possamos fazer o mesmo convosco. O meu ponto é este…
YU: Ok, ok, meu amigo. Acho que esse ponto específico os nossos líderes poderiam discutir. E, Steve, concordo consigo que ele vai congratular, vai dizer que o Sr. Trump é um verdadeiro homem da paz e tudo isso. É isso que ele vai dizer.
SW: Mas eis o que eu acho que seria incrível.
YU: Ok, ok.
SW: E se, e se… ouça…
YU: Vou conversar sobre isso com o meu chefe e depois volto a falar consigo. Ok?
SW: Sim, porque ouça o que estou a dizer. Só quero que diga, talvez apenas para dizer isso ao Presidente Putin, porque sabe que tenho o mais profundo respeito pelo Presidente Putin.
YU: Sim, sim.
SW: Talvez ele diga ao Presidente Trump: “Sabe, Steve e Yuri discutiram um plano de paz muito semelhante, com 20 pontos, e isso poderia ser algo que, na nossa opinião, poderia fazer alguma diferença. Estamos abertos a este tipo de coisas — a explorar o que será necessário para chegar a um acordo de paz.” Agora, sei o que será necessário para chegar a um acordo de paz: Donetsk e talvez uma troca de territórios em algum lugar. Mas estou a dizer que, em vez de falar dessa forma, vamos conversar com mais esperança, porque acho que vamos chegar a um acordo. E acho que, Yuri, o Presidente dar-me-á bastante espaço e liberdade para chegar a um acordo.
YU: Entendo…
SW: …então, se pudermos criar essa oportunidade, depois disso (dizer) ‘eu conversei com o Yuri e tivemos uma conversa’, acho que isso pode levar a grandes coisas.
 YU: Ok, isso parece bom. Parece bom.
SW: E tem mais uma coisa: Zelensky estará na Casa Branca na sexta-feira (17 de outubro).
YU: Sei disso. [risos]
SW: Irei a essa reunião porque querem que eu esteja lá, mas acho que, se possível, podemos conversar com o seu chefe antes da reunião de sexta-feira.
YU: Antes, antes — é?
SW: Correto.
YU: Ok, ok. Entendi o seu conselho. Vou conversar com o meu chefe e depois volto a falar consigo, ok?
SW: Ok Yuri, falo consigo em breve.
YU: Ótimo, ótimo. Muito obrigado. Obrigado.
SW: Tchau, tchau.
YU: Tchau.