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Anadolu via Getty Images

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O dia em que os reféns saíram, "a guerra acabou" na Faixa de Gaza — e foram dados passos para a paz na região

Trump proclamou o fim da guerra, o acordo foi formalmente assinado e todos os reféns vivos regressaram a casa. Mas países árabes e o povo palestiniano são cautelosos em olhar para o futuro.

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Yasser Abu Azzoum diz que não consegue falar, porque está “assoberbado de alegria”. O filho Mohammed, de 23 anos, é um de quase dois mil nomes na lista de palestinianos que foram libertados de prisões israelitas esta segunda-feira, como explicou à Al Jazeera a partir de Khan Younis. Yasser e Mohammed foram presos pelas autoridades israelitas em 2023. Desde aí, Yasser foi libertado, foi pai novamente e experienciou a ofensiva israelita na Faixa de Gaza. Agora, três dias depois de um cessar-fogo ter entrado em vigor, aguarda o regresso do filho mais velho — “Vamos estar reunidos e vamos passar o resto dos nossos dias felizes“, declarou.

A alegria que tomou conta de Yasser em Gaza é um espelho das emoções vividas em Israel pelos familiares e amigos dos 20 reféns israelitas que, ao fim de dois anos e seis dias em cativeiro, regressaram esta segunda-feira a casa. Os amigos de Alon Ohel, pianista de 24 anos raptado no festival Nova, reuniram-se em Telavive para ver o seu regresso em direto na televisão, irrompendo em gritos de celebração quando perceberam que Ohel já estava novamente em Israel. Pouco antes da libertação, e à semelhança do que aconteceu com outros reféns, o Hamas permitiu que falasse em vídeochamada com a mãe, Idit. “Ele é… ele”, relataria depois. “Da maneira como está sempre, a agarrar o braço. Ele é doce, doce, doce, vocês não conseguem imaginar.”

Ohel foi um dos sete primeiros reféns a ser entregue à Cruz Vermelha pelo Hamas na manhã desta sexta-feira. Cumprindo à risca o horário, passavam poucos minutos das 8h locais (6h em Portugal Continental) quando a Cruz Vermelha confirmou que já tinha consigo os sete homens raptados no dia 7 de Outubro de 2023. Uma hora depois, os reféns israelitas ficavam sob custódia do Exército israelita e, nas prisões israelitas de Ofer e Ketziot, vários autocarros enchiam-se de prisioneiros palestinianos, prontos a rumar a Gaza e a Ramallah.

Sensivelmente à mesma hora, o Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump apresentava uma leitura definitiva sobre estes acontecimentos. “A guerra acabou, a guerra acabou, percebem?“, disse aos jornalistas a bordo do avião presidencial, momentos antes de aterrar em Telavive. Do Air Force One, o líder norte-americano seguiu para Jerusalém, onde se reuniu com familiares dos reféns israelitas e discursou no Parlamento israelita — onde o cenário de festa que tomou conta das ruas se refletiu entre a maior parte dos deputados e líderes políticos israelitas.

Returned hostage Omari Miran reuniting with his wife Lishay Miran-Lavi for the first time in 738 days on Oct 13, 2025. (GPO handout photo)

▲ Os reféns israelitas regressam a casa ao fim de mais de dois anos em cativeiro

EYEPRESS via Reuters

Apesar de o longo programa desta segunda-feira ter começado à hora marcada, foi já com muito atraso que Donald Trump seguiu para o seu destino seguinte: Sharm El-Sheikh, onde foi recebido pelo Presidente egípcio, se reuniu com dezenas de líderes internacionais — principalmente europeus e árabes — e procedeu à assinatura formal da primeira fase do acordo de cessar-fogo. Tanto ao lado do Presidente egípcio Abdul Fatah Khalil Al-Sisi, como ao lado de Benjamin Netanyahu, o próximo objetivo do Presidente norte-americano é o mesmo: a paz duradoura no Médio Oriente.

As celebrações e os elogios a Trump no Knesset e nas ruas de Israel

Julie Kuperstein passou as primeiras horas da semana na base militar de Re’im, no sul de Israel, a alguns quilómetros da fronteira com Gaza. O filho, Bar, estava entre os 20 reféns israelitas que ainda permaneciam com vida no enclave. A certa altura, reparou que tinha no telefone uma chamada perdida, identificada como “Brigadas Al Aqsa” — um dos grupos armados palestinianos, com ligações ao partido Fatah. Telefonou de volta e foi atendida por Bar, que garantiu estar bem, relatou Julie ao Channel 12.

O cenário repetiu-se com as famílias dos restantes reféns, que receberam telefonemas e videochamadas de grupos palestinianos, em que puderam falar com os reféns, que disseram estar bem e a caminho de casa. Entre lágrimas, os familiares informaram-nos, com as mesmas palavras de Trump, que a “guerra acabou”. O Times of Israel olha para estas chamadas como tendo o mesmo propósito das “cerimónias” encenadas durante o cessar-fogo de janeiro, em que os reféns eram levados para cima de um palco e sorriam para as câmaras — momentos que foram proibidos desta vez, por serem vistos como um desrespeito pela dignidade dos reféns e os sentimentos das suas famílias.

Momentos depois dos telefonemas, os reencontros, ao fim de mais de dois anos, foram presenciais. Depois de um primeiro exame médico, reféns e os seus familiares mais próximos seguiram de helicóptero para hospitais no centro de Israel — o percurso foi acompanhado a partir do solo pelas multidões que se reuniam desde manhã cedo na Praça dos Reféns, em Telavive, com aplausos e gritos de “bem-vindos”.

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▲ Israelitas assistiram em direto ao regresso dos reféns

AFP via Getty Images

Ao mesmo tempo, em Jerusalém, familiares e representantes dos reféns, tanto os que já foram libertados como os que morreram em cativeiro, foram recebidos por Benjamin Netanyahu e Donald Trump. Depois de meses de críticas ao primeiro, as famílias desdobraram-se em elogios ao segundo. “O seu nome será lembrado durante gerações”, declarou uma mulher que participou no encontro sobre o Presidente dos Estados Unidos, fazendo eco do espírito de agradecimento a Trump que se tem feito sentir entre a população israelita.

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Apesar das divergências que o primeiro-ministro israelita tem tido com os familiares dos reféns em relação à sua gestão da ofensiva militar na Faixa de Gaza, Netanyahu encontrou nesta frase um ponto em que concordam. “[Trump] ficará inscrito na História da nossa nação”, declarou perante o Knesset, durante o seu discurso. Em inglês, deixou longos elogios ao Presidente norte-americano — que classificou como “o melhor amigo que Israel já teve na Casa Branca” — e à sua “força”.

Antes de mudar para o inglês, já tinha repetido em hebraico que “a guerra acabou”. No entanto, para além da força de Trump e da sua capacidade para fechar um acordo, Netanyahu não se escusou de olhar para outro fator que considera essencial para chegar a este dia: a capacidade militar israelita. “Os nossos inimigos percebem agora o quão poderoso e determinado é Israel. Eles percebem que atacar Israel no 7 de Outubro foi um erro catastrófico. Eles percebem que Israel é forte e está aqui para ficar”, declarou, acrescentando que “Israel fez o que tinha de fazer”.

Ainda assim, Netanyahu reconheceu esta segunda-feira que o regresso dos reféns teve um “preço alto” — que identificou como sendo a vida das centenas de soldados israelitas que perderam a vida na ofensiva contra a Faixa de Gaza. Terminado o breve olhar sobre o passado, o líder israelita olhou ainda para o futuro e para o próximo feito que quer alcançar com a colaboração de Trump: a normalização das relações com os países árabes.

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▲ Trump e Netanyahu discursaram perante o Knesset

Getty Images

De Khan Younis a Ramallah, a alegria misturou-se com o medo do futuro

Na chegada a Israel, Donald Trump declarou o fim da guerra. A partir do púlpito do Knesset, corrigiu: “Não é só o fim da guerra, é o fim da era do terror e morte e início da era da fé, esperança e Deus”. “Hoje é um dia de alegria profunda, de esperança”, repetiu. E reforçou ainda o cenário positivo com uma imagem específica: “As pessoas estão a dançar nas ruas e não é só em Israel”.

Porém, à mesma hora, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza a alegria não era suficiente para dançar. Em Ramallah, a alegria era contida, depois de as autoridades israelitas terem proibido celebrações pela libertação dos reféns e dos prisioneiros, segundo relataram familiares de prisioneiros a vários meios de comunicação no local. “Não há cantoria, celebrações ou música“, declarou Um Abed, uma mulher de 60 anos que esperava o regresso a Ramallah do irmão Kamal, preso há 23 anos, desde a noite de domingo. “Temos medo que o prendam novamente” explicou ao The Guardian.

Poucos quilómetros a sul, nas imediações da prisão de Ofer, ainda na Cisjordânia, os palestinianos também se reuniam para tentar ver entre as centenas de prisioneiros algum familiar ou amigo preso por Israel — já que as listas de prisioneiros foram alvo de muitas discussões e mudanças e até à última não era sabido quem seria abrangido. As autoridades israelitas entregaram panfletos às multidões, avisando que o “apoio a organizações terroristas” era punível com prisão, e, depois disso, dispararam balas de borracha e gás lacrimogéneo sobre os palestinianos.

Já na Faixa de Gaza, o misto de sentimentos era mais complexo. Alguns palestinianos celebraram, apesar das cicatrizes de dois anos sob fogo israelita. É o caso de Yasser e também de Muhammad Dawood, de 50 anos, que falou com a BBC a caminho do hospital de Nasser, onde o filho chegou de autocarro. “É um sentimento bonito — um dia de felicidade e alegria. Dizemos que é um feriado nacional, que os nossos detidos estão a regressar apesar do custo da guerra, dos mártires, dos feridos, da destruição em Gaza”, afirmou.

A freed Palestinian prisoner hugs his family member after being released from an Israeli jail as part of a hostages-prisoners swap and a ceasefire deal in Gaza between Hamas and Israel, in Ramallah, in the Israeli-occupied West Bank, October 13, 2025. REUTERS/Mussa Qawasma

▲ Quase 2 mil palestinianos foram libertados de prisões israelitas

Mussa Qawasma/REUTERS

Na ponta oposta do enclave, os palestinianos que regressam à região norte — onde praticamente não restam edifícios de pé — mostravam-se mais cautelosos. “Eu não acho que a guerra vá retomar em força. Mas falar sobre paz… que paz? Se não houver uma paz justa e o estabelecimento de um Estado palestiniano não vai haver paz”, considerou um homem que foi forçado a deslocar-se para o sul à Al Jazeera.

Um terceiro grupo não viu no cessar-fogo motivos para celebração. “É importante que os bombardeamentos tenham parado, mas não há motivos para estar feliz. As minhas duas filhas foram mortas, a minha casa foi destruída, a minha saúde deteriorou-se”, comentou Saed Abu Aita, um homem de 44 anos que falou com o New York Times a partir do centro de Gaza.

A leitura do Hamas parece refletir as diferentes posições dos palestinianos de Gaza, a avaliar pelas declarações do diretor do Gabinete de Prisioneiros Palestinianos à Al Jazeera. Por um lado, o responsável do Hamas classificação esta segunda-feira como “um grande dia”, dado o fim dos bombardeamentos e a libertação de centenas de prisioneiros. No entanto, o grupo palestiniano viu neste processo uma tentativa de Israel de “se evadir das suas obrigações”, ao ter alterado os nomes na lista de prisioneiros a libertar sucessivas vezes — deixando nas prisões palestinianos cujas famílias já tinham sido informadas da sua libertação.

Além disso, o Gabinete assinalou outra mudança de última hora que também apanhou muitos palestinianos de surpresa: o facto de Israel ter decidido que 154 prisioneiros só poderiam sair em liberdade se fossem para o exílio, não podendo ficar nem em Israel nem em territórios palestinianos. Deste grupo, os que são habitantes de Gaza foram deportados para o Egito através da passagem de Rafah, detalhou o gabinete.

epa12447091 Internally displaced Palestinians walk along a street among the rubble of destroyed buildings amid a ceasefire between Israel and Hamas, in Gaza City, 11 October 2025. US President Donald Trump announced that Israel and Hamas have agreed to the first phase of a Gaza peace plan. The deal involves the release of Israeli hostages and Palestinian prisoners, the withdrawal of Israeli forces, and the delivery of humanitarian aid to Gaza.  EPA/MOHAMMED SABER

▲ Milhares de palestinianos regressam à região norte, onde tinham as suas casas

MOHAMMED SABER/EPA

Entre Israel e Egito, Trump marcou agenda de cimeira internacional para a paz

Segundo a agenda de Donald Trump, por volta das 13h desta segunda-feira (11h em Portugal Continental) o Presidente norte-americano devia embarcar no Air Force One em Telavive para seguir para Sharm El-Sheikh para a cimeira internacional. A essa mesma hora, Trump entrava no Knesset, em Jerusalém. Duas horas depois, quando tomou a palavra, reconheceu estar “bastante atrasado” para os seus compromissos no Egito.

“Vou chegar lá muito atrasado, se calhar quando lá chegar já não estão lá, mas vamos tentar”, declarou perante o Parlamento israelita. Sem surpresas, Trump não tinha motivos para temer que começassem o encontro sem ele. Apesar de as dezenas de líderes terem começado a chegar logo pela manhã desta segunda-feira, o encontro multilateral e a assinatura da primeira fase do acordo de cessar-fogo só aconteceram já com a presença do Presidente dos Estados Unidos.

Afinal, o objetivo formal da cimeira pode ser “pôr fim à guerra na Faixa de Gaza, aumentar os esforços para alcançar paz e estabilidade no Médio Oriente e avançar uma nova era de segurança e estabilidade regional”. Contudo, o encontro é também uma oportunidade ideal para os líderes árabes persuadirem Donald Trump a apoiá-los em algumas questões complexas e a longo prazo, argumentam especialistas ouvidos pelo New York Times.

“O mundo conseguiu o que queria há muito tempo: a entrada em cena dos EUA. Mas manter o peso norte-americano enquanto decidem os detalhes é mais difícil. Não parece haver nenhum planeamento a longo prazo”, avaliou Aziz Alghashian, professor na Universidade Naif Arab, em Riade. A leitura do professor é contrariada pelas palavras do próprio Donald Trump que, em declarações aos jornalistas ao lado do Presidente egípcio, disse que, tanto quanto sabe, “a fase dois já começou”. “Sabem que as fases estão todas um bocadinho misturadas umas com as outras”, justificou.

▲ Trump deixou elogios ao seu homólogo egípcio

POOL/AFP via Getty Images

Mas mesmo que as negociações para a nova fase já tenham começado, os detalhes não foram tornados públicos e continuam a colocar-se muitas questões sobre temas como a desmilitarização do Hamas e o Governo de transição na Faixa de Gaza — sobre o qual Trump parece estar a repensar até uma das únicas coisas que tinha dado como certa, que era a intervenção de Tony Blair.

Mais concretamente, a cimeira pode ser um momento para os países árabes projetarem em Trump as suas próprias preocupações regionais — principalmente no caso do Egito, que partilha fronteiras com Gaza e se vê a braços com a migração forçada de palestinianos ou a passagem de armas — ou lutarem por questões tão concretas como o papel da Autoridade Palestiniana na governação do Estado da Palestina, a que Israel se continua a opor.

A deslocação de Donald Trump a Israel e ao Egito, o destaque que deu à mediação árabe no discurso no Knesset e os elogios que deixou a Sisi, Presidente do Egito, na chegada ao país parecem mostrar uma disponibilidade do líder norte-americano para ouvir todos os aliados na região, enquanto a adesão dos países árabes à cimeira mostra que sabem o peso que Trump tem para o sucesso das negociações a longo prazo.

As palavras de Benjamin Netanyahu no Knesset, em que falou sobre a aspiração à normalização da diplomacia israelita no Médio Oriente, apontam no mesmo sentido. Contudo, as palavras vão de encontro às suas ações. Neste caso, ao facto de não se ter deslocado à cimeira internacional quando o Egito já tinha confirmado a sua presença — uma decisão que diz ter sido motivada pela celebração religiosa judaica do Simchat Torah.

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