O líder do Governo de Hong Kong admitiu esta quinta-feira que as eleições para o parlamento local, marcadas para 7 de dezembro, poderão ser adiadas, após o incêndio mais mortífero da história da cidade, que atingiu na quarta-feira um complexo residencial na região vizinha de Hong Kong. O número de mortos subiu para 94 e há registo de 76 feridos, incluindo 16 em estado crítico, noticia o South China Morning Post. Estão, ainda, 50 pessoas presas dentro de sete edifícios. Mais de 700 bombeiros continuam a combater as chamas, apoiados por equipas de socorro e pela polícia.
“Faremos uma análise completa e tomaremos uma decisão dentro de alguns dias, com base nos interesses gerais de Hong Kong”, disse John Lee Ka-chiu, após uma reunião de emergência com dirigentes de vários departmentos governamentais.
O chefe do Executivo acrescentou que os debates entre candidatos ao Conselho Legislativo de Hong Kong que estavam marcados para esta quinta e sexta-feira foram adiados, sem previsão de nova data. As restantes atividades da campanha eleitoral foram também suspensas, disse John Lee aos jornalistas.
“O Governo está empenhado em lidar com este grande desastre. A nossa prioridade agora é combater o incêndio”, sublinhou o dirigente. “A prioridade máxima é extinguir o incêndio e resgatar os residentes presos. A segunda tarefa é tratar dos feridos, a terceira é lidar com as consequências e depois realizaremos uma investigação completa”, acrescentou Lee.
“Quanto aos outros assuntos, decidiremos o que fazer daqui a uns dias, depois de coordenarmos o nosso trabalho”, referiu o líder do Governo.
Também esta quinta-feira, o Governo de Hong Kong anunciou o lançamento de uma investigação anticorrupção.
Em comunicado, a Comissão Independente Contra a Corrupção de Hong Kong anunciou que criou “um grupo de trabalho para iniciar uma investigação completa sobre a possível corrupção no grande projeto de renovação do Wang Fuk Court em Tai Po”. A comissão justificou a decisão com “o imenso interesse público envolvido”
População de Hong Kong junta-se para ajudar desalojados do fogo
Os donativos continuam esta quinta-feira a chegar a um dos abrigos para os desalojados pelo incêndio.
Serena, de 16 anos, carrega uma caixa com garrafas de água para entregar numa escola secundária de Tai Po, convertida num dos abrigos temporários para os afetados pelo incêndio.
Além dos 900 residentes, de cerca de quatro mil residentes, do complexo residencial Wang Fuk Court, onde deflagrou o incêndio, as autoridades ordenaram aos habitantes do vizinho Kwong Fuk Estate que abandonassem as casas por precaução.
“Esta é a minha escola, mas hoje [quinta-feira] não temos aulas por causa do incêndio”, explica à Lusa a jovem, que se juntou a vários colegas para comprar e doar mantimentos, incluindo bolachas e massa instantânea.
A escola fica a pouco mais de dois quilómetros do complexo residencial dos Novos Territórios, no norte de Hong Kong, que na quarta-feira à tarde se incendiou. Ao segundo dia, colunas de fumo continuam a subir aos céus e o cheiro a queimado sente-se no ar.
“Toda a gente conhece alguém que vivia em Wang Fuk”, sublinha Serena. “Nunca pensámos que isto pudesse acontecer aqui”, acrescenta.
Mas não é só em Tai Po, situado mais perto da fronteira com a metrópole de Shenzhen do que do centro de Hong Kong, que a população se tem mobilizado para ajudar. Uma idosa veio de Tuen Mun, a 30 quilómetros de distância, com cobertores e roupa. “É pouco para quem perdeu tudo o que tinha”, lamenta a residente, de apelido Fong.
De acordo com a imprensa local, o incêndio levou também muitas pessoas a tentar doar sangue, esgotando esta quinta-feira as marcações no centro de Causeway Bay.
Marcelo e líder de Macau manifestam pesar. Leão XIV diz estar triste com incêndio
Após Xi Jinping, Presidente da República Popular da China, ter reagido ao incêndio, também o líder do Governo de Macau, Sam Hou Fai, manifestou esta quinta-feira, em comunicado, “profundo pesar” pelas vítimas.
O chefe do Executivo disse que “sentiu absoluta tristeza e consternação” ao ser informado do incêndio em vários edifícios no complexo Wang Fuk Court. Em nome do Governo de Macau, Sam Hou Fai “apresentou as mais sinceras condolências” e transmitiu “a sua sentida solidariedade” para com os feridos, os seus familiares, bem como os familiares das vítimas mortais.
Sam Hou Fai disse que já entrou em contacto com o homólogo de Hong Kong, John Lee Ka-chiu, “sublinhando que as relações estreitas” entre as duas regiões “são como as de irmãos que sentem a mesma tristeza e compartilham o mesmo pesar”. O Governo de Macau mostrou-se ainda disponível para prestar qualquer assistência necessária, acrescenta o comunicado.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, também manifestou o seu pesar pelas vítimas mortais numa nota publicada na página da Presidência da República, transmitindo “uma palavra de conforto e sentida solidariedade às autoridades de Hong Kong e da República Popular da China e às famílias de todos aqueles afetados por esta tragédia”.
O Papa Leão XIV enviou uma carta ao cardeal Stephen Chow Sau-yan, natural da cidade, mostrando a ua tristeza e expressando a “garantia da sua solidariedade espiritual a todos aqueles que sofrem os efeitos desta calamidade, especialmente os feridos e as famílias que choram.
Este é já o incêndio mais mortífero da história da cidade. Em 1996, quando Hong Kong ainda era uma colónia britânica, um incêndio num edifício comercial em Jordan, na zona de Kowloon, causou 41 mortos e 81 feridos.
O corpo de bombeiros de Hong Kong disse esta quinta-feira que já tinha conseguido entrar em contacto com vários das 279 pessoas que estavam inicialmente listadas como desaparecidas.
A polícia deteve três homens por suspeita de homicídio voluntário, após a descoberta de materiais inflamáveis deixados durante trabalhos de manutenção que levaram o fogo a propagar-se rapidamente.
As chamas consumiram andaimes de bambu em todos os oito edifícios do bairro social nos Novos Territórios, deixando vários moradores presos dentro dos apartamentos.
As autoridades não mencionaram até ao momento as possíveis causas do incêndio no complexo construído nos anos 80 e composto por torres com perto de 30 andares e um total de 1.984 apartamentos.
As autoridades de Hong Kong ativaram o sinal de alarme de incêndio para o nível 5, o mais alto em vigor na cidade.
Atualizado às 23h23 com atualização sobre o número de mortos