O combate mais tenso foi deixado para as entrelinhas do debate presidencial desta quarta-feira, com Luís Marques Mendes e António José Seguro a preocuparem-se acima de tudo em fixar o eleitorado que lhes é naturalmente mais próximo. É, afinal, nas fugas entre esse mesmo eleitorado que pode estar o maior risco para cada um dos dois mais proeminentes candidatos do sistema.

Um apoiado pelo PSD, outro pelo PS, num quadro político-parlamentar com a maior mancha de centro direita de sempre e com dois adversários na mesma corrida que furam o sistema. Tanto Seguro como Mendes estão bem cientes do que vão revelando os estudos de opinião: têm grande dificuldade em convencer o eleitorado das suas próprias famílias políticas. Não foi por isso estranho ver Seguro entrar neste debate a namorar costistas abespinhados, nas últimas horas, com as notícias das escutas ao antigo primeiro-ministro. Nem ver Marques Mendes a apontar para a famosa estante de Vítor Escária para dizer que “é absolutamente lamentável” não existir ainda uma explicação “cabal e definitiva”,

É conhecido o distanciamento que uma frente costista no PS vai mantendo da candidatura de António José Seguro. E o socialista entrou no debate a tentar conquistá-la no dia em que a revista Sábado revela excertos de três anos de escutas a governantes de Costa que apanharam conversas com o então primeiro-ministro. Entre o “preocupadíssimo” e o “gravíssimo”, Seguro atirou à PGR que “pôs num comunicado que o primeiro-ministro estava a ser investigado e passados dois anos não há nenhum facto que prove essa justificação”. “O País perdeu um Governo. O País foi a votos. O País tinha uma situação de estabilidade política e passou a ter uma situação de instabilidade política”, relembrou pedindo “explicações” sobre o atraso nesse processo.

Mendes concordou com a necessidade de haver uma conclusão para essa investigação, ainda assim preferiu aproveitar para centrar-se no eleitorado menos crente numa total inocência socialista e tocou no caso-estante. “Foram encontrados 75 mil euros em notas escondidos no gabinete do chefe de gabinete do primeiro-ministro e que até hoje ninguém deu uma justificação: nem o chefe de gabinete, nem o primeiro-ministro nem o Ministério Público”, disparou. E ainda outra — esta dirigida a outro eleitorado, agora à sua direita: “Há escutas a mais, mas, se não houvesse escutas, Sócrates não teria a condenação que teve.”

Mas, neste debate, Mendes centrou na busca pelos indecisos do centrão. E foi nesta senda que chegou a concordar com Seguro na necessidade de “pedir responsabilidades” à Justiça, mas para logo a seguir dizer que tem “uma diferença para António José Seguro: Eu sou mais interventivo. Quero ir mais à frente. Pedir responsabilidade todos pedem, mas é preciso reformar.” E acrescentou mesmo: “Utilizando uma frase que é sua: Qual é a pressa? Há pressa”.

Explorou o mais que pôde uma fragilidade muito concreta de Seguro, criada pelos que dentro do seu próprio partido dizem que o ex-líder só diz “banalidades” (Augusto Santos Silva) ou que “não tem uma ideia política” (Mariana Vieira da Silva). “António José Seguro privilegia mais as proclamações de carácter genérico. Eu quero ser bastante mais ativo e intervertivo. Isto nem é crítica nenhuma, cada um tem o feitio, o estilo que tem”, vincou o social-democrata nesta mesma linha, ao mesmo tempo que procurava fazer render a sua proposta de um pacto na justiça.

Voltou a referir mais vezes a palavra “generalidades” que sabe tocar num nervo do adversário. E tocou mesmo, tanto que o socialista a dada altura quis falar na “questão das generalidades”, para lembrar a Mendes a sua proposta “concreta” para um pacto na saúde.

Seguro também trazia uma na manga para atirar a Mendes, parecida com a estante de Escária ou com o provocador uso da palavra “generalidades”. Aconteceu quando falou de corrupção e conseguiu embrulhar num discurso discurso sobre a “prioridade” a esse “combate” uma tirada direta aos negócios de Marques Mendes. Lembrou que o adversário “foi consultor” em alguns processos de privatização no país, defendendo ao mesmo tempo que devia haver “planos de anti-corrupção associados a cada processo de privatização”, como o da TAP.

Mendes ignorou a rasteira das entrelinhas e distanciou-se de decisões políticas sobre privatizações, nomeadamente a da companhia aérea onde ainda fez questão de dizer que não tinha nada a ver com o Governo que a decidiu: “O Governo era de Pedro Passos Coelho”. Do outro lado da mesa estava o candidato que tem procurado o apoio junto de alguns elementos do passismo.

Também procuraram delimitar os seus espaços políticos quando discordaram na inclinação perante a lei laboral: Seguro mais inclinado para o veto, Mendes menos. Depois concordaram na necessidade de travar eventuais propostas governativas contrárias à Constituição (num futuro programa que viesse a ser elaborado pelo Chega) e no investimento em defesa. Frentes de convergência menos problemática para os eleitorados que mais procuraram durante o debate.

Diálogo revelador

António José Seguro: Estou preocupadíssimo com aquilo que li hoje e com aquilo que se passou há dois anos. Há dois anos, a PGR colocou num comunicado que o primeiro-ministro de Portugal estava a ser investigado. E, passados dois anos, não há nenhum facto que prove essa justificação. Dois anos num caso destes é muito grave. E aquilo que vamos tendo conhecimento, como hoje aconteceu na Revista Sábado, são transcrições que não têm a ver com aquele processo e que não percebo como é que estão no processo. Eu disse há uns dias que a justiça tem de ser competente. Isto não tem nada a ver com o Estado de Diretio democrático. Alguém tem de vir responder.

Moderador: O Procurador Geral da República?

Seguro: Claro. Nós estamos a falar de um cidadão que é presidente do Conselho Europeu, que era primeiro-ministro na altura. O País perdeu um Governo. O País foi a votos. O País tinha uma situação de estabilidade política e passou a ter uma situação de instabilidade política. Já teve duas eleições depois disso. E ninguém responde? Ninguém é responsável? Isto não pode ser assim. Por isso, a situação é grave.

Marques Mendes: Tenho esperança que haja um debate próximo que possamos discutir os temas das comunidades portuguesas. Este assunto dá razão ao compromisso de que é preciso dar o pontapé de saída para a reforma de Justiça. E anunciei que o meu primeiro Conselho de Estado sobre essa matéria. Porque senão PS e PSD parecem condicionados e não se aproximam.

Moderador: Mas vê gravidade particular na divulgação destas escutas?

Mendes: Claro que vejo. Isto confirma que a Justiça está doente.

Moderador: E o MP em particular?

Mendes: Tudo. Vamos por partes. Primeira parte, violação do segredo de justiça. É mais uma. Mas é grave. E não se resolve, como o MP pretende, com uma participação crime contra a revista Sábado e os seus jornalistas. Os jornalistas não assaltaram o MP. Alguém lhes passou a informação. Logo, devia ser investigado exatamente quem é que lhes passou a informação. Acresce aí que com a jurisprudência do Tribunal Europeu, o MP não vai ter qualquer espécie de razão. Mas esta questão é uma matéria que os políticos podem rever mexendo na legislação. Segundo ponto: Operação Influencer. Concordo com António José Seguro: é inqualificável que ainda não esteja encerrado. Encerrado quer dizer ou arquivado, se não houver provas, ou então com acusação. Isto é inaceitável e o MP não pode ter investigação interminável. É lamentável. Terceiro ponto: também há outra coisa absolutamente lamentável: quando foi da Operação Influencer foram descobertos 75 mil euros em notas escondidos no gabinete do chefe de gabinete do primeiro-ministro. Ninguém até hoje deu uma explicação cabal e definitiva. Nem o chefe de gabinete, nem o ex-primeiro-ministro, nem o MP. Portanto, tudo isto mostra que tudo está mal. E é assacar responsabilidades, mas também é da classe política, juntar-se e fazer as reformas necessárias para pôr a justiça a funcionar.