Eram esperados extremos e assim foi. Num debate de três temas, João Cotrim Figueiredo e Catarina Martins só concordaram na questão da justiça e na necessidade de explicações por parte do procurador-geral da República no caso das escutas ao ex-primeiro-ministro António Costa. Depois, os dois adversários que são eurodeputados encostaram-se aos seus próprios cantos na Defesa e no modelo de Estado, nomeadamente na saúde.

Começando pela curta concórdia. Aconteceu logo no arranque do debate quando os dois candidatos presidenciais foram confrontados com as mais recentes notícias sobre a Operação Influencer. Cotrim disse que “mais do que abuso das escutas” o que o “preocupa” é que “haja confusão entre noção de autonomia e total independência e escrutínio no Ministério Público. Não é possível que, caso após caso, o PGR e o MP não esclareçam o que está em causa”.

De seguida, Catarina Martins também considerou que o “procurador-geral da República deve explicações ao país” sobre a situação e que tanto “é um susto saber que as escutas são tão generalizadas” como também o é “poder haver processos que arrastam na lama pessoas durante anos e casos que chegam até a prescrever” devido a esse prolongamento dos processos no tempo.

A partir daqui os dois nunca mais voltaram a estar próximos. A começar pelo tema da defesa, onde a questão do investimento no sector galgou rapidamente para o debate sobre o papel da NATO nos conflitos existentes. Sobre o investimento, Cotrim considerou que 2% “é uma gota de água nos investimentos europeus”, Catarina Martins falou dos 5 mil milhões anunciados esta semana pelo Governo e disse que “é absolutamente desproporcionado”.

Mas o ex-presidente da IL que se candidata a Belém também fez questão de tocar logo num ponto quente ao dizer que a adversária já declarou que, por ela, “Portugal estaria fora da NATO”. A antiga líder do BE ripostou que “quem for eleito vai ter de cumprir Constituição que defende a dissolução de blocos político-militares. E tentou saltar fora do terreno mais pantanoso para si, apontando antes ao divisivo Donald Trump para tentar fragilizar a ideia de uma NATO todo-poderosa: “Temos um líder que ameaçou dois países da NATO, o Canadá e a Dinamarca, que é Donald Trump. A ameaça veio de dentro da NATO.”

Neste ponto, Cotrim não teve margem para contestar e até acabou por considerar essencial que “o pilar europeu da NATO tenha autonomia” e que “não deve ter um general americano a mandar nele”, até para não se “depender dos humores deste ou daquele”. Aliás, o liberal tinha precisamente defendido isso no debate com Henrique Gouveia e Melo, que era contra essa ideia, alegando que é importante os norte-americanos estarem presentes para não negligenciarem o apoio à aliança.

Mas na ideia global, Cotrim continuava a vincar diferenças. “A NATO é a nossa garantia de defesa única”, contrariava, dando o exemplo da Ucrânia. O mesmo exemplo que a adversária usava para dizer que os países europeus “empurram” o país para pertencer à NATO”. “A NATO não foi uma segurança para a Ucrânia, foi o contrário”, defendeu. Cotrim até acabou a concordar.

E foi com os adversários em trincheiras opostas que o debate seguiu para um campo onde as diferenças ideológicas ainda cavavam mais fundas as mesmas trincheiras: o modelo económico do país. Para Cotrim, o Estado deve estar em “todas as funções que são de soberania e naquelas em que a sua função reguladora é essencial”. Voltou ao exemplo das PPP na saúde, para defender que “fosse dada às entidades públicas e privadas a oportunidade de mostrar quem consegue prestar o serviço em melhores condições, com a satisfação do cidadão”. Até considerou que essas foram “experiências de que o BE não gostava”, sugerindo mesmo que podem ter acabado por culpa do partido.

Mas o que Cotrim vê como uma nódoa, Catarina Martins ostenta como medalha. Pegou mesmo nos privados nesta área para dizer que o projeto de Cotrim é que “o Estado pague a quem quer ter livre iniciativa privada”. “Isso é impagável. Não funciona, é caríssimo e vai deixar as pessoas na mão”, atirou ainda sobre o modelo liberal.

“A Catarina Martins e o Bloco de Esquerda andam há anos a quererem encostar-nos aos que querem favorecer os privados”, queixou-se Cotrim. E explicou que no caso na Lei de Bases da Saúde apresentada pela IL “os principais adversários iam ser os privados porque são os que mais têm beneficiado do descalabro do SNS”. “Imagine que não temos uma ADSE, temos três e cada uma delas recebe a partir do OE e do orçamento da Saúde, baseado no número de aderentes”, explicou mesmo sobre o mesmo assunto. “Vai ficar caríssimo”, atirava Catarina Martins tentando colar o despesismo aos liberais. Entraram em extremos opostos e saíram a uma distância tão grande como a que separa o Parlamento Europeu do Palácio de Belém.

Diálogo revelador

Catarina Martins: Temos um líder que ameaçou dois países da NATO, Canadá e Dinamarca e esse líder foi Donald Trump. Ou seja, a ameaça veio dentro da própria NATO. Se não compreendemos o que mudou do ponto de vista da segurança do nosso mundo não compreendemos nada. E mudou também a natureza da guerra. Aliás, o ataque está a ser feito às democracias europeias através de uma guerra de comunicação que está a fragilizar muitos países da UE. Nessa guerra de comunicação são aliados os tecno oligarcas americanos com os russos. Se não compreendemos que a nossa fragilidade tem a ver precisamente com a nossa capacidade de investimento onde a Europa deixou-se ficar para trás e é a nossa enorme dependência dos EUA e que é um perigo fazermos investimentos completamente dependentes do que decida Donald Trump, então não estamos a perceber o mundo em que estamos a viver hoje.

João Cotrim Figueiredo: Está aí uma tremenda confusão.

Catarina Martins: Não, não está.

João Cotrim Figueiredo: Fica na cabeça das pessoas que o problema da NATO é existir o Trump, quando o problema da NATO é não estar coesa na Europa.

Catarina Martins: Então, vamos à Ucrânia!

João Cotrim Figueiredo: Não, agora deixe-me falar, sff. Exatamente porque a aliança transatlântica já foi mais forte do que é hoje é essencial que o pilar europeu da NATO tenha autonomia.

Catarina Martins: Tem um general norte-americano a mandar nele.

João Cotrim Figueiredo: Posso acabar? Não deve ter um general norte-americano a mandar nele. A altura melhor para fazer essa mudança é quando os países europeus da NATO estão a aumentar o investimento significativamente. E por que é que essa tentativa não foi feita e o Governo português e de outros países não o tentou fazer? Por medo de Donald Trump? Não acredito que seja possível.