Eleitorado meu, eleitorado meu, diz-me quem é mais fora do sistema do que eu. O debate entre Henrique Gouveia e Melo e André Ventura foi feito da disputa dos eleitores inclinados a castigar os partidos tradicionais nestas eleições. De um lado, o almirante a reclamar-se como “o único” candidato sem partido e do outro Ventura a posicionar-se como aquele que vem “para dar um murro na mesa do sistema”.
Já se sabia que este era o confronto entre os dois mais auto-proclamados candidatos anti-sistema e foi precisamente por aí que arrancou, com Ventura — que tem aqui margem mais limitada no comparativo, já que é líder de um partido — a apostar sobretudo na colagem de Gouveia e Melo ao PS.
Fê-lo como pôde: a lembrar que o almirante elegeu Mário Soares como o seu modelo presidencial e também de ter posto o líder do PS a ter de vir dizer que o almirante não era o candidato do partido. Deixou o almirante a ter de dar o dito por não dito e garantir que é tanto Soares como Eanes. E que até crítica “coisas muito más” do fundador do PS, enfiando no debate a deixa dos retornados: “Dr. António [SIC] Ventura fala dos retornados, mas ele não é retornado, eu fui retornado.”
Havia de voltar a chamar António a André, quando tentava desenredar-se do polémico almoço que se soube que teve com Ventura quando este ainda não tinha oficializado a candidatura presidencial. O encontro terá sido promovido pelo empresário Mário Ferreira, que apoia a candidatura do almirante, e os dois candidatos mostraram desconforto por estarem ali, agora em cantos opostos da mesa, a terem de explicar se, em tempos recentes, ponderaram partilhar prato.
Gouveia e Melo garantiu que não, que nunca admitiu o apoio do Chega à sua candidatura. Mas também desvalorizou o almoço, dizendo que foi para conhecer Ventura que também “não é um indivíduo que seja perigoso.” Do lado de lá, o líder do Chega que se candidata a Belém assumiu que chegou a ser “uma possibilidade” apoiar o almirante, mas que desistiu quando viu Gouveia e Melo “a querer ser o candidato do PS”. Disse também que tem falado com todos os candidatos: “Também já me encontrei com outros candidatos à Presidência da República. Já tomei café com Marques Mendes no Conselho de Estado e estou nos antípodas do que defende. Já me cruzei com António José Seguro.”
Mal terminou o debate, a candidatura de António José Seguro fez questão de vir rapidamente desmentir “qualquer encontro com André Ventura”. Seguro “apenas se cruzou com ele no debate na TVI e no Summit da CNN”, referiu a mesma fonte.
Sobre a lei da nacionalidade (proclamada inconstitucional em várias normas), o almirante tentou distanciar-se de uma leitura mais punitiva de Ventura, defendendo que “no momento em que um estrangeiro obtém a nacionalidade portuguesa é português”. O candidato apoiado pelo Chega provocava o adversário por “querer tudo para agradar a toda a gente” e desafiando-o a dizer se “concorda que alguém que obtém a nacionalidade e comete um crime de violação perca a nacionalidade?”. “Não concordo”, respondeu Gouveia e Melo, argumentando que “um português se cometer também não a perde”.
Foi o ponto onde o debate mais aqueceu entre os dois e onde Ventura arrancou a Gouveia e Melo uma frase: “Temos que mudar a Constituição“. O líder do Chega embandeirou imediatamente em arco: “Ah, temos que mudar a Constituição! Então, estamos de acordo com isso!” (ler diálogo em baixo). Mas Gouveia e Melo havia de dizer, logo de seguida, que o que queria dizer era que não seria obstáculo a uma revisão constitucional à direita. Isto mesmo depois de ouvir o adversário cavalgar a ideia da revisão para poder punir pedófilos com a castração química.
José Sócrates, que já disse apoiar o almirante, foi também trazido a debate por Ventura, na diabolização dos socialistas que apoiam Gouveia e Melo. O líder do Chega explicou esse apoio com a suposição de que o “ex-primeiro-ministro sabe que se [Ventura] ganhar [eleições] vai para a prisão”. Só à segunda é que Gouveia e Melo respondeu para sacudir esse peso dos seus ombros: “Se Sócrates acordar um dia e disser que lhe dá apoio o que é que faz? Não faz um harakiri nesse dia”. Quando se esperava que Ventura não largasse esse osso, o líder do Chega ficou, afinal, apenas por aqui.
Diálogo revelador
Henrique Gouveia e Melo – Acho que a lei da nacionalidade tem de existir e de ser clarificada porque criou expectativas negativas ou positivas até para os imigrantes que chegam a Portugal. Lei tem urgência, mas não pode comprometer a legalidade da lei perante a Constituição.
Moderador – É travar a atribuição de nacionalidade a tanta gente?
HGM – Não é isso, é ter uma lei que clarifique o processo para todos os envolvidos. Essa lei foi feita, reprovou uma parte no Tribunal Constitucional e regressará à AR e os partidos que a aprovaram terão a liberdade de a reformular para a passar rapidamente.
André Ventura – Mais uma vez vê-se que o meu adversário quer fazer tudo para agradar a toda a gente. Não disse se estava em acordo ou desacordo com as alterações. Disse que temos de ter uma lei da nacionalidade para garantir a urgência do processo. O que é isso? Temos de ter uma lei da nacionalidade porque a nossa nacionalidade está à venda nos mercados da Índia e do Bangladesh. Estamos a dar a nacionalidade a toda a gente e temos de impedir…
Moderador – Sabe os números e sabe que não são os cidadãos da Índia e do Bangladesh que estão nos primeiros lugares da lista da nacionalidade.
AV – Sejam de onde for. Nós temos neste momento lei da nacionalidade de 2018 do PS, que não sabia que Gouveia e Melo se revia nisso…
HGM – Eu não disse que revia.
AV – Pareceu-me que disse que se revia.
HGM – Mas não disse.
AV – É que não se percebe o que pensa sobre isso.
HGM – O que lhe quero dizer é que quem ganhou mais nacionalidade não foi o Bangladesh.
AV – Foi Israel.
HGM – Ah, pois! Mas é bom que diga. E como é que foi? Comprando muitas vezes a nacionalidade.
AV – Estou contra compra de nacionalidade em todos os casos.
HGM – Ah, então já estamos do mesmo lado!
AV – … do Brasil, do Bangladesh, do Nepal, da Índia, de todo. Essa é a diferença entre nós, eu digo ao que venho. Eu quero impedir que a nossa nacionalidade ande à venda. E não consigo ouvir de Gouveia e Melo uma posição clara sobre isto, dizer assim ‘as alterações que acho que devem ser feitas são estas’. Por exemplo, Gouveia e Melo concorda ou não que alguém que obtém a nacionalidade e comete um crime de violação perde a nacionalidade?
HGM – Não concordo.
AV – Não concorda, pronto. Mas devia dizer isso.
HGM – Vou-lhe explicar porque é que não concordo. Um português se também cometer um crime de violação não perde a nacionalidade.
AV – Não é a mesma coisa.
HGM – Desculpe lá, quando atribuímos a nacionalidade o critério foi nosso, nós é que decidimos os critérios…
AV – Não sabíamos que ia cometer crimes.
HGM – E alguém consegue…? O senhor consegue dizer que nunca vai cometer um crime?
AV – Mas eu sou português. Acha que ser português e do Bangladesh é a mesma coisa?
HGM – Deixe lá o Bangladesh. No momento em que um estrangeiro adquire a nacionalidade portuguesa passa a ser português. Agora, pode fazer e tem poder para isso uma lei em que não há maneira de dar a nacionalidade a ninguém.
AV – Mas não é isso que eu quero. Como é que garante que outro cidadão a quem vai dar a nacionalidade não vai cometer crimes? Dei-lhe três exemplos: o governo sueco tira a nacionalidade a quem lidera gangs, seja de que nacionalidade for, o governo dinamarquês a quem é parte de grupos criminosos, a Alemanha, basta cometer crimes… se estes países podem fazer porque é que não fazemos?
HGM – Temos que mudar a Constituição!
AV – Ah, temos que mudar a Constituição! Então, estamos de acordo com isso!