O Presidente norte-americano afirmou esta segunda-feira que espera que o cessar-fogo na Faixa de Gaza avance para a segunda fase “o mais rápido possível”. Ao receber com elogios o primeiro-ministro israelita na sua residência em Mar-a-Lago, na Florida, Donald Trump sublinhou que para a próxima etapa do plano entrar em vigor é preciso que o Hamas abdique do seu armamento. Já depois do encontro, o chefe de Estado dos EUA voltou a insistir nesta questão e revelou que será concedido ao grupo um “período de tempo muito curto” para o fazer, sem especificar quanto.
“Se não desarmar, como concordou fazer, então vai enfrentar o inferno”, ameaçou Trump. Avisou até que há países — além de Israel — dispostos a intervir para “eliminar” o Hamas caso este não se desarme, sem identificar quais. “Mas nós não queremos isso”, garantiu na conferência de imprensa que se seguiu ao quinto encontro deste ano com Benjamin Netanyahu. “Temos paz no Médio Oriente e vamos tentar mantê-la assim”, acrescentou.
A segunda fase da paz em Gaza ainda não começou devido a divergências substanciais, incluindo o desarmamento do movimento islamita, a retirada das forças israelitas da Faixa de Gaza e a definição de um modelo de governação interina para o enclave palestiniano após o conflito. Horas antes do encontro desta segunda-feira as Brigadas Ezzedine al-Qassam — o braço militar do Hamas — voltou a rejeitar a entrega das armas. “O nosso povo está a defender-se e não entregará as suas armas enquanto a ocupação persistir. Não se renderá, nem mesmo se tiver de lutar com unhas e dentes”, afirmou o novo porta-voz, Abu Obeida.
Trump diz que com outro PM Israel poderia não existir, Netanyahu que Telavive nunca teve amigo como o Presidente
“Alguém reconhece este homem?”. Foi em tom de brincadeira, perante as câmaras, que o Presidente norte-americano recebeu o primeiro-ministro israelita em Mar-a-Lago para a quinta reunião do ano entre os dois. Mas a quantidade não é tudo, diria pouco depois Benjamin Netanyahu: “Podemos medir [a amizade dos EUA] não pela frequência dos nossos encontros, mas pelo conteúdo e pela intensidade”.
Antes de entrarem na residência, os líderes norte-americano e israelita trocaram elogios. “É um primeiro-ministro em tempos de guerra, fez um trabalho fenomenal, conduziu Israel por um período de trauma muito perigoso”, sublinhou Trump, que notou que “com outras pessoas Israel poderia não existir agora. “Se tivessem o primeiro-ministro errado, Israel não existiria hoje, porque depararam-se com uma força que pouquíssimos países seriam capazes de enfrentar”, defendeu. Ainda diria aos jornalistas que “Bibi é um homem muito forte”, apesar de “ser difícil às vezes”. “Mas é preciso um homem forte”.
O Presidente falou também sobre as acusações de corrupção e fraude que recaem sobre Netanyahu sobre o seu primeiro mandato, em 2019. Trump afirmou que o homólogo israelita lhe garantiu que o perdão presidencial “está a caminho” — algo que o gabinete de Isaac Herzog já veio negar. “É um primeiro-ministro em tempos de guerra, um herói. Como não lhe conceder um indulto?”, questionou o chefe de Estado norte-americano.
Por sua vez, já na reta final das declarações antes do encontro formal, Benjamin Netanyahu foi questionado sobre a sua relação com os EUA. “Volto a dizê-lo, outra vez e outra vez. Nunca tivemos um amigo como o Presidente Trump na Casa Branca“, sublinhou. O líder israelita disse que o seu país é “muito abençoado por ter o Presidente Trump a liderar os EUA e o mundo livre”. “Acho que não é apenas uma grande bênção para Israel, acho que é uma grande bênção para o mundo”.
Da reconstrução para “breve” de Gaza à ameaça de um novo ataque contra o Irão
Nos momentos que antecederam a entrada na residência de Mar-a-Lago, o Presidente norte-americano falou não só da importância de desarmar o Hamas, mas também do passo seguinte: a reconstrução. Donald Trump assegurou que essa fase vai começar “muito em breve”. “Que confusão que é [Gaza]. É uma confusão há séculos, há muito tempo. Parece que nasceu para isso, mas vamos endireitá-la. Já estamos a começar certas coisas, estamos a fazer coisas pelas condições sanitárias”, adiantou. O líder norte-americano reforçou que se trata de um “lugar difícil”. “Sabem a expressão: ‘É um bairro difícil’? É realmente um bairro difícil”.
Trump também falou sobre o facto de o corpo do último refém israelita ainda não ter sido entregue pelo Hamas. O chefe de Estado garantiu que estão a fazer os possíveis para o recuperar. “Todos os reféns foram libertados graças a mim, a Steve Witkoff, Jared Kushner, toda a minha equipa, a Marco Rubio, Pete Hegseth”, afirmou. Repetiu a ideia de que nenhum refém foi libertado durante a administração anterior, de Joe Biden, apesar de 105 israelitas em cativeiro terem sido entregues a Israel como parte de um cessar-fogo em novembro de 2023, em parte mediado pela equipa de Biden.
Outro tema que foi abordado, tanto antes como depois do encontro com Netanyahu, foi o Irão, que foi atingido por ataques norte-americanos que visaram o seu programa nuclear. “Ouvi dizer que o Irão está a tentar reconstruir-se. Se estiver mesmo, vamos ter de derrubá-los. Vamos derrubá-los, vamos acabar com eles de vez”, sublinhou à entrada de Mar-a-Lago.
“Mas isso não vai acontecer. Ouvi dizer que o Irão quer fazer um acordo. Se eles querem mesmo fazer um acordo, isso é muito mais inteligente”, acrescentou Donald Trump. “Eles podiam ter feito um acordo da última vez antes de termos avançado com um grande ataque contra eles”, disse aos jornalistas.
Já depois do encontro com Netanhyahu, Trump admitiu que se o Irão estiver a reconstruir as suas capacidades não está a usar as bases atingidas pelos EUA em junho, mas novos locais. “Se estiverem mesmo, não teremos outra escolha a não ser erradicar essa construção muito rapidamente (…) É só o que ouvimos por aí, geralmente, onde há fumo, há fogo”, apontou.
Uma reunião “muito produtiva” e a relação “incomparável” entre Israel e EUA
No final da reunião desta segunda-feira Benjamin Netanyahu anunciou, na conferência de imprensa conjunta, que será concedido ao Presidente o Prémio Israel, pela primeira vez em 80 anos entregue a um cidadão não israelita. “Ele tem sido extraordinário na sua amizade e o seu apoio a Israel, nas suas posições de princípios, na sua capacidade de chegar à essência das coisas. Não o digo como um elogio, é o que penso”, disse Netanyahu.
“Temos uma parceria, se posso citá-lo, incomparável”, descreveu o primeiro-ministro, que descreveu a reunião de hoje como “muito produtiva”. A expressão seria repetida pelo chefe de Estado dos EUA, que reconheceu que concorda com Netanyahu na maior parte dos temas e que não está preocupado com nada que lhes diga respeito, nem mesmo a velocidade a que está a avançar a segunda fase do plano de paz em Gaza.
“Não estou preocupado com nada que Israel esteja a fazer. Estou preocupado com o que outras pessoas estão a fazer ou não estão a fazer e deviam”, afirmou. “Israel cumpriu o plano, 100%”.
A exceção ao acordo foi a Cisjordânia, onde têm sido noticiados dezenas de episódios de violência dos colonos contra palestinianos. Se Trump admitiu que “não concordaram a 100%”, deixou claro que acredita que vão chegar a acordo e que Netanyahu “vai fazer a coisa certa”.