Acompanhe o nosso artigo em direto sobre a captura de Maduro

A mensagem de um porta-voz da Casa Branca ao Washington Post vai ao encontro do que Donald Trump já tinha defendido após a captura de Nicolás Maduro. “Agora [os venezuelanos] podem regressar a um país que amam”. O Presidente dos EUA acredita que face ao afastamento do anterior chefe de Estado, muitos venezuelanos “querem regressar ao seu país”. Mas com um futuro incerto pela frente, o resultado, se chegar, pode tardar, como explicam vários peritos de imigração.

“Isto pode ser apenas o começo de uma ronda de violência e conflito, e uma confusão que pode levar a que as pessoas não queiram regressar — pelo menos de forma voluntária — ou até queiram sair “, disse Bill Frelick, responsável pela divisão de migrantes e refugiados da organização não governamental Human Rights Watch, ouvido pelo Washington Post.

A Venezuela é um dos países com mais emigrantes espalhados por todo o mundo, número que se intensificou durante a liderança de Hugo Chavez e sobretudo de Nicolás Maduro. A Colômbia é o maior destino dos venezuelanos que abandonam o seu país. Quase 3 milhões foram para a Colômbia desde 2018, segundo dados da R4V; Peru recebeu pouco menos de dois milhões e os Estados Unidos da América quase um milhão.

Durante a administração de Joe Biden, os EUA receberam os números mais altos de venezuelanos dos últimos anos. O Washington Post adianta que foram emitidos cerca de 600 mil vistos de trabalho e vistos de permissão temporária de residência na liderança do antigo Presidente democrata. Estas permissões tiveram o consenso de vários políticos, até republicanos, incluindo o agora Secretário de Estado, Marco Rubio, que na altura era Senador na Florida.

Ao contrário do que aconteceu na primeira vez que foi eleito Presidente dos EUA, no segundo mandato Trump sinalizou os venezuelanos como alvos. Chegou a tentar invocar uma lei com centenas de anos para colocar centenas de venezuelanos na prisão em El Salvador. Além disso, retirou os vistos concedidos por Biden a muitos venezuelanos.

Uma lei para um país em guerra e outra que desafia a liberdade de expressão. As leis polémicas que Trump utiliza para as deportações

Segundo dados citados pelo Washington Post, cerca de 500 mil venezuelanos enfrentam, neste momento, processos de deportação. Antes do ataque a Caracas, o Presidente dos EUA chegou a dizer que a Venezuela já tinha condições para receber os milhares de pessoas que tinham abandonado o país. Entre fevereiro e dezembro, terão sido deportados 14 mil venezuelanos (mais 11 mil do que o número de deportações de migrantes da mesma nacionalidade no último ano da administração Biden).

A expectativa de um regresso em massa dos venezuelanos nos EUA à Venezuela não é acompanhada pelos especialistas em imigração ouvidos pelo Washington Post, que vêm como incerto o impacto da captura de Maduro. Num futuro próximo, é improvável que a grande maioria regresse sem ter garantias quanto ao futuro do país sul-americano.z

Estando ainda sob a “gestão” norte-americana, e com ‘descendentes’ políticos de Maduro no poder, os venezuelanos deverão aguardar até tomar uma decisão definitiva. A longo prazo, acrescentam os peritos, alguns podem começar a regressar se virem mudanças genuínas e uma verdadeira transição democrática. Caso contrário, e se o país mergulhar em mais caos e violência, pode ser desencadeado um novo êxodo.

A verdade é que o próprio Trump, por mais do que uma vez, admitiu a possibilidade de realizar novos ataques na Venezuela (para os quais os EUA até estariam preparados), o que aumenta a incerteza na região. A instabilidade política e mais ações militares podem levar a “novas ou diferentes vagas de imigração” — será um teste ao país que terá visto sair quase oito milhões de pessoas desde 2018.

Os especialistas olham para outras crises migratórias para tentar explicar esta. Nos últimos anos, números consideráveis de pessoas fugiram do conflito no Kosovo e da repressão na Síria, mas regressaram quando a situação acalmou (ou mostrou sinais de aparentes melhorias). Em países como a Somália ou o Afeganistão, acrescenta o Washington Post, as mudanças políticas e militares aumentaram os motivos para abandonar o país.

Frelick diz que o paralelo mais óbvio com a Venezuela parece ser o Iraque. O plano de Trump é enviar grandes empresas petrolíferas dos EUA para a Venezuela e usar a riqueza conseguida com essa exploração do petróleo para melhorar a vida dos venezuelanos. A intenção era semelhante no Iraque, mas a invasão e a captura de Saddam Hussein apenas provocaram um êxodo em massa.

Além do regresso voluntário à Venezuela, o fluxo de deportações para o país sul-americano (a partir dos EUA) também deve diminuir face à conjuntura atual. Com a situação instável e atravessando um período de “transição” no poder, é natural que as autoridades norte-americanas travem o número de deportações, uma vez que a Venezuela atravessa uma reorganização.

John Sandweg, diretor interino do ICE durante o governo do Presidente Barack Obama, disse que a captura de Maduro provavelmente levará a uma “pausa temporária” nas deportações para a Venezuela até que fique claro quem está a governar o país. Caso os EUA se mantenham em Caracas, o ICE até poderia aumentar as deportações, mas surgiriam problemas se essa situação se prolongasse por vários meses.

Nesse caso, os EUA podem equacionar manter as deportações de venezuelanos, mas enviá-los para outros países que não a Venezuela. Caso contrário, a alternativa é libertar os venezuelanos com processos pendentes.