Em junho de 2020, há mais de cinco anos, o jornal The Guardian publicou um artigo de opinião com o título “Isto é apenas o início, prometo: uma carta aberta a Donald Trump”. Ao longo de vários parágrafos, com muito sarcasmo à mistura, o autor agradecia ao presidente dos EUA por “espelhar as visões e a ideologia de um grupo de pessoas que tem de ser e será superado”. No fim, a assinatura era de Liam Rosenior, o novo treinador do Chelsea.

Esta terça-feira, o Chelsea confirmou oficialmente que Liam Rosenior será o sucessor de Enzo Maresca, que saiu dos blues no primeiro dia do ano, com o inglês de apenas 41 anos a deixar o Estrasburgo para rumar à Premier League e assinar até 2032. E se Liam Rosenior é um desconhecido para a generalidade do futebol europeu e mundial, está longe de ser um desconhecido para o futebol britânico. Até porque, como já se percebeu, até teve direito a ser colunista do The Guardian.

Mas já lá vamos. Nascido em Wandsworth, no sul de Londres, Liam Rosenior tinha o destino traçado praticamente desde a infância: é filho de Leroy Rosenior, antigo jogador que passou por Fulham, Queens Park Rangers, West Ham e afins e que enquanto treinador ainda orientou o Brentford ou a seleção da Serra Leoa, pela qual tinha sido internacional. Desde pequeno que Liam acompanhou o pai, primeiro ainda para o ver jogar e depois já para o ver treinar, ficando com a vontade de estar dentro dos relvados mas também de decidir o que lá se passava.

De forma natural, depressa deu os primeiros passos na formação do Bristol City, estreando-se na equipa principal em abril de 2002 na então Second Division, o atual Championship. Agarrou um lugar no plantel, tornando-se um elemento importante da temporada 2002/03 que viu o clube ficar no terceiro lugar do Campeonato e ainda sonhar com a subida — primeiro como médio, depois como lateral ou ala, posições que acabaria por desempenhar ao longo de toda a carreira.

A explosão no Bristol City permitiu-lhe subir à Premier League sozinho, saltando para o Fulham — ainda que com passos curtos, já que chegou a estar emprestado ao Torquay United do terceiro escalão que, na altura, era treinado pelo pai. Foi para o Reading em 2007, passou por mais uma cedência ao Ipswich Town antes de assinar pelo Hull City e foi por lá que encontrou estabilidade, com cinco anos em que subiu a capitão, levou o clube à Premier League e ainda chegou à final da Taça de Inglaterra, perdendo com o Arsenal. Por fim, terminou a carreira no Brighton, fazendo parte da histórica equipa que em 2016/17 levou o clube do sul de Inglaterra até ao topo do futebol inglês pela primeira vez.

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O inglês foi adjunto de Wayne Rooney no Derby County

Aos 34 anos e com as chuteiras penduradas, depressa deu os primeiros passos rumo ao novo objetivo de ser treinador. Começou ainda dentro da estrutura do Brighton, como adjunto dos Sub-23, mas a voz que ia conquistando longe dos estádios depressa o levou até à tal coluna de opinião que manteve no The Guardian e a uma posição de comentador na Sky Sports, entre o ativismo relacionado com o combate ao racismo e o apoio às causas LGBTQ+. Integrou a equipa técnica de Phillip Cocu no Derby County em 2019 e subiu a adjunto em janeiro de 2021 com a chegada de Wayne Rooney, com quem mantém uma forte relação de amizade.

“Se o Wayne Rooney te dá uma frase sobre a maneira certa de fazer um passe, tu guardas contigo porque é o Wayne Rooney. Mas era o Liam Rosenior que estava nos bastidores a ser meticuloso com os detalhes. O Wayne podia querer que nós fizéssemos um certo passe de certa maneira, mas os outros 90% de explicação do porquê de fazermos aquele passe para aquele sítios eram todos do Liam. Os detalhes eram com ele. Se calhar as coisas não correram assim tão bem para o Wayne porque ficou mal habituado ao ter o Liam no primeiro desafio”, defendeu Curtis Davies, antigo jogador que fazia parte da equipa, em declarações à Sky Sports.

Certo é que Liam Rosenior ficou ao lado de Wayne Rooney até o antigo internacional inglês ser despedido, em junho de 2022, assumindo depois a posição de interino até Paul Warne ser contratado. Em novembro do mesmo ano, regressou ao Hull City como treinador e na primeira experiência a solo, saindo em maio de 2024 e depois de falhar o acesso aos playoffs que podiam culminar na subida à Premier League. Dois meses depois, fez as malas e mudou de país para orientar o Estrasburgo, entrando no universo da BlueCo que agora lhe permitiu chegar a Stamford Bridge.

Enzo Maresca deixa comando técnico do campeão mundial Chelsea

E esse, na verdade, é o maior desafio do treinador inglês. Depois de apenas época e meia em França, Liam Rosenior terá agora de deixar claro que não foi o escolhido para suceder a Enzo Maresca apenas por fazer parte do mesmo grupo, já que a BlueCo do norte-americano Todd Boehly é dona tanto do Chelsea como do Estrasburgo. Como cartão de visita, ainda assim, o técnico leva ano e meio de quase absoluto sucesso nos franceses.

O Estrasburgo ficou no sétimo lugar da Ligue 1 na temporada passada, qualificando-se para as competições europeias pela primeira vez em 19 anos. Já esta época, ficou no topo da Liga Conferência com cinco vitórias e um empate, incluindo um triunfo contra o Crystal Palace, e está novamente na sétima posição do Campeonato e a lutar pela Europa. Pelo meio, venceu o PSG de Luis Enrique em maio do ano passado e empatou no Parque dos Príncipes em outubro.

Ao longo de todo o percurso, Liam Rosenior foi adquirindo a fama de conseguir potenciar jovens jogadores: trabalhou com Viktor Gyökeres e Robert Sánchez no Brighton, com Fábio Carvalho e Liam Delap no Hull City e com Andrey Santos no Estrasburgo, sendo que no Chelsea vai reencontrar o guarda-redes espanhol, o avançado inglês e o médio brasileiro, que ainda há pouco tempo elogiou o treinador numa entrevista ao jornal L’Équipe.

“É um ótimo treinador, adoro trabalhar com ele. Todos os jogadores ficam entusiasmados com a dedicação que tem, com a visão que tem. E o estilo que ele quer é perfeito para mim. Quer posse, quer muitos passes para incomodar o adversário, e quer ganhar, que é a coisa mais importante. Pede-me que faça tudo: defender, ganhar bolas atrás e passar da forma mais limpa possível. Mas também me dá liberdade para ser eu mesmo, para rematar de longe, para entrar na área. Sinto-me útil”, atirou o jogador formado no Vasco da Gama.

Conhecido por não gostar de implementar um ambiente muito rígido no balneário, evitando multas ou processos disciplinares, tem como única regra a presença obrigatória na reunião diária das 10h30. Defende um futebol de posse, sem passes longos e construído a partir de trás, e tem na preparação das bolas paradas ofensivas e defensivas uma especial preocupação. Pelo meio, ao longo dos anos, foi construindo e completando um PowerPoint de mais de 450 páginas que junta tudo o que aprendeu dentro de campo, no banco de suplentes e em leituras e pesquisas.

Em julho de 2024, acabado de chegar ao Estrasburgo, Liam Rosenior escreveu um texto para o site Coaches’ Voice onde contava uma história de família. “O meu pai tem um desenho que eu fiz quando tinha oito anos. Diz que só vai dar-me o desenho quando se tornar realidade. É um desenho em que eu apareço junto à linha técnica a treinar a seleção de Inglaterra num Campeonato do Mundo”, revelou. Ao chegar ao Chelsea, está um bocadinho mais perto de recuperar o desenho.