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José Luis Rodríguez Zapatero, antigo presidente do Governo espanhol (2004-2011), voltou a estar no centro da política venezuelana, ao ser publicamente elogiado pelo seu papel na libertação de presos, entre os quais cidadãos espanhóis, consolidando o percurso que realiza há cerca de uma década nos bastidores do poder em Caracas. No entanto, há quem critique o antigo líder socialista por ter contribuído para a libertação de um triplo homicida que tinha sido condenado a 30 anos de prisão.
Desde 2015, ano em que foi convidado pela oposição venezuelana para tentar mediar o conflito interno com o chavismo, que Zapatero mantinha um “canal aberto” com Nicolás Maduro e, agora, com os irmãos Delcy e Jorge Rodríguez. O antigo líder socialista espanhol fez da libertação de presos políticos a sua principal batalha, assumindo, segundo fontes familiarizadas com o assunto citadas pelo El País, o desgaste público e político associado a esse papel: passou horas em reuniões no Palácio de Miraflores, em Caracas, falou repetidamente com as famílias dos detidos — incluindo de opositores próximos de María Corina Machado — e defendeu que o isolamento internacional do chavismo poderia empurrar o país para uma guerra civil.
Um dos exemplos mais lembrados desta sua missão é a negociação entre os Estados Unidos e a Venezuela, em julho de 2025, que resultou na libertação de Dahud Hanid Ortiz, ex-fuzileiro norte-americano de origem venezuelana, condenado a 30 anos de prisão pelo triplo homicídio cometido em Madrid, em 2016. O acordo permitiu a libertação de dez cidadãos norte-americanos que estavam detidos pelo regime venezuelano em troca da libertação de 252 venezuelanos que se encontravam presos no Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT) em El Salvador.
Esta quinta-feira, e após a captura de Nicolás Maduro pelas forças norte-americanas, o regime venezuelano voltou a reconhecer a importância do papel de Zapatero. O recém-eleito presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, anunciou a libertação de um “número importante de pessoas venezuelanas e estrangeiras” e agradeceu a Zapatero, ao Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, ao Qatar e às instituições do Estado. “Queremos agradecer ao [ex]Presidente [do governo] José Luis Rodríguez Zapatero, que há dez anos vem somando todas as suas capacidades para trabalhar pela convivência nacional“, afirmou Rodríguez, garantindo que se trata de um “gesto unilateral para consolidar a paz”.
Entre os libertados, sabe-se, por enquanto, que estão cinco cidadãos espanhóis: Andrés Martínez Adasme, José María Basoa Valdovinos, Ernesto Gorbe Cardona, Miguel Moreno Dapena e Rocío San Miguel. Segundo o Governo espanhol, todos foram assistidos pela embaixada em Caracas e preparam-se para regressar ao país.
Jorge Rodríguez rejeitou, ainda assim, a ideia de que a libertação de vários presos resulte de uma imposição externa. “Não se trata de uma exigência de Washington“, garantiu, classificando a medida como “um gesto”. Porém, a influência internacional é evidente: além de Zapatero, Lula da Silva desempenhou um papel relevante, tendo defendido “sistematicamente, em público e em privado”, a libertação de presos políticos desde as eleições presidenciais de 2024. O Brasil chegou mesmo a oferecer acolher os libertados que optassem por não permanecer na Venezuela. O Qatar, por seu turno, tem funcionado como mediador discreto entre o chavismo, a oposição e os Estados Unidos, acolhendo reuniões secretas que lançaram as bases para negociações eleitorais e políticas nos últimos anos.
Para Zapatero, a libertação agora anunciada representa a validação de uma estratégia de longo prazo assente no diálogo contínuo. Para os seus críticos, segundo o El Confidencial, reabre-se o debate sobre os limites desta mediação: enquanto o chavismo aplaude o antigo presidente do Governo espanhol por facilitar a libertação de opositores e estrangeiros, continua na memória a intervenção no caso que libertou um triplo homicida condenado.