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“Só queremos os nossos direitos. A voz que foi silenciada durante quarenta anos tem de ser ouvida alto e bom som.” O atleta iraniano Mehdi Zatparvar, antigo campeão de culturismo que, aos 39 anos, era agora treinador desportivo, deixou esta mensagem recentemente na rede social Instagram. Seria a última. Na sexta-feira, Zatparvar foi morto na cidade de Rasht, no noroeste do Irão, durante um protesto contra o regime iraniano — juntando-se às já cerca de duas mil vítimas mortais das manifestações das últimas duas semanas, fortemente reprimidas pelo regime de Teerão, que tem enfrentado por estes dias uma das maiores ondas de protestos da sua história.

O bloqueio de internet imposto pelo regime dos aiatolás no final da semana passada, juntamente com a impossibilidade de a maioria dos meios de comunicação ocidentais trabalharem a partir do território iraniano, tem dificultado fortemente a recolha de informação fidedigna dentro do país em convulsão. No entanto, com base em informações de ONGs a trabalhar no Irão, a maioria da imprensa internacional tem avançado que já morreram cerca de duas mil pessoas e mais de 10 mil foram detidas ao longo das últimas duas semanas de protestos contra o governo, com os manifestantes a expressarem o desejo do fim do regime dos aiatolás e o regresso do príncipe herdeiro do último xá da Pérsia, exilado nos EUA desde a década de 1970.

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Também a partir de dados das ONG, tem sido possível chegar às identidades e às histórias de alguns dos manifestantes mortos durante os protestos, que têm sido violentamente reprimidos pelas autoridades iranianas. Mehdi Zatparvar, um campeão do culturismo que tinha um mestrado em fisiologia desportiva e era um reputado treinador desportivo na província de Gilan, é um deles, noticia a CNN Internacional citando informações da Hengaw, uma organização de direitos humanos com sede na Noruega.

Outra das vítimas mortais é Robina Aminian, uma jovem de 23 anos que estudava design de moda numa universidade em Teerão e que, de acordo com a mesma estação televisiva, sonhava mudar-se para Milão e ali seguir uma carreira no mundo da moda. Também de acordo com a CNN, na última quinta-feira, Robina Aminian saiu da universidade para se juntar a um protesto anti-regime na capital iraniana. Foi lá que acabou por ser morta a tiro. Segundo a BBC, membros da família da jovem tiveram de viajar desde Kermanshah, na zona ocidental do Irão, até Teerão para identificar o corpo — e tiveram de procurar entre centenas de corpos de jovens mortos naquele protesto, que decorreu perto da universidade.

“Não era apenas a minha filha. Vi centenas de corpos com os meus olhos”, disse a mãe de Robina Aminian, segundo declarações de uma fonte próxima da família à organização norueguesa IHRNGO. “Era uma rapariga forte e corajosa”, descreveu um tio de Robina, lembrando-a como “sedenta de liberdade e de direitos para as mulheres”. De acordo com a mesma fonte, as autoridades iranianas terão inicialmente recusado entregar o corpo à família — e, posteriormente, proibiram a realização de um funeral, o que obrigou os familiares a enterrarem a jovem junto a uma estrada entre Kermanshah e Kamyaran.

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Em Kermanshah, a cidade-natal da família de Aminian, uma das vítimas mortais é Ebrahim Yousifi, um funcionário hospitalar de 42 anos que tinha três filhos. A informação foi transmitida à CNN por um primo de Yousifi, que quis manter-se sob anonimato e que estava ainda a tentar obter informações sobre a devolução do corpo à família pelas autoridades.

Entre as vítimas mortais está também Amir Mohammad Koohkan, de 26 anos, noticia a BBC. O jovem, que era árbitro e treinador de futsal, foi morto a tiro no dia 3 de janeiro durante um protesto na cidade de Neyriz. A informação foi confirmada à BBC por um amigo de Koohkan, que jogava futsal e era treinado por ele. Era, disse o amigo, “alguém que não gostava de ver as pessoas neste estado, nesta miséria”. O treinador foi também descrito como alguém muito apreciado na sua terra natal. “A família está de luto e zangada. De luto porque perdeu o filho, zangada por ele foi morto pelo regime”, acrescentou.

Ao longo das últimas duas semanas, milhares de iranianos saíram às ruas para protestar contra o regime dos aiatolás, numa das maiores e mais intensas ondas de contestação ao regime de Teerão em vários anos. O regime está a reagir violentamente e a bloquear o acesso à internet. A partir de Washington, o Presidente norte-americano, Donald Trump, tem estado a ponderar várias possibilidades de intervenção no Irão. Além de ameaçar com tarifas quaisquer países que façam negócios com Teerão, está em cima da mesa a possibilidade de uma intervenção militar no país.