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Manifestantes da diáspora iraniana em Sydney, Austrália

NurPhoto via Getty Images

Manifestantes da diáspora iraniana em Sydney, Austrália

NurPhoto via Getty Images

Príncipe herdeiro do Xá tornou-se a "voz dos protestos" e sonha suceder a Khamenei

Nos protestos no Irão, ouviram-se gritos a pedir regresso da monarquia liderada pelo filho do último Xá da Pérsia, exilado nos EUA. Com os ataques dos EUA, poderá Pahlavi tentar obter apoio?

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Este artigo foi originalmente publicado a 9 de janeiro de 2026 e atualizado a 28 de fevereiro de 2026 após os ataques militares norte-americanos ao Irão

“Longa vida ao Xá!” Nas ruas de várias cidades do Irão, este é um dos gritos que se ouviam nos protestos contra o regime em janeiro. Agastados por uma profunda crise financeira e pela repressão do Governo, cada vez mais iranianos defendem o regresso ao Irão da família real Pahlavi, exilada nos Estados Unidos da América (EUA) desde a tomada do poder pelos clérigos xiitas. Os herdeiros do último Xá — Mohammad Reza Pahlavi — têm respondido aos apelos, recorrendo às redes sociais e à diáspora para incentivar manifestações e mobilizações dentro e fora do país.

Num teste à sua influência dentro do país, o príncipe herdeiro e filho de Mohammad Reza Pahlavi convocou vários protestos. Desde os Estados Unidos, Reza Pahlavi pediu à “grande nação do Irão” para “tomar as ruas”. Em todo o país, milhares de iranianos responderam a este apelo e manifestaram-se contra o regime liderado pelo ayatollah Ali Khamenei, muitos a exigir a deposição do líder supremo e um novo governo.

A real dimensão dos protestos permanece uma incógnita. Perante os protestos, o regime islâmico cortou o acesso à internet e às linhas telefónicas. Por causa deste apagão informativo, não se sabe se houve vítimas mortais na sequência dos protestos. Mas os vídeos e as imagens que foram publicadas por órgãos independentes e nas redes sociais antes do apagão demonstram uma forte adesão dos iranianos às manifestações. A República Islâmica aparenta também tentar esconder do mundo a revolta da população.

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Foto dos protestos em Kermanshah

Middle East Images/AFP via Getty

Há um forte motivo para esconder os protestos. Em janeiro, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixava vários avisos ao regime iraniano: se matar manifestantes, Washington pode “atingir fortemente” o Irão, à semelhança do que fez na Venezuela. Agora, no final de fevereiro, acabou mesmo por fazê-lo. O apoio dos EUA aos protestos tem dado força a Reza Pahlavi e concede-lhe algum suporte internacional, mesmo que ainda não seja claro se a Casa Branca escolheria a família real iraniana no exílio para governar o Irão se o atual Governo cair.

Depois de quase 50 anos sem pisar o Irão e a ser considerado uma pária para a República Islâmica, a família real tem talvez a maior oportunidade até agora para influenciar o futuro do país. Pela primeira vez em décadas, os herdeiros da monarquia iraniana sentem que os seus apelos ressoam dentro do Irão. Os saudosistas do Xá estão a ganhar tração — e alguns juntam-se a esta nostalgia por ser, até agora, uma das poucas alternativas ao regime dos clérigos islâmicos.

O príncipe herdeiro que nunca desistiu de governar o país

Reza Pahlavi foi criado para ser o herdeiro do último xá. Após o golpe de 1953 apoiado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido que consolidou o poder de Mohammad Reza Pahlavi, o filho mais velho do monarca estava destinado a liderar a Pérsia. Mas isso acabou por nunca acontecer: enquanto estava nos EUA onde recebia treino militar, o Irão entrou em revolução. Em consequência, Reza Pahlavi nunca mais voltou ao país natal e vive no exílio desde o final dos anos 70.

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Mohammad Reza Pahlavi, o último Xá da Pérsia

Getty Images

O pai e último xá do Irão morreu em 1980 e, desde essa altura, Reza Pahlavi mantém‑se como príncipe herdeiro e sucessor natural da Coroa iraniana. Destratados pela República Islâmica, os herdeiros da monarquia tentaram-se reorganizar-se no exílio, mas nunca tiveram grande apoio. O regime de Mohammad Reza Pahlavi era também criticado por muitos iranianos pela ostentação, corrupção e repressão interna, através da polícia secreta SAVAK.

Apesar de terem tentado, os Estados Unidos nunca conseguiram projetar Reza Pahlavi como sucessor do Xá e o peso político permaneceu reduzido. Alguns iranianos tinham saudades da monarquia, mas outros odiavam profundamente o antigo regime. A perceção dominante era que a família real parecia destinada a ficar no exílio — a sua influência política dentro do país era pouca. Mesmo se a república islâmica colapsasse, poucos viam no príncipe herdeiro a capacidade de liderar uma transição de poder.

Da festa mais cara do mundo à vida no exílio. Pahlavi, descendentes do último Xá da Pérsia, podem ainda ser opção no Irão?

O Irão foi palco de vários protestos nas últimas décadas, mas a Família Real nunca conseguiu explorar o descontentamento contra o regime dentro do país para se impor. Nos últimos anos, Reza Pahlavi foi tentando ganhar preponderância e até conseguiu algum tempo de antena durante as manifestações após a morte na prisão de Mahsa Amini, a jovem detida por ter quebrado as regras de utilização do véu islâmico.

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Reza Pahlavi deseja o regresso da monarquia ao Irão

Getty Images

Em 2025, Reza Pahlavi tentou ganhar novamente espaço político com a Guerra dos Doze Dias entre o Irão e Israel, país com o qual mantém boas relações. O príncipe herdeiro culpava o regime iraniano pelo conflito e apresentava a ofensiva israelita como uma oportunidade para acelerar a queda da República Islâmica, apelando aos iranianos para se organizarem contra o governo. O sucesso foi muito limitado — mas o representante da coroa parecia ganhar mediatismo.

A profunda crise financeira que vive o Irão gerou revolta em várias partes do país no final de 2025. No que começou com uma greve no Grande Bazar de Teerão e com protestos meramente por motivos económicos, converteu-se numa vaga de protestos de semanas, que ganharam contornos políticos. Neste contexto, Reza Pahlavi voltou a falar para a população iraniana e parece ter sido, pela primeira vez, verdadeiramente ouvido.

Em apelos nas redes sociais, Reza Pahlavi foi reagindo desde cedo aos protestos que tomavam conta das ruas iranianas. Depois do Grande Bazar na capital, as manifestações espalharam-se às universidades, ao setor privado, aos reformados, assim como a várias partes do Irão. Nativos digitais, os mais jovens — como estudantes do ensino secundário ou superior — são aqueles que protestam mais vigorosamente contra o regime. Como relata a France24, sindicatos de professores relatam que muitos estudantes são detidos e que as suas famílias não sabem do seu paradeiro.

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Os protestos convocados pelo herdeiro do Xá foram uma prova de como Reza Pahlavi é capaz de mobilizar os iranianos. Mesmo que a dimensão das manifestações não seja clara e haja muitos manifestantes que também não gostem da monarquia, as palavras do príncipe herdeiro parecem ter tido impacto, mais que não seja porque levaram o regime a agir e a cortar a internet.

Reza Pahlavi tem prometido que, caso chegue a liderar uma transição, reaproximaria o Irão do Ocidente e transformaria o país numa democracia com um cariz secular, terminando com o atual regime teocrático. Essa mensagem agrada a alguns governos ocidentais, sobretudo os que pretendem diminuir a dependência de Teerão em relação à China e à Rússia, dois países que mantêm parcerias estratégicas e apoio diplomático ao governo iraniano.

Dentro de fronteiras, a figura do príncipe herdeiro é bastante polarizadora: enquanto uns ambicionam ver o regresso da monarquia e sentem saudades de um tempo que percecionam como mais estável e próspero, outros odeiam a Família Real e recordam a ostentação e a repressão do antigo regime. E ainda há aqueles que desconfiam do sucessor de Mohammad Reza Pahlavi, mas que desejam, acima de tudo, uma mudança de regime.

Os apoiantes do príncipe herdeiro acreditam que Reza Pahlavi está bem preparado para o cargo: foi formado desde muito jovem para ocupar funções políticas. Acreditam, da mesma forma, que colocará o Irão num caminho democrático. Ouvida pela Politico, Maryam Aslany, socióloga iraniana que trabalha na universidade de Yale mas cresceu no Irão, defende que o príncipe herdeiro “é um líder forte que é muito confiável, muito popular e que tem princípios que são profundamente respeitados pelo povo iraniano”.

Os críticos, ainda assim, recordam o legado do pai. Como escreve o analista Saman Askari num artigo publicado pelo think tank Atlantic Center, o último Xá da Pérsia era uma “figura controversa”. “Foi aclamado como um patriota que modernizou o país e que foi empreendedor, mas também justamente criticado por ser um ditador imposto pelos Estados Unidos, que promoveu os interesses americanos na região”, continuou, frisando que a Família Real nunca “denunciou inequivocamente os crimes” cometidos por Mohammad Reza Pahlavi.

Há também um grande problema em redor do príncipe herdeiro, como aponta Saman Askari: a falta de transparência. Não é claro quem o financia nem até que ponto conta com o apoio organizado de potências estrangeiras — e isso preocupa muitos iranianos. Em 2023, o príncipe herdeiro visitou Israel e, durante a Guerra dos Doze Dias, elogiou a ação militar do Governo israelita. Esses elogios tiveram um preço: deterioraram a sua imagem junto de uma parte da opinião pública iraniana.

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Primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, a mulher Sarah, a ministra israelita Gila Gamliel e Mohammad Reza Pahlavi em 2023

Anadolu Agency via Getty Images

Em declarações ao The Guardian, um iraniano explicou o motivo pelo qual agora muitos olham para o príncipe herdeiro com alguma esperança: “O slogan monarquista não é uma declaração de amor a Pahlavi — é uma declaração de nojo pela República Islâmica. É um choro de quando não há nenhum sim está no horizonte. Todos estão presos no passado ou em promessas vazias. Quando o horizonte está vazio, a sociedade olha para trás porque não vê nada à sua frente“.

Realisticamente, Luigi Toninelli, especialista em política do Médio Oriente no Italian Institute for International Political Studies, escreveu num artigo que considera que, desde o final de dezembro, o príncipe herdeiro foi “bem sucedido em posicionar-se como a voz que lidera a diáspora política e tem gozado de um crescente apoio dentro do país”. “Os cânticos a seu favor entre os jovens e estudantes universitários, juntamente com o tamanho dos protestos, representa uma fonte importante de legitimidade política.”

Em contrapartida, Luigi Toninelli aponta que o legado do último Xá da Pérsia é efetivamente um ativo tóxico. Para além de ter ter sido “parcialmente responsável” por ter minado uma iniciativa que unia os opositores exilados da República Islâmica, Reza Pahlavi ainda tem de provar as “habilidades políticas e governativas”: “Falta-lhe uma equipa bem preparada que seja capaz de apoiá-lo efetivamente.”

"Os cânticos a seu favor entre os jovens e estudantes universidades, juntamente com o tamanho dos protestos, representa uma fonte importante de legitimidade política."
Luigi Toninelli, especialista em política do Médio Oriente no Italian Institute for International Political Studies

Talvez seja por isso que Donald Trump não pareceu entusiasmado em apoiar Reza Pahlavi num eventual futuro sem o ayatollah. Numa entrevista ao podcast Hugh Hewitt, o Presidente norte-americano assinalou que “tem visto” as intervenções do príncipe herdeiro e sinalizou que parece ser uma “pessoa simpática”. Porém, o chefe de Estado sublinhou que não talvez não seja “apropriado” apoiar ninguém da oposição iraniana — e não concordou em encontrar-se com ele na Casa Branca.

Após uma eventual deposição ou morte do ayatollah, Donald Trump enfatizou que “pensa” que os EUA “devem deixar toda a gente competir e ver quem emerge”. Depois do que aconteceu na Venezuela — em que o líder norte-americano não apoiou a opositora María Corina Machado e preferiu confiar o poder em chavistas —, o apoio da Casa Branca a Reza Pahlavi está muito longe de estar garantido.

De qualquer forma, o príncipe herdeiro tem deixado agradecimentos a Donald Trump, principalmente após o Presidente dos Estados Unidos ter ameaçado atacar o Irão se o regime matar manifestantes. Esta sexta-feira, foi ainda mais longe. Reza Pahlavi pediu mesmo a “ajuda” do líder norte-americano no X: “Provou e eu sei que é um homem da paz e um homem de palavra. Por favor, esteja preparado para intervir e para ajudar a população do Irão“.

Este sábado, na sequência dos ataques norte-americanos ao Irão, Pahlavi reagiu com uma mensagem onde se mostra esperançoso que o ataque possa representar um ponto de viragem. “A assistência que o Presidente dos Estados Unidos tinha prometido ao corajoso povo do Irão chegou”, escreveu no X. “Esta é uma intervenção humanitária e o seu alvo é a República Islâmica, o seu aparelho repressivo e a sua máquina de matar — não o povo e a grande nação do Irão.”

Ayatollah pode fugir no futuro, mas redobra narrativa contra os EUA

Sobre os protestos, o ayatollah fez uma declaração em que garantiu que os manifestantes são “sabotadores” apoiados por potências estrangeiras, nomeadamente os Estados Unidos e Israel. “Destruíram as ruas para agradar ao Presidente de outro país. Eles querem deixá-lo feliz”, atirou o líder supremo iraniano, numa alusão a Donald Trump.

Numa escalada da retórica, típica do regime iraniano, Ali Khamenei previu que o Presidente norte-americano seria “derrubado”. “Trump deveria saber que tiranos mundiais como Faraó, Nimrod, Reza Shah e Mohammad Reza foram derrubados no auge de sua arrogância. Ele também será derrubado”, atirou, numa tentativa de demonstração de força com o objetivo de cerrar fileiras entre os apoiantes do regime.

Apesar destas palavras, o regime iraniano reconheceu a dimensão dos protestos e deu-se conta de que tinha um problema em mãos: as manifestações não cessavam e o país estava sob ameaça direta de Donald Trump. Foi precisamente isso que aconteceu a 28 de fevereiro, com um ataque de larga escala ao país. Nas primeiras horas, o paradeiro de Khamenei era incerto.

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Vladimir Putin e Ali Khamenei

SPUTNIK/AFP via Getty Images

Durante os protestos de janeiro, o ayatollah explorou a possibilidade de uma fuga, que pode agora vir a concretizar-se. Ali Khamenei já terá um destino em mente: Moscovo. Uma eventual ida para a Rússia não é propriamente uma surpresa: o Governo russo sempre foi um dos principais apoiantes do ayatollah. O jornal britânico Times, que citou um relatório de informações confidenciais a que teve acesso, avançou que o líder político e religioso terá planeada a saída do Irão em conjunto com o seu círculo próximo — composto por cerca de 20 assessores e familiares —, na eventualidade de o exército e as forças policiais serem incapazes de conter os protestos ou até de começarem a desertar.

O Presidente norte-americano também confirmou essa alegada intenção de Ali Khamenei. “Ele está à procura de um lugar para onde ir. A situação está a ficar muito má”, realçou Donald Trump. Outros nomes de topo do Governo iraniano também estarão a elaborar um plano B, caso a situação de segurança se deteriore. Rússia e França serão os destinos mais prováveis.

Neste contexto, marginalizado da cena política iraniana durante anos, o príncipe herdeiro ensaia uma aproximação à liderança do país, mas o caminho será difícil: a sua rede de apoio é reduzida, está no exílio e a memória do reinado do pai não abona a seu favor.

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