Sete dos 26 deputados do Partido pela Liberdade (PVV), liderado por Geert Wilders, abandonaram o partido esta terça-feira, naquilo que o atual presidente chamou de “dia negro” para aquele que era, até agora, um dos dois grupos com maior representação na câmara baixa do parlamento neerlandês.
A quebra ocorreu após os sete representantes terem enviado, esta segunda-feira, uma carta aberta a Wilders, que lidera o partido por inerência já que é, legalmente, o único militante do PVV. Era essa questão que os deputados queriam mudar, defendendo a abertura e a democratização do partido.
“O PVV é mais do que um homem com uma conta no Twitter e podemos fazer muito mais do que apenas criticar veementemente o Islão“, criticam os signatários na carta revelada pelo tablóide De Telegraaf.
“A continuidade do grupo parlamentar e as necessidades dos eleitores não podem depender das decisões de um único membro do PVV. O PVV deve continuar a existir, agora, mas também no futuro“, lê-se ainda na missiva, na qual os representantes admitem que não alcançaram “o suficiente” para os eleitores do partido nos últimos anos, lembrando a derrota eleitoral para o partido liberal Democratas 66 (D66) em outubro do ano passado.
“Uma comissão independente deve analisar as eleições, a ascensão e o declínio do PVV e um futuro líder do partido deve trabalhar seriamente com as conclusões dessa comissão”, apelam os signatários, tendo os deputados pedido que o PVV vá além de criticar os outros e trabalhe com outras fações próximas para chegar a soluções.
Segundo o líder da revolta, o deputado Gidi Markuszower, o grupo tentou que a mudança ocorresse internamente. “Tentámos iniciar uma discussão, mas isso não foi possível“, disse, citado pela emissora NOS. Já a deputada Gidde Heutink, que também faz parte do grupo dos sete, afirmou que estão a fazer “isto pelos eleitores de direita” e não por eles próprios.
A saída fez com que o PVV deixasse de igualar os D66 no número de deputados na câmara baixa, deixando os liberais sociais como o partido com maior representação.Na rede social X, Geert Wilders considerou que se estava a viver “um dia negro para o PVV”. “Mas nós continuamos sempre em frente. Pelos Países Baixos. E o sol brilhará novamente“, acrescentou.
Een zwarte dag voor de #PVV
Maar we gaan altijd door.
Voor Nederland
En de zon zal weer gaan schijnen.
— Geert Wilders (@geertwilderspvv) January 20, 2026
E, segundo uma sondagem realizada pela televisão pública AVROTROS a mil votantes do partido da direita radical neerlandesa, 93% dos eleitores demonstraram apoio ao atual líder do partido após a saída dos sete. O próprio Wilders partilhou uma captura de ecrã desta notícia na rede social X, tendo agradecido aos apoiantes e prometido ficar com eles “por pelo menos mais dez anos“.
Heel mooi, bedankt PVV-kiezers en ik beloof jullie nog zeker 10 jaar te blijven. ????
Niets en niemand krijgt mij klein, geen fatwa, geen afsplitsing, geen tegenslag.
Ik ga en vecht altijd door!
Voor jullie + voor Nederland???? pic.twitter.com/d7xQ5bMn74— Geert Wilders (@geertwilderspvv) January 20, 2026
Porém, o que Wilders não mostrou foi que a mesma sondagem indicou que quase metade — 43 por cento — dos inquiridos concordava com a principal crítica dos revoltosos, sublinhando que o PVV se deve tornar num partido com militantes. “Há muito tempo que considero que o PVV deve admitir novos membros. Se Wilders sair, o partido deve poder continuar“, disse um dos votantes com quem a emissora pública falou.
Grupo planeia novo partido que pode negociar
O futuro do conjunto de antigos deputados, por enquanto chamado de “Grupo Markuszower”, poderá mesmo ser a formação de um novo partido na direita neerlandesa, numa altura em que as negociações para um novo governo se prolongam há vários meses.
Atualmente, há três partidos que estão em negociações para formar um governo, que seria minoritário na câmara baixa. Para além dos Democratas 66, os partidos de centro-direita Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD) e o Apelo Democrata Cristão (CDA) são os outros partidos que têm estado a procurar uma solução para o problema que ainda persiste desde as eleições de outubro do ano passado.
O jornalista neerlandês Chris Aalberts, citado pela emissora NOS, revelou que Gidde Heutink tinha registado um endereço de um site que parecia indicar um potencial nome para um partido novo. Entretanto, à rádio BNR, Markuszower confirmou que o nome “Nova Aliança para a Liberdade” estava em cima da mesa para o movimento.
Rob Jetten, líder dos D66 e principal candidato a liderar o futuro governo, abriu a possibilidade dessa nova fação integrar o gabinete ou participar num acordo de governo. “Se surgir um grupo parlamentar que queira colaborar de forma construtiva, isso oferece oportunidades“, afirmou o líder do partido vencedor nas últimas eleições.
Porém, manteve-se cauteloso até se entender no que é que o grupo acredita. “A questão é qual será a orientação política do novo grupo parlamentar. Descobriremos isso nos próximos meses“, acrescentou.