No arranque da segunda volta, ainda fora de período oficial de campanha, André Ventura acusou António José Seguro de querer “fugir” a mais do que um frente a frente, sugerindo que sejam feitos três debates em três semanas. Foi o próprio que, numa ação de campanha em Loures, puxou o assunto, dizendo que ter a “informação” de que Seguro está “a preparar-se para evitar debates nesta segunda volta ou só quer fazer um debate”.
“Se esta informação for verdadeira, lamento muito, mas acho que os portugueses também terão que fazer essa avaliação do porquê que um candidato ter medo de debater comigo e o porquê de preferir não andar a debater”, referiu.
Na leitura de Ventura, “os portugueses não querem conversa fiada, nem querem conversa da treta, os portugueses querem saber o que é que pensam sobre saúde, sobre economia, segurança, sobre imigração”, frisou, sublinhando que o ex-líder do PS “não pode pensar que vai passar três semanas de uma segunda volta inédita a dizer generalidades e baboseiras da luta contra a extrema-direita”.
“Queria lançar este debate aqui hoje a todos, e a todos os canais, a todos os órgãos, estou disponível, acho que o país tem que ser esclarecido, vamos evitar uma campanha de generalidades, de ‘todos os portugueses’, da ‘extrema-direita’, do ‘fantasma do regresso do fascismo’, quer dizer, vamos deixar-nos de baboseira e vamos discutir o país”, pediu o candidato presidencial apoiado pelo Chega, sugerindo que Seguro não quer debater porque tem “medo do confronto” e “não tem muito a dizer ao povo português”.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Líder do Chega apouca “notáveis”
André Ventura criticou e desvalorizou a onda de apoios a favor de António José Seguro e disse estar “estupefacto” com os “notáveis de fato e gravata” que estiveram, nos últimos dias, nas televisões a justificar o voto no socialista. Além de ter dito que se está “nas tintas para os notáveis”, Ventura reiterou que quer “o apoio do povo português” — “A minha comissão de honra é o povo português, o povo que não quer mais PS, que não quer mais socialismo.”
“À medida que estes senhores se enrolam uns atrás dos outros, que se atrapalham uns atrás dos outros, do PSD, da Iniciativa Liberal, para irem atrás do António José Seguro”, atirou, concluindo que “mostra bem como este sistema está tão corrompido há 50 anos, como este sistema está tão fechado há 50 anos, e como é a primeira vez em 50 anos que podemos quebrá-lo.”
Ainda relativamente à postura de Luís Montenegro, que desafiou durante a campanha eleitoral, André Ventura crê que há liberdade para os eleitores da AD: “Eles disseram que não iam ser um obstáculo e deixaram a liberdade de voto aos seus apoiantes”. Mais uma vez, acredita que se trata de uma “questão de consciência do povo português” sobre o que “querem para os próximos cinco anos”.
Em declarações aos jornalistas, Ventura considerou esses apoios “clarificadores” e explicou que está em causa o “povo comum” que “todos os dias tem que lidar com o país em que vivemos, não é aquele que salta pelos estúdios de televisão, é o que tem que lidar todos os dias com a imigração descontrolada, com a corrupção, com a falta de segurança, com a falta de salários, com a falta de pensões”.
Na arruada, André Ventura recebeu das mão de um apoiante o livro “Porque Sou Socialista”, que o candidato apoiado pelo Chega fez questão de abrir e apontar para as câmaras na página onde se lia “não sou porque não funciona”. Naquela que foi a primeira ação de rua após passagem à segunda volta nas presidenciais, Ventura agarra-se ao livro para esclarecer ao que vem: uma luta da direita contra o socialismo.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Ventura critica “casta” e a defende bomba atómica só em “circunstâncias muito graves”
À noite, na primeira entrevista após a passagem à segunda volta, André Ventura criticou a “casta” que está “contra” si e a apoiar Seguro e que o torna um “alvo a abater”. Depois de atacar os “notáveis de fato e gravata”, o líder do partido assumiu que “pode não vencer” dia 8 de fevereiro por considerar que há um “movimento enorme contra” si e defendeu que pode “acontecer [Portugal ter] um Presidente da República não porque gostam dele, mas porque movimentos querem impedir que seja” Ventura em Belém.
Durante a entrevista na CMTV, André Ventura, questionado sobre se pode dizer que vai ser o Presidente de todos os portugueses, fez uma pequena pausa e afirmou: “Não. Não podemos. Sei que se perde votos com isto. Há uma dimensão em que si, na representação externa tenho de representar o país todo. Não quero ser o Presidente da República dos corruptos, dos pedófilos, das minorias que não querem trabalhar.”
André Ventura acredita que os portugueses não gostam de conflitos políticos e assegurou que, se chegasse a Belém, só dissolveria a Assembleia da República em “circunstâncias muito graves e muito incontornáveis”. Deu dois exemplos, “uma impossibilidade total de gestão da governação por bloqueios políticos inultrapassáveis” e “em caso de suspeitas graves de corrupção, de desvio de dinheiro público, sobre a figura do primeiro-ministro ou ministros responsáveis”. A somar a isso, deixou a garantia de que nunca vai usar a bomba atómica “nem por preferências nem para fazer que nenhum partido chegue lá”, nem sequer o seu próprio, segundo disse.
Já sobre um possível choque entre Belém em São Bento, Ventura explicou que a estabilidade não pode ser o único critério, mas esclareceu: “Não acho que se deva dissolver a AR por dá cá esta palha.” “Se a ideia é não fazer nada, mais vale deixarem-se da eleição do Presidente da República, metemos um tipo qualquer a fazer de rei”, disse, garantindo que não quer ser “o Américo Tomás” atual.
Já noutro dos temas que precisaria de se pronunciar vencesse as eleições, a reforma laboral, não deu garantias de promulgação. Acredita que é preciso uma “reforma laboral”, mas considerou que esta não é a “lei no sentido certo”, realçando “tópicos errados” como a amamentação, o trabalho por turnos, as horas extraordinárias e nos despedimentos”. Por isso, explica, procuraria que politicamente não se chegasse a esse ponto. “Se chegasse ao ponto em que visse que a lei é contrária a quem trabalha e valoriza mais quem não trabalha, vetava. Mas procurarei evitar conflitos dessa natureza e acho que os portugueses não gostam disso”, vincou, lembrando que tem uma “influência acrescida” por ser também líder do Chega.
Porém, vê nisso um benefício: “Num contexto destes, só não haverá consensos, com um Governo que é do PSD, com uma maioria da oposição que é do Chega, se não quisermos e estivermos de má vontade.”
No mesmo sentido, Ventura também afirmou que para que haja um Orçamento do Estado “todos têm de fazer a sua parte”, crente de que o Governo perceberá que as pessoas querem “outro tipo de exigência” se chegar ao Palácio de Belém, e garantindo que, “dentro do quadro” parlamentar que existe, deve ser “evitável um país sem Orçamento”.
“Entre mim e António José Seguro o Governo pode encontrar em mim um Presidente mais exigente, confrontacional às vezes, mas encontrará em mim um Presidente leal, transparente e que diz o que tem de ser dito. E acho que isso é melhor para o Governo do que a sonsice e os jogos de bastidores a que António José Seguro está habituado.”
André Ventura acusou ainda António José Seguro de não ter ideias. “Eu não conheço uma ideia concreta de António José Seguro em nada”, atirou, frisando que “as pessoas não estão a escolher o melhor amigo ou o noivo”, estão a “escolher o homem que vai liderar o país”. “Não quero um Presidente jarra de enfeitar“, repetiu, prometendo que manteria a “linguagem” se chegasse a Palácio de Belém: “Lembro-me de um Presidente que disse que Armando Vara tinha de sair de ministro.”
“As pessoas vão estar a escolher o líder de Portugal. António José Seguro tem defendido tudo o que PS defendeu em termos de impostos”, criticou, questionando-se como vê “liberais na televisão” a defender o voto no socialista.
Confrontado com os números do resultado eleitoral e a possibilidade de ter perdido votos para quem o gostaria de ver em São Bento, Ventura reconheceu que há pessoas que lhe dizem que seria melhor primeiro-ministro, mas disse ser “evidente” que quer ganhar estas presidenciais. “As pessoas acreditaram nos motivos da minha candidatura”, concluiu o líder do Chega.
“Não estou em cálculos de como é que o Chega ou o PSD ficarão se eu for eleito. O país é mais importante do que qualquer partido”, sublinhou, assumindo que “pode não vencer” porque há um “movimento enorme contra” si. “Custa-me poder acontecer termos um Presidente da República não porque gostam dele, mas porque movimentos querem impedir que seja eu.” “É uma espécie de eleição pela negativa”, resumiu.