A dez dias de Howard Rubin se sentar em tribunal, chegam a público mais pormenores sórdidos do caso em que esta lenda da alta finança nova-iorquina nos anos 80 é acusada de abuso sexual e tráfico humano, entre outros crimes. O Wall Street Journal revelou neste sábado novos dados sobre a penthouse no topo da Metropolitan Tower, em Manhattan, a que “Howie”, como era conhecido, chamava a sua “masmorra sexual”, bem como mensagens trocadas com os seus alegados cúmplices.
Estrela de Wall Street, casado, pai de três filhos, avô que leva a neta às aulas de dança, vizinho tranquilo e patrono de galas de beneficiência, nada faria supor como Rubin usava o apartamento de luxo arrendado no último andar deste prédio perto do Central Park, em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Até que algumas das alegadas vítimas o processaram, o escândalo rebentou e o trader foi detido em setembro passado.
Desde então, Rubin já viu ser-lhe negada por três vezes uma saída em liberdade sob fiança de 70 milhões de dólares (quase 60 milhões de euros), pelo que permanece numa cela em Brooklyn, na mesma cadeia em que estão Nicolás Maduro, o presidente venezuelano deposto, e Luigi Mangione, acusado de matar Brian Thompson, o diretor-executivo da UnitedHealthcare.
O famoso operador financeiro, que fez carreira em instituições de investimento de renome como a Salomon Brothers, a Merrill Lynch, a Bear Stearns e mais tarde no fundo do milionário George Soros (o seu último emprego antes de se retirar, em 2014), manteve uma vida dupla durante pelo menos dez anos.
Entre 2009 e 2019 montou um sistema em que recrutava mulheres para a “sua masmorra sexual”. O contacto era feito principalmente no Instagram por alguém que o representava. Prometia a algumas modelos freelancer, empregadas de bar ou antigas playmates da Playboy, muitas em situações difíceis, uma noite com o “lobo” de Wall Street a troco de 2.000 a 5.000 dólares. Ou seja, sexo pago e práticas fetichistas ligeiras. Mas não era isso que acontecia, conta o Wall Street Journal, com base no testemunho de várias das alegadas vítimas.
O cofre com acordos de confidencialidade
As mulheres eram levadas para Nova Iorque, jantavam com Rubin e acabavam na penthouse. Neste apartamento no topo da Metropolitan Tower havia dois quartos. Um deles, pintado de vermelho, era à prova de som e estava equipado com cordas, chicotes, brinquedos sexuais e equipamento de eletrocussão. Ao centro, destacava-se o que ele chamava de “cruz de Santo André”, em forma de X, com quatro algemas presas.
Havia também um cofre com acordos de confidencialidade em branco. Os contratos referiam atos sexuais, “incluindo atividades sadomasoquistas, que podem ser perigosas e, por vezes, causar lesões” e previam multas de 500 mil dólares se fossem violados. Apesar de algumas das mulheres terem garantido que assinaram os documentos embriagadas, estes documentos são um trunfo na defesa de Rubin, toda alicerçada em que eram atos consentidos entre adultos.
Aliás, os advogados lançaram mão de mensagens trocadas com as mulheres para assegurar que elas sabiam de que tipo de encontros se tratava. Há um caso mencionado pelo Wall Street Journal em que Rubin enviou uma mensagem a duas mulheres que, no mesmo dia, estariam com ele na “masmorra”: “É BDSM total [sigla que significa bondage, domínio/submissão, sadismo e masoquismo]. A maior parte das raparigas adora e volta para mais, mas eu gosto apenas de ser transparente em relação a tudo”. No dia seguinte escreveu ainda: “Mal posso esperar para vos conhecer/cumprimentar/bater amanhã”. Uma delas respondeu: “Por mim parece-me bem”.
“Ananases”, a palavra que não funcionava e os implantes de silicone
Jennifer Powers, antiga modelo e professora, tornou-se peça central neste esquema, a que os procuradores chamam de “empresa”. Reservava voos, coordenava entradas no edifício, pagava às mulheres em pequenas parcelas (para evitar dar nas vistas junto de instituições bancárias) e ajudava a gerir nódoas negras e outras consequências físicas dos encontros.
A partir de 2014 (quando o operador financeiro licenciado em Química e com um MBA em gestão financeira de Harvard se reformou), a violência intensificou-se, refere o WSJ com base em depoimentos. As mulheres dizem que Rubin ignorava a palavra de segurança — uma espécie de botão de pânico, assim que elas a dissessem ele pararia o que estava a fazer — usava choques elétricos e infligia espancamentos severos. Acusam-no ainda de continuar após perda de consciência e de causar lesões que exigiram tratamento médico ou cirurgia.
Uma das alegadas vítimas relatou que “Howie” lhe deu a palavra “ananases” para ela dizer quando quisesse interromper a sessão, enquanto lhe atava os pulsos e lhe batia ligeiramente no rosto. Quando ele apertou mais as cordas e a esbofeteou com força ela gritou “ananases”. Mas Rubin tornou-se ainda mais agressivo, espancou-a e acabou por a violar enquanto ela estava suspensa por cordas do tecto.
Noutras ocasiões, denunciaram, Rubin amordaçava-as de forma a impedir qualquer pedido de ajuda (ou de gritar a palavra de segurança). Numa mensagem, citada no processo pelo mesmo jornal, Rubin escreveu sobre uma mulher que se iria encontrar com ele: “Quero magoá-la. Não me importo que ela grite.” E a seguir, relata o WSJ, colocou um emoji sorridente.
Esta foi, segundo o jornal, uma das mulheres que lhe colocou uma ação cível. Acusou-o de a ter agredido com tanta violência que deslocou um dos seus implantes mamários depois de ela ter gritado a palavra de segurança. Mas ele só parou quando a mulher conseguiu arrancar um pouco da mordaça e lhe mordeu o dedo. No processo, ela conta que Rubin a aconselhou a trocar os implantes salinos (preenchidos por soro fisiológico) por implantes de silicone, por serem mais resistentes.
As mulheres que se deslocavam à “masmorra” estavam, muitas vezes, com problemas financeiros. Os procuradores acusam Howard Rubin de explorar essa vulnerabilidade em muitos casos em que elas estavam a cuidar de filhos e/ou irmãos mais novos, aceitando assim um encontro de sexo pago.
O clique que abriu a investigação
No final de 2016, começaram a espalhar-se pormenores do que se passava na “masmorra sexual” depois de uma zanga entre duas mulheres sobre as agressões na penthouse, na ausência de Rubin. A polícia foi chamada mas Jennifer Powers disse-lhes para não revelarem quem era o inquilino do andar. Pouco depois, uma das mulheres relatou os abusos a advogados. Esse foi o “clique” para a investigação e outras alegadas vítimas seguiram-lhe o exemplo. De acordo com documentos judiciais citados pelo Wall Street Journal, Jennifer Powers alertou Rubin para a eventualidade de as investigações poderem revelar o uso indevido de drogas.
Em 2017 e 2018, foram interpostas ações cíveis contra Rubin, coincidindo com o início do movimento #MeToo. As mulheres descreviam um padrão: aliciamento económico, contratos de silêncio, violência e humilhação. O que resultou, em 2022, na condenação de Rubin ao pagamento de 3,8 milhões de dólares (3,5 milhões de euros) a seis mulheres. Um outro caso terminou em acordo.
A investigação criminal avançou nos anos seguintes. E em setembro de 2025 Rubin foi finalmente detido e acusado de tráfico sexual e outros crimes. Declarou-se sempre inocente nas audiências em que o tribunal analisou o seu pedido de saída da prisão sob fiança. O juiz recusou-o sempre, considerando existir perigo de fuga e de interferência no processo.
Howard Rubin fez a sua carreira brilhante de gestor financeiro a saber onde e quando apostar. Começou nos casinos de Las Vegas, em que “contava cartas”, técnica nem sempre considerada lícita (memorizava as mais altas no blackjack, em que se joga contra a banca, o croupier, e não contra outros jogadores).
Chegado a Nova Iorque em 1982, ascendeu rapidamente no meio da alta finança — “o capital detido pelas sociedades de valores mobiliários de Wall Street mais do que triplicou nos primeiros cinco anos de trabalho de Rubin”, recorda o WSJ. Um estatuto que o trader de obrigações não perdeu mesmo depois de ter sido despedido da Merrill Lynch (onde entrara em 1985 com um salário anual de um milhão de dólares) após uma operação desastrosa não autorizada com títulos hipotecários que levou a instituição a perder 250 milhões de dólares. Howie é mesmo uma personagem do best-seller Liar’s Poker, de Michael Lewis, que trabalhou com ele em Wall Street e lhe enaltece o talento nesse livro de 1989. Os colegas reconheciam-lhe uma inteligência excepcional, uma memória enciclopédica e uma elevada tolerância ao risco.
Mas o antigo gestor financeiro calculou mal o risco da sua “masmorra sexual”. Agora, se for condenado pelos crimes que lhe são imputados, Rubin enfrenta uma pena mínima de 15 anos de cadeia até prisão perpétua.
Antes de ser detido, “Howie” vivia numa casa arrendada em Connecticut, Massachusets, com 20 janelas. A senhoria, citada pelo WSJ, descreveu-o ao tribunal como alguém tranquilo, dedicado aos netos e à leitura do jornal. A imagem não pode destoar mais da traçada pelos procuradores que a partir do dia 27 deste mês vão tentar que o homem de 70 anos seja considerado culpado de 10 crimes principais como o tráfico e abuso sexual de dezenas de mulheres.