Uma intervenção do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, em inglês) no Minnesota resultou na detenção de um cidadão norte-americano em circunstâncias extremas. Depois de arrombarem a porta da casa sem mandado judicial, agentes armados conduziram ChongLy Thao para o exterior apenas em roupa interior e Crocs, apesar de os termómetros rondarem os 10 graus negativos. “Eu esperava que Deus me salvasse”, contou Thao. “Eles não disseram nada. Nenhum pedido de desculpas, nada.”
Os vizinhos e familiares do detido de 56 anos registaram o momento em que foi escoltado por agentes de ambos os lado — imagens que foram posteriormente verificadas pela Associated Press (AP).
“Eu rezava. Eu dizia: ‘Deus, ajude-me, por favor, eu não fiz nada de mal. Por que fazem isto comigo? Sem as minhas roupas’”, afirmou Thao à Reuters enquanto os vizinhos arranjavam a porta arrombada durante a operação.
ChongLy cantava karaoke quando ouviu um estrondo na porta. Segundo relata, ele e a família esconderam-se num quarto, onde acabaram por ser encontrados por agentes federais. Thao alegou que tentava localizar o seu documento de identificação quando foi escoltado para fora de casa, acrescentando ainda ter pedido autorização para vestir mais roupa — pedido que lhe foi recusado.
O homem foi depois levado para um local isolado, “no meio do nada”. Após terem verificado a sua identidade, as autoridades deixaram-no em casa.
“Eles apontaram a arma contra mim e contra a minha nora”, disse Thao. “O meu neto viu tudo. Depois de me terem levado, ele ficou a chorar, à minha procura.”
Chongly pertence à etnia Hmong, originária do Leste e Sudeste Asiático. Nasceu no Laos e imigrou para os Estados Unidos em 1974, quando tinha quatro anos, tornando-se cidadão norte-americano em 1991.
“Viemos para cá com um objetivo, certo? … Para ter um futuro brilhante. Para ter um lugar seguro para viver”, explicou. “Se isto é o que nos espera nos Estados Unidos, o que estamos a fazer aqui? Por que estamos aqui?”
A família classificou a situação como “desnecessária, degradante e profundamente traumatizante”, num comunicado citado pela AP.
Mark Goldberg, um dos vizinhos que registou a detenção em vídeo, classificou o episódio como “revoltante”. “É de partir o coração ver cidadãos americanos — e este senhor era um cidadão americano — a serem arrancados das suas casas sem camisa, sem casaco, sem calças, apenas em roupa interior e Crocs. Não consigo perceber como é que alguém pode assistir a isto e não reagir”, referiu ainda.
Em resposta, o ICE fala num caso de identidade trocada. Em comunicado, a secretária assistente do Departamento de Segurança Interna, Tricia McLaughlin, avançou que a operação visava dois criminosos sexuais condenados, associados àquele endereço e que um cidadão norte-americano que residia na casa se recusou a fornecer as impressões digitais e a ser identificado por reconhecimento facial, sido, por isso, detido.
“Ele correspondia à descrição dos alvos. Tal como acontece com qualquer agência policial, é protocolo padrão deter todas as pessoas que se encontram numa casa durante uma operação, para garantir a segurança dos cidadãos e das autoridades”, adiantou ainda a porta-voz do departamento.
Kaohly Her, a presidente da câmara de Saint Paul e amiga da família de Thao, está indignada. “Estou furiosa com o que aconteceu, mas furiosa por descobrir a justificação deles para o que fizeram”, afirmou Her, a primeira pessoa de ascendência Hmong a assumir a presidência da câmara de St. Paul, ao Minnesota Star Tribune.
Em cartazes divulgados pelo Departamento de Segurança Interna, dois homens continuam a ser procurados no âmbito da investigação, ambos descritos como “estrangeiros ilegais criminosos” de Laos e sujeitos a ordens de deportação. De acordo com familiares, um deles chegou a viver na casa de Thao, mas mudou-se entretanto, sendo o ex-marido de um elemento da família.