O Presidente dos EUA protagonizou mais uma polémica junto dos seus aliados ocidentais ao minimizar o papel dos outros Estados-membros da NATO durante a guerra do Afeganistão. Donald Trump entretanto emendou parcialmente as suas declarações, valorizando os “soldados muito corajosos do Reino Unido” após pressões do Palácio de Buckingham e de uma conversa telefónica com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer.
O líder norte-americano tem vindo a testar os limites da aliança com os seus parceiros da NATO ao longo deste segundo mandato, em particular devido à questão dos interesses de Washington quanto à Gronelândia. Neste contexto, Trump inflamou ainda mais os ânimos ao colocar em causa o valor militar dos soldados dos outros membros da aliança atlântica.
A controvérsia remete a uma entrevista concedida esta quinta-feira ao canal norte-americano Fox News, onde Trump criticou o papel de outros Estados-membros da NATO durante os 20 anos de conflito no Afeganistão. “Eles dirão que enviaram algumas tropas para o Afeganistão… e enviaram, mas ficaram um pouco afastadas da linha da frente”, afirmou, alegando ainda que os Estados Unidos “nunca precisaram deles” e que “não tinha a certeza” se receberiam o seu apoio “se alguma vez precisássemos deles”.
457 British troops lost their lives in Afghanistan.
Trump avoided military service 5 times.
How dare he question their sacrifice. Farage and all the others still fawning over Trump should be ashamed. pic.twitter.com/4xmsAYnt76
— Ed Davey (@EdwardJDavey) January 22, 2026
As declarações foram recebidas com repúdio por parte de vários quadrantes políticos, da esquerda à direita, e principalmente de associações de veteranos, dado que mais de 50 países (tanto membros da NATO como não-membros) auxiliaram os EUA após este acionar pela primeira vez (e única, até agora) o artigo 5.º do tratado da aliança. Todos estes parceiros ajudaram a constituir a Força Internacional de Apoio à Segurança que chegou a contar com mais de 130 mil efetivos em solo afegão.
Destes, morreram 3486, sendo que se a maioria foram soldados norte-americanos (2461), o Reino Unido e o Canadá — os dois aliados que mais tropas enviaram — sofreram também baixas significativas, com 457 e 165 mortes, respetivamente. Portugal, que também integrou as operações, enviou 4620 efetivos, dos quais morreram dois.
“É insuportável que o Presidente americano esteja a questionar o compromisso dos soldados aliados no Afeganistão”, escreveu a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, no Facebook — a Dinamarca registou 44 baixas, um dos valores mais altos per capita de todos os parceiros envolvidos no conflito. Já o presidente francês, Emmanuel Macron, também reagiu por intermédio de uma nota enviada à Agência France-Presse. “Estas declarações inaceitáveis não exigem comentários. É às famílias dos soldados caídos em combate que o Chefe de Estado deseja oferecer conforto e reiterar a gratidão e a respeitosa recordação da nação”, afirmou. França contabilizou 90 perdas.
As declarações de Trump provocaram irritação mesmo junto de governos ideologicamente mais próximos do seu, como o ultraconservador da Itália, liderado por Giorgia Meloni. “O Governo italiano tomou conhecimento com espanto das declarações do presidente Trump de que os aliados da NATO ‘ficaram para trás’ durante as operações no Afeganistão”, escreveu a governante, que sempre se manifestou próxima do líder norte-americano e afirmou recentemente que este merecia um Nobel da Paz.
Il Governo italiano ha appreso con stupore le dichiarazioni del Presidente Trump secondo cui gli alleati della NATO sarebbero “rimasti indietro” durante le operazioni in Afghanistan.
Dopo gli attacchi terroristici dell’11 settembre 2001, la NATO ha attivato l’Articolo 5 per la…
— Giorgia Meloni (@GiorgiaMeloni) January 24, 2026
“A Itália e os Estados Unidos estão unidos por uma forte amizade […] que se torna ainda mais necessária face aos muitos desafios que hoje enfrentamos. Mas, a amizade exige respeito, condição fundamental para continuarmos a garantir a solidariedade que é a base da Aliança Atlântica”, acrescentou. A primeira-ministra italiana recordou ainda “o preço pago” pelo país: “53 soldados italianos foram mortos em combate e mais de 700 ficaram feridos enquanto participavam em operações de combate, missões de segurança e programas de treino para as forças afegãs”.
Não houve, à data, uma reação oficial por parte do governo português nem do Presidente da República, sendo esta apenas protagonizada por Augusto Santos Silva, ex-ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, num texto publicado no Facebook, considerando que as declarações de Donald Trump “insultam também Portugal”.
“Todos os nossos militares se destacaram pelo seu profissionalismo e competência. (…) Todos correram riscos enormes. Dois morreram”, salientou o ex-ministro, para quem Trump ““não passa de um aldrabeco que descobriu um defeito ósseo nos pés para escapar ao serviço militar”.
Uma polémica que chegou até Buckingham
O pico da tensão gerada por estas declarações de Trump, todavia, foi sentido no Reino Unido, o aliado que mais perdas sofreu no Afeganistão depois dos EUA. Logo na sexta-feira, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, indignou-se com o que classificou serem afirmações “insultuosas” e “francamente chocantes”. “Se eu me tivesse expressado mal dessa forma, ou dito essas palavras, certamente pediria desculpas”, vincou.
Primeiro-ministro britânico sugere que Trump peça desculpa por declarações “insultuosas”
Starmer foi respaldado por toda a classe política do Reino Unido, inclusive por Nigel Farage, líder do Reform, de extrema-direita, com a líder do Partido Conservador, Kemi Badenoch, e os familiares das vítimas a apelar ao primeiro-ministro britânico que exigisse um pedido de desculpas a Trump.
Não se sabe se esse pedido foi feito, sendo que, segundo um porta-voz de Downing Street, o chefe do Governo britânico falou este sábado ao telefone com Trump. Na curta conversa, lembrou-o da coragem e da heroicidade dos militares do Reino Unido e dos Estados Unidos, que “combateram lado a lado no Afeganistão”, sendo que “muitos nunca mais regressaram a casa” e que “nunca devemos esquecer o seu sacrifício”.
Num primeiro momento, a Casa Branca defendeu as declarações de Trump. Em comunicado emitido na sexta-feira, Washington afirmou que “o Presidente Trump tem toda a razão: os Estados Unidos fizeram mais pela NATO do que todos os outros países da aliança juntos”.
No entanto, foi o próprio presidente dos EUA a ensaiar uma espécie de recuo. Não pedindo desculpa nem dirigindo-se aos outros estados que participaram nas operações militares no Afeganistão, Trump recorreu este sábado à sua rede social Truth Social para saudar os soldados britânicos.
“Os grandes e muito corajosos soldados do Reino Unido estarão sempre com os Estados Unidos da América! No Afeganistão, 457 morreram, muitos ficaram gravemente feridos, e eles estavam entre os maiores guerreiros de todos os tempos. É um laço demasiado forte para ser quebrado. As Forças Armadas do Reino Unido, com enorme coração e alma, são inigualáveis (exceto pelas dos EUA!). Amamo-vos todos, agora e sempre!”, escreveu.
De acordo com The Telegraph, esta tentativa de apaziguamento por parte de Trump junto do Reino Unido deveu-se em parte à ação diplomática do rei Carlos III, que “transmitiu as suas preocupações ao presidente através dos canais apropriados, antes de uma visita planeada aos EUA em abril para marcar o 250.º aniversário da independência do país”, apesar do Palácio de Buckingham não ter reagido oficialmente.
Houve, no entanto, outro membro da família real britânica a insurgir-se contra as declarações de Trump, apesar de já não agir formalmente em nome da Coroa. Harry, duque de Sussex, pediu na sexta-feira que se reconheça “com respeito” o sacrifício dos soldados da NATO na guerra no Afeganistão, onde esteve destacado por duas ocasiões diferentes. “Servi lá. Fiz amigos para a vida. E também perdi amigos”, acrescentou.