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Donald Trump, sentado atrás da resolute desk, fala a uma plateia de oito líderes europeus, que parecem ouvi-lo atentamente. No fundo, vê-se um mapa do continente americano. A bandeira dos Estados Unidos cobre o país, a Venezuela, a Gronelândia, mas também o Canadá. A imagem foi publicada pelo Presidente norte-americano nas redes sociais na passada terça-feira e foi gerada por Inteligência Artificial. O foco no Canadá não é novo e reacende tensões do ano passado, quando Trump insistiu que faria do vizinho a norte o 51.º estado. Mas a reação de “raiva” que há um ano tomou conta de Otava anda agora a par de uma resposta mais organizada às pressões norte-americanas.
“Regatear já não funciona. Deixem-me ser direto. Estamos a meio de uma rutura, não de uma transição (…) Grandes potências começaram a utilizar a integração económica como armas, tarifas como alavancagem, infraestruturas financeiras como coerção, cadeias de abastecimento como vulnerabilidades”. Na sua intervenção no Fórum Económico Mundial em Davos, o primeiro-ministro canadiano não precisou de nomear diretamente o Presidente dos Estados Unidos para o atacar e a postura firme e crítica da política externa agressiva e expansionista de Trump valeu-lhe um aplauso em pé dos presentes.
Porém, Mark Carney não se ficou apenas pelas palavras firmes. Em menos de um ano de governação, o líder do Executivo de Otava procurou autonomizar o Canadá do seu principal parceiro económico e militar. Diversificou parcerias, olhando por exemplo para a China, aproximou-se da Europa nas duas dimensões — integra, por exemplo, a Coligação das Vontades, os países disponíveis para ajudar militarmente a Ucrânia, entre os quais não se conta os Estados Unidos — e, acima de tudo, fortaleceu a soberania militar canadiana, com grandes investimentos nas Forças Armadas e na Defesa.
▲ Na imagem gerada com IA, o Canadá aparece com a bandeira dos EUA
Truth Social/@realDonaldTrump
As mudanças na política canadiana tornaram-se mais evidentes nas últimas semanas, face à ameaça dos Estados Unidos em anexar a Gronelândia, se necessário pela força — entretanto deixada cair por Trump. Como o segundo maior Estado ártico, suplantado apenas pela Rússia, o Canadá virou os olhos para norte e declarou o seu apoio à soberania gronelandesa, rejeitando a pressão norte-americana. Porém, a localização geográfica do país coloca-o inevitavelmente na linha de visão de Washington e nos planos de Trump para o Ártico.
Sentindo ainda que de forma mais indireta a pressão, Otava também se preparou. Exemplo disso é o facto de, pela primeira vez na História da NATO, as Forças Armadas Canadiana terem desenvolvido um modelo para uma hipotética invasão dos Estados Unidos. Ainda que o plano seja hipotético é revelador do estado atual das relações entre o Canadá e os Estados Unidos.
Um exercício hipotético, mas inédito, e ameaça na Gronelândia que faria do Canadá uma “quase colónia”
Ao longo da última semana, têm-se concentrado na Gronelândia algumas dezenas de militares europeus. Fazem parte da Operação “Arctic Endurance” (“resistência no Ártico”, em tradução livre), coordenada pela Dinamarca e iniciada depois das ameaças de Donald Trump para tomar a ilha. Na sequência destas movimentações, as Forças Armadas do Canadá também apresentaram um plano para enviar um “pequeno contingente de soldados” para o Ártico, avançaram dois responsáveis do Governo ao Globe and Mail. Os planos foram apresentados ao Executivo há mais de uma semana, mas Otava não avançou com qualquer destacamento.
Um contingente da Força Aérea já se encontrava no Ártico, a realizar um exercício conjunto com os Estados Unidos, no âmbito do NORAD, o comando de defesa aeroespacial da América do Norte que funciona como uma organização bilateral, mas os planos passavam por enviar mais forças para se juntarem aos exercícios dos parceiros europeus da NATO na ilha.
Este não foi o único plano de contingência que o Exército canadiano traçou, em resposta às ameaças de Donald Trump no Ártico. Dois responsáveis sénior, citados pelo mesmo jornal, revelaram no dia seguinte que as Forças Armadas tinham traçado um modelo para uma invasão militar dos Estados Unidos contra o Canadá. Os oficiais destacaram que se trata de um exercício teórico e puramente hipotético, e não de um plano com diretivas concretas, que uma invasão é um cenário “improvável” e ainda que o exercício também foi feito a pensar em possíveis ataques da Rússia ou da China. Ainda assim, é uma realidade inédita: nunca o Canadá tinha feito este exercício com um aliado.
“Não é um exercício padrão“, declarou David Fraser, um major-general na reforma à CTV News. O especialista militar notou que, ao longo da carreira, desenvolveu várias missões de cooperação com os Estados Unidos, num sentimento oposto ao que domina agora as Forças Armadas. “Eles estarem sequer a pensar nisto é completamente anormal e, infelizmente, é um resultado do que Donald Trump está a fazer com as suas aspirações de tomar a Gronelândia”, considerou.
O modelo apontava que uma invasão dos Estados Unidos deveria acontecer pelo sul e, sem números para enfrentar diretamente as tropas norte-americanas, o Canadá deveria recorrer a táticas de guerra não convencionais, com recurso a “civis armados, emboscadas, sabotagem, drones e táticas de ataca-e-foge”. São táticas semelhantes às utilizadas pelos Talibã durante os 20 anos de conflito no Afeganistão, no qual o Canadá participou. O primeiro sinal de uma invasão norte-americana seria o anúncio do fim da política de partilha de céus, detalharam as fontes ouvidas.
O facto de o modelo desenhar um ataque hipotético ataque norte-americano a partir do sul ajuda a explicar o interesse do Canadá em defender a soberania da Gronelândia. “Se os EUA controlarem a Gronelândia, isso significa que ganham mais controlo do Ártico o que quer dizer que controlam todos os acessos ao Canadá”, destacou Christian Leuprecht, cientista político no Royal Military College do Canadá. Ou seja, o Canadá ficaria “entalado” entre territórios norte-americanos. “Isso reduzir-nos-ia a uma quase colónia dos EUA“, argumentou à Global News. E, para o especialista, qualquer gasto em Defesa é melhor que esse cenário.
▲ Se Washington controlasse a Gronelândia, o Canadá ficaria "entalado" entre territórios dos EUA
AFP via Getty Images
Investir no recrutamento e na presença constante no Ártico: as prioridades bem traçadas de Carney
Jennie Carignan tornou-se chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Canadá há cerca de um ano e meio. A general, e primeira mulher a ocupar o cargo, é descrita pela The Economist como “Tia Jennie“, uma figura paralela ao “Tio Sam” norte-americano, pelo ênfase que tem colocado no recrutamento e investimento na parte humana das Forças Armadas. À revista, Carignan relata que é frequentemente abordada por canadianos que se querem juntar às Forças Armadas e recorda um idoso que lhe disse: “Eu não posso pegar numa espingarda e ir para a guerra, mas estou aí a vigiar a internet. Eu posso ajudar!”
Os relatos de Carignan são confirmados pelos números de candidaturas que, no ano fiscal de 2025/2026, subiram cerca de 13%, segundo números enviados pelas Forças Armadas à CTV News. Ao mesmo canal, David Fraser atribui o crescimento do interesse a dois fatores. Por um lado à diversificação de carreiras nas Forças Armadas, mais estimulantes para os jovens. “Vamos precisar de operadores de equipamento pesado. Vamos precisar de operadores de drones. Potencialmente também vamos precisar de operadores cibernéticos”, detalhou Jennie Carignan à Economist.
Por outro lado, as carreiras tornaram-se mais atrativas devido ao aumentos salariais implementados nos vários cargos da hierarquia militar. A aposta iniciada por Carignan em 2024 foi abraçada por Mark Carney quando chegou ao poder no ano seguinte. Acompanhando os investimentos propostos por Donald Trump para a NATO, Otava tenciona cumprir as metas de investimento de 5% do PIB em Defesa até 2035. Para além de reforçar o valor humano de um força que se deixou “atrofiar (…) durante os últimos 25 anos”, como define o professor Christian Leuprecht, o aumento dos gastos faz-se sentir principalmente na defesa do Ártico.
Um dos exemplos mais evidentes deste investimento a norte, destaca a CNN, foi a alocação de 4 mil milhões de dólares no sistema de radares “Over-the-Horizon”, que vigiam a presença de navios no Ártico, com foco para navios chineses e canadianos. Esta semana, em Davos, a ministra dos Negócios Estrangeiros Anita Anand adiantou à Bloomberg que a prioridade continua a ser investir numa presença mais constante no Ártico.
▲ Para se autonomizar dos EUA, o Canadá aproximou-se da União Europeia, militar e economicamente
OLIVIER MATTHYS/EPA
Apesar de estas prioridades terem sido definidas no âmbito de uma prioridade estratégica canadiana, ainda antes das atuais pressões dos Estados Unidos, a sua concretização torna-se agora mais relevante, como forma de combater as ameaças de Trump. À porta fechada, o Presidente norte-americano ter-se-á queixado à sua administração dessa mesma lacuna e da vulnerabilidade do Canadá no Ártico a inimigos comuns, avançou a NBC News, que cita vários responsáveis e antigos funcionários com conhecimento destas conversas.
“Sinalizar claramente ao nosso vizinho a sul o que queremos e o quanto estamos dispostos a ser um aliado credível capaz de se defender a si próprio, garantindo a nossa segurança nacional, a nossa defesa nacional, vai ter um papel de dissuasão contra uma possível vontade dos Estados Unidos de controlar parte do Canadá ou invadir uma parte do Canadá”, argumentou Gaëlle Rivard Piché, diretora da Conferência de Associações de Defesa, ao Globe and Mail.
A tentativa canadiana de se autonomizar dos EUA e se afirmar a título próprio
Apesar de muito aplaudida, a intervenção de Mark Carney — que terá sido o próprio a escrever — não foi recebida por todos com agrado. “O Canadá recebe muitas coisas nossas de graça, eles deviam estar agradecidos. Eu vi o primeiro-ministro ontem [terça-feira] e ele não estava agradecido. O Canadá vive por causa dos Estados Unidos, lembra-te disso, Mark, da próxima vez que fizeres as tuas intervenções”, afirmou Donald Trump na quarta-feira, quando foi a sua vez de subir ao púlpito em Davos.
A resposta de Mark Carney surgiu na manhã do dia seguinte: “O Canadá não vive por causa dos Estados Unidos. O Canadá prospera porque somos canadianos”. A resposta breve sintetiza o que vários especialistas ouvidos pela imprensa canadiana dizem ser a atual política do país. Os investimentos em Defesa e nas Forças Armadas não são apenas uma resposta direta às ameaças dos Estados Unidos — até porque é apontado de forma unânime que um ataque norte-americano ao Canadá é altamente improvável.
▲ A intervenção de Carney em Davos foi aplaudida pela firmeza com que enfrentou Trump, sem confronto direto
GIAN EHRENZELLER/EPA
Mas o mero exercício teórico, deixa no ar a questão: “E se?”. A verdade é que o Canadá é altamente dependente dos Estados Unidos, quer economicamente — quase 70% das exportações canadianas continuam a ser para o vizinho a sul —, quer militarmente, com comandos integrados e trocas de tropas, que levam soldados canadianos a responder perante comandos dos EUA. “Não há forma de sair desta relação. Muitas das coisas [que o Canadá está a fazer no Ártico] seriam extremamente difíceis ao ponto de não serem possíveis de ser feitas fora do NORAD ou do contínuo de segurança bilateral que existe. E isso é só o dinheiro que o governo dos EUA coloca nas secretas, digamos, ou em radares de longo alcance. Todos esses sistemas, nós nunca seremos capazes de replicar e garantir uma segurança adequada sozinhos“, elabora Richard Shimooka, analista de política de defesa no Macdonald-Laurier Institute, ao Globe and Mail.
Ora, é precisamente esta limitação que o Canadá tenta resolver. Na vertente económica, através da diversificação de mercados de exportação, com foco para a China, onde Carney esteve recentemente, ou para a Europa, com quem mantém várias ligações no seio de alianças ocidentais. Na vertente militar, através do aumento dos gastos com Defesa. Ao jornal, outro analista do mesmo instituto, Balkan Devlen, ressalva que a meta dos 5% continua a ser demasiado baixa para consegui autonomizar militarmente o Canadá. “Provavelmente precisamos de chegar aos sete, oito, nove por cento em gastos de defesa”, estima.
Porém, a aposta em si mesma pode ser útil. Os especialistas utilizam dois cenários para defender esta posição. No primeiro cenário, o aumento dos gastos com Defesa e a atenção dada ao Ártico serve para apaziguar o instinto expansionista de Donald Trump, em vez de o confrontar diretamente, e manter a NATO à tona durante os próximos nove meses — quando o poder de Trump pode sofrer um revés nas eleições intercalares norte-americanas — ou, mais provavelmente, nos próximos três anos.
No segundo cenário, a leitura que Mark Carney fez da ordem mundial em Davos está correta: houve uma rutura sem retorno e as grandes potências deixaram de respeitar a ordem baseada em regras. Neste caso, o Canadá adiantou-se ao colapso ao perseguir a autonomia estratégica há mais de um ano. Em qualquer cenário, a estratégia anti-Trump de Carney, que lhe deu uma inesperada vitória eleitoral há menos de um ano, consolida-o agora como um líder inesperadamente relevante no palco internacional.