As autoridades vão aproveitar a “janela de oportunidade” criada pelo alívio das condições meteorológicas nos próximos dois dias para preparar uma “semana muito difícil e complicada” que aí vem.
“Temos dois dias para preparar as albufeiras, ganhar encaixe para preparar os picos” e isso passa por “provocar pequenas cheias nos próximos dois dias [com descargas das barragens] para não termos uma cheia descontrolada na próxima semana”, afirmou o presidente da APA (Agência Portuguesa do Ambiente) numa conferência de imprensa realizada esta sexta-feira na sede da Autoridade Nacional de Proteção Civil.
José Pimenta Machado explicou que o país vem de uma “sequência de tempestades e solos saturados” pelo que qualquer chuva provoca problemas. A queda de neve e o degelo consequente e os incêndios que atingiram neste verão a região centro agravam a situação, na medida que os solos não têm qualquer capacidade de retenção porque estão sem vegetação e a água escorre logo.
O presidente da APA refere ainda que foram feitas intervenções após os incêndios de agosto e setembro para criar zonas de contenção, nomeadamente para proteger os recursos hídricos, mas os solos estão muito vulneráveis e a natureza precisa de tempo para crescer e reter a água. “A chuva que estamos a ter é muito acima da média. É uma anomalia sobre outra anomalia”. Dezembro já foi um dos mais pluviosos de sempre e janeiro também deverá ser. “Temos de nos adaptar a esta nova realidade.”
A nível nacional, considerando a previsão de chuva contínua e por vezes persistente a partir de segunda-feira, e como o grau de saturação dos solos é também elevado, a APA reconhece que a próxima semana pode trazer dificuldades adicionais ao controlo de cheias que tem sido feito.
Numa conferência de imprensa que juntou ainda o presidente do IPMA (Instituto Português do Mar e Atmosfera) e da Proteção Civil, o presidente da APA fez um balanço positivo do controlo que tem sido feito até agora das cheias nas várias bacias hidrográficas onde existe esse risco. Considerando que a gestão feita nas bacias do Minho, Lima e Cávado correu bem, o presidente da APA indicou que no Douro, onde há muita água a circular, tem havido uma articulação com Espanha para gerir os caudais e minimizar a cheias durante os períodos mais críticos de maré.
Também no Tâmega, em Amarante, em Chaves e na Régua foi possível controlar as cheias. Mais a sul, no Vouga há muita água e as duas barragens — Ermida e Ribeiradio — têm pouco poder de encaixe, o que não permite acomodar o caudal em excesso no rio. E quando isso acontece o rio Águeda, afluente, inunda a cidade, como aconteceu esta semana.
Muita água a correr também no Mondego onde a barragem da Aguieira esteve a descarregar causais de 1.500 a 1.600 metros cúbicos por segundo. Pimenta Machado diz que foi feita uma “gestão muito articulada com a barragem das Fronhas” e que o resultado foi positivo.
Também no Tejo foi possível evitar cheias. Neste caso, o caudal nunca atingiu o nível de controlo na região de Almorol, apesar de ter andado perto. A barragem de Castelo de Bode (alimentada pelo rio Zêzere — que recebe as águas do degelo da Serra da Estrela) está a 98% da sua capacidade e a descarregar depois de ter havido um alívio a jusante na barragem de Cedilho em Espanha. As descargas estão a ser feitas de forma desencontrada.
As duas barragens no rio Sado estão cheias, o que não acontecia há pelo menos 10 anos. Depois de muito tempo de escassez de água, as albufeiras do Pego do Altar e do Vale do Gaio fizeram descargas. O rio inundou a baixa de Alcácer do Sal, mas o nível de água está para já a baixar, diz Pimenta Machado.
Ao longo da última semana, o presidente da APA tem colocado várias imagens nas redes sociais de barragens em descarga. Também o Alqueva abriu as comportas para escoar o excesso de água, o que aconteceu pela quarta vez desde que fechou as comportas.
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