Pedro Ferraz dos Reis, que apareceu morto no hotel Polana, em Maputo no dia 19, tirou a sua própria vida, adiantaram a Polícia Judiciária e o Serviço de Investigação Criminal de Moçambique (Sernic), em conferência de imprensa na capital moçambicana, na véspera do funeral do administrador português do banco BCI.

“Do que foi observado não nos parece restarem grandes dúvidas de que houve ali um suicídio”, respondeu o inspetor-chefe da PJ, Santos Martins, a um jornalista, no período das perguntas. Antes disso, já o diretor geral do Sernic tinha dito que as duas autoridades judiciais tinham “confirmado e consolidado o resultado que a investigação moçambicana avançara no dia 20, o dia a seguir à morte de Pedro Ferraz dos Reis. “Trata-se de um suicídio”, repetiu Ilídio José Miguel.

A misteriosa morte do banqueiro Pedro Ferraz Reis num hotel de luxo em Moçambique

Minutos antes e com outras palavras, o inspetor português anunciara o mesmo: “As conclusões conjuntas alcançadas pelo Sernic, o Instituto de Medicina Legal de Moçambique, a PJ portuguesa e o Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses de Portugal, apontando, de forma fundamentada, para a causa de morte suicida, refletem e resultam de um esforço técnico e científico rigoroso assente na análise exaustiva de prova, permitindo o esclarecimento de factos e contribuindo para a realização da justiça “, sublinhou Santos Martins, da Unidade Nacional Contraterrorismo da PJ.

O inspetor-chefe português, que abriu o encontro com os jornalistas, referiu que a comunicação estava a ser feita “ao dia de hoje [sexta-feira]”, depois de o “trabalho conjunto e em equipa das duas estruturas de investigação criminal” permitir “reunir, consolidar, fixar e sistematizar os elementos de prova, conferindo-lhes toda a coerência”.

Santos Martins começara por explicar que “inicialmente e numa primeira abordagem ao local”, a “casa de banho pública do histórico hotel Polana”,  e “perante a quantidade de vestígios e o grande nível de violência desta morte”, suscitaram-se, “num primeiro momento, dúvidas quanto à sua causa”. Depois descreveu que o Sernic realizou “imediatamente” todo um vasto conjunto de diligências tendo em vista acautelar e preservar elementos de prova”. Uma ação que, elogiou o inspector-chefe português, “se veio a mostrar relevante para a descoberta material dos factos”.

Sem referir resultados de exames toxicológicos ou da autópsia, aludindo apenas “à inspeção ao local da morte e múltiplas diligências”, o inspetor recordou depois que “as conclusões preliminares” apontavam para “a possibilidade de se estar perante um quadro de suicídio, não existindo a intervenção de terceiros na morte” de Pedro Ferraz dos Reis.

“Não foi precipitação, foi esforço abnegado”

A morte do administrador do Banco Comercial e de Investimentos (BCI) que é subsidiário da Caixa Geral de Depósitos e do BPI esteve desde dia 20 envolta em mistério e polémica, depois de num primeiro momento a polícia de Moçambique ter dito que se tratava de um homicídio voluntário e horas depois o Sernic garantir que tinha sido um suicídio e dois dias depois de um “suicídio provocado”.

A rapidez com que as conclusões foram tiradas em menos de 24 horas, a falta de algumas imagens dentro do hotel e a dificuldade em compreender como é que alguém tomava veneno de rato e depois se esfaqueava no pescoço, pulsos, coração e coxas, levaram que muitas vozes questionassem a explicação dada.

Uma questão que Ilídio José Miguel fez questão de abordar na conferência de imprensa. “O facto de o Sernic se ter pronunciado em 24 horas não foi precipitação, mas um esforço abnegado, com vista à descoberta material dos factos”. Uma ideia que reforçou depois: “Fizemos um esforço e conseguimos fazê-lo. Conseguimos ter a resposta a breve trecho”.

Santos Martins enalteceu “o trabalho exemplar do Sernic desde o primeiro dia” seguindo os protocolos estipulados internacionalmente em termos de investigação criminal. Fazendo a “perícia ao local”, a “análise dos elementos recolhidos no local” e a “prova pessoal, falando com quem acompanhava de perto diariamente” Pedro Ferraz dos Reis, “em termos pessoais e profissionais” e outras “pessoas que estavam próximas, chegou a esta conclusão [de suicídio]”.

O trabalho do Sernic “não terminou”, sublinhou o inspector português. “Vai continuar a trabalhar, porque para cada ação há uma motivação. Qual foi?”. E se, “nem sempre, neste casos, é possível descobri-la”, aqui “temos um suicídio, o estado psicológico da vítima já não é possível aferir diretamente, mas o Sernic tem uma agenda estruturada para junto do seu entorno — família, amigos, colegas — tentar perceber o que é pode ter levado a esta situação”.

Telefones vão ser examinados em Portugal

Por outro lado, Santos Martins afastou, para já, a ideia de o administrador ter recebido ameaças. “De todos os elementos que recolhemos, dos contactos que fizemos, da análise digital dos equipamentos a que tivemos acesso, não temos informação que nos permita dizer que houve ameaças”, disse.

Ao que o Observador apurou os equipamentos eletrónicos, incluindo telemóveis (que estariam desligados quando recolhidos) de Pedro Ferraz dos Reis vão ser ainda examinados em Portugal, no âmbito da investigação.

A equipa portuguesa chegou a Maputo na segunda-feira de manhã, dia 26, depois de familiares e amigos terem feito uma petição pública a pedir a intervenção do estado português. Santos Martins explicou a presença da PJ e da médica legista em Moçambique “ao abrigo da cooperação que existe há muitos anos” entre os dois países, “nomeadamente com o Sernic”. Frisou o esforço “de partilha de novas técnicas, experiências e expertise, tentando implementar uma visão em termos criminais do que pode ser a psicologia de quem comete crimes ou evento desta natureza”. Para Santos Martins “um episódio desta violência cuja etiologia é o suicídio não é comum”.  Por isso, explicou, a equipa portuguesa foi “ajudar o Sernic a consolidar elementos probatórios e indícios que já tinham recolhido e por outro lado, tentar perceber”, ela mesma, “o que é que se tinha passado na cabeça da vítima”.

O corpo de Pedro Ferraz dos Reis foi novamente autopsiado na quinta-feira, no Instituto de Medicina Legal do Porto, estando o funeral marcado para sábado, na mesma cidade.

Já está em Portugal o corpo de Pedro Ferraz dos Reis. Nova autópsia realizada no Porto

Com Carlos Diogo dos Santos

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