O presidente do INEM admitiu esta terça-feira que a emergência pré-hospitalar apresenta falhas, mas defendeu que o caso do homem que morreu no Seixal à espera de socorro “não é o espelho” do serviço prestado pelo instituto.

“Este caso não é o espelho do INEM. O espelho do INEM são as 4.500 chamadas que atendemos todos os dias e as 4.500 pessoas que salvamos diariamente”, afirmou Luís Mendes Cabral na comissão parlamentar de Saúde, onde está a ser ouvido a pedido do PS e do Chega.

Os dois grupos parlamentares pediram a audição do responsável do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), na sequência da morte de um homem de 78 anos no início de janeiro no Seixal, depois de ter aguardado cerca de três horas pelo socorro.

Segundo Luís Mendes Cabral, como se trata de um sistema “feito por pessoas e para pessoas”, existem falhas que “acabam todas na comunicação social”, alegando que “são os próprios funcionários do INEM que acabam por tirar fotografias aos écrans dos computadores”, enviando-as para os jornalistas.

O presidente do instituto salientou ainda que os trabalhadores do INEM “estão todos os dias na linha da frente a tentar dar o seu melhor” no socorro às populações, adiantando que no início de janeiro se verificou um pico de infeções respiratórias no país, que representou a subida de uma média diária de 4.500 chamadas para mais de 5.500.

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“Obviamente, mais mil chamadas implica um esforço adicional de recursos humanos nos centros de atendimento, mas também de ambulâncias na rua para poderem dar o devido socorro”, referiu Luís Mendes Cabral, reconhecendo que isso não foi inesperado para o INEM.

Segundo Mendes Cabral, tratou-se de “dias de exceção” que não foram só para o INEM, mas também para as urgências hospitalares no país, que tiveram uma procura significativa, o que levou a que fosse pedido à Liga dos Bombeiros um reforço de ambulâncias disponíveis na margem sul.

“Todas as ambulâncias que estavam disponíveis na margem sul pela Liga dos Bombeiros foram por mim contratualizadas. Não houve um minuto, um segundo de dúvida relativamente à necessidade daquelas ambulâncias e à sua contratualização”, assegurou.

Depois de salientar o INEM lamentava a morte ocorrida, Luís Mendes Cabral referiu que, neste caso, foi feito o atendimento correto das chamadas e a ativação dos meios, mas “não tinha as ambulâncias necessárias para poder fazer o socorro”.

Aos deputados, o presidente do instituto afirmou ainda que a “missão de refundação” do INEM se justifica porque foram identificadas falhas significativas estruturais e funcionais, “que não são de agora, mas de vários anos e que precisam de ser corrigidas”.

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No início do ano, pelo menos três pessoas morreram, depois de terem ligado para o INEM, alegadamente porque os meios de socorro não chegaram a tempo.

O instituto atribuiu os atrasos no Seixal, em Tavira e em Sesimbra à falta de meios e à retenção de macas das ambulâncias nos serviços de urgência, o que faz com que estes meios de socorro fiquem temporariamente indisponíveis para responder a outras ocorrências.

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O Ministério Público abriu um inquérito ao caso da morte do homem de 78 anos no Seixal que aguardou quase três horas para ser socorrido. A Inspeção-Geral de Atividades em Saúde (IGAS) também avançou com inquéritos e o INEM com auditorias internas aos procedimentos que foram adotados nestes casos.

Presidente do INEM diz que novo modelo de triagem terá evitado mais mortes

O presidente do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) disse esta terça-feira que o novo modelo de triagem “terá salvaguardado” o socorro nos “períodos de maior pico”, defendendo que a diferenciação entre prioridades permitiu evitar mais mortes.

Luís Mendes Cabral defendeu na Comissão de Saúde que o novo sistema de triagem, em vigor desde janeiro, permitiu distinguir verdadeiras emergências de situações menos graves, considerando que o modelo anterior classificava “mais de 80% das ocorrências” como P3, um “único grupo genérico (…) sem qualquer outra diferenciação de meios”.

“Ter-nos-á salvaguardado naqueles períodos de maior pico. Esta resposta é precisa principalmente nas situações de maior pico. Nós sabemos que, enquanto estamos pelas 4.500 chamadas diárias nos Centros de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), conseguimos dar uma resposta muito rápida e cabal àquilo que são as solicitações”, disse o responsável, que está a ser ouvido a pedido do PS e do Chega, na sequência da morte de um homem de 78 anos no Seixal, após esperar cerca de três horas por socorro.

O Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) começou a aplicar no início do ano um novo sistema de triagem telefónica nos CODU, alinhado com o modelo usado nos hospitais e baseado em cinco níveis de prioridade: emergente, muito urgente, urgente, pouco urgente e não urgente.

Agora, cada categoria tem tempos de resposta definidos, desde atuação imediata em casos de risco de vida até 120 minutos nas situações pouco urgentes, sendo as não urgentes encaminhadas diretamente para o SNS 24.

Os utentes passam a ser informados da prioridade atribuída, do tempo estimado de chegada e do encaminhamento decidido.

No parlamento, Luís Mendes Cabral lembrou que a ausência de diferenciação comprometia a gestão dos meios.

“Tratávamos um enfarte agudo do miocárdio da mesma forma que tratávamos um entorse, ou tratávamos um AVC da mesma forma que tratávamos uma queimadura”, observou.

O responsável reforçou que os níveis P1 e P2 estão reservados para emergências médicas, com tempos de resposta entre 8 e 18 minutos, e os P3 e P4 para situações menos urgentes, com tempos até 60 e 120 minutos.

“Se tivéssemos respondido à situação do Seixal dentro dos 60 minutos, provavelmente o desfecho não teria sido o mesmo”, admitiu.

O presidente do INEM indicou ainda que a mudança não alterou as perguntas, fluxogramas ou técnicos, mas apenas a interpretação clínica dos sintomas.

Luís Mendes Cabral reconheceu ainda limitações estruturais na Península de Setúbal e no Algarve, agravadas nos períodos de maior procura.

“Para a maior parte do país, estamos a funcionar bem. O problema concentra-se na margem sul”, lamentou, acrescentando que a Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) informou não ter mais ambulâncias disponíveis para contratualizar na região.

O responsável afirmou que o reforço de meios e a reorganização da triagem permitiram evitar novos casos graves.

“Muito provavelmente, se não tivéssemos feito esta diferenciação, estaríamos hoje a falar de mais situações de morte”, concluiu.

Presidente do INEM admite que refundação será impossível sem sobressaltos

O presidente do INEM admitiu esta terça-feira que a refundação do instituto que assegura a emergência pré-hospitalar vai implicar “alguns sobressaltos”, alegando que a sua orgânica se manteve praticamente inalterada desde a fundação em 1981.

“Esta refundação vai ser impossível de fazer sem que haja alguns sobressaltos. Nós estamos a falar em mudar as rodas de um Ferrari em alta velocidade e em andamento”, afirmou Luís Mendes Cabral na comissão parlamentar de Saúde, onde foi ouvido a pedido das bancadas parlamentares do PS e do Chega.

Aos deputados, o médico salientou que o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) tem atualmente uma orgânica que praticamente não mudou e com uma “falta de liderança clínica clara”.

Perante isso, Luís Mendes Cabral defendeu que o instituto precisa “de imediato” de uma nova lei orgânica, já anunciada pelo Governo, considerando que se trata da “necessidade mais permanente” para reorganizar o sistema de emergência médica e corrigir limitações estruturais.

“Há ainda um modelo pouco assente na liderança clínica do instituto, tanto ao nível de gestão, como operacional”, referiu o responsável do INEM, que tomou posse no cargo em novembro de 2025, apontando o exemplo das viaturas de suporte imediato de vida, que não têm protocolos de atuação.

Luís Mendes Cabral adiantou ainda que decidiu que o socorro pré-hospitalar fica assente em três níveis – suporte básico de vida, suporte imediato de vida e suporte avançado de vida.

“Não há entrelinhas, não há outra forma de olhar para o socorro senão nestes três níveis”, defendeu o médico especialista em medicina de urgência e emergência, para quem o INEM vai ter de ajustar o seu funcionamento com base nessa segmentação, aplicando protocolos de atuação definidos por uma direção clínica.

As alterações no instituto surgem na sequência dos diagnósticos feitos recentemente por várias entidades, referiu ainda Luís Mendes Cabral, que disse aos deputados que decidiu assumir a presidência do instituto para proceder à sua refundação.

“Se não fosse para refundar o INEM, se fosse para manter tudo como está, provavelmente não teria saído do meu conforto no Açores”, onde era diretor clínico do Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros, afirmou.

Na audição parlamentar, Luís Mendes Cabral adiantou também que o INEM já foi um dos institutos tecnologicamente mais avançados do país, mas que perdeu essa capacidade com o tempo, apontando o exemplo da falta de geolocalização das ambulâncias.

“O INEM, neste momento, não sabe onde andam as ambulâncias. Temos de ter uma noção clara, em geolocalização, onde é que andam as ambulâncias”, defendeu o médico, salientando que a refundação “passa por essas alterações que têm de ser feitas”.