Em dez anos, o número de pessoas estrangeiras com contribuições pagas à Segurança Social em Portugal aumentou 5,4 vezes. Em dezembro de 2015, existiam 156 mil trabalhadores não nacionais a contribuir, já em dezembro de 2025 estes ultrapassavam os 840 mil. Os dados são divulgados esta sexta-feira pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, que vai passar a atualizar, mês a mês, a situação contributiva dos trabalhadores estrangeiros e os apoios sociais que recebem. Os primeiros dados disponíveis remontam a 2015.

No briefing de apresentação dos novos dados estatísticos, a secretária de Estado da Segurança Social, Susana Filipa Lima, considerou, quando questionada sobre a desinformação que geralmente está associada às contribuições, mas sobretudo às prestações pagas a trabalhadores imigrantes, que os dados estatísticos “disponibilizados de forma isenta, imparcial e sem discriminação relativamente aos seus destinatários” contribuem sempre para “elevar a literacia de todos aqueles que tenham interesse em usar essa informação de forma correta”.

A governante recusou, no entanto, que seja possível apurar um saldo em relação à contribuição e recebimento de prestações por parte dos imigrantes. “Não faz sentido falarmos de um saldo da Segurança Social dos cidadãos estrangeiros porque faltam rubricas da receita e rubricas da despesa”, garantiu em resposta aos jornalistas presentes.

“Para em bom rigor isolarmos a componente do ‘saldo’ — e aqui umas aspas muito grandes — dos cidadãos de nacionalidade estrangeira, teríamos que ser capazes de isolar, rubrica a rubrica, quer do ponto de vista da receita quer do ponto de vista da despesa, qual é a fonte de financiamento”, defendeu, exemplificando que este poderia surgir do Orçamento do Estado, por exemplo.

Essa  “desagregação não existe”, reforçou a secretária do Estado, defendendo que também não era esse o “propósito” da análise do Governo.

Estrangeiros contribuíram mais 3 mil milhões de euros para a Segurança Social do que aquilo que receberam em prestações sociais em 2025

Com o Governo a defender que não é possível chegar a um saldo da contribuição dos trabalhadores estrangeiros para a Segurança Social, o certo é que é possível calcular a diferença entre as contribuições pagas por estes trabalhadores — que aumentaram 8,5 vezes nos últimos dez anos – e as prestações sociais recebidas por beneficiários estrangeiros, que na mesma década se multiplicaram por seis.

Olhando para o ano de 2025 de uma forma global, e não apenas para o mês de dezembro, mais de 1 milhão e 115 mil pessoas estrangeiras tiveram contribuições pagas à Segurança Social — no total pagaram cerca de 4 mil milhões euros. Cerca de um terço destes estrangeiros — menos de 325 mil — usufruíram de prestações pagas pela Segurança Social, no valor de 822 mil euros.

A diferença entre as contribuições dos trabalhadores estrangeiros e as prestações que lhes foram pagas ultrapassa, portanto, os 3 mil milhões de euros no ano passado.

O peso relativo do valor das contribuições de pessoas estrangeiras no total das contribuições para a Segurança Social, passou de 3,39% em 2015 para 13,70% no ano passado. Olhando apenas para os meses de dezembro, o peso relativo das contribuições sobe de 3,5% em 2015 para 14% em dezembro de 2025.

Já o número de beneficiários com prestações pagas pela Segurança Social de nacionalidade estrangeira passou de 84 mil em 2015 para 324 mil em 2025. No mês de dezembro de 2015 o número de beneficiários foi de 61 mil, passando para 213 mil em dezembro do ano passado, sendo que representaram nesse mês 12,2% dos beneficiários em relação ao total nacional.

Numa leitura mais fina, as mulheres estrangeiras recebem mais prestações sociais do que os homens estrangeiros, prevalecendo com maior representatividade na receção destas prestações a faixa etária dos 30 aos 39 anos. A maioria dos beneficiários são brasileiros, cerca de 98 mil, 15 mil são angolanos e 12 mil cabo-verdianos.

Metade dos contribuintes estrangeiros em Portugal são brasileiros, indianos e angolanos

A proporção de pessoas com nacionalidade estrangeira com contribuições pagas à Segurança Social em relação ao total aumentou significativamente na última década. O peso da mão de obra estrangeira que contribui era, em dezembro de 2025, de 17,6%, em comparação com 4,5% em dezembro de 2015.

Nos últimos dez anos, o número de mulheres estrangeiras com contribuições aumentou 4,5 vezes, enquanto o número de homens cresceu 6,1 vezes. A faixa etária com maior representatividade de contribuintes estrangeiros é a dos 30 aos 39 anos, tendo a faixa 20-29 anos superado a dos 40-49 anos nos últimos anos.

No top três de países de origem dos cidadãos estrangeiros que mais contribuem para a Segurança Social, surge o Brasil com 309 mil contribuintes, seguido da Índia com 58 mil e Angola com 54 mil. Fica também claro onde é que os trabalhadores estrangeiros trabalham mais: no alojamento e restauração (129 mil), nas atividades administrativas e serviços de apoio (122 mil) e na construção (117 mil).

O ministério destaca ainda que no setor da agricultura, floresta e pesca, mais de 41% dos trabalhadores são estrangeiros.

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