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Tudo começou com palavras. Mas, para a Dinamarca, as palavras ditas por Donald Trump deram rapidamente lugar à ação. No centro de uma crise diplomática dentro da NATO sem precedentes, Copenhaga interpretou como credíveis as declarações do Presidente norte-americano e avançou silenciosamente para o terreno, decidindo enviar tropas para a Gronelândia e preparar-se para um eventual ataque da maior potência militar do mundo — e aliado de longa data —, os Estados Unidos, revelou a televisão pública dinamarquesa, que cita fontes governamentais, altos responsáveis e serviços de informações europeus.
Em janeiro, o envio de tropas para a ilha foi tudo menos simbólico. Entre o material transportado estavam explosivos destinados a inutilizar infraestruturas estratégicas, como as pistas de aterragem em Nuuk e Kangerlussuaq. A intenção seria impedir que aviões militares norte-americanos conseguissem pousar, caso uma intervenção viesse a acontecer. Além dos equipamentos, os militares chegaram a transportar reservas de sangue provenientes da Dinamarca, antecipando a possibilidade de feridos num cenário de combate.
A operação no terreno arrancou com o destacamento de um comando avançado multinacional para pontos estratégicos da ilha. Pouco depois, seguiu-se uma força principal composta por unidades dinamarquesas, forças especiais e contingentes europeus preparados para operar em ambientes de frio extremo e terreno montanhoso. Em simultâneo, caças dinamarqueses e um navio de guerra francês foram deslocados para o Atlântico Norte, num sinal de coordenação entre aliados europeus — e de rutura com a tradicional prudência estratégica de Copenhaga. “A liderança política e militar decidiu entrar em jogo”, descreveu um responsável francês envolvido na articulação entre a Dinamarca e França, citado pela DR.
Soldiers from Denmark and several European countries keep arriving in Greenland for a military build up in the island pic.twitter.com/ws2XkLlEqQ
— Visegrád 24 (@visegrad24) January 17, 2026
Confrontado com a investigação da DR, o ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês, Lars Løkke Rasmussen, recusou entrar em detalhes e deixou em aberto como reagiria Copenhaga perante um cenário semelhante. Ainda assim, reconheceu a excecionalidade do momento à televisão pública: “A situação por volta da passagem de ano foi bastante extraordinária. Não se podia excluir que alguém recorresse às forças armadas para concretizar esse sonho presidencial de controlar a Gronelândia.” E reforçou: “Não tenho dúvidas de que essa continua a ser uma ambição do Presidente.”
Apesar da mobilização, entre as fontes consultadas não havia ilusões quanto ao equilíbrio de forças. Num confronto direto, a superioridade militar dos Estados Unidos seria esmagadora. Ainda assim, o objetivo dinamarquês não passava por vencer um eventual conflito, mas por ganhar tempo, demonstrar capacidade de resposta e evitar uma escalada imediata. Evitar o confronto, sem ceder automaticamente — foi esse o equilíbrio procurado por Copenhaga, segundo várias fontes.
Foi neste contexto que a decisão de avançar com este nível de preparação ganhou forma, após uma série de reuniões altamente confidenciais entre o Governo dinamarquês e a cúpula da Defesa. Em causa estava a necessidade de considerar todos os cenários, num ambiente em que, segundo fontes europeias, a imprevisibilidade da liderança norte-americana elevava significativamente os riscos. “Trump já não tem à sua volta o mesmo tipo de pessoas que o dissuadiriam. É extremamente perigoso”, afirmou uma das fontes ouvidas.
Os contactos com aliados europeus, porém, começaram ainda antes de a escalada se tornar pública. Logo após as eleições presidenciais norte-americanas de 2024, a Dinamarca iniciou diligências discretas junto de várias capitais europeias, procurando apoio político e militar perante a insistência de Trump na ideia de anexar a Gronelândia. A França e a Alemanha estiveram entre os países que sinalizaram disponibilidade para contribuir com forças, num esforço de dissuasão conjunta. À medida que Trump reiterava essa ambição — uma posição que, segundo a Time, remonta pelo menos a 2018 —, a pressão foi aumentando.
Ao longo desse período, as fontes descrevem um ano marcado por tensão constante e noites passadas em claro. Para alguns responsáveis, o momento assumiu mesmo contornos históricos. “Não vivíamos uma situação assim desde 1940”, disse uma fonte da defesa dinamarquesa, evocando os dias que antecederam a ocupação nazi. Ainda que nenhuma das fontes disponha de informações concretas sobre planos de ataque norte-americanos à Gronelândia, o receio era real: em janeiro, vários responsáveis europeus admitiam que uma ação militar poderia ocorrer a qualquer momento.
Earlier today, ????????Danish F-35 fighter jets conducted training in operating under Arctic conditions in Greenland. The training was supported by a ????????French Airbus MRTT tanker aircraft, which refueled the Danish fighter jets in mid-air on their way from Denmark to Greenland’s east… pic.twitter.com/EwV4CQuyeP
— Orla Joelsen (@OJoelsen) January 16, 2026
Houve, no entanto, um ponto de viragem. O ataque à Venezuela e o sequestro de Nicolas Maduro, a 3 de janeiro, funcionaram como sinal de alarme. “Foi aí que tudo se precipitou”, descreveu uma fonte de alto nível do aparelho de segurança dinamarquês. Os planos iniciais, definidos no verão e outono de 2025, revelaram-se insuficientes, obrigando a uma aceleração urgente da resposta. “Quando Trump continuava a falar na anexação da Gronelândia e depois aconteceu o que aconteceu na Venezuela, tivemos de levar todos os cenários a sério”, acrescentou a mesma fonte à DR.
A tensão viria a aliviar apenas a 21 de janeiro, quando Donald Trump recuou publicamente e afastou o recurso à força militar. Ainda assim, o episódio deixou marcas profundas nas relações transatlânticas. Entre as consequências mais imediatas está uma maior coesão europeia. “Com a crise da Gronelândia, a Europa percebeu de uma vez por todas que precisa de cuidar da sua própria segurança”, afirmou um alto funcionário francês que acompanhou de perto os momentos mais críticos.
President Trump on Greenland: “We probably won’t get anything, unless I decide to use excessive strength and force, where we would be frankly unstoppable—but I won’t do that.”
pic.twitter.com/l2KeEhPGxy— Chief Nerd (@TheChiefNerd) January 21, 2026
Apesar de a pressão ter diminuído, face aos dias mais críticos de janeiro, fontes dinamarquesas admitem que a crise pode reacender a qualquer momento. “Cresci durante a Guerra Fria”, recorda um alto responsável do aparelho de segurança dinamarquês. “Às vezes, gostaria de voltar a esse período relativamente estável, em que os líderes mundiais sabiam até onde podiam ir sem desencadear o pior cenário possível. Hoje, tudo parece muito mais imprevisível.”