Os preços do mercado ibérico de eletricidade têm estado muito abaixo dos valores registados em outras regiões da Europa, mais expostas ao gás natural para a produção elétrica. É o resultado de uma grande fatia de produção renovável no mix energético de Portugal e Espanha que este ano está a ser particularmente potenciado pela intensa chuva e tempestades que encheram as barragens. E, mais recentemente, pela combinação de muito sol e vento.
Mas se este cenário tem protegido Portugal e Espanha do risco do gás natural fixar o preço em muitas horas por dia, e com isso fazer disparar o preço da eletricidade, na última semana a Península Ibérica tem vindo a registar uma sucessão de preços negativos durante o dia — sobretudo nas horas de maior exposição solar — , o que tem levado os preços médios diários para valores abaixo dos 10 euros por MW hora.
No entanto, estes valores do mercado grossista não contam toda a história no que toca ao real custo da energia elétrica para quem compra — os comercializadores — e para quem paga a fatura final — os clientes.
Há uma subida acentuada e consistente dos chamados custos com os serviços de sistema que, no caso de Portugal, passaram de valores abaixo dos 10 euros por MW hora para valores entre os 25 e os 30 euros por MW hora já este ano.
A subida destes custos é “uma preocupação” para a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), assume o presidente do regulador, Pedro Verdelho. Em declarações ao Observador, feitas à margem do debate parlamentar sobre o plano de investimento nas redes de energia, refere que a ERSE está a preparar medidas para responder a este tema, que também preocupa as elétricas e os comercializadores. Algumas empresas portuguesas, mas sobretudo espanholas, escreveram uma carta às ministras que têm a tutela da energia nos dois países a alertar para o problema, segundo o Expresso.
Preços negativos nas horas em que há mais energia solar
No último domingo registou-se mesmo um preço médio de 0,18 euros por MW hora, um dos mais baixos de sempre, em resultado de um dia com muito sol e muito vento e menor procura (por se tratar de um fim de semana).
O comportamento tem vindo a repetir-se com preços médios diários de 10,58 euros na segunda-feira e de 7,58 euros na terça-feira. Já esta quarta-feira, o preço médio diário na Península Ibérica voltou a tombar para pouco mais de 5 euros por MW hora. Ao contrário do que sucedeu no ano da invasão da Ucrânia, a Ibéria permanece assim protegida da ameaça de contágio do preço do gás natural, que quase duplicou desde o ataque ao Irão, ao preço da eletricidade.
Preço grossista da eletricidade para esta quarta-feira tem várias horas com valores negativos.
À medida que os custos da produção de energia descem, quando são as renováveis (sobretudo o vento e o sol) a marcar o preço, os custos com os serviços de sistema elétrico estão a subir de forma consistente. E dentro desses custos há linhas que estão diretamente relacionadas com a necessidade de adaptar a gestão da rede elétrica a uma maior incorporação de energia renovável. Essa necessidade envolve o recurso a centrais a gás natural já não maioritariamente para produzir energia, mas para fornecer outros serviços, como reserva de regulação e resposta rápida a pedidos de redução ou aumento da injeção, garantindo capacidade firme, e apoio à tensão.
Um especialista em energia que acompanha diariamente o mercado grossista destaca o “inesperado” do movimento que se vive nos preços grossistas. Numa publicação na rede LinkedIn, António Vidigal diz que o custo de produção da energia elétrica a partir do gás estaria nos 139 euros por MW por hora. Como o gás não está a marcar o fecho de cada hora de negociação, devido a elevados recursos renováveis, os preços são muito inferiores aos do resto do continente. A reduzida exportação para França ainda faz baixar mais os preços porque diminui a procura em horas de excesso de produção
Mas, destaca, se o gás não marca o preço, continua ainda assim presente na fatura porque as centrais de ciclo combinado estão ligadas para fornecer mais segurança ao sistema e isso custa 20 euros por MW hora, é um dos custos dos serviços de sistema.
A procura por este tipo de serviços, que também é prestado por outras centrais convencionais como as barragens, cresceu muito durante a gestão da rede no pós-apagão, com especial foco do lado espanhol, precisamente para reforçar as condições de segurança da rede enquanto a REE (Rede Elétrica de Espanha) não adota um conjunto de procedimentos e recomendações.
Em Portugal, os custos do sistema também dispararam quando foi necessário gerir o stress causado pela tempestade Kristin nas redes de transporte e distribuição. Mas mesmo sem estes episódios pontuais, os custos secundários do sistema estão a crescer em termos estruturais, ainda que não sejam visíveis para a generalidade dos consumidores.
Em 2025, em Portugal este custo oscilou entre os 7,79 euros por MW hora em dezembro e os 18,31 euros por MW hora registados em maio, o mês a seguir ao apagão. Mas os dados divulgados pela REN (Redes Energéticas Nacionais) na rubrica dos encargos de regulação económica imputados ao consumo mostram que estes custos começaram a subir antes do apagão, passando de valores médios mensais entre os 5,61 euros por MW para mais de 10 euros por MW nos últimos meses de 2024.
Os dados da REN para os primeiros três meses deste ano mostram um disparo para 29,13 euros por MW em fevereiro, o mês das tempestades e que foi também marcado por preços de eletricidade muito baixos. Os valores para março indicam um recuo para 22,29 euros, mas estes patamares têm sido ultrapassados nos últimos dias, atingindo em algumas vezes mais de 30 euros por MW hora.
Na última proposta de tarifas elétricas para 2026, o Conselho Tarifário recomendava à ERSE que fizesse uma revisão em alta da estimativa de custos com os serviços de sistema, “de modo a refletir os valores reais mais recentes e garantir maior fiabilidade no cálculo tarifário.” Segundo este órgão consultivo do regulador, a ERSE fez uma previsão subavaliada deste custo para o ano de 2025, o que “contribuiu de forma indireta para tornar a tarifa regulada mais competitiva face às ofertas dos comercializadores em mercado livre, distorcendo o equilíbrio concorrencial”.
Na já referida publicação, António Vidigal faz eco dos receios manifestados por vários peritos em energia sobre as implicações de preços tão baixos que não permitem remunerar investimentos em centrais renováveis, sobretudo se forem apenas solares ou eólicas.. Esse risco foi também sinalizado pelo presidente da REN em entrevista ao Observador. Segundo Rodrigo Costa, o principal obstáculo à execução dos projetos de produção renovável não é a avaliação ambiental mas sim o preço, por estar muito baixo e por ser muito instável.