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Duas explosões junto à entrada de um edifício em Bucha — cidade fustigada há quatro anos pela ocupação das forças russas — dificilmente fariam suspeitar que o alegado autor fosse um jovem oriundo de uma família com fortes ligações ao exército ucraniano: o irmão morreu a combater pela Ucrânia e foi condecorado postumamente, a mãe continua a servir como médica nas Forças Armadas. Ainda assim, um dia após o ataque, o Tribunal Solomyanskyi de Kiev decretou a prisão preventiva de Bohdan Tymchenko, que será investigado, ao abrigo da Parte 2 do Artigo 258 do Código Penal da Ucrânia, por ato terrorista.

Às 5h35 de 23 de março, uma residente de Bucha, perto da capital, chamou os serviços de emergência depois de uma primeira explosão, que danificou janelas e a fachada do prédio onde vive. Quase duas horas depois, quando as equipas já se encontravam no local, ocorreu uma segunda detonação. Dois agentes ficaram feridos, embora sem risco de vida, de acordo com a polícia de Kiev.

Ataque terrorista Bucha Polícia Nacional da Ucrânia / Site

O sucedido apresentava todas as características de um ataque duplo. “A ideia inicial parece ter sido atrair a polícia para o local e detonar o primeiro dispositivo antes de acionar um segundo, quando o reforço chegasse”, afirmou Dmytro Prokudin, chefe da promotoria regional de Kiev, ao The Guardian. Aliás, em várias regiões do país têm sido registadas chamadas falsas usadas para atrair equipas de emergência para armadilhas. As autoridades ucranianas apontam para um padrão associado ao recrutamento online de civis atribuído a Moscovo, baseado em promessas de dinheiro ou em coerção para a realização de atos de sabotagem, num esforço para desestabilizar o país e semear medo e desconfiança na população.

“O recrutador entra na plataforma, inicia uma conversa e, após algumas perguntas, percebe rapidamente se a pessoa está disponível para cooperar. Essa é a estratégia”, explicou Prokudin, acrescentando que o dinheiro surge frequentemente como principal motivação.

Mais de 800 ucranianos — entre eles pelo menos 240 menores — terão sido recrutados ao longo dos últimos dois anos para ataques contra infraestruturas críticas e centros de mobilização militar, revela o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU).

Mensagens no Telegram, pessoas “descartáveis” e atos de vandalismo. A nova espionagem russa para minar o apoio à Ucrânia

Neste caso, investigadores ucranianos acreditam que Tymchenko, de 21 anos, que vivia com a avó, terá sido inicialmente contactado por um agente russo através do chat do jogo online “World of Tanks”. O suspeito, detido poucas horas após o ataque, alegou ter sido coagido com ameaças contra a mãe. “Segundo ele, conheceu o desconhecido através de um jogo de computador. Depois de algum tempo, o novo contacto começou a chantageá-lo, dizendo que sabia onde estava a sua mãe e que a monitorizava através de um drone. Para que ela sobrevivesse, teria de plantar um dispositivo explosivo”, refere o comunicado da polícia.

Mas, de acordo com a investigação, Tymchenko terá recebido em troca a promessa de 1.200 dólares (cerca de 1020 euros). O alegado recrutador terá orientado o jovem passo a passo através do Telegram, explicando como obter os materiais, montar os engenhos no seu apartamento e executar o ataque.

Na noite anterior ao ataque, um episódio acabou por levantar suspeitas nas autoridades. Uma chamada para a polícia deu conta de um caso de violência doméstica no apartamento, mas a sua origem foi mais tarde rastreada a uma área distante da morada da falsa ocorrência. As autoridades acreditam que este incidente poderá indicar que o plano terá sido parcialmente comprometido.

Em Bucha, vizinhos dizem não ter notado sinais de alerta evidentes, segundo o jornal britânico. O jovem é descrito como tímido, reservado e maioritariamente recolhido em casa. “Ainda estamos a tentar perceber a sua motivação e se foi especificamente escolhido pela sua origem ou abordado de forma aleatória”, adiantou Prokudin. Em muitos casos, as autoridades ucranianas acreditam que agentes russos desenvolvem uma campanha ampla online, sondando potenciais recrutas em conversas informais antes de intensificarem o contacto.

Para os moradores do edifício, a possibilidade de a ameaça ter vindo de alguém próximo — com quem partilham o vão de escadas e a quem já terão dito “bom dia” várias vezes — é profundamente perturbadora. “Não consigo perceber como isto pôde acontecer aqui, feito por alguém que vemos todos os dias”, disse Inna, uma reformada que vive ao lado de Tymchenko, ao The Guardian. O promotor Prokudin descreve o caso como uma “facada nas costas”: “Não há nada pior do que um dos próprios cidadãos fazer isto”.

“A Rússia quer fazer-nos sentir inseguros e criar caos depois de tudo o que já passámos”, acrescentou. Tal como outros moradores, pensou inicialmente que a primeira explosão seria resultado de um ataque de drone ou míssil russo. Mas ficou surpreendida por não ter sido acionado qualquer alerta de ataque aéreo.

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