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Guerra dos drones entra nas universidades russas com campanha de recrutamento dirigida a estudantes

Campanha de recrutamento avança nas universidades russas para integrar alunos nas forças de drones, com promessas de contratos curtos e salários elevados. Assim que assinam, tornam-se "escravos".

O padrão repete-se em instituições de todo o país: maior presença de conteúdos de alistamento e sessões públicas com militares e veteranos da chamada “operação militar especial”
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O padrão repete-se em instituições de todo o país: maior presença de conteúdos de alistamento e sessões públicas com militares e veteranos da chamada “operação militar especial”

© Escola Superior de Economia de Moscovo / Site

O padrão repete-se em instituições de todo o país: maior presença de conteúdos de alistamento e sessões públicas com militares e veteranos da chamada “operação militar especial”

© Escola Superior de Economia de Moscovo / Site

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Não é um anúncio a um curso, mas é uma frase que se repete em vídeos de recrutamento divulgados por universidades russas: “Há um lugar onde a tua experiência com videojogos é especialmente valiosa”. A mensagem define o tom de uma estratégia de Moscovo que procura atrair jovens para as fileiras das Forças de Sistemas Não Tripulados, o novo ramo militar dedicado à operação de veículos aéreos não tripulados, como os drones. Entre palestras e conteúdos promocionais das instituições do ensino superior, o Ministério da Defesa russo tenta, pelo menos desde janeiro, aliciar estudantes para este novo ramo militar, recorrendo a incentivos económicos, com contratos de curta duração e salários elevados, ou, quando isso não chega, ameaçando-os.

Ao cruzar sites de universidades, grupos nas redes sociais, media locais e entrevistas com estudantes em diferentes regiões da Rússia, reportagens da imprensa internacional têm reunido sinais consistentes de uma campanha de recrutamento alargada. O padrão repete-se em instituições de todo o país: maior presença de conteúdos de alistamento e sessões públicas com militares e veteranos da chamada “operação militar especial” — expressão usada por Moscovo para designar a guerra na Ucrânia — integrados no quotidiano académico.

Segundo Artem Klyga, advogado militar russo radicado em Berlim, citado pela CNN, as universidades estarão a seguir orientações formais emitidas pelo Ministério da Defesa. Klyga divulgou no Telegram documentos que diz ter recebido de uma universidade de Moscovo, incluindo uma carta dirigida aos responsáveis pelos centros de formação militar das instituições federais, na qual se pede que “organizem, em conjunto com representantes do Ministério da Defesa, campanhas dirigidas aos estudantes… e reportem diariamente à direção principal de pessoal do Ministério da Defesa”.

A mensagem, repetida em conteúdos divulgados pelas próprias universidades, dirige-se sobretudo aos mais jovens. Num vídeo partilhado pela Universidade de Arquitetura e Engenharia Civil de Kazan na rede VK, escreve a CNN, a narração associa o universo dos videojogos com o recrutamento militar: “Disseram-te que estavas a perder tempo com videojogos… mas há um lugar onde essa experiência é especialmente valiosa”.

Entre as instituições envolvidas figuram universidades de referência como a Universidade Estatal de São Petersburgo (onde estudou Vladimir Putin), que divulga estes programas nos seus canais oficiais e disponibiliza materiais explicativos produzidos por docentes e militares sobre as vantagens do alistamento.

Já a Escola Superior de Economia de Moscovo organizou, em fevereiro, o “Festival de Sistemas Não Tripulados”, com a exposição de vários modelos de dispositivos.

Escola Superior de Economia de Moscovo / Site

Noutros eventos, a Universidade Estatal de Arquitetura e Engenharia de Kazan manifesta apoio às forças russas que combatem na Ucrânia.

Numa mensagem no Telegram, pode mesmo ler-se: “Continuamos a ajudar os nossos combatentes — participantes na operação militar especial. Toda a universidade está a participar”.

Há promessas financeiras, mas são “uma armadilha”

As condições apresentadas aos estudantes incluem “contratos especiais” com as forças armadas, segundo a Universidade KSUACE num artigo publicado no seu site, com duração limitada — geralmente de um ano. Os incentivos financeiros incluem, de acordo com o site, um pagamento único de cerca de 2,9 milhões de rublos no momento da assinatura do contrato (cerca de 24 mil euros), pagamentos mensais a partir de 210 mil rublos (cerca de 1.800 euros) e um rendimento anual mínimo de 5,42 milhões de rublos (cerca de 46 mil euros).

No mesmo texto, a universidade reproduz outras promessas do Ministério da Defesa. Entre eles está a possibilidade de licença académica durante todo o período de serviço, a transição de ensino pago para bolsas do Estado, o acesso a vagas em alojamento estudantil e apoio psicológico.

A estes somam-se as chamadas vantagens e garantias sociais federais, que incluem exames, tratamento e reabilitação gratuitos em instituições médicas militares, bem como seguro de vida e de saúde assegurado pelo Estado. É igualmente referido o estatuto de veterano, com as respetivas vantagens, e um pacote de medidas financeiras que pode incluir a isenção de impostos, bem como a extinção de dívidas até 10 milhões de rublos (cerca de 85 mil euros), incluindo empréstimos estudantis. Além de tudo isto, é prometida a possibilidade de funções afastadas da linha da frente.

No entanto, especialistas citados nas reportagens internacionais afirmam que as condições reais podem divergir das promessas iniciais. Referem contratos que funcionam, na prática, como compromissos militares “padrão”, sem prazo efetivo definido. O ativista Grigory Sverdlin, da organização “Idite Lesom” (“Vá Embora”, que ajuda russos a evitar o alistamento militar), afirma que os recrutas ficam sob controlo direto do Ministério da Defesa após a assinatura. “Assim que a pessoa assina o contrato, torna-se literalmente escrava do Ministério da Defesa. Pode ser enviada para qualquer unidade de que o Ministério necessite. Não há escolha”, disse à CNN.

“É uma armadilha”, avisa Sergey Krivenko, chefe da Citizen. Army. Law. (uma organização de direitos humanos focada em apoiar militares e recrutas): “Quando o ano terminar, o estudante (agora já militar) não será dispensado, assim como não dispensam nenhum militar cujo contrato expirou”.

Para Artem Klyga, o elemento mais concreto mantém-se o financeiro. “Tudo o resto é mentira. Trata-se de um contrato militar normal, sem prazo, sem cláusulas especiais”, explicou.

Poucos querem aceitar, “nem mesmo em dificuldades financeiras”. Mas há relatos de pressão sobre estudantes em risco de chumbar

Entre estudantes citados anonimamente pela CNN, predominam relatos de rejeição e desconfiança. “Não acho essa palhaçada convincente; sou totalmente contra a propaganda militar e não caio nisso. O mais importante é que os meus colegas também percebem que tudo isto é uma farsa, e ninguém do meu grupo cedeu à pressão”, escreveu um estudante russo à cadeia.

Noutro testemunho, também partilhado com o mesmo meio, um estudante descreve um ceticismo generalizado em relação às promessas oficiais: “Entre os meus colegas de turma, os meus amigos da universidade, ninguém está a considerar assinar um contrato, nem mesmo aqueles que estão numa situação financeira muito difícil”.

Perante o ceticismo em relação aos incentivos prometidos, alguns estudantes relatam que as universidades recorrem a outras formas de pressão para incentivar o recrutamento. Em alguns casos, estudantes em risco de chumbar são levados a considerar o ingresso nas forças de drones como a única forma de evitar a expulsão. Há também relatos de redução dos prazos académicos, o que dificulta a conclusão de trabalhos e torna mais apelativas as ajudas prometidas em troca do alistamento.

Uma estudante contou à CNN que funcionários da sua universidade identificavam alunos do primeiro ano considerados mais vulneráveis — com dificuldades de adaptação ou problemas de saúde mental — e abordavam-nos diretamente. Primeiro, eram chamados para uma “conversa pessoal”, sem detalhes prévios e com pedidos de confidencialidade. Depois, era-lhes apresentado o alistamento como forma de evitar dívidas e garantir a continuidade dos estudos.  Uma prática que a estudante descreve como “abuso emocional”.

Perdas no terreno aumentam pressão sobre o Kremlin

A crescente aposta no recrutamento de estudantes para as forças de drones expõe o esforço de Moscovo para sustentar uma guerra que entra no seu quarto ano na Ucrânia. E os números ajudam a enquadrar esse desgaste. Em fevereiro, segundo a cadeia norte-americana, autoridades  ocidentais estimaram que a Ucrânia terá infligido perdas superiores à capacidade de reposição de tropas da Rússia durante vários meses consecutivos. Já o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que, no final de março, Moscovo terá perdido 89.000 soldados (mortos e gravemente feridos) em 2026, enquanto o recrutamento terá ficado pelos cerca de 80.000 no mesmo período. São dados não confirmados de forma independente e que a Rússia não divulga oficialmente.

Ainda assim, apesar das perdas acumuladas no terreno, o Kremlin evitou repetir a “mobilização militar parcial” de 2022 — uma decisão que, à época, levou centenas de milhares de homens a abandonar o país. Em vez disso, tem-se recorrido a mecanismos mais dispersos e menos visíveis de alargamento do recrutamento. É nesse contexto que especialistas interpretam a aproximação às universidades como um sinal de mudança de fase: menos mobilização aberta, mas maior capilaridade institucional, mesmo em espaços onde a guerra parecia distante. “Jamais imaginei que a minha universidade se tornasse algo da qual teria de proteger os meus amigos”, escreveu um estudante universitário numa mensagem enviada pelo Telegram.

[Depois de assassinar Carlos Castro, Renato Seabra vai passar 95 dias numa ala psiquiátrica. É lá que diz ter agido como um instrumento de Deus e ser “Jesus Cristo”. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui o segundo episódio, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui primeiro episódio]

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