Com a proximidade da votação sobre os órgãos externos ao Parlamento, a tensão aumenta. Perante as dúvidas sobre se a escolha do PS para a Provedoria de Justiça, o antigo secretário de Estado Tiago Antunes, reunirá o consenso necessário para conseguir os dois terços de votos necessários, Hugo Soares pediu aos deputados do PSD que cumpram o acordo feito com os socialistas e votem favoravelmente este nome.

De acordo com as informações apuradas pelo Observador, durante a reunião da bancada do PSD, que aconteceu na manhã desta quinta-feira, a poucas horas das votações para a longa lista de órgãos, Hugo Soares fez um “apelo à responsabilidade” dos deputados e pediu que sejam “cumpridos” os acordos alcançados com PS e Chega, depois de meses de avanços e recuos.

Segundo deputados presentes na reunião, Hugo Soares recordou o “compromisso de honra” que existe entre PS e PSD, e que levou a que, apesar de os socialistas já não terem o segundo maior grupo de deputados na Assembleia da República, continuem a alternar entre si as propostas para a Provedoria de Justiça (neste caso, pelo PS, Tiago Antunes) e o Conselho Económico e Social (o PSD propôs a recondução de Luís Pais Antunes).

Apesar de na reunião, segundo os mesmos relatos, ninguém se ter oposto ou feito intervenções para dar conta de algum incómodo relativamente ao nome de Tiago Antunes, são vários os deputados que assumem estar a par do desconforto e resistência dos colegas. Desconforto e resistência que são, aliás, do conhecimento da direção da bancada.

“Tiago Antunes acabou de sair do governo. Fez parte do núcleo duro de António Costa e tem ligações aos governos de José Sócrates. Este salto quase direto de um governo para este cargo para caiu muito mal aqui [na bancada parlamentar do PSD]. Gerou muito incómodo. E, apesar de haver orientações claras da direção da bancada para votarmos favoravelmente, os deputados pensam pela própria cabeça”, dizia na quarta-feira ao Observador um influente deputado social-democrata.

Além disso, como o Observador tinha escrito, há também deputados da bancada do PS com reservas em relação a Tiago Antunes, o que complica as contas da votação, que acontece às 15h desta quinta-feira e tem de ser aprovada por uma maioria qualificada. A IL e o Chega já se puseram de fora. Juntos, PSD e PS têm apenas 149 deputados. Para aprovarem o nome, precisam que todos os seus deputados votem em Tiago Antunes e contar, por exemplo, com todos os seis deputados do Livre, perfazendo os 155 parlamentares.

Tiago Antunes nunca se fez militante do PS, mas percorre os corredores do partido pelo menos há duas décadas. Começou o seu percurso político como adjunto do então secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, Filipe Baptista, seu colega de faculdade, passou por Bruxelas, regressando em definitivo a Lisboa para substituir Miguel Prata Roque, onde se tornou rapidamente um dos homens da estrita confiança de António Costa.

Depois dessa primeira experiência como adjunto de Filipe Baptista no primeiro governo de José Sócrates — com o primeiro a ser hoje advogado de Sofia Fava e a ter atualmente uma procuração do ex-primeiro-ministro para vir a defendê-lo no julgamento da Operação Marquês —, Tiago Antunes seria chefe de gabinete de João Almeida Ribeiro, o homem das “secretas” internas que se tornaria um dos colaboradores mais próximos de José Sócrates e que o antigo primeiro-ministro escolheu como secretário de Estado Adjunto (2009-2011).

Com a queda do segundo governo de José Sócrates, Tiago Antunes rumou até Bruxelas, onde trabalhou de perto com o então eurodeputado socialista Pedro Silva Pereira. Posteriormente, a saída de Miguel Prata Roque como secretário de Estado da Presidência abriu-lhe as portas para regressar a Lisboa, passando a trabalhar diretamente com a então ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, Maria Manuel Leitão Marques.

A partir de 2019, no segundo governo de António Costa, Tiago Antunes tornou-se secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, assumindo verdadeira centralidade no núcleo mais duro do líder socialista. Em público e nos bastidores, foi uma das peças mais importantes na resposta à pandemia de Covid-19.

Eleição de Tiago Antunes como novo Provedor de Justiça em risco