A Organização Mundial de Saúde (OMS) admite um cenário de transmissão do hantavírus entre as pessoas a bordo do navio de cruzeiro Hondius, isto apesar de as transmissões deste vírus entre humanos serem consideradas raras. A hipótese de uma transmissão entre humanos a bordo ganha força pelo facto de não terem sido encontrados ratos a bordo. Entretanto, a OMS confirmou que se está a coordenar com as autoridades espanholas para que o navio possa atracar nas ilhas Canárias e o Ministério da Saúde espanhol disse que o país “tem a obrigação moral e legal de auxiliar estas pessoas”.
“Acreditamos que possa estar a ocorrer uma transmissão de pessoa para pessoa entre os contactos mais próximos”, disse esta terça-feira Maria Van Kerkhove, diretora da área de prevenção de epidemias e pandemias da OMS, numa conferência de imprensa. Duas das vítimas mortais infetadas com hantavírus eram um casal neerlandês. Citada pela France24, a responsável da OMS acrescentou que há suspeitas de que a primeira pessoa infetada tenha sido contaminada antes de embarcar no navio de cruzeiro.
Maria Van Kerkhove afirmou que a prioridade nesta fase é retirar do navio os passageiros doentes. Entretanto, a Oceanwide Expeditions, empresa responsável pelo cruzeiro, está a ultimar com as autoridades a retirada dessas pessoas, que precisam de assistência médica urgente. Os restantes passageiros e tripulantes que não precisam de assistência médica urgente deverão permanecer a bordo até que um porto de desembarque seja determinado e autorizado.
OMS e União Europeia pressionam e Espanha cede: navio irá para as Canárias
No início da tarde desta terça-feira, a OMS e o Ministério da Saúde espanhol discutiam qual o protocolo a seguir relativamente à retirada dos passageiros infetados do cruzeiro. Inicialmente, a OMS considerava que o melhor plano era mesmo encaminhar o navio para as Ilhas Canárias. Mas o Ministério da Saúde espanhol defendia, num comunicado citado pelo El País que, “dependendo dos dados epidemiológicos recolhidos do navio durante a escala em Cabo Verde”, seria depois “tomada uma decisão sobre o porto de escala mais adequado”.
Apesar de Espanha parecer irredutível na sua posição, acabou por ceder à OMS, após ser pressionado por esta entidade e pela União Europeia. Num comunicado divulgado na rede social X por volta das 21h30, lia-se que a OMS em coordenação com a UE tinha acabado “de solicitar ao Governo de Espanha que acolha a embarcação nas Ilhas Canárias em cumprimento do Direito Internacional e do espírito humanitário”.
España acogerá la embarcación MV Hondius en las Islas Canarias en cumplimiento del Derecho Internacional y el espíritu humanitario. pic.twitter.com/V2Joo7CXgp
— Ministerio de Sanidad (@sanidadgob) May 5, 2026
O próprio presidente do governo regional das Canárias, Fernando Clavijo, defendeu que seria “mais razoável” que o navio seguisse viagem para os Países Baixos, sob cuja bandeira navega, em vez de atracar num porto das Canárias. Mas o Governo espanhol teve de acatar a indicação da OMS e UE. “Espanha tem uma obrigação moral e legal de auxiliar estas pessoas, entre as quais se encontram, inclusivamente, vários cidadãos espanhóis”, lê-se também no comunicado partilhado pelo Ministério da Saúde de Espanha.
Segundo este Ministério, “o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) está a realizar um exame exaustivo ao navio, para determinar que pessoas devem ser retiradas com urgência já na ilha de Cabo Verde”, onde está temporariamente atracado.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, agradeceu, entretanto, ao presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, por ter permitido que o navio de cruzeiro atracasse nas Canárias. Na carta de agradecimento, Ghebreyesus insta o Governo espanhol a trabalhar “coletivamente” e a “evitar restrições desnecessárias que não tenham justificação de saúde pública”.
“Os passageiros e a tripulação do MV Hondius devem poder desembarcar o mais rapidamente possível para reduzir qualquer dano psicológico adicional e para permitir o tratamento médico adequado de problemas de saúde não relacionados com o hantavírus dos passageiros e da tripulação, muitos dos quais são idosos”, explicou o diretor da OMS.
“Os benefícios de desembarcar os viajantes o mais cedo possível reduzirão o risco de outros contactos desenvolverem a doença a bordo, onde é difícil de gerir e diagnosticar, permitem uma desinfeção completa mais precoce do navio e limitam o tempo no mar para qualquer passageiro que possa apresentar sintomas pouco depois de zarpar de Cabo Verde, reduzindo assim a probabilidade de desenvolver uma doença grave”, salientou ainda.
Cabo Verde confirma chegada de ambulâncias aéreas
Durante a tarde desta terça-feira foi avançado por vários órgãos de comunicação social espanhóis que os três passageiros infetados (e que, por isso, precisam de cuidados médicos urgentes), seriam retirados de Cabo Verde diretamente para os Países Baixos e a Alemanha, lia-se por exemplo no El Español. Os dois que têm sintomas seriam levados para os Países Baixos e o terceiro passageiro considerado de alto risco seria levado para a Alemanha, onde ficaria em quarentena e sob supervisão médica.
As autoridades de Cabo Verde confirmaram, na manhã desta quarta-feira, a chegada ao país de uma das duas ambulâncias aéreas que irão retirar três doentes. “A retirada sanitária dos três doentes será realizada nas próximas horas, utilizando duas ambulâncias aéreas, em coordenação com as autoridades nacionais e internacionais competentes”, afirmou o Ministério da Saúde de Cabo Verde num comunicado citado pelo El País. “Uma das ambulâncias aéreas já se encontra em Cabo Verde e espera-se a chegada de um segundo avião em breve”, sublinhou.
Além de aceitar que o navio atraque nas Canárias, Espanha aceitou ainda um “pedido formal do Governo dos Países Baixos para acolher o médico do cruzeiro, que se encontra numa situação grave”, lê-se também no comunicado divulgado.
Não é claro se se trata do passageiro considerado de alto risco e que deveria inicialmente ser levado para a Alemanha. Contudo, as autoridades garantem que o médico “será transportado para as Canárias num avião hospitalar ainda hoje”, sendo que, segundo a CNN Internacional, em Cabo Verde já aterrou uma ambulância aérea.
Grupo vai demorar 3 a 4 dias até às Canárias
Caso o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças conclua ser necessário retirar passageiros com urgência, após isto ser levado a cabo, “o resto do grupo seguirá rumo às Canárias, onde deverá chegar num prazo de 3 a 4 dias”. Esta era precisamente a intenção da empresa que gere este cruzeiro: “O nosso plano é seguir para as Ilhas Canárias, seja para Gran Canaria ou Tenerife, o que vai demorar três dias no mar”, tinha afirmado a firma, citada pelo El Español.
No comunicado divulgado pelo Ministério da Saúde espanhol lê-se ainda que “o porto onde o barco deverá atracar ainda não está definido”. “Lá, tripulação e passageiros serão devidamente atendidos, examinados e levados para os seus países respetivos. O processo será articulado ao abrigo de um protocolo elaborados pela OMS e ECDC e contará com todas as garantias de segurança necessárias. Tanto os cuidados médicos como a retirada das pessoas se realizarão evitando todo o contacto com a população local”, é assegurado em comunicado.
No grupo de pessoas a bordo do cruzeiro há um português. A diretora-geral da Saúde, Rita Sá Machado, detalhou à RTP Notícias que se trata de um membro da tripulação e que “é alguém que reside fora de Portugal“, acrescentando que o trabalho das autoridades sanitárias da Argentina e de Cabo Verde tem “trazido calma e tranquilidade relativamente à situação dos passageiros”.
Na conferência de imprensa desta terça-feira, a OMS confirmou um segundo caso de hantavírus no cruzeiro (confirmado laboratorialmente) e revelou que há outros cinco casos suspeitos. Os dois casos confirmados são o de uma mulher que teve contacto próximo com o passageiro que morreu no dia 11 de abril e o de um passageiro que foi retirado do navio e transportado para Joanesburgo, onde está em estado grave nos cuidados intensivos. O
Os restantes cinco casos suspeitos, ainda não confirmados em laboratório, são os dois passageiros que morreram a 11 de abril (um homem) e a 2 de maio (uma mulher) e os três casos que estão a bordo com sintomas gastrointestinais e/ou febre alta, dois deles elementos da tripulação.
Na Argentina, 81% dos casos dos últimos anos acabaram em morte
O navio partiu da Argentina, onde se têm registado alguns casos destes vírus nos últimos anos, sendo que, no boletim de saúde do país, há registados desde pelo menos 2018/2019.
No último Boletim Epidemiológico Nacional verifica-se que a taxa de mortalidade deste vírus atingiu em 2025/2026 a percentagem mais elevada desde os últimos 8 anos: 32%. Neste último ano, morreram pelo menos 32 pessoas com hantavírus.
No total, desde 2018 até ao corrente ano, registaram-se 644 casos, dos quais 522 (81%) resultaram em morte.
Boletim Epidemiológico da Argentina n.º 806
Segundo a OMS, os relatos de doença a bordo deste cruzeiro foram recebidos entre 6 e 28 de abril, sobretudo febre e sintomas gastrointestinais, com rápida progressão para pneumonia, síndrome respiratória aguda e choque. A 11 de abril morreu o primeiro passageiro a bordo do cruzeiro. A causa da morte não pôde ser determinada durante a viagem e o corpo foi desembarcado no dia 24 de abril, em Santa Helena, para repatriamento. A mulher acompanhou o corpo do marido.
Dias depois, a companhia de cruzeiros foi informada de que a mulher, que já apresentava sintomas, tinha piorado durante a viagem de regresso e falecido a 26 de abril. No dia 4 de maio foi confirmado que tinha contraído uma variante do hantavírus. Entretanto, a OMS anunciou que ativou um protocolo urgente de localização dos 80 passageiros do voo em que viajou também esta mulher, uma cidadã holandesa de 69 anos. Segundo o El Español, em questão estão 80 pessoas que viajaram entre a ilha de Santa Helena e Joanesburgo, na África do Sul.
Também a 27 de abril, outro passageiro, um cidadão britânico, adoeceu gravemente e foi retirado para a África do Sul, onde permanece nos cuidados intensivos em Joanesburgo em estado crítico, porém estável, também com uma variante do hantavírus confirmada. O terceiro óbito, de uma mulher, foi registado a 2 de maio, depois de ter começado a registar sintomas no dia 28 de abril. A causa da morte ainda não foi determinada. Segundo a OMS, o risco para a população mundial é baixo.
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