O presidente do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), Francisco Carvalho, disse esta segunda-feira que os cabo-verdianos falaram de forma “clara” ao darem “maioria absoluta” ao partido.

“Os cabo-verdianos passaram uma mensagem clara: chegou a hora de mudar a gestão do país”, referiu na declaração de vitória, pelas 00h15 (02h15 em Lisboa), na sede do PAICV, na cidade da Praia. Segundo referiu, “já chegaram os resultados da América que faltavam: é maioria absoluta”.

Já o primeiro-ministro e presidente do Movimento para a Democracia (MpD) anunciou já ter felicitado o presidente do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) pela vitória nas legislativas e anunciou a demissão da liderança do MpD.

“Telefonei ao presidente do PAICV a felicitá-lo pelo resultado e a desejar-lhe sucessos na governação”, referiu Ulisses Correia e Silva no domingo à noite.

Discurso da derrota: presidente do MpD deixa liderança do partido

Ao fazer o discurso da derrota na sede nacional do MpD, na cidade da Praia, Ulisses Correia e Silva garantiu que o partido assumirá o seu papel no parlamento como “oposição responsável”, comprometendo-se a continuar a servir Cabo Verde e a assegurar uma transição governativa tranquila.

“A passagem de pastas será assegurada com normalidade, como deve ser em democracia, garantindo uma transição tranquila e pacífica, demonstrando mais uma vez que Cabo Verde é uma democracia madura e respeita as regras institucionais”, afirmou.

Perante os resultados, o líder do MpD indicou que irá apresentar a demissão da presidência do partido, para permitir a eleição de uma nova liderança.

“Não vou colocar o meu lugar à disposição, vou apresentar a minha demissão como presidente do MpD, para que o partido possa escolher um novo presidente, novos órgãos e novos dirigentes, entrando numa nova fase”, declarou.

Elevada abstenção nas legislativas

Ulisses Correia e Silva comentou ainda a “elevada abstenção”, de cerca de 53%, sublinhando que este será um tema de reflexão interna para apurar as motivações. “Será um trabalho que o partido irá fazer internamente e que também será objeto de análise por parte dos analistas”, referiu.

Além disso, defendeu que a renovação interna é importante para o fortalecimento do partido, sublinhando que “as pessoas passam, as instituições continuam”.

Apelou também à normalização da vida política após as eleições, defendendo uma mensagem de tranquilidade, aceitação dos resultados e redução da crispação política. “A vida continua. Terminadas as eleições, devemos regressar à normalidade, transmitir ao país uma mensagem de tranquilidade e centrar-nos no essencial, que é fazer o país avançar”, afirmou.

O líder do MpD considerou ainda que o desenvolvimento do país não depende apenas de quem governa, mas também dos cidadãos, das organizações e das instituições.

Ulisses Correia e Silva afirmou ainda que está na altura de encerrar o seu ciclo político. “Há vida para além da política. Foram vários anos de dedicação, como primeiro-ministro, presidente da Câmara da Praia, deputado e membro do Governo. É tempo de dar lugar a outros”, disse ainda.

O coordenador nacional da campanha do Movimento para a Democracia (MpD, poder), Rui Figueiredo Soares, assumiu que o partido “não terá atingido os objetivos” nas legislativas de domingo, em Cabo Verde. “Devemos aceitar que, pelos dados até agora compilados, o MpD não terá atingido os seus objetivos, que eram, essencialmente, ter uma maioria absoluta”, referiu o dirigente, numa altura em que estavam 95,8% das mesas de voto apuradas.

“Até agora, os dados que temos apontam para um melhor resultado do Partido Africano da Independência de Cabo Verde”, acrescentou, dizendo que o MpD respeitará escrupulosamente os resultados finais. “Isto surpreende-nos em alguns círculos, porque contávamos ter resultados diferentes”, referiu.

Segundo dados provisórios atualizados pelas 00h08 locais (02h00 em Lisboa) pelas autoridades eleitorais, o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) lidera a contagem global com 88.390 votos (46,6%) e 33 deputados (de um total de 72), quando estão apurados os resultados provisórios de 1.302 mesas de voto (97.7% do total), registando-se uma taxa de abstenção global de 53.3%.

Na mesma altura, o MpD conta 82.946 votos (43,7%) e 30 deputados, enquanto a União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) 9.791 votos (5,2%) e dois deputados.

Montenegro felicita líder do PAICV e saúda “apego democrático”. Carneiro sublinha “expressiva vitória”

O primeiro-ministro português felicitou o presidente do PAICV pela vitória nas eleições legislativas e saudou o apego democrático dos cabo-verdianos. “Felicito Francisco Carvalho pela vitória nas eleições legislativas em Cabo Verde. Nesta nova fase que agora se inicia saúdo o apego democrático de todos os cabo-verdianos e reitero a plena disponibilidade de Portugal para continuar a trabalhar e a cooperar com um país irmão”, escreveu Luís Montenegro, na rede social X.

“Além da força dos laços que nos unem, partilhamos também prioridades comuns: mais desenvolvimento, mais prosperidade e mais crescimento. Por Portugal e por Cabo Verde”, acrescentou o governante português.

Também o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, saudou a vitória de Francisco Carvalho, dizendo que o país lusófono “deu uma lição de democracia ao mundo”. Paulo Rangel disse que “o país tem tido muitos períodos de alternância democrática”, acrescentando que é “um dos países com que Portugal tem as melhores relações”.

Já o secretário-geral do PS felicitou o que diz ser uma “expressiva vitória”, considerando um “sinal da esperança” dos cabo-verdianos numa governação “centrada nas pessoas, justiça social e reforço democrático”.

Numa mensagem de felicitações a Francisco Carvalho, à qual a agência Lusa teve acesso, Carneiro considerou que a vitória do PAICV “traduz a confiança depositada pelos cidadãos cabo-verdianos no projeto político” que, nas palavras do líder do partido vencedor, é por um país “mais justo, mais próximo das pessoas e com oportunidades reais para todos”.

“A vitória agora alcançada constitui igualmente um sinal da esperança dos cabo-verdianos numa governação centrada nas pessoas, na justiça social, no reforço democrático e na criação de oportunidades para todos”, enfatizou.

O secretário-geral do PS apontou os “laços históricos de amizade, cooperação e partilha de valores progressistas” que unem os dois partidos, referindo que os socialistas acompanham “com particular apreço este momento significativo para o PAICV e para o povo cabo-verdiano”.

“Estou convicto de que esta nova etapa contribuirá para aprofundar o desenvolvimento de Cabo Verde e fortalecer os vínculos históricos entre os nossos povos”, disse, desejando “os maiores sucessos no exercício das responsabilidades que agora assumem”.