A urgência regional de Ginecologia/Obstetrícia de Loures — que dá resposta à população do hospital de Vila Franca de Xira — tem estado condicionada nos últimos dias e a receber apenas grávidas encaminhadas pelo Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) do INEM durante determinados períodos. Em causa, explicam o INEM e o hospital, está a falta de vagas no bloco de partos, uma limitação que obriga a desviar utentes para outros hospitais. Segundo apurou o Observador junto de um médico do hospital de Loures, o bloco de partos dispõe apenas de cinco camas e fica lotado com frequência.
“Nos últimos dias, a Urgência de Ginecologia e Obstetrícia da ULS de Loures-Odivelas registou alguns períodos de constrangimento no bloco de partos, com necessidade de referenciação prévia ao CODU“, sublinha o INEM, explicando que “sempre que se verificam estes constrangimentos, as grávidas são avaliadas e encaminhadas, caso a caso, para a unidade hospitalar da rede do SNS que, em cada momento, apresenta as melhores condições para assegurar a resposta clínica adequada, em articulação entre o CODU/INEM e a rede hospitalar”.
Numa curta resposta, a ULS de Loures-Odivelas reconhece que “podem verificar-se, pontualmente, períodos de sobrelotação” do bloco de partos, mas garante que o “bloco de partos da Urgência Centralizada Regional de Ginecologia e Obstetrícia de Loures-Odivelas/Estuário do Tejo encontra-se a funcionar com normalidade”. Só esta terça-feira, e segundo informação disponível no portal das urgências do SNS, o bloco de partos esteve sem vagas durante a madrugada (entre a 1h30 e as 5h30) e novamente durante grande parte da manhã (entre as 8h30 e as 12h30). Contudo, este cenário tem-se repetido ao longo dos últimos dias, adianta o INEM.
Bloco de partos do hospital de Loures tem apenas cinco camas
O bloco de partos do hospital Beatriz Ângelo, em Loures, tem apenas cinco camas, diz ao Observador o médico anestesiologista João Nunes, que trabalha uma vez por mês na urgência obstétrica. O também delegado sindical da Federação Nacional dos Médicos sublinha que o número atual de camas “é insuficiente” para acomodar as grávidas da área de influência da ULS Loures-Odivelas e, desde março, da ULS do Estuário do Tejo — que passou a encaminhar as grávidas para o Beatriz Ângelo depois do encerramento da urgência de Ginecologia/Obstetrícia do Hospital de Vila Franca de Xira.
Na prática, vinca João Nunes, a afluência à urgência aumentou, bem como o número de partos, mas a infraestrutura do hospital Beatriz Ângelo não se alterou — o que, alerta o médico, “pode estar a criar potenciais desequilíbrios” no serviço de urgência. O Observador questionou a ULS Loures-Odivelas sobre se o bloco de partos está subdimensionado, mas não obteve resposta.
Poucos dias depois do início de funcionamento da urgência regional, em meados de março, o diretor da urgência de Ginecologia/Obstetrícia do hospital de Loures pedia um reforço do número de médicos para garantir as escalas do serviço, e avisava que o serviço estava no limite da sua capacidade assistencial a nível dos partos. “No ano passado fizemos 2.700 partos e não temos capacidade para fazer muito mais neste momento. Daí que tudo o que possa vir de recursos humanos ajudar-nos é bem-vindo”, dizia Carlos Veríssimo.
No primeiro mês de funcionamento da urgência, entre 16 de março e 15 de abril de 2026, o hospital Beatriz Ângelo fez mais 200 partos em comparação com o período homólogo.
O médico João Nunes diz não ter conhecimento, para já, de problemas no preenchimento das escalas da urgência obstétrica e confirma que o problema se prende com a falta de vagas no bloco de partos.
Urgência regional Garcia de Orta continua condicionada por falta de médicos
Mas se no hospital de Loures não existe, por agora, um problema de disponibilidade das equipas, o mesmo não acontece na margem sul do rio Tejo. O polo principal da urgência centralizada de Ginecologia/Obstetrícia da Península de Setúbal, que funciona no hospital Garcia de Orta, está a funcionar de forma condicionada esta terça-feira, um cenário que se vem repetindo ao longo dos últimos dias devido à falta de médicos.
Segundo o portal das urgências do SNS, o serviço de urgência obstétrica esteve apenas a receber grávidas encaminhadas entre a meia noite e as 8h desta terça-feira, regressando a esse modelo de funcionamento entre as 13h15 desta terça-feira e as 8h desta quarta-feira, ou seja, durante todo o período noturno.
Em resposta ao Observador, a ULS Almada-Seixal confirma os constrangimentos, motivados por falta de médicos. “A Urgência de Ginecologia e Obstetrícia da ULS Almada-Seixal (ULSAS) encontra-se referenciada ao CODU/INEM até às 08h30 de quarta-feira, 15 de julho, por imprevisto na escala de urgência médica, devido a ausências temporárias e inesperadas”, esclarece a ULS, ressalvando que “a urgência não está fechada, continuando a dar resposta a casos urgentes”.
Hospital Garcia de Orta precisaria de mais 10 médicos obstetras para funcionar em pleno
A ULS adianta que, para funcionar sem qualquer constrangimento, “e sem sobrecarregar as equipas”, a Urgência de Ginecologia e Obstetrícia precisaria de mais 10 médicos, sendo que o Conselho de Administração, liderado pelo médico Pedro Azevedo, “aguarda, com expectativa, os resultados do último concurso”.
A somar aos constrangimentos nesta unidade hospitalar (que deveria estar a funcionar em pleno depois da concentração de urgências feita em abril) estão as limitações na urgência de Ginecologia/Obstetrícia do hospital de Setúbal, que esteve também a receber apenas grávidas encaminhadas pelo CODU entre a meia noite e as 9h desta terça-feira. Ou seja, durante esta madrugada, nenhum serviço de urgência de Ginecologia/Obstetrícia da Península de Setúbal esteve a funcionar em pleno — o que já acontecera pelo menos uma vez nos últimos dias, como noticiou o Observador.
As limitações na urgência do hospital Garcia de Orta verificam-se desde domingo, dia 4 de julho, devido à falta de médicos para o preenchimento das escalas da urgência regional — que foi criada em abril, e que implicou o fecho da urgência externa de Ginecologia/Obstetrícia do hospital do Barreiro. Nos casos em que as urgências de Obstetrícia da Península de Setúbal se mostram indisponíveis para receber grávidas, o INEM encaminha as mulheres para os hospitais de Lisboa.
A urgência centralizada de Ginecologia/Obstetrícia na Península de Setúbal arrancou a 15 de abril, concentrando a resposta em dois polos: no hospital Garcia de Orta (que conta com um serviço de apoio perinatal diferenciado e que se prevê que dê também resposta às utentes da área de influência da ULS do Arco Ribeirinho, que abarca o hospital do Barreiro) e no hospital de São Bernardo (que se previa poder dar resposta a toda a população da sua área de influência e ainda ao litoral alentejano, até Sines).
À data, o diretor-executivo do SNS justificava a medida com a falta de profissionais, sublinhando que a concentração de urgências iria acabar com a instabilidade no atendimento às utentes na península. “Com a centralização da urgência em Ginecologia e Obstetrícia, elimina‑se a anterior instabilidade no funcionamento destes serviços na região”, assegurava o responsável. Algo que não está a acontecer.
Segundo a ULS, desde 15 de abril e até esta terça-feira foram realizados cerca de 870 partos e registadas mais de 6.400 admissões na urgência de Ginecologia/Obstetrícia do Garcia de Orta, “o que representa mais do dobro da atividade registada em período homólogo de 2025 (392 partos e 2.694 admissões em urgência)”.
[Um poderoso empresário concorre à Câmara de Lisboa e vai fazer tudo para ganhar as eleições, ao mesmo tempo que vive um drama familiar: o filho foi raptado e está desaparecido há quase um mês. Onde está afinal José Valbom? “O Candidato Perfeito” é o novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, e é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]