Foi a polémica mais inesperada do Mundial 2026. Com Argentina e Inglaterra a cruzarem-se nas meias-finais, as feridas ainda muito abertas da Guerra das Malvinas entre os dois países nos anos 80 voltaram a sangrar. Mas a verdade é que a discussão sobre o tema já tinha recomeçado ainda antes — e continua a aparecer, nos jornais, na política e nos campos de futebol, mesmo depois de o Campeonato do Mundo já ter terminado.

Puxando a fita atrás, o debate sobre a soberania do arquipélago no Oceano Atlântico, a cerca de 500 quilómetros da costa leste da América do Sul, chegou ao Mundial 2026 à boleia de um cântico dos adeptos argentinos. Em todos os jogos da Argentina desde o início do Campeonato do Mundo, nas bancadas ouviu-se “por Malvinas, por el Diego, por la última de Leo, Argentina quiero verte bicampeón”. Um verso que alimentou ainda mais a rivalidade do tal jogo das meias-finais, que os argentinos acabaram por vencer com uma reviravolta nos descontos, e que deixou os ingleses com um novo amargo de boca depois do mítico jogo do Mundial 1986 em que Diego Armando Maradona marcou dois dos golos mais famosos de sempre.

Mundial 2026. Argentina contra Inglaterra: como a Guerra das Malvinas ainda influencia o futebol

Depois do apito final, apesar de tanto Thomas Tuchel como Lionel Scaloni terem desvalorizado o contexto geopolítico do jogo, os jogadores argentinos celebraram no relvado e em conjunto com os adeptos com recurso a uma tarja onde se lia “as Malvinas são argentinas”. Em Inglaterra, depressa surgiram várias vozes a condenar a atitude dos argentinos, recordando que o Código Disciplinar da FIFA prevê sanções para “manifestações políticas” e exigindo uma penalização. “O Mundial pode não ser nosso, mas as Ilhas Malvinas são definitivamente. A nossa posição permanece inalterada. A autodeterminação cabe aos ilhéus e o nosso compromisso com as Malvinas nunca vai falhar”, disse, na altura, a porta-voz de Keir Starmer, o então primeiro-ministro britânico.

Javier Milei, porém, teve naturalmente uma posição bastante diferente. “É um sentimento que existe em todos os argentinos e é perfeitamente válido e legítimo que queiram expressá-lo. As Malvinas são, de facto, argentinas. Um jogo de futebol é um jogo de futebol, o que acontece em campo com os jogadores não faz parte da diplomacia. Sanções? Na pior das hipóteses é uma multa de 30 mil dólares”, referiu o presidente da Argentina, garantindo que o país vai recuperar o arquipélago “por meios diplomáticos”.

Entretanto, já depois de a Argentina perder a final do Mundial 2026 para Espanha, o assunto parece continuar completamente em cima da mesa. Na chegada a Buenos Aires depois do derradeiro jogo de domingo em Nova Jérsia, a irmã de Leandro Paredes pareceu responder diretamente à reação de Keir Starmer à tarja das meias-finais e voltou a recordar o tema. “Chegar até aqui e vencer Inglaterra pelo caminho foi tudo para nós. Podemos não ter a quarta estrela, mas temos as Malvinas”, disse Bárbara Paredes aos vários jornalistas que a rodearam no aeroporto — principalmente devido ao envolvimento do irmão numa clara agressão a Gavi já depois do fim da final.

Longe do Mundial 2026, mas novamente num relvado, as Malvinas voltaram a ser protagonistas esta segunda-feira e em Montevideu, a capital do Uruguai. Na primeira mão do playoff de acesso à Taça Sul-Americana, a segunda competição mais importante da América do Sul atrás da Taça Libertadores, os argentinos do Tigre foram ao Uruguai vencer o Nacional — onde joga Sebastián Coates, antigo capitão do Sporting. Nos festejos da vitória por 3-0, os jogadores do Tigre apareceram em campo com uma tarja muito parecida à das meias-finais do Campeonato do Mundo, celebrando novamente à boleia da frase “as Malvinas são argentinas”.

Não é fácil explicar o porquê de, mais de 40 anos depois de mais de 800 pessoas morrerem num conflito que terminou com a vitória de Inglaterra e a derrota da Argentina, o assunto ter voltado à atualidade — com o futebol como principal meio de divulgação e disseminação, aproveitando a rivalidade fora de campo entre os dois países para explorar uma rivalidade ainda maior dentro de campo. Contudo, existem pistas.

Argentina promete recuperar Malvinas após acordo entre Reino Unido e Maurícias

Em abril, a comunicação social dos EUA deu conta de um leak de um memorando interno do Pentágono onde era sugerida a ideia de os norte-americanos retirarem o reconhecimento diplomático da soberania de Inglaterra nas Malvinas, como forma de retaliação pela ausência de apoio dos britânicos à intervenção da administração de Donald Trump no Irão. Mais recentemente, vários comentadores norte-americanos associados ao Partido Republicano disseram mesmo que o presidente dos EUA pode estar a “reexaminar” a posição do país face ao arquipélago.

A proximidade entre Donald Trump e Javier Milei é conhecida, com os EUA a terem encontrado na Argentina o seu principal aliado daquele lado do mundo, e os dois países estabeleceram recentemente uma base militar conjunta em Ushuaia, na Patagónia, com o presidente argentino a referir sem grandes reservas que a base é “um primeiro passo para começar a pensar em recuperar as Malvinas”.