Um troço de pouco mais de um quilómetro (km) da Estrada Nacional (EN) 2 em Pedrógão Pequeno, concelho da Sertã, mantém-se cortado há seis meses e sem solução, denunciaram a população e autarcas, aludindo a graves prejuízos económicos.

O presidente da Câmara da Sertã, Carlos Miranda, classificou esta sexta-feira o corte da EN 2 como “muito difícil”, aludindo aos impactos negativos ao nível turístico e da economia local.

Em declarações à agência Lusa, Carlos Miranda notou os prejuízos relativos ao corte da estrada, que se mantém há seis meses, desde as tempestades do último inverno, não só para quem não pode circular pela alternativa do IC8, mas também para o fluxo turístico habitual “muito importante para a economia de Pedrógão Pequeno”.

“Passava ali muita gente que, agora, vai diretamente a Pedrógão Grande através do IC8. Nós, Câmara Municipal, fizemos ali um percurso alternativo, para bicicletas e para tratores, mas é uma coisa precária, são dois ou três quilómetros, em terra batida. (…) Mas, de noite, obviamente, não é recomendável, é perigoso. De dia, para quem quiser ir de bicicleta, até tem sítios bastante bonitos sobre a albufeira, mas não é solução, aquilo não é solução”, enfatizou o autarca.

Em Pedrógão Pequeno, que pertence à rede das Aldeias do Xisto e está localizado na margem esquerda do rio Zêzere, no distrito de Castelo Branco, com vista para a albufeira do Cabril e Pedrógão Grande, já no distrito de Leiria, Sandra Martins, empresária da restauração, faz contas à vida e aos prejuízos de “150 a 200 euros diários” que tem tido, desde que as tempestades do último inverno cortaram o acesso à vila pela EN2, face a uma alegada instabilidade da encosta adjacente à via.

A questão é mais premente por não haver alternativa ao trânsito local — de tratores agrícolas, bicicletas, veículos sem carta ou ciclomotores — que não pode circular pelo Itinerário Complementar (IC) 8, enquanto quem percorre, muitas vezes de moto, a via mais extensa de Portugal, a EN2, cartaz turístico de quase 739 quilómetros entre Chaves e Faro, também deixou de passar pela freguesia.

“Não tem sido fácil trazer os clientes até ao restaurante. A Nacional 2 era um meio de passagem [pela barragem do Cabril] para as pessoas que só têm motorizadas e para aqueles carros que não precisam de carta, que não podem circular no IC8 e deixaram de vir”, explicou Sandra Martins.

“São, pelo menos, 10 clientes diários que eu tinha e que acabei por perder, porque eles não conseguem passar. Foi uma quebra muito grande aqui no restaurante, mas em Pedrógão Pequeno todos perdemos”, vincou. Para além dos turistas que deixaram de fazer a EN2 naquele troço, também os que demandam à margem direita da albufeira, na praia fluvial do Cabril, deixaram de aparecer.

“Às vezes encomendavam uns frangos e vinham buscar, para fazer um piquenique. Agora, como têm de fazer a volta toda [pelo IC8] para os vir buscar, já não vêm”, lamentou, aludindo ao percurso de seis quilómetros, ida e volta, que aumentou três vezes em extensão, para os 18 quilómetros.

Já Sílvia Silva, presidente do município de Santa Marta de Penaguião, que, nessa qualidade, também preside ao conselho diretivo da Associação de Municípios da Rota da Estrada Nacional 2, lamentou à Lusa que o turismo “só tenha força quando as coisas correm bem”. “Mas, se correrem mal, ninguém lhes dá a devida importância, a verdade é essa”, argumentou.

A associação tem feito diversas intervenções sobre o assunto junto dos poderes públicos (Governo, IP e Turismo de Portugal), mas Sílvia Silva reconheceu que mesmo sendo a EN2 “um produto turístico de excelência”, a entidade que dirige não possui peso político para conseguir, por si só, resolver a questão.

Aquando da primeira presidência aberta de António José Seguro, em 6 de abril, meia centena de pessoas de Pedrógão Pequeno juntou-se no local com uma faixa onde se lia “Senhor Presidente precisamos de ajuda. A N2 é a nossa sobrevivência”.

Luís Dias, empresário do ramo do turismo, dirigiu-se, na altura, a António José Seguro, considerando que o encerramento daquele troço estava a castrar a região. Na resposta, o chefe de Estado indicou que iria levar o tema, no dia seguinte, à reunião semanal com o primeiro-ministro, Luís Montenegro.

Seis meses volvidos, Luís Dias criticou a falta de respostas das entidades oficiais à população, com exceção da Assembleia da República, tendo havido contactos com grupos parlamentares e deslocações ao local de vários deputados.

O empresário não poupa o Governo, a Infraestruturas de Portugal, nem o Presidente da República: “Nós não temos resposta nenhuma de ninguém. À Presidência da República também já enviámos algumas questões, mas somos um povo, e desculpem dizer isto, que nem sequer somos dignos da resposta do senhor Presidente da República”, criticou.

A Lusa contactou a Presidência da República, questionando o que António José Seguro tem a dizer à população de Pedrógão Pequeno, mas também não obteve resposta.

No entanto, segundo o Diário da República, a IP lançou, a 1 de junho, um concurso público para a “estabilização de taludes de escavação” num troço de 1.070 metros da EN 2 em Pedrógão Pequeno, incluindo, na mesma empreitada, uma outra intervenção idêntica, também no concelho da Sertã, mas na EN 237 entre Cernache do Bonjardim e Figueiró dos Vinhos (distrito de Leiria).

Este concurso, que tinha prazo de apresentação de propostas até 29 de junho, um valor base de 1,5 ME + IVA e um prazo de obra de 180 dias (seis meses) foi, no entanto, alvo de uma alteração em 24 de junho, tendo o prazo de apresentação de propostas sido alargado até 14 de julho.

Aparentemente, de acordo com o portal Base de contratos públicos, ainda não houve qualquer adjudicação.

Luís Dias notou que “nunca houve uma derrocada ou um buraco” naquele troço da EN2, mas que existiu sempre o que a Infraestruturas de Portugal “chamou de risco”, exigindo uma solução adequada às necessidades da população.

“A estrada tem 72 anos, fez 72 anos em 31 de julho e sempre lá caíram pedras. Se a estrada tem pedras, foi a IP que lá as pôs para a fechar. Puseram aqueles ‘jerseys’ [barreiras] de betão no meio da estrada e têm vindo a reforçá-los, estão preocupados em fechá-la, não em arranjar alternativas para a abrir”, acusou.