O mandato de Miguel Guimarães, ex-bastonário da Ordem dos Médicos (OM) entre 2017 e 2023, foi alvo de uma denúncia que já está nas mãos dos serviços do Ministério Público. O Observador sabe que os alegados ilícitos criminais, apontados na queixa, estão diretamente relacionados com atos de Miguel Guimarães, embora possa haver outros membros da Ordem referidos no documento.
A denúncia original foi enviada para a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) em outubro de 2025, tendo sido analisada pela IGAS durante vários meses no âmbito de um processo formal de inspeção. Fonte oficial do Ministério da Saúde confirma ao Observador que também recebeu a denúncia e que a encaminhou para a IGAS.
No final do processo de inspeção, os inspetores decidiram enviar “o acervo do processo (…) para a ministra da Saúde e para o Ministério Público”. Em resposta ao Observador, a IGAS explica a decisão com o facto de “uma parte substancial das condutas descritas” ser “expressamente qualificada pelo denunciante como suscetível de integrar ilícitos criminais” — o que não se enquadra nas competências da Inspeção-Geral das Atividades em Saúde.
O Observador questionou a Procuradoria-Geral da República sobre se abriu um inquérito na sequência da análise a essa documentação, mas não obteve resposta até ao momento de publicação desta peça.
Miguel Guimarães desconhece denúncia e diz que nunca usou cartão de crédito da Ordem
Contactado pelo Observador, Miguel Guimarães garantiu que não “tem conhecimento de qualquer denúncia. “É a primeira vez que oiço falar disso. Ninguém me contactou sobre esse tema — nem a IGAS, nem o Ministério Público”, assegurou.
Confrontado com a denúncia de gastos pessoais alegadamente ilícitos, o ex-bastonário da Ordem dos Médicos recusou qualquer ilegalidade: “Nunca usei o cartão de crédito para gastos pessoais. O cartão foi-me atribuído e ficou fechado no cofre da Ordem.”
Guimarães fez ainda questão de explicar que todas as suas viagens e hotéis eram tratados pelos serviços da Ordem dos Médicos. “Por exemplo, como moro no Porto, tinha de vir a Lisboa regularmente. Quando tal acontecia, eram os serviços da Ordem que tratavam de tudo. Pontualmente, pode ter ocorrido eu ter apresentado faturas de despesas ao serviço da Ordem que me foram reembolsadas.”
Como a IGAS avaliou a denúncia enviada em outubro de 2025
Questionada pelo Observador, fonte oficial da IGAS confirmou que recebeu uma denúncia a 29 de outubro de 2025 “com factos suscetíveis de configurar ilícitos criminais e administrativos ocorridos na Ordem dos Médicos entre 2017 e 2023 [o mandato de Miguel Guimarães]”.
Tal denúncia levou à abertura de um processo de inspeção por despacho do inspetor-geral da IGAS a 28 de dezembro de 2025, tendo o mesmo sido concluído a 7 de agosto de 2026.
Segundo fonte oficial da IGAS, “a denúncia apresentada compreende um conjunto heterogéneo de imputações, reportando-se, maioritariamente, a alegados factos respeitantes ao funcionamento interno da Ordem dos Médicos e à eventual prática de ilícitos de natureza criminal”.
Do ponto de vista de alegadas irregularidades administrativas — que é o foco do trabalho da IGAS —, nada foi encontrado que justificasse “diligências inspetivas juridicamente fundadas”, diz a mesma fonte.
Tendo em conta que “uma parte substancial das condutas descritas é expressamente qualificada pelo denunciante como suscetível de integrar ilícitos criminais”, e não tendo a IGAS, continua fonte oficial, competência para “desenvolver investigação criminal, recolher prova penal ou apreciar a responsabilidade criminal dos visados”, foi “determinado o envio do acervo documental do processo de inspeção para o MP” e para a “ministra da Saúde” [Ana Paula Martins].
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