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A atriz foi fotografada no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, onde leva à cena o espetáculo "Menopausa", com grande parte das récitas já esgotadas
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▲A atriz foi fotografada no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, onde leva à cena o espetáculo "Menopausa", com grande parte das récitas já esgotadas

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

▲A atriz foi fotografada no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, onde leva à cena o espetáculo "Menopausa", com grande parte das récitas já esgotadas

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

"Quando você bota a Cláudia Raia, primeiro vem o talento e depois vêm as pernas, o corpo. Pode caminhar junto, tá tudo certo"

A atriz brasileira volta a Portugal para dar palco à menopausa num espetáculo que percorrerá o país. "Mais que entretenimento, é um ato político, um levantar de bandeira etarista”, diz em entrevista.

Pontualíssima, Cláudia Raia dá os últimos retoques nos longos cabelos que se tornaram imagem de marca. Cercada por uma equipa, usa saia lápis justa, um casaco de cabedal, veste preto integral. Os gestos e a pose denunciam anos de bailarina, com uma naturalidade tal que quando a lente da câmara se afasta se mantêm.

Mas as aspirações artísticas de Maria Cláudia Motta Raia (Campinas, Brasil, 1966) sempre foram além da imagem perfeita. Ela que quando abre os braços enche a boca de cena. Afinal, de uma mulher grande fez-se uma atriz monumental no Brasil e em Portugal, onde se deu a conhecer em outubro 1987 como Ninon em Roque Santeiro, a telenovela com a maior audiência de sempre no Brasil e que por cá teve direito até a caderneta de cromos.

Fez mais de 600 capas de revista, sobreviveu ao olhar público desde a adolescência, casou, descasou, brilhou em todos os palcos, agarrou em tantos outros ecrãs, ganhou prémios, fez do nome adjetivo. Aos 58 anos, diz que hoje olha com mais afeto para a Maria Cláudia, “essa mulher real que carrega a Cláudia Raia”. “E que nem sempre acerta, e está tudo bem, mas que está tentando se reinventar no seu segundo ato.”

O novo espetáculo de Cláudia Raia, Menopausa, que se estreia dia 29 de janeiro no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, com grande parte das datas já esgotadas, é uma comédia musical sobre as mudanças corporais, inquietações e expectativas sobre uma das fases mais impactantes e menos discutidas da vida das mulheres. Mas é também um grito que reclama uma urgência do debate sobre o assunto. “É mais do que entretenimento, é um levantar de bandeira etarista”, diz a atriz ao Observador. Em entrevista, fala do estado de graça da cultura brasileira pós-Bolsonaro, denuncia o etarismo na indústria, explica porque já não se declara a político algum — o que só aguça a curiosidade pela sua preferência ideológica — e revela planos para produzir e, assim, ser ainda mais livre.

▲ Cláudia Raia é atriz e produtora, mas começou a carreira como bailarina. "A minha alma é de bailarina, minha disciplina é de bailarina e continuo dançando", diz aos 58 anos

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

A menopausa é descrita como “o segundo ato da vida” de uma mulher. Geralmente, no teatro, o segundo ato é melhor do que o primeiro. Aqui acontece o mesmo?
Sem dúvida.

O estudo Menopausa: Como é vivida pelas mulheres em Portugal, feito no ano passado, revela que mais de metade das mulheres sente-se pouco ou nada preparada para a menopausa, e que quatro em cada cinco consideram haver pouco debate sobre o tema.
É isso mesmo.

Foi por isso que quis fazer um espetáculo sobre a menopausa?
Foram várias coisas que aconteceram ao mesmo tempo. Esse espetáculo é mais do que um entretenimento, mais do que uma comédia. Uso a arte para fazer um serviço. Foi uma ideia que tivemos num jantar em São Paulo, com os meus sócios portugueses do Plano 6, a Ana e o Miguel. A gente começou a falar de um espetáculo musical, que já existe, chama Menopause, musical norte-americano. A gente olhou um para cada outro e disse: porque a gente vai fazer um espetáculo americano? Vamos fazer um nosso. Vamos escrever um espetáculo sobre isso. Até porque é uma relação minha e da Ana Rangel, que é muito próxima, ela está passando pela mesma fase, então ela sempre me consultava muito em relação às coisas que ela estava sentindo. Há uns sete anos que falo disso nas minhas redes sociais de maneira muito efusiva, porque ainda é um tabu no mundo inteiro, aqui em Portugal talvez um pouco mais do que no Brasil. Mas o espetáculo demorou uns dois, três anos para ser escrito, com muita pesquisa. A autora do espetáculo também está na menopausa, é a Anna Toledo, a mesma autora do Conserto para Dois, o espetáculo que a gente trouxe para cá [em 2020]. Então, era quase que um grito de socorro, meu e dela, para que fôssemos ouvidas, para que finalmente fôssemos ouvidas. E qual é a melhor maneira de ser ouvida? É através da arte, da comédia, é trazendo o assunto de maneira leve. Porque o assunto é duro, é difícil. Você falar sobre isso é difícil. Até porque ao você dizer que está na menopausa está assinando em baixo: estou velha. Isso é o que embutiram na cabeça da gente. É como fomos criadas.

O homem amadurece, a mulher apodrece?
O homem amadurece lindamente e a mulher acaba. A mulher, depois que ela passa pelo processo de reprodução, não existe mais. Isso é o patriarcado, é o machismo. Porque as mulheres nessa idade são muito mais potentes, têm, na maioria das vezes, independência financeira, sua carreira consolidada, seus filhos criados. Isso é uma ameaça para o patriarcado. Essa mulher não serve, essa mulher vai dar problemas, essa mulher vai questionar, essa mulher vai perguntar. Então, a gente faz o que? Anula essa mulher. Digo que depois dos 40 aparece um buraco onde as mulheres são jogadas ali e acabou. Elas vão reviver aos 80 como a velha fofinha, a vovózinha fofinha. Hoje, a mulher de 50 é diferente de há 20 anos, não é mais a vovó fofinha que fica fazendo tricot. Quem quiser fazer tricot e ficar na cadeira de balanço, está tudo bem também, mas quem não quiser tem um segundo ato imenso a ser explorado. E acredito piamente que o segundo ato é infinitamente melhor do que o primeiro. É no segundo ato que as histórias se finalizam, que os amores acontecem, que a liberdade de expressão acontece. A mulher está muito mais criativa, muito mais potente, muito mais sabendo o que ela quer e, principalmente, sabendo o que ela não quer.

"Acredito piamente que o segundo ato é infinitamente melhor do que o primeiro. É no segundo ato que as histórias se finalizam, que os amores acontecem, que a liberdade de expressão acontece. A mulher está muito mais criativa, muito mais potente, muito mais sabendo o que ela quer e, principalmente, sabendo o que ela não quer."

Fala sobre o lado positivo, mas a menopausa ainda é vista como uma “fase má ou muito má da vida” por pelo menos 64% das mulheres, de acordo com este estudo. É a sua forma de olhar para o mundo ou, de facto, a menopausa tem um lado solar? A sinopse do espetáculo antecipa muito humor.
Acontece que o que a gente fala da menopausa é que é assim, é uma fase da mulher e isso tem que ser passado. Não é verdade. Hoje existem, inclusive, estudos importantíssimos e sérios de Harvard e tal, que mostram que todas as mulheres têm de fazer reposição hormonal, todas, sem exceção, mesmo as que têm história de cancro na família. Foi feito um estudo, há pouquíssimo tempo e muito sério, em que foi colocado um chip de progesterona no seio de uma mulher que tinha um cancro na mama, e este cancro regrediu 100%. É uma história polémica e vai durar anos para a gente conseguir que as pessoas entendam isso, mas você não pode passar a metade da sua vida sofrendo. Isso é inaceitável. Há médicos que ainda são retrógrados, que ainda leem os livros onde a mulher de 50 está fadada ao fracasso. Essa mulher não é mais essa que está escrita nos livros. Alguns médicos se dispõem, se disponibilizam a aprender com essa nova mulher de 50 que não está nos livros e que eles também não sabem como lidar. É simplesmente inaceitável que a gente tenha de viver metade da nossa vida sofrendo, não tendo relações sexuais, não tendo libido, tendo secura vaginal, com um humor que você está prestes a matar uma pessoa. Não é possível uma pessoa viver assim e achar que isso é normal.

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O interesse profundo sobre este tema adveio da sua experiência?
Com certeza. Na verdade, sempre me preparei muito para isso, porque sempre quis estar atenta para a minha maturidade. Ela iria chegar, eu pesquisava, conversava, queria saber, indagava os médicos, ia atrás de informação e a coisa começou a acontecer comigo. Falei: não, isso não é possível de alguém aceitar, de alguém suportar isso. A reposição hormonal simplesmente me tirou desse buraco, desse lugar. Hoje estou incrível, mas já estive péssima, já estive no fundo do poço. Tudo que a gente fala no espetáculo são experiências nossas. E, no final, eu venho de Cláudia e falo sobre a minha menopausa.

Quebra a chamada quarta parede e fala diretamente com o público?
Sim, quebro a quarta parede, sento no banco e converso com a plateia e pergunto da experiência das pessoas. E as pessoas podem pegar o microfone e falar. A Wells, que inclusive é o nosso patrocinador, fez um evento muito importante aqui no Tivoli [em 2024], no qual eu participei e palestrei sobre menopausa e longevidade. E eu percebi que as pessoas querem pegar o microfone e querem falar.

Querem quebrar um silêncio que ainda persiste.
As pessoas não são ouvidas! Então quando elas se sentem no lugar de fala delas e que elas podem ser ouvidas e acolhidas, elas querem falar. Pessoas pegavam o microfone e contavam histórias. Foi aí que resolvi fazer, no final do espetáculo, esse bate-papo. Em que nos expomos mesmo umas às outras. Os homens ficam a saber o que as mulheres estão passando, porque eles não sabem. Ninguém nunca contou, ninguém nunca falou. É importante os homens saberem que a andropausa existe, o que é a menopausa masculina e que eles podem estar a passar por isso também. Não da mesma forma que a gente porque tudo para o homem é sempre mais suave, não é? Mas eles também passam e eles nunca ouviram falar de andropausa. Então, além de ser um espetáculo absolutamente informativo, ele é lúdico, ele vem através da comédia. Porém, eu me exponho. O processo desse espetáculo me levou para um lugar muito louco. Eu me olhei no espelho de novo e vi a minha história refletida através das minhas personagens. Todas essas personagens têm a Cláudia dentro delas e eu quero falar sobre isso, sobre a minha vulnerabilidade. Porque as pessoas acham que a gente é famosa e tem uma carreira, que nada disso acontece com a gente. Acontece do mesmo jeito e é duro tanto quanto. E eu queria falar sobre isso, mostrar que eu não sou a superwoman.

A lógica é “se a Cláudia Raia tem, eu também posso ter”.
Exato. Eu também tenho. E se a Cláudia Raia está dizendo que pode ser melhor, pode ser melhor. Essa, na verdade, é a mensagem do espetáculo. Vamos construir o melhor segundo ato das nossas vidas e ele começa agora.

No cartaz de Menopausa surge praticamente sem roupa. O que significa para a exposição corporal, agora, aos 58 anos, por oposição ao início da sua carreira. Sente-se mais confortável, menos, como é a sua relação com o corpo hoje?
Mais, muito mais confortável.

Mostrar o corpo é também uma forma de empoderamento? Sei que Madonna é uma das suas maiores referências.
Completamente, completamente. E mostrar o corpo como ele é, como ele está ficando, porque não é mais um corpo de 20, é um corpo de 58. Eu tenho três filhos, acabei de ter um bebé. É como ele é. E foi ele que me trouxe até aqui, foi ele que vai ficar comigo até o fim. E eu acolho ele. E eu amo ele. Esse corpo.

Quando fala sobre questões corporais menciona sempre numa inabalável disciplina que lhe permitiu chegar aqui. Por vezes atribui a disciplina ao facto de ter sido bailarina profissional, outras vezes ao facto de ser capricorniana. Não considera que parte dessa vida regrada também poderá terá origem na disciplina que historicamente foi imposta às mulheres?
Na verdade, fui criada assim. Sou bailarina, minha alma é de bailarina, minha disciplina é de bailarina e continuo a dançar. O meu corpo é um instrumento de trabalho. Não é para me encaixar num padrão, num modelo, é para que eu me sinta bem, porque o meu corpo foi treinado para isso. O meu corpo sem a dança, sem a atividade física, sem eu estar no meu peso ideal, é desconfortável para mim, para eu dançar. É uma questão profissional, mais do que tudo. E é a imagem que eu gosto de ver, claro. Na verdade, é para me satisfazer, é para eu ficar feliz. Engordei 15 quilos na gravidez. Me olhava, depois que tive o bebé, e dizia: esse corpo eu não reconheço. Eu falava comigo mesma: vai no seu tempo, você fez uma criança aos 56 anos de idade, isso é um milagre, vamos voltar como puder ser. Foi um processo lento e aprendi muito. Eu sempre fui magra, incrível, malhada, cheia de músculo e tal, e dessa vez não foi bem assim. Mas voltou no tempo que tinha que voltar. Devo a isso, a um lifestyle muito saudável de uma vida inteira, de uma alimentação maravilhosa, de uma atividade física, de não beber, não fumar, não me drogar, enfim, tudo isso que acredito como vida. “Ai, que vida chata!” Não é chata. É uma delícia. Eu me divirto. Quando conheci o Jarbas [Homem de Mello, marido], ele falou: você não bebe? Não bebo nada, eu só bebo água com gás. Ele disse: não é possível isso, algum vinho você tem que tomar. Hoje tomo uma tacinha de vinho de vez em quando, também me divirto, mas nunca precisei disso para viver. Não é o meu estilo de vida, não gosto de viver assim.

Tudo isto para dizer que chegar ao corpo que tem hoje não foi um sprint, foi uma maratona.
Foi uma maratona, mas prazerosa. Não foi: ai não posso comer isso. Amo comer,  sou neta de português e tenho os outros três avós italianos, minha vida é comer. Costumo brincar que malho, treino para comer. Não vou me privar disso. Agora, tenho uma alimentação saudável, não como açúcar, não gosto de doce, tenho a família inteira diabética, já fui acostumada a não comer doce. Tem muitas coisas que me ajudam a chegar aqui assim, um pouco melhor, talvez.

"Sou um fruto dos anos 80, onde a objetificação era nítida e notória. Quantas vezes, desde os meus 19 anos, chegava como produtora ao CEO da empresa, oferecia o espetáculo e ele me fazia uma proposta. Eu dizia: não é para isso que eu vim aqui. Perdi dinheiro de patrocínio, oportunidades. Pensei: não tem problema, vem outra. Aquela eu não quero."

Falava do corpo enquanto ferramenta. Quando se fala na Cláudia Raia fala-se de talento, nome maior da representação brasileira, mas também de pernas infinitas, e lá está, de corpo. Como foi ao longo da sua carreira, no pináculo dos anos 1980, lidar com uma objetificação descarada? Ouvi uma entrevista em que chegou a perguntar se “fazer novela era mostrar a bunda”.
Sou fruto dos anos 80, onde a objetivação era nítida e notória. Sempre lidei muito bem com isso, porque só escutava o que queria. Cantadas, como a gente chama, dos homens, propostas e tal, ia tirando da frente e ia passando. Quantas e quantas vezes produzi meus espetáculos, desde os meus 19 anos, chegava várias vezes ao CEO da empresa e oferecia o espetáculo e ele ali me fazia uma proposta. E e eu dizia: não é para isso que eu vim aqui, vim aqui para mostrar o meu trabalho, o meu talento, o meu projeto. Se não serve para você, muito obrigado por ter me recebido. Levantava e ia embora. Venho de uma família feminista, de uma família de mulheres. A vida inteira aprendi a lidar com isso: a não aceitar e a revirar caso acontecesse.

Sofreu alguma vez por isso?
Algumas vezes sim. Já perdi coisas. Perdi dinheiro de patrocínio, perdi oportunidades. Pensei: não tem problema, vem outra. Aquela eu não quero.

Pensou sempre assim?
Sempre. Eu tive uma mãe muito forte, muito feminista, muito empoderada. Quando fui molestada aos 13 anos de idade morava em Nova Iorque. Foi a própria pessoa que me acolheu, que me hospedou, que me assediou. Minha mãe dizia: você joga o que tiver do seu lado na cabeça da pessoa, você não permita. No dia que ele veio, eu tinha uma coruja de cristal e fiz “pá” na cabeça dele e acabou na mesma hora. Para você ver o quanto é importante a criação, a educação, o falar sobre tudo. Eu simplesmente não aceitei aquilo. Tinha 13 anos, morava no Harlem com uma família, um super coreógrafo que me acolheu, que dava aulas na academia da minha mãe — por isso que minha mãe confiou nele para me ter. Ele me assediou. Mas eu nunca aceitei, em momento algum. Teve um momento, no começo da minha carreira, que trabalhei com o Jô Soares num programa de comédia, foi ali que eu comecei. Era o Viva o Gordo. Ali a gente passava de biquíni e maiô, anos 80, aquilo… Nitidamente, eu me lembro do dia que falei: eu tenho dois caminhos, ou eu viro um sex symbol e viro uma mulher linda e minha carreira vai acabar quando eu tiver 30 anos ou eu me torno uma atriz. E para eu me tornar uma atriz, eu tenho de usar da minha beleza para chegar ali. Decidi isso, que eu ia me tornar uma atriz. Há essa coisa que uma comediante, geralmente, não é bonita. As comediantes, geralmente, são feias. Isso na cabeça das pessoas. Então, para eu ser engraçada, não podia ser bonita. Então, eu era bonita. Então, não podia ser engraçada. Por que eu não podia ser engraçada? Eu sou uma comediante. A vida inteira fui comediante. Depois, virei só uma comediante. “Ah, e não faz drama?” Faço sim. Vou provar que eu vou fazer drama. Então, foi uma vida de matar três leões por dia? Foi. Mas, como disse, graças a Deus, quando você bota a Cláudia Raia, primeiro vem o talento e depois vem as pernas, o corpo. Tudo bem. Pode caminhar junto, tá tudo certo.

Era muito nova no programa do Jô Soares (1938-2022), como explica já ter esse discernimento?
Não sei. Uma coisa de Deus, de nossa senhora de Fátima, que embutia na minha cabeça. Eu percebia as coisas. Inclusive, quando eu fiz a novela Roque Santeiro, a minha primeira novela, era uma prostituta, não tinha fala nenhuma, era só uma figuração…

Tinha 17, 18 anos?
18 anos. E tinha essa história da bunda… Fui perguntar se fazer novela era mostrar a bunda. Tudo aquilo me incomodava muito, mas eu estava indo, estava percebendo o que acontecia…

▲ Cláudia Raia (à esquerda), durante a gravação da novela Roque Santeiro, exibida na Globo em 1985, e que chegou a Portugal dois anos depois, em outubro de 1987. A novela seria reposta na SIC em 1993

Jorge Araújo - 19.out.85

Disseram-lhe que se tivesse talento, a câmara chegaria eventualmente à sua cara.
Sim, e pensei comigo: vai chegar na minha cara, vou dar um jeito nisso. Depois acabou a novela, eu não era contratada da Globo ainda, e me chamaram para fazer uma outra novela, para fazer uma prostituta também. E eu não aceitei. Minha mãe disse: “pelo amor de Deus, você está doida? Você não é contratada? Estão te chamando para fazer essa novela e você vai falar não?”. Eu disse: “mamãe, o meu physiquedurôle é de uma mulher exuberante, sexy, grandona. Se eu fizer de novo uma prostituta, eu só farei prostituta. Eu não posso fazer uma prostituta em seguida”. Eu tinha esse feeling, sabe? Não sei te explicar de onde. Acho que é uma intuição, sei lá. Assim foi. E consegui ter, na minha carreira, papéis completamente diferentes.

Pensei perguntar-lhe como olha para a representação das mulheres nas novelas e se algo mudou na última década, mas, na verdade, os papéis que fez sempre fugiram ao tradicional.
Porque não sou uma atriz tradicional. Não sou a mocinha nem a vilã.

Esse reduto da mulher nas novelas, entre a mocinha e a vilã, mudou nos últimos anos?
Tem que mudar, não é? Porque a mocinha idiota não dá mais, não cabe mais. Sempre me incomodou isso, porque as mocinhas que eu fiz foram escritas para mim. Os autores escreviam para mim os papéis. Eu era mocinhas ou atabalhoadas, ou engraçadas, ou politicamente não tão corretas. E isso era muito divertido. Graças a Deus tive a oportunidade de fazer papéis muito diferentes. As vilãs também tinham uma tinta um pouco mais forte, porque eu sou uma atriz mais forte. Acho que tive a sorte de fazer uma carreira com papéis muito diferentes.

Sem obedecer à ditadura de um género de papéis tipificados.
É, sem estar enquadrada naquele formato. É um jeito Cláudia Raia de ser [risos]. Aconteceu no nosso meio essa história. “Ah, eu hoje estou meio Cláudia Raia”. Virou meio um adjetivo. Na verdade, é uma maneira diferente de ser e levo isso para os meus personagens.

“O ato político do artista está no palco. Não está só no que diz fora [dele]. Esse espetáculo [sobre a menopausa] é mais do que entretenimento, é um ato político, um levantar de bandeira etarista.”

Vê-se como uma exceção numa indústria em que os papéis femininos foram tendencialmente formatados? Há pouco tempo elogiou publicamente o filme A Substância [2024] — que tem Demi Moore como protagonista aos 62 anos — e notava como dificilmente seria possível um filme como este acontecer há um par de anos.
É. É por isso que cada vez mais tenho vontade de produzir as minhas próprias coisas, porque isso me dá uma autonomia muito grande. No teatro faço isso há muitos anos e funciona muito bem. Ao ponto de produzir uma [peça sobre a pintora brasileira] Tarsila do Amaral, que é um papel para mim, para a minha idade, e não precisar de ninguém para me chamar.

Há planos de trazer esse espetáculo para Portugal?
Adoraria. Mas tem 65 pessoas. É imenso. Não tem como trazer isso. O cenário é gigantesco, é tudo enorme. Adoraria trazer para cá ou para Paris, que foi onde ela morou quase que a metade da vida. O espetáculo é deslumbrante, é lindo, maravilhoso, e fez um sucesso estrondoso. O que me dá muita vontade também de começar a produzir audiovisual porque quero escalar os meus próprios papéis. Isso me dá uma autonomia. Porque também tem isso, tem um etarismo muito forte na indústria. Alguma coisa vai ter que mudar. Porque nos Globos de Ouro todas as atrizes eram 50 mais. Todas, sem exceção.

A cultura do Brasil está a viver um momento particularmente feliz, com o sucesso internacional do filme de Walter Salles, Ainda Estou Aqui [2024]. Como é ver a cultura do Brasil vingar, depois de, usando as suas palavras, praticamente “morrer” no governo anterior?
É uma grande vingança. É maravilhoso. Eu tinha certeza que isso ia acontecer. Porque a cultura, nos piores momentos políticos, em qualquer país, sobreviveu. Porque a cultura é a identidade de um país. Ela não pode morrer. Como é que chega alguém e esquarteja a identidade de um país? Não é possível isso acontecer. Isso tem data para começar e data para terminar.

Teve um grande projeto teatral cancelado após um vídeo que publicou na internet em que dizia “EleNão”, referindo-se a Jair Bolsonaro, antes das eleições brasileiras, em 2018. Em 1989, já tinha sofrido represálias por ter apoiado publicamente o ex-presidente Fernando Collor, que acabaria por ser alvo de um impeachment. Como é hoje a sua relação com a política?
Enquanto cidadã sei muito bem o que quero e o que não quero para o meu país, mas como artista resolvi me abster. Porque hoje o mundo está dividido em dois, na extrema-direita e na esquerda e eu sou do partido da Cultura. Não sou nada nem ninguém. Sou a favor da identidade do meu país, que ela esteja viva e latente, que a igualdade, que é uma coisa que nosso país vive de uma maneira muito extrema, que isso seja melhorado de alguma maneira. O governo de agora traz isso com muito mais generosidade do que o anterior. Não sou PT, não sou Lula, mas o que estamos vivendo agora é infinitamente melhor do que estávamos vivendo há quatro anos.

▲ Depois de passar por Lisboa a atriz leva o espetáculo em digressão nacional até abril, passando por cidades como o Porto, Aveiro, Leiria, Figueira da Foz e Faro

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Há quem considere que os artistas se devem posicionar, que há um dever que advém da sua posição pública. Não se filiando a um partido, ouvimo-la falar de políticas públicas — como a Lei Rouanet, uma lei de incentivo à cultura, que, basicamente, oficializa o mecenato. É possível não se posicionar ideologicmaente e falar de políticas públicas?
Acho, porque é política pública, na verdade. As pessoas falam e elas não sabem do que estão falando. Uma pessoa como eu, que tenho 8 milhões de seguidores, e que pode informar, acho que sempre o posicionamento do artista é informar, clarear as ideias. É colocar de uma maneira fácil das pessoas entenderem. Tenho feito muito isso. Não é uma forma de não me filiar a nenhum partido. É uma forma de eu conversar com o meu público sobre coisas importantes que têm a ver com a minha profissão e com a identidade do país. É por isso. É para clarear.

Fazer um espetáculo sobre a menopausa é um ato político?
Sem dúvida nenhuma. Por isso digo que o ato político do artista está no palco. Não está só no que diz fora [dele]. Isso é um ato político. Esse espetáculo é mais do que entretenimento, é um levantar de bandeira etarista. Como é [fazer o espetáculo da] Tarsila, que era uma feminista, uma mulher espetacular nos anos vinte. Ela já era moderna nos anos 1920, era surreal o que essa mulher fez. Isso é a minha palavra política, esse é o meu ato político, o que eu faço no palco.

“Achei que a maturidade fosse me assombrar. Olhar a minha imagem e não ser a mesma, começar a ver as imperfeições. Mas está indo muito bem. Me preparo, faço terapia, entendo quais são os meus gatilhos. Não é: “estou pronta, vem a maturidade”. Não. É um processo diário."

Diz que a sua vida é um sketch de comédia. Não houve espaço para desgraça ou só olha para o copo cheio?
Claro que houve momentos tristes e difíceis. Nada trágico, uma doença mortal, um acidente, uma coisa horrorosa. Mas tive momentos difíceis, separação, falecimento da minha mãe. Mas eu sou a pessoa que olha o copo cheio, sim. Para mim importa muito mais o que conquistei do que o que não tenho. Sou muito grata pelo que tenho e conquistei. A gratidão é uma coisa que preenche a minha alma. Todos os dias eu acordo e penso: ai, que bacana a minha vida. Penso: obrigada pelos meus filhos, pelo meu casamento, pela minha carreira, pelo sucesso que faço no teatro, na televisão, pelo público que paga para vir me ver, pela saúde que tenho. Que mais posso pedir?

De variadas formas, esteve sempre à frente da sua cultura, do seu tempo, falando sem tabus sobre temas como o aborto, o abuso, assumindo-se como feminista antes de o termo ser popular, partilhando a experiência de ser mãe aos 55 anos. Há algo que a assombre? Algo sobre o qual não queira falar?
Não tenho medo de falar nada. Qualquer coisa que me perguntar vou responder. Sou livre, posso falar de tudo o que eu quiser. Não tenho medo de nada. Pensei que a maturidade fosse me assombrar. Digo maturidade, não gosto de falhar de velhice, porque acho que a velhice está na cabeça, não está no corpo. Não quero ficar velha, quero ficar madura. Mas achei que a maturidade fosse me assombrar, olhar a minha imagem, não ser a mesma, começar a ver as imperfeições. É só um processo cada vez maior, mas está indo muito bem. Me preparo, faço terapia, fico entendendo quais são os meus gatilhos. É um processo diário. Não é: “estou pronta, vem a maturidade”. É um processo diário de trabalhar, de perceber.

É a mulher que trabalha para ser?
É exatamente isso. Todos os dias trabalho duro para ser, para me aguentar. Falo isso no espetáculo, que essa história me fez olhar com mais afeto para a Maria Cláudia, essa mulher real que carrega a Cláudia Raia e que nem sempre acerta, e está tudo bem, mas que está tentando se reinventar no seu segundo ato.

Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa (29 janeiro a 2 de março), Coliseu do Porto (6 a 9 de março) Teatro Aveirense, em Aveiro (13 a 16 de março), Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, (20 a 23 de março), Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz (de 27 a 30 de março), Teatro das Figuras, em Faro, (4 a 6 de abril).

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