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PEDRO SILVA

PEDRO SILVA

25 anos de “Viagens”: a história de um disco que “todas as editoras mandaram para trás” /premium

“A indústria queria mais do mesmo e eu não tinha mais do mesmo para dar”, diz ao Observador Pedro Abrunhosa. Este domingo, o músico vai voltar a apresentar as canções do seu disco de estreia ao vivo.

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Bastou um mês para que se tornasse “disco de ouro”. O sucesso foi tanto que os jornais chegaram a falar em “Abrunhosamania”. Porém, fazer com que Viagens chegasse às lojas de discos e aos ouvidos das pessoas em 1994 foi tudo menos fácil para Pedro Abrunhosa. “O meu contacto com a indústria musical começa por ser um contacto de choque. Entre 1991 e 1993, todas as editoras tiveram oportunidade de ouvir o ‘Viagens’. E todas as editoras mandaram o disco para trás”, conta hoje o compositor e cantor portuense ao Observador.

Pedro Abrunhosa vai voltar a recordar as canções do seu disco de estreia — de “Não Posso Mais” a “Socorro”, de “É Preciso Ter Calma” a “Tudo o Que Te Dou” — este domingo, na Alameda, em Lisboa. O concerto, inserido na programação do festival RTP Andamento, acontece no ano em que se assinala um quarto século do lançamento de um disco em que Abrunhosa trabalhou com a primeira formação da banda Bandemónio, com os produtores “Quico” Serrano e Mário Barreiros (também baterista), com o saxofonista norte-americano e parceiro de longa de data de James Brown, Maceo Parker, e com um músico, DJ e produtor inglês chamado Norman Cook, que uns anos mais tarde tornar-se-ia um fenómeno mundial já com o nome artístico Fatboy Slim.

Como é que a “Abrunhosamania” nasceu e como é que um antigo contrabaixista de jazz e música contemporânea do Porto se tornou uma estrela pop nacional aos 33 anos? Aproveitando quer a data redonda dos 25 anos de Viagens, quer o concerto do próximo domingo em Lisboa, fomos ouvir Pedro Abrunhosa e Mário Barreiros, dois dos intervenientes principais de um álbum que introduziu o funk-jazz e já uns pozinhos de hip-hop ao público generalista português. “Agora é fácil dizer que [o sucesso] era óbvio. Não, não era óbvio. Tudo aquilo tinha tudo para dar errado. Mas também tinha tudo para dar certo”, vinca o portuense que continua a considerar-se mais “escritor de canções” do que “cantor”.

A capa de “Viagens”, o álbum de estreia de Pedro Abrunhosa & os Bandemónio

O que andou Abrunhosa a fazer antes de “Viagens”?

Na indústria musical e nos corredores da música pop, não é habitual as revelações serem trintões com carreira feita em universos tão distintos da música popular quanto os jazzísticos e clássicos. Foi assim com Pedro Abrunhosa, no entanto. O músico, que começou por ser exclusivamente instrumentista, teve uma formação clássica no Conservatório mas cedo começou a aliar a isso uma vida de estrada regular, com atuações em pequenos bares e clubes de jazz. A partir dos 16 anos, os concertos começaram a multiplicar-se, às vezes com “cachês de tostas mistas”, recorda.

Bruno Peres

Bruno Peres

Inicialmente apenas contrabaixista, Pedro Abrunhosa começou a ter “formações próprias, pequenos grupos de jazz tradicionais — duetos, trios, quartetos…”, como hoje lembra. Foi assim que passou a adolescência e início da vida adulta, entre “o empirismo da estrada e o rigor científico do Conservatório”.

Doze anos antes de editar o seu primeiro álbum Viagens, então com apenas 21 anos, Pedro Abrunhosa fundou a Escola de Jazz do Porto. A inauguração motivou a abertura de um concurso para a formação de uma orquestra, que veio a dirigir. “Concorreram cerca de 100 músicos” — e dos 100, ficaram 35. Apesar da tenra idade, já com alguma bagagem de concertos e conhecimento académico, Pedro Abrunhosa tornou-se maestro da orquestra que montou. “Fazíamos repertório tradicional de jazz. Duke Ellington, Count Basie, Miles Davis, etc. Parti com esse grupo para a estrada e éramos a única orquestra de jazz em Portugal, não havia outra”.

“Senti que faltava qualquer coisa a todas as pessoas que fomos tendo a interpretar temas, quer na Orquestra de Jazz do Porto quer na Cool Jazz Orchestra. Não existe tradução em português para o que faltava, era um soul feeling, um sentimento soul e funk que não se coadunava com perceções técnicas”.

A Orquestra de Jazz do Porto foi evoluindo e a evolução passou também por um emagrecimento: a dada altura, dos 35 elementos que inicialmente tinha, sobravam apenas 15, “já com o Mário Barreiros na bateria”. A orquestra mudou de nome, passou a chamar-se “Cool Jazz Orchestra” e de repente já não tocava apenas os standards jazz, já navegava pelos territórios do funk, o género musical criado pelas comunidades afro-americanas nos anos 1960 que pegava no jazz, na soul e no rhythm and blues e os tornava uma só coisa, festa tão espiritual e interventiva quanto sensual e lasciva. De orquestra a banda, o grupo foi diminuindo de dimensão até ficar reduzido a dez elementos. E o título de orquestra de cool jazz, porventura já menos adequado, deu lugar ao de Máquina de Som.

Foi quando ainda andava pelo país a dar concertos de funk e jazz com a Máquina do Som, a “demorar sete horas para chegar a Chaves, porque ainda não havia auto-estradas como as que há hoje”, que Pedro Abrunhosa começou a delinear os sucessos que o país viria a ter na ponta na língua, alguns anos mais tarde. Quem ouvisse “Não Posso Mais” ou “Lua” no final dos anos 1980 e início dos anos 1990 talvez não as reconhecesse imediatamente, porque as canções mudaram muito até invadirem as rádios, mas talvez tenha sido esse um dos segredos para que os temas do primeiro álbum de Pedro Abrunhosa não fossem apenas esboços preliminares de êxitos futuros, mas canções maduras, consolidadas, trabalhadas há muito.

De músico a descobrir-se cantor com “soul feeling”

Por esses finais dos anos 1980, já há muito que o portuense tinha de deixado de ser apenas instrumentista (e maestro) para se tornar também cantor. Foi percebendo gradualmente que deveria ser ele a assumir o papel do frontman, ao assistir à tentativa de outros em cantarem o que escrevia: “Senti que faltava qualquer coisa a todas as pessoas que fomos tendo a interpretar temas, quer na Orquestra de Jazz do Porto quer na Cool Jazz Orchestra. Não existe tradução em português para o que faltava, era um soul feeling, um sentimento soul e funk que não se coadunava com perceções técnicas”.

Pedro Abrunhosa foi ganhando a convicção de que quer nas versões de funk que começou a fazer já com a Cool Jazz Orchestra, quer em composições suas que levou posteriormente para a formação Máquina do Som, era o melhor intérprete. Não achava que era necessariamente o mais afinado ou o que tinha um maior alcance vocal, mas era o mais expressivo e eficaz de todos os intérpretes testados como cantores.

[“Não Posso Mais”:]

As exigências dos géneros musicais em que se especializava também reforçavam a ideia de Pedro Abrunhosa de que talvez fizesse mesmo sentido ter os holofotes sobre si: “O cantor de jazz e sobretudo de funk tem de ter mais do que apenas rigor técnico, tem de ter expressividade. Cantar bem no rock e no funk é quase um estorvo. Vemos a tradição do rock e do funk e está pejada de músicos que cantam com alma e por isso é que cantam bem. Cantar bem no rock é isso”.

A escrita de canções foi mesmo o momento definitivo em que o antigo contrabaixista assumiu que fazia sentido dar voz a temas: “A partir do momento em que escrevo as canções, não as posso dar a mais ninguém para as interpretar. Até porque as canções já iam carregadas de algumas idiossincrasias da minha própria voz. Em princípio, o autor é sempre aquele que sabe melhor dar voz às suas músicas, em minha opinião”, refere Abrunhosa.

Um dos responsáveis pela formação gradual dessa convicção foi Mário Barreiros, o “vizinho”, amigo de infância e músico que se juntou a ele nos anos 1980 para tocar na Máquina do Som. “Logo que me apercebo que o Pedro tem um certo sex appeal, um magnetismo qualquer como frontman, sou uma das pessoas que o motiva, que lhe diz: pá, tu tens de ser…”, aponta o instrumentista e produtor musical ao Observador. “No fundo, o Pedro estava mal no contrabaixo. Ser sideman [músicos que acompanham um líder] é algo que para mim, por exemplo, faz sentido, sou-o com muito orgulho e prazer. Mas o Pedro tem outro temperamento, não podia ficar pelo contrabaixo, tinha de ser um frontman. Tem força, é um animal de palco”.

“Fiz inúmeras viagens a Lisboa demorando oito ou nove horas a chegar”, recorda agora. Ficava a dormir num apartamento em Almada, de um amigo, “que gentilmente cedia o espaço”, levantando-se ao início da manhã para as reuniões com executivos da indústria. Numa fase inicial, nenhum acreditou na proposta de Abrunhosa para o disco 'Viagens'.

O amigo de longa data confirma a influência da opinião de Mário Barreiros na decisão de se tornar em definitivo intérprete vocal: “Eu e o Mário Barreiros começámos por nos aperceber que cada vez que, ainda diretor de orquestra, ia exemplificar como é que achava que um tema devia ser cantado, tinha aptidões expressivas que eram uma mais valia no ato de cantar. Apesar das limitações que tinha, sentíamos que o resultado das minhas interpretações era mais eficaz. E a dada altura é o próprio Mário que me desafia a assumir que sou um cantor”. E ele assim se assumiu em Viagens, um intérprete que, como cantor, acrescentava aos temas “qualquer coisa de maldade, de sensualidade, de languidez, de sangue, suor e provavelmente de sexo, que faltava”.

As editoras a que mostrava as cassetes: “Em alguns casos recebiam-me de pé”

Quando entrou nos anos 1990 já a escrever as canções que viriam a surgir, com outras roupagens, no seu primeiro álbum de originais, Pedro Abrunhosa via um país que “tinha vivido 48 anos num estado militarizado, com polícia política”. Era um país “extremamente religioso, ainda conservador, ainda fechado, e a indústria musical refletia isso porque os próprios autores refletiam-no”. Como aponta hoje, “não se pode nunca dissociar movimentos artísticos da realidade sociológica que os envolve”. Dá exemplos: o contexto influenciou do “funk em Detroit” ao “hip-hop nas ruas de Nova Iorque” e ao “movimento da house nos anos 1990 e 2000”.

Em Portugal, havia escritores de canções que o inspiravam, como José Afonso (“pela escrita e pela postura”), Sérgio Godinho (“incontornável”), Jorge Palma (“figura absolutamente iconográfica e que abriu muitos horizontes”), Carlos do Carmo (“sempre uma referência, também por causa da urbanidade da poesia do Ary dos Santos”), Rui Veloso, “os rigorosos Jafumega” e António Variações (“teve uma curta carreira mas deixou marcas, abordava os assuntos frontalmente”). Talvez mais do que todos os outros, era um aficionado dos Heróis do Mar: “Para mim, foram uma abertura incrível de portas mentais. Tinha 20 e tal anos, estava no Conservatório, estudava Stockhausen mas via nos Heróis do Mar a mesma qualidade, independentemente do género musical que faziam. Aliás, para mim Miles Davis e Heróis do Mar eram a mesma coisa: música que gostava de ouvir, sem preconceitos de estilo”.

[“Socorro”:]

Assim se explica que um antigo contrabaixista de jazz com formação clássica tenha lançado, há 25 anos, canções que viriam a agitar e marcar a pop nacional como como “Socorro” e “Não Posso Mais”. Mas foi preciso convencer as editoras portuguesas de que as canções que planeava mostrar ao mundo tinham potencial para vingar no mercado discográfico, ainda para mais cantadas por si.

Com os temas gravados em cassete e o disco idealizado, o músico portuense começou um périplo por gravadoras discográficas para as sensibilizar para a sua música. “Fiz inúmeras viagens a Lisboa demorando oito ou nove horas a chegar”, recorda agora. Ficava a dormir num apartamento em Almada, de um amigo, “que gentilmente cedia o espaço”, levantando-se ao início da manhã para as reuniões com executivos da indústria. Numa fase inicial, nenhum acreditou na proposta de Abrunhosa para o disco Viagens: “Não vou nomear a quais fui especificamente, mas fui a todas. Também não vou dizer o nome das pessoas porque ainda são vivas, mas toda a gente recusou o disco. Em alguns casos receberam-me de pé nos escritórios, ou nem sequer ouviram ou ouviram muito superficialmente”.

Uma pessoa mudou tudo: Carlos Maria Trindade, músico dos Heróis do Mar e produtor musical que na altura fazia parte da estrutura da antiga Polygram, hoje Universal Music Portugal. “Ao entrar na Polygram, deparei-me com a visão e a categoria dele, que era ali uma carta fora do baralho, ele próprio músico. Normalmente aqueles que são grandes, seja de que área forem, é a sua capacidade de ver mais além. E o Carlos Maria Trindade viu. Pelos vistos, a julgar pelo sucesso comercial do disco, quer ele, quer eu, quer o Mário Barreiros estávamos certos”.

Mário Barreiros, por sua vez, faz outra revelação: antes da intervenção de Carlos Maria Trindade, a Polygram chegou a dar luz verde às canções de Viagens, mas mediante uma condição: que não fosse Pedro Abrunhosa a cantá-las. “Lá conseguimos convencer o diretor da Polygram, que insistia que assinava o contrato, sim, mas com outro cantor. E o Pedro, claro, disse que não, que os temas eram dele e que tinham de ser interpretados por ele, como é evidente”.

“Quem é músico com ligação ao jazz normalmente tem muita empatia com quem também o é. Demo-nos bem e facilmente se criou ali uma empatia, uma relação boa. Mandei-lhe uma cassete, o Maceo [Parker] aceitou o desafio e o resto é história”, recorda Pedro Abrunhosa.

Apesar de convencida, a editora foi cautelosa no investimento feito com o disco. A primeira edição saiu com apenas duas mil cópias, que “esgotaram ainda o disco não tinha chegado”, conta Abrunhosa. Para a segunda edição, fizeram-se mais duas mil cópias para colocar à venda. E novamente esgotaram. Foi assim sucessivamente, até à décima edição. Quando esta esgotou também, entrando Viagens na categoria de disco de ouro ao fim de um mês de vendas (eram preciso vendas de 20 mil cópias para se atingir essa distinção), tudo mudou.

Havia aqui um fenómeno que talvez já não fosse passageiro, percebeu a Polygram. “Até aí achavam que aquilo ia parar. Só então a opinião mudou: estou eu numa sala da Polygram em Lisboa e entra finalmente na sala o presidente da Polygram Portugal da altura, para me conhecer. Fê-lo porque comecei a aparecer-lhe no computador como um encaixe financeiro”. Depois de Viagens ter-se tornado disco de ouro, as edições passaram a ser de dez mil exemplares — e continuaram a esgotar. Hoje, o músico calcula que o disco tenha vendido “perto de 250 mil exemplares, aliás provavelmente vendeu mais”.

Miguel Madeira

Miguel Madeira

A desconfiança inicial com a editora não foi o suficiente para a abandonar tempos mais tarde. Aliás, o contacto entre artista e representantes foi suficientemente sano para que hoje Abrunhosa continue a lançar discos e a ser promovido pelo mesmo grupo, hoje já chamado de Universal Music Portugal. No entanto, nunca foi uma ligação a salvo de divergências e atritos: “A minha relação com a editora na altura era uma relação artística com o Carlos Maria Trindade, sobretudo. Também com o departamento de promoção da Polygram, que era extraordinário e continua a ser, tem um know-how adquirido imenso. Mas a administração? Zero, não queriam saber [de mim] para nada”.

Com o então presidente da sucursal portuguesa de um dos maiores grupos multinacionais da indústria musical, já falecido, o autor de Viagens chegou a ter “uma relação de amizade”, mas que também tinha à mistura “momentos de muita animosidade”, conta agora.

Maceo Parker a tocar na Gare Tejo, Casino da Póvoa…

Antes de gravar o álbum, Pedro Abrunhosa, que “simultaneamente era professor” de música, recrutou para tocar consigo cerca de dez alunos. “Eram alunos excelentes, muito novos, tinham 13 ou 14 anos. Foram treinados — a palavra é mesmo essa — e ensaiados para cumprir uma funcionalidade funk. São quatro desses alunos que depois dão origem à formação dos Bandemónio”, que acabou por mudar entre o primeiro e o segundo disco do compositor e cantor, editado em 1996 e intitulado Tempo.

[“Tudo o que eu te dou”:]

Os músicos da primeira formação dos Bandemónio, diz Abrunhosa, tiveram uma participação residual nas gravações, tendo o grosso dos temas sido delineado e gravado por si, por Mário Barreiros e por alguns elementos externos, como o trompetista Laurent Filipe e a cantora (que assegurou coros) Maria João Silveira. As gravações iniciais foram “artesanais”, feitas “na minha casa, na baixa do Porto”, conta o autor dos temas, acrescentando: “Os cabos iam pela casa toda, pela cozinha, pela casa de banho, por todo o lado”.

Quem, segundo Abrunhosa, teve uma participação muito maior nas gravações, numa fase posterior, foi o saxofonista Maceo Parker, um dos músicos mais conceituados do mundo na área do funk e colaborador de longa data da figura mais aclamada e representativa do género: James Brown.

PEDRO SILVA

PEDRO SILVA

O português e o norte-americano conheceram-se num festival de jazz. “Quem é músico com ligação ao jazz normalmente tem muita empatia com quem também o é. Demo-nos bem e facilmente se criou ali uma empatia, uma relação boa. Mandei-lhe uma cassete, o Maceo aceitou o desafio e o resto é história”, recorda Pedro Abrunhosa. À colaboração também ajudou a menor atividade musical de James Brown, que “entretanto tinha sido preso”.

Além de ter gravado solos que se ouvem hoje no disco no estúdio Som-Norte em Vila Nova de Gaia, Maceo Parker “fez posteriormente a primeira digressão” do Viagens em Portugal. “Fez um ano de estrada, tocou em sítios inacreditáveis de pequeninos, como a Gare Tejo, o Meia Cave do Porto, o Casino da Póvoa, o Radical Foz, coisas inacreditáveis”. Inimaginável? Sim, “mas foi muito interessante porque na verdade o lugar do funk até é esse, o sítio telúrico onde há fumo e onde as pessoas dançam e balançam”.

“Adorei. As misturas estavam ótimas, estávamos todos muito satisfeitos. Lembro-me até de ter dito ao Pedro: isto está ótimo, olha, se não funcionar vamos todos para a pesca, não há-de ser nada [risos]. Como nunca podemos ter a certeza de que os outros vão gostar, o mais importante é que nós gostemos”, conta Mário Barreiros.

Mário Barreiros não esteve presente na fase de gravações dos sopros e nas sessões de estúdio com Maceo Parker. “Ainda não fazia parte da equipa de produção”, conta. Só entrou mais tarde, apanhando uma “reviravolta” do disco que ele próprio hoje revela.

Em 1993, o single “Sexy MF” de Prince, incluído no ano anterior no álbum Love Symbol, era um êxito absoluto que não passou despercebido a Mário Barreiros e Pedro Abrunhosa. A dupla e o também produtor “Quico” Serrano, que esteve presente nas gravações desde início, queriam estar sintonizados com as tendências da pop mundial, sem perderem o lado autoral e diferenciado que Abrunhosa tinha procurado nas composições de Viagens. E “Sexy MF” indicou-lhes, garante hoje Mário Barreiros, que os rumos da pop estavam a mudar e que também por isso  seria desejável alterar algumas estruturas instrumentais das canções do disco Viagens.

Quando optaram por essa “reviravolta”, Pedro Abrunhosa tinha o disco praticamente pronto, produzido por “Quico” Serrano. Mas o trio embarcou na alteração de melodias originais e gravações vocais: “As canções são excecionais, muito boas, e até só com voz e guitarra o seriam. Mas se o rock já tinha mudado no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, com o grunge, vimos uma mudança na pop com a alteração de sonoridade do Prince em 1992, 1993. Estava a aparecer também, em força e à escala mundial, o que se veio a chamar de acid jazz. Por isso, de certo modo, sem perder a qualidade original das canções e composições, virámos o disco um bocado ao contrário”.

Num Honda Civic, rumo ao Reino Unido

Já com as modificações todas feitas até ao final do ano de 1993, Pedro Abrunhosa e “Quico” Serrano deslocaram-se a Inglaterra para as misturas de som. Já com “luz verde” da Polygram, que financiou este processo (“embora o orçamento fosse muito limitado”), os dois viajaram de carro rumo ao Reino Unido, por Abrunhosa ter “na altura, fobia de andar de avião”. O veículo escolhido foi o Honda Civic do compositor, que ia “cheio até à cunha”, com “os gravadores, as fitas, uma parafernália de material de gravação, porque na altura ainda não havia processos digitais como os conhecemos hoje”.

[“É Preciso ter Calma”:]

Depois de dois dias de viagem, “Quico” Serrano e Pedro Abrunhosa chegaram a Calais. “Quando chegámos estava a dar a ‘Sitting on the Dock of the Bay’, do Ottis Redding. Íamos para um ferry e parecia uma cena de um filme, foi incrível e premonitório”. À chegada a Inglaterra, foram para um estúdio “maravilhoso” em Sussex, o Parkgate Studios, situado numa zona “de floresta” onde “não havia nada”. Daquele estúdio tinham saído poucos anos antes os britânicos EMF, depois de gravarem o hit de 1991 “Unbelievable”, conta Abrunhosa.

Feitas as misturas, era altura de masterizar o álbum e o estúdio escolhido foi o londrino The Exchange. “Era o estúdio em que tinham sido masterizados todos os discos da Talkin’ Loud, sobretudo daquela fase de acid jazz, que tinha um som muito próprio, com um certo brilho nos agudos. Foi desse som que fui à procura, com o mesmo engenheiro que masterizou os discos de que gostava. Foi esse o critério, bastante rigoroso”, explica o autor de “Socorro”.

O fundador da editora Talkin’ Loud era o (ainda hoje) influente radialista e DJ Gilles Peterson, que segundo Pedro Abrunhosa tentou editar Viagens: “Adorou o disco e meteu-me um contrato à frente, na sede da Talkin’ Loud. Disse-lhe que estava a negociar com a Polygram e suspendi a decisão durante cerca de 15 dias. Não sei se alertada por aquilo, a Polygram assinou comigo a edição do álbum em definitivo”, pelo que já não pôde lançar Viagens pela gravadora de discos britânica, conta o português.

Quando ouviu o disco já misturado e masterizado em Portugal, o produtor e amigo de longa data de Pedro Abrunhosa, Mário Barreiros, ficou absolutamente convencido: “Adorei. As misturas estavam ótimas, estávamos todos muito satisfeitos. Lembro-me até de ter dito ao Pedro: isto está ótimo, olha, se não funcionar vamos todos para a pesca, não há-de ser nada [risos]. Como nunca podemos ter a certeza de que os outros vão gostar, o mais importante é que nós gostemos”, conta.

“Não há furacão que passe na vida e na casa das pessoas que não deixe uma marca. Não se fica incólume perante uma reação daquelas. Por volta do Natal e da passagem do ano tive de me retirar completamente de cena. Foi muito duro, lidar com a pressão social, política e mediática. Tive de ser acompanhado, não foi fácil, mas as canções impuseram-se”.

As pessoas gostaram, contudo: a “Abrunhosamania” instalou-se no país e isso teve consequências. “A primeira é que passado um ano a formação original dos Bandemónio já não existia. Eram muito jovens, tocaram muito pouco no disco mas ficaram muito ligados e é natural que aquilo lhes tenha explodido na cara. Eu próprio não fiquei igual. Os Bandemónio continuaram depois com outra formação, porque viviam e existiam devido à autoridade das canções e devido à postura estético-política até de palco”.

Apesar de ter já 33 anos, e de isso ter ajudado a que não se “deslumbrasse” tanto com o sucesso do álbum, Pedro Abrunhosa confessa que teve um “esgotamento” no próprio ano em que o disco foi lançado, 1994. “Não há furacão que passe na vida e na casa das pessoas que não deixe uma marca. Não se fica incólume perante uma reação daquelas. Por volta do Natal e da passagem do ano tive de me retirar completamente de cena. Foi muito duro, lidar com a pressão social, política e mediática. Tive de ser acompanhado, não foi fácil, mas as canções impuseram-se”. A própria utilização dos ósculos escuros, sua imagem de marca, tem aliás a ver com a reação à notoriedade, explica Abrunhosa: “É por causa disso, da timidez… dou-me bem com o silêncio e com o recato, sou muito pouco social. De repente vi-me envolvido numa máquina de permanente solicitação e isso contribuiu muito para ter problemas de ansiedade e de desencontro comigo próprio”.

Passados 25 anos, com muitos outros álbuns editados, uma carreira estável e consolidada no panorama musical português — e com poucos momentos de desencontro com o público como o disco Silêncio, em que mandou “tudo à fava” —, Pedro Abrunhosa tem uma relação “pacífica” com o seu disco de estreia porque “a minha relação com a música é pacífica” e o orgulho nos temas que editou há um quarto de século mantém-se.

No festival da RTP, o concerto será evocativo mas pouco saudosista: “Tentámos trazer o Maceo Parker, foi impossível. Tenho tocado com ele regularmente, ainda o ano passado tocámos juntos num festival, mas desta vez não foi possível. Vou tentar aproximar os arranjos das canções como o eram originalmente, mas vai ser uma solução de compromisso, porque vou ter uma formação alargada em palco. Estarão os Comité Caviar, que são quem me tem acompanhado ao longo destes últimos anos. São uma máquina de fazer espectáculos e sofrerão uma Bandemonização no som”. Além dos temas do primeiro disco, não faltarão outros êxitos, “que fizeram história ao longo destes anos”. Vai ser, assim, “um espetáculo bastante abrangente”, promete.

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