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8 opiniões rápidas sobre o futuro do Bloco /premium

O que vem aí para o BE? As análises de José Manuel Fernandes, Alberto Gonçalves, Helena Matos, Alexandre Homem Cristo, Luís Aguiar-Conraria, Miguel Pinheiro, Pedro Benevides e Luís Rosa.

    Índice

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José Manuel Fernandes

“Os novos cães de guarda do PS”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Já está escrito nas estrelas: salvo surpresas de maior, lá para 2019 António Costa deverá poder libertar-se do PCP e fazer uma geringonça mais fofinha (e com menos arestas) só com o Bloco, altura em que o casamento por certo incluirá entregar ao partido de Catarina Martins algumas pastas ministeriais. Estão todos mortinhos para que isso aconteça.

Eu diria mais: estava escrito nas estrelas, pois estas palavras não as escrevi agora, que o Bloco resolveu apresentar a sua lista de “ministeriáveis”, mas há quase um ano. Já então entrava pelos olhos dentro para onde queria ir o partido de Catarina, então timidamente, agora sem reticências. Le charme discret de la bourgeoisie sempre esteve nos genes do Bloco.

O que há então de novo?

Primeiro, a aposta na ilusão. O Bloco quer-nos fazer crer que se tornou um partido tão respeitável e ministeriável como Os Verdes alemães. Ou seja, que fez a viagem do radicalismo esquerdista para o centrismo realista, institucional. Há mesmo quem atribua essa viagem ao génio de António Costa.

Permitam-me muito cepticismo e algum cinismo. A origem desses dois partidos é muito diferente, mesmo tendo um ou dois pontos comuns. A matriz feminista e ecologista dos Verdes sempre os colocou mais perto do liberalismo do que a matriz trostkista/maoista do bloco. É por isso que a “agenda” dos “ministeriáveis” do Bloco, falemos de saúde, de educação, de segurança social, de habitação ou de energia, é o mais estatista e anti-capitalista que é possível ser sem assustar a sua base eleitoral burguesa da classe média. São esses os instintos do Bloco, sempre foi essa a cartilha de Louçã e Fazenda e continua a ser essa a doutrina que ensinam nos acampamentos de Verão.

Segundo, a obsessão com a irrelevância. O Bloco sabe que a sua utilidade para o PS desaparece no exacto instante em que o PS obtiver, se obtiver, uma maioria absoluta. Ao contrário do PCP, o Bloco não tem sindicatos e não enche as ruas – quando muito junta uns activistas em torno da estátua do Camões em Lisboa. O PS não precisa dele para governar em paz, e com paz social.

Ora o problema do Bloco, daqui até às eleições, será demonstrar que as migalhas que foi debicando na mesa do Orçamento valem o suficiente para eleger um grupo de deputados que já não quer ser visto como radical mas odeia ser visto como moderado.

Terceiro, o papel de cão de fila. Há contudo uma frente em que o Bloco pode continuar a desempenhar um papel inestimável: o de novo cão de guarda de um qualquer governo “de esquerda”. Quem seguir com atenção os debates parlamentares ou as intervenções mediáticas das figuras de proa do Bloco percebe rapidamente que não são poucas as vezes em que são eles que saem mais depressa e com mais virulência em defesa do “quadrado”, isto é, do governo da sua geringonça. Fazem críticas a Costa e gostam especialmente de picar o presidente do Eurogrupo? Claro que sim. Mas a truculência fica sempre reservada para visar as bancadas da oposição ou, quando esta jaz inerte, para erguer moinhos de vento que possam quixotescamente combater, distraindo as atenções e vituperando “a direita”.

Como bons cães de fila, mordem antes de perguntar, algo de que raramente pagam o preço num espaço mediático que sempre foi complacentemente seu. Costa e o PS gostariam de poder continuar a contar com esta espécie de guarda pretoriana que faz os danos que eles não podem fazer, pois até para o desbragamento da ala esquerda socialista há limites.

O resultado?

Bem, o resultado não deverá andar longe deste (e desculpem voltar a autocitar-me): um dia destes acordamos nas mãos do Bloco. Mesmo.

Alberto Gonçalves

“Uma convenção como outra qualquer”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Em tempos, o dr. Costa declarou que o arranjo parlamentar em curso derrubou “os últimos resquícios” do Muro de Berlim, cuja efeméride adequadamente não celebrámos. Como é típico na personagem, a frase não possui grande relação com a realidade. O Muro de Berlim servia para os comunistas prenderem as pessoas comuns. O outro “muro”, assaz figurado, servia para as pessoas comuns se livrarem dos comunistas.

Há três anos, portanto, que estes, ortodoxos ou folclóricos, andam à solta, precisamente a erguer os muros, paredes, muralhas ou, nas palavras anteontem proferidas pelo distinto académico Fernando Rosas, as “barreiras de aço” que mantêm a “extrema-direita” (alguns milhões de cidadãos) na clausura que a “extrema-direita” merece. Claro que se trata de um trabalho em curso, o qual só ficará concluído – e impecável – com a adição de calabouços, campos de reeducação e o eventual pelotão de fuzilamento.

Por sorte, os comunistas que passaram a influenciar o poder são gente esforçada. Os comunistas do BE, por exemplo, gritaram o fim-de-semana inteirinho que, mais do que influenciar o poder, pretendem ocupá-lo em parceria público-privada com um PS convertido ao radicalismo. E o país, dos partidos aos “media”, acolheu esse objectivo com curiosa bonomia. Engraçado. Quando uma hipotética força extremista, populista e anti-democrática levanta a cabecinha na Hungria, no Brasil ou nas Galápagos, os noticiários daqui desatam a tremer de pavor. Quando o mesmo sucede cá, mas com uma seita já comprovadamente avessa à liberdade, a descontracção é notável.

Lembro Cuba. Lembro a Venezuela. Lembro o anti-semitismo. Lembro o ódio que ornamenta cada sacerdote da seita. Para aliviar o ambiente, e reforçar o carácter espírita, até lembro as “medicinas alternativas”. E, num ápice, todos esquecem tudo. Não sei se o factor predominante é a má-fé, o interesse oportunista ou a boçalidade terminal: se se querem convencer de que o BE e os perigosos fanáticos do BE são um elemento “normal” e compatível com a vida civilizada, estejam à vontade. É uma convenção como outra qualquer.

Helena Matos

“Como vai o BE deixar de ser Governo?”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A questão não é se o Bloco está preparado para ser Governo. A questão é: o BE está preparado para deixar de ser Governo? Não está e sobretudo não quer. A outra questão que decorre desta tem ainda mais impacto nas nossas vidas: está o PS preparado para governar com o BE (e também o PCP) na oposição? Não está e sobretudo não quer: o PS afeiçoou-se a este conforto de uma oposição de esquerda que passou de indignada a deslumbrada. E esse deslumbramento num país em que é à esquerda que cabe o monopólio da indignação, da crítica e da denúncia vale muito mais do que os votos que o BE venha a ter.

Volto portanto à minha pergunta inicial: como vai o BE deixar de ser Governo (se tem ou não ministros é sobretudo uma questão simbólica)? A resposta óbvia – através de eleições que reconstruam a política de alianças do PS já que uma vitória do PSD está excluída num horizonte próximo – não é tão óbvia assim. O espalhafato das declarações do “infinito e mais além”, da Mariana que há-de ser ministra ou do céu que se ganha a negociar com os ministros tem o PS como destinatário e basicamente resumem-se numa frase: não se vão ver livres de nós com facilidade.

A grande dificuldade não foi o BE ir para o Governo. A grande dificuldade vai ser o BE sair do Governo. Sem uma força sindical que lhe prolongue a influência, chegará ao BE acantonar-se nas universidades e nesse complexo ideológico-legal das comissões que pululam na máquina estatal com vista ao nosso controlo ideológico?

Alexandre Homem Cristo

“Um plano de poder”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

É simples criticar as propostas do BE, que não raramente são irrealistas e demagógicas. É fácil ridicularizar os seus acampamentos de Verão, cujas actividades e temas desafiam de forma caricata o bom senso. É razoável rejeitar o radicalismo do BE, que em muitas áreas da governação não defende outra coisa que não seja a ruptura com o sistema. É elementar repudiar o moralismo imposto pelo BE no seu discurso político e a altivez dos seus principais protagonistas, que falam dos adversários como se fossem só eles os donos de legitimidade democrática. É necessário sublinhar os ataques dos bloquistas à agenda europeia, colocando-se ao lado dos eurocépticos e populistas. Mas é também um erro usar isso tudo para desvalorizar o BE. Fazê-lo é não perceber que todos esses elementos serviram um caminho que os trouxe até onde estão: à porta de integrar um governo de coligação.

A mensagem principal de Catarina Martins nesta convenção foi assinalar uma espécie de maioridade do partido. A tese é que o BE cresceu, deixou de ser inconsequente em vários dossiers, tem quadros formados politicamente para assumir responsabilidades governativas, e já não é aquele partido rebelde em que não se pode confiar. E, consequentemente, tem aspirações de se coligar com o PS para formar governo no pós-2019 – ou seja, o partido de protesto deu lugar ao partido de poder, que tem uma agenda de reformas estruturais e que as quer implementar no governo. Ora, mesmo discordando politicamente do BE, mesmo afastando as suas reformas estruturais e mesmo tendo dificuldade em encontrar a tal maturidade nas suas propostas, há que reconhecer a validade das pretensões bloquistas. Por um lado, o BE já demonstrou ser um parceiro fiável para um PS virado à esquerda – votando orçamentos que diz detestar e viabilizando políticas do governo PS que contrariam as suas posições de base. Por outro lado, se até um governo do PS consegue ser contraditório, por exemplo baixando as propinas no ensino superior, por que razão não poderia o BE liderar ministérios e áreas-chave da governação?

Tem havido debate sobre se a geringonça será repetível num futuro próximo, nomeadamente no pós-legislativas de 2019. Com esta convenção, esse debate acabou. Catarina Martins e as principais figuras do BE usaram o tempo de antena para informar que o BE já não aceitará do PS nada menos do que acesso directo ao poder. O principal destinatário foi, obviamente, António Costa, que passou os últimos meses a atacar os bloquistas e que anda a sonhar com a maioria absoluta – até se diz que, com sobranceria, já começou a escolher os ministros para o próximo governo. Ora, o recado foi entregue: para o BE, chega de manter o PS no governo sem receber nada em troca. Portanto, em 2019, das duas uma: ou o PS tem maioria absoluta sozinho – cenário que é improvável; ou o PS terá de negociar um acordo de coligação com o BE – que o cobrará caro.

Quem tenha assistido a alguns destes eventos partidários já sabe que servem para disseminar a propaganda partidária no horário nobre e para colocar as ambições no alto. Portanto, nada é para levar demasiado a sério. Mas, mesmo que soe ambiciosa, a meta do BE é perfeitamente alcançável e está alinhada com os cenários mais prováveis a sair das eleições legislativas de 2019. Daqui a um ano, quando se analisarem os resultados eleitorais, será pois apropriado regressar às intervenções desta convenção: o BE avisou ao que vai.

Luís Aguiar-Conraria

“Entre Sodoma e Gomorra”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Este foi o congresso de consagração do BE enquanto partido de governo. É um partido a fazer muito rapidamente a evolução de partido de protesto para partido institucional. Claro que há alguns militantes que se sentem órfãos, com algumas correntes a queixarem-se da perda de radicalidade do Bloco, mas são correntes com cada vez menos água. Temas que antes eram tidos como essenciais ‒ como um governo que, como o italiano, enfrente a ditadura orçamental de Bruxelas ‒ são agora suavizados ou até esquecidos. O BE almeja ser o partido anti-sistema do sistema.

Mariana Mortágua disse-nos que o BE não era o CDS da esquerda. Mas pelo menos um aspecto têm em comum: o optimismo face ao futuro. Basta lembrar que no último congresso do CDS discutiu-se, a sério, a possibilidade de o CDS se tornar o partido líder da direita portuguesa, ou seja, ultrapassando o PSD. O céu era o limite: naquele congresso aventaram a hipótese, sem se rirem, de Assunção Cristas ser primeira-ministra. Não sei se continuam com a mesma confiança, mas vale a pena lembrar que as sondagens dão ao CDS menos de 9% das intenções de voto.

No BE, o optimismo não vai ao ponto de falarem de Catarina Martins como primeira-ministra, mas vai ao de falarem na liderança de vários ministérios: Mariana Mortágua para as Finanças, Joana Mortágua para a Educação, José Soeiro para o Trabalho, Moisés Ferreira na Saúde, Luís Monteiro no Ensino Superior, Jorge Costa na Energia (pensava que o BE apoiava João Galamba para esta pasta). Falta acrescentar Catarina Martins, como vice-primeira-ministra. Possivelmente com medo de já não ter lugar, também José Manuel Pureza (que foi meu professor de Direito Económico e um excelente professor, sublinhe-se) se mostrou disponível para ir para o governo.

Dir-me-ão que, obviamente, não esperam ocupar todas aquelas pastas simultaneamente, mas responderei que, só pelo facto de se estar a falar no Bloco de Esquerda para o Ministério das Finanças, se mostra que por aquelas hostes o optimismo é galopante. Não me lembro do último governo de coligação em que o ministro das Finanças fosse do partido mais pequeno. Louçã materializa bem a confiança reinante ao falar no infinito e mais além para o BE. É verdade que Louçã também disse que não era para já, que tinham de ir passo a passo. E tem razão, para já as sondagens atribuem-lhes menos de 10% das intenções de voto. Ainda falta um pouco para chegar ao infinito.

A ideia com que fico é que todo este optimismo tem risco. Disse Catarina Martins que já não há voto útil. Isso pode ser verdade à esquerda do PS. De facto, já ninguém tem de votar no PS para manter a direita afastada do poder. Mas não é verdade à direita do PS. Com o PSD com um líder que parece ter um cérebro em curto-circuito, a alternativa que verdadeiramente se coloca é a seguinte: dar maioria ao PS, afastando bloquistas e comunistas do governo, ou não a dar, tornando o PS refém da sua esquerda. Numa frase: quem é que centristas querem no Ministério das Finanças: Mário Centeno (ou um seu sucedâneo) ou Mariana Mortágua?

Miguel Pinheiro

“O avô Louçã (a lembrar Cunhal) e as pantufas do radicalismo”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Segundo nos querem fazer crer, a revolução acabou. E o anúncio foi feito, muito apropriadamente, por Francisco Louçã. Num discurso curto, de 4 minutos e 35 segundos, o líder espiritual do BE usou a mesma palavra 18 vezes. Não foi a palavra “mudança”, não foi a palavra “ruptura” nem foi, lá está, a palavra “revolução”. Foi a palavra “segurança”. Logo no início, Louçã fez absoluta questão de descansar quem o ouvia: “Garantimos segurança”. E repetiu: “Garantimos ao povo segurança”.

Não é preciso ficarmos espantados. Afinal, quem falava era o conselheiro de Estado, era o membro do Conselho Consultivo do Banco de Portugal, era o bem comportado comentador televisivo. A “normalização” do Bloco, de resto, começou por aí — pelo seu fundador, que dá toda a “segurança” ao Presidente da República, ao governador do Banco de Portugal e aos media.

No seu discurso, o farol ideológico do Bloco de Esquerda não citou uma única frase de Trotsky — mas citou uma frase de “Toy Story”. E, ao fazer isso, aproveitou para ter o seu momento Cunhal, quando disse: “Há dias, via o Toy Story com as minhas netas…”

Há muitos, muitos anos, numa galáxia distante, Álvaro Cunhal deu uma entrevista na televisão em que falou dos seus três netos. Enquanto pegava numa pasta, o líder do PCP, sempre muito secretista sobre a sua vida pessoal, revelou: “Até pode haver pessoas que pensam o seguinte: ‘Porque é que ele não mostra fotografias da família?’. Eu não costumo, mas, já agora… Eu não sei se tenho aqui, mas, se tiver, é a única que lhe mostro”. Enquanto dizia isto, tirou duas fotos da pasta e avançou: “Mostro-lhe esta e digo para focarem esta fotografia e digam se não acham que é uma bonita fotografia de uma mulher e do seu filho. É a minha filha e um dos meus netos. E foque esta fotografia: e diga se não são duas crianças que não envergonham o avô, muito pelo contrário”. Como se sabe, qualquer avô, seja o avô Cunhal ou o avô Louçã, dá “segurança” à “burguesia”.

A mensagem que o BE se esforçou por entregar este fim-se-semana a quem o ouviu foi, portanto, esta: 19 anos depois da sua fundação, o Bloco de Esquerda já tem netos e só ambiciona a viver em “segurança”. Não quer cercar o Terreiro do Paço, como na Revolução Francesa se cercou a Bastilha — quer, simplesmente, entrar no Terreiro do Paço, com bons modos e delicadeza. De resto, a grande obsessão na cabeça dos altos dirigentes do BE ao longo desta convenção era apenas saber: “Qual de nós vai para o Governo? E para que pasta?”. A lista, como mostrou o Observador, já existe. Até ver, o radicalismo de esquerda quer mostrar que vestiu as pantufas. Até ver.

Pedro Benevides

“Sobe, sobe, balão sobe”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Nos comícios de verão do Bloco de Esquerda há uma imagem já conhecida: um enorme balão de luz branca, com a estrela símbolo do partido no cimo, a indicar o caminho.

Não se sabia o que acontecia ao balão durante o tempo mais invernoso, mas esta Convenção esclareceu o mistério. Ele está à solta pelo ar, a subir e a subir.

O Bloco, para quem se olhava como um partido de protesto, nunca gostou desse rótulo e a experiência dos últimos anos deu-lhe o hélio necessário para subir à mesa dos grandes e afirmar-se junto dos eleitores como uma força influente na política do governo.

Houve um irrepetível contexto político que o favoreceu, mas o partido soube aproveitá-lo ao fazer a sua parte na estabilidade da legislatura.

Chegados aqui, o balão continua a subir e já começa a ser difícil perceber para onde vai.

É como dizia a canção: “Eu vivo a sonhar, não pensem mal de mim. Quanto mais não vale viver a vida assim?”

Bem sei que Pedro Filipe Soares citava o poeta José Gomes Ferreira e não a cantora Manuela Bravo quando pedia “o sonho ao poder”. Mas esse sonho, o de um Governo do Bloco de Esquerda, tem pouco mais do que ar lá dentro. Para já é tão ligeiro como uma música festivaleira.

Ainda é muito cedo, mas as sondagens não dão sinais de que o BE esteja a conquistar números impressionantes. Pelo contrário, é o PS quem parece continuar a capitalizar em votos os resultados da governação.

O Bloco fez o funeral ao voto útil, e bem, porque foi António Costa quem o matou no dia em que levou os eleitores do BE e do PCP para o poder.

Por outro lado, repetiu à exaustão que é um partido preparado para assumir funções governativas. “Estamos prontos!”, garantia Mariana Mortágua, para que os eleitores reconheçam no Bloco muito mais que uma muleta.

Mas, provavelmente, vão ter de fazer mais do que acantonar Costa às políticas de direita para recolher o mérito e ganhar o peso que lhes falta (os comunistas não têm feito outra coisa e a linha dos votos ao longo dos anos tem sido flat).

As pistas que Catarina Martins deixou no encerramento do Congresso mostram que o partido quer distanciar-se do PS, marcar território à esquerda da esquerda, mas também abraçar professores e funcionários públicos — dois balões de oxigénio para quem quer insuflar votos.

Chegará para ir ao “infinito e mais além”, como citava Francisco Louçã? Conseguirá o Bloco balões suficientes para fazer a casa levantar voo, como no “Up!”, outro filme da Pixar?

É verdade que, no passado, o BE surpreendeu quem o olhava como um epifenómeno, quem decretava a sua morte antecipada, quem não acreditava que um dia se juntaria ao PS e ao PCP para sustentar um governo.

Mas para já, no último dia de Convenção, o partido parece ter sentido necessidade de colocar umas estacas à terra para segurar a ambição. Quando já se falava de tanta gente preparada para um cargo ministerial, Louçã e Catarina Martins vieram lembrar que o Bloco ainda não está nesse ponto e que há um difícil caminho a fazer junto de quem vota.

As perguntas, contudo, ficaram no ar, como os balões: qual é a fasquia razoável para o BE aceitar integrar um governo? Ninguém se comprometeu.

E com quem? Só com o PS, sem o PS, obrigatoriamente com o PCP? Depende dos equilíbrios, da correlação de forças e de um programa comum.

As respostas disponíveis nesta altura são, mais uma vez, como cantava Manuela Bravo no Festival da Canção: “Bada bada bada bada bada da… Sobe, sobe, balão sobe”.

Luís Rosa

“Os bonecos de Andy Costa”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Parece que o Bloco de Esquerda descobriu que quer ser Governo, já tem ministros escolhidos e, imagine-se, já reservou para si as pastas das Finanças, Trabalho, Saúde, Educação, Ensino Superior e Energia — um pouco à imagem daquele ano em que o Benfica reservou o Marquês de Pombal mas perdeu o título para o Porto. Nada mau para um partido que tem como melhor resultado um pouco de mais de 10% nas legislativas de 2015, não governa qualquer autarquia e nas sondagens vai variando entre os 8% e os 9%. Uma autêntica fantasia, portanto.

Um pouco à imagem do “Toy Story” — o filme de animação que o querido líder Francisco Louçã vê com as netas e que se transformou numa espécie de metáfora deste novo Bloco de Esquerda. Não sei se o avô trotskista Louçã viu o “Toy Story” até ao fim mas é capaz de ter ficado pela parte em que o Buzz Ligthyear ainda não tinha descoberto que, afinal, era um boneco — e não um verdadeiro astronauta que tem como lema o “para o infinito e mais além!”. E logo o boneco preferido de Andy, substituindo assim o cowboy Woody no ranking do amor da criança proprietária e monopolista de dezenas de bonecos que são os protagonistas do filme da Pixar.

Bem, na realidade, a metáfora de Francisco Louçã não deve andar muito longe da verdade. O que faz com que o Bloco de Esquerda deseje ser o partido dos bonecos de António Costa — o Andy da vida real da política portuguesa que, nos últimos tempos, escolheu parceiros diferentes para aprovar leis concretas: ora escolheu Jerónimo “Woody” de Sousa, ora escolheu Catarina “Jessie” Martins ou escolheu, muito menos vez é certo, Rui “Slinky Dog” Rio.

Esta estratégia de poder do Bloco, contudo, tem dois grandes problemas:

  1. O primeiro é a séria hipótese de António Costa conseguir uma maioria absoluta em 2019 à custa da autêntica nulidade que é o PSD de Rui Rio, que anda mais entretido com a partilha de passwords do que com os problemas reais do país. Para que precisará o PS do Bloco nessa altura?
  2. Mesmo que o PS não tenha maioria absoluta, e partindo do princípio de que poderá alcançar esse objetivo com o PCP ou com o Bloco, porque razão António Costa preferirá os truculentos e ambiciosos neo-comunistas do Bloco aos mais fiáveis e confiáveis comunistas do PCP?

É precisamente esse o erro da metáfora do grande ideólogo Francisco Louçã. É que ninguém olha para o Bloco e vê lá o leal Buzz Lightyear. Vemos mais o sr. Cabeça de Batata, o boneco resmungão de peças desmontáveis que cinicamente vai questionando a autoridade de António “Andy” Costa.

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