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Manuel Soares Violas sucedeu, à frente do grupo, ao seu pai, que morreu em 1991 e que começou o império Violas em 1943 com a Corfi

José Coelho/Lusa

Manuel Soares Violas sucedeu, à frente do grupo, ao seu pai, que morreu em 1991 e que começou o império Violas em 1943 com a Corfi

José Coelho/Lusa

A "amante cara" e a "joia da família" Violas. O grupo de Espinho que andou de mão dada com Montenegro

O fundador considerava a Solverde, "uma amante cara". Mas a "joia da coroa" para a família Violas é a dona da Super Bock. Como cresceu e o que vale o grupo que Luís Montenegro trouxe para a ribalta.

Espinho, em particular o jogo e a hotelaria, era como ter uma amante cara. Manuel Oliveira Violas, fundador da Cotesi e da Solverde, falava assim dos investimentos na terra que adotou como sua. Tinha criado a cordoaria, em Grijó, mas não queria investir nos casinos. Mas por Espinho foi ao concurso nos anos de 1970. E por Espinho ganhou. A família ficou no negócio até hoje. Este ano terá de disputar a concessão, à qual se espera que tenha de enfrentar concorrência, como aconteceu no concurso dos anos de 1980. O concorrente era nada mais nada menos que a Sonae. Mas, dessa vez, Belmiro de Azevedo perdeu.

Mas não será o concurso anunciado para este ano — e que face à pré-anunciada queda do Governo poderá resvalar — a maior das preocupações. A participada Solverde arrastou o grupo de Espinho para a ribalta por causa da avença com a empresa da família de Luís Montenegro. Depois de revelar o pagamento de 4.500 euros na semana passada — desencadeando uma crise política que poucos previam — a Solverde cessou o contrato de prestação de serviços com a Spinumviva, um “ato essencial para proteger a Solverde”.

Atrás da Solverde vem o grupo Violas e a família. É uma das grandes fortunas de Portugal, presença permanente na lista elaborada pela revista Forbes — em 2024 estava em 14.º lugar com um património avaliado em mais de 900 milhões de euros. Mas também é uma das mais discretas e pouco falada, o que não impediu a associação aos Pandora Papers que referia uma offshoreMarplex — detida pelo presidente e uma das irmãs (Rita Celeste), os dois donos da holding familiar.

O negócio começou nas cordas e num grupo industrial que está espalhado por vários países, a Cotesi, saltou para o jogo e ganhou escala com a compra de uma posição na Unicer. A dona da Super Bock é hoje controlada pela Viacer, a holding que ficou com dois dos filhos do fundador depois da divisão dos ativos do grupo pelos descendentes. Dentro do grupo há ainda os Colégios Clip, outro cliente da empresa de Luís Montenegro, hotéis e imobiliário em Portugal e no Brasil, onde Manuel Oliveira Violas nasceu.

Homenagem ao fundador do grupo, Manuel Oliveira Violas, nos 50 anos da Solverde, em Espinho

FOTO: ESPINHOTV

A “amante cara” dos casinos e hotéis

Numa citação que lhe é atribuída num relatório e contas do grupo, Manuel Oliveira Violas falava também da Solverde como uma amante cara. Teve de esperar muitos anos desde a concessão até ver de pé o novo casino e o hotel com 300 camas.

Espinho foi, desde tempos longínquos, uma terra ligada ao jogo. Ainda vila era aquela orla marítima que famílias endinheiradas acolhiam como destino na época estival. Aí encontravam, primeiro, o Café Chinês, mais tarde o Casino Peninsular. Em 1927 foi autorizada como zona temporária de jogo (apenas alguns meses por ano), enquanto Estoril e Funchal tornaram-se, logo nesse ano, zonas permanentes. Mas, apesar de Espinho e da Póvoa do Varzim se terem mantido temporárias até 1975, desde 1973 que a concessão estava entregue. Manuel Oliveira Violas e um conjunto de cerca de 300 empresários espinhenses, que em 1972 tinham formado a Solverde, garantiram um ano antes da Revolução de Abril que o jogo ficava finalmente para os da terra.

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O empresário não era jogador. Aliás impunha-se a si mesmo só investir um escudo quando tinha dois para gastar (a teimosia de Manuel Violas, pai, era tal que se conta, também, que quando quis casar com Ana Gomes Soares disse que só o faria quando tivesse uma empresa — e foi assim que, em 1943, nasceu a Corfi, de cordas, o seu primeiro grande negócio e que mais tarde formou a Cotesi). Manuel Oliveira Violas não jogava nem por lazer nem nos negócios, mas lançou-se nos casinos em 1973. Teve, no entanto, de esperar cerca de 10 anos para conseguir inaugurar o edifício que alberga hoje o casino Solverde e o hotel com 300 camas. A 25 de setembro de 1982 o ministro Ângelo Correia, em representação do primeiro-ministro, Francisco Pinto Balsemão, cortava oficialmente a fita.

Se em 1973 a concessão chegou fácil, a Solverde iria ter mais luta no concurso de 1988. Aníbal Cavaco Silva, então primeiro-ministro, era o signatário da resolução de Conselho de Ministros que adjudicava “à concorrente Solverde a concessão do exclusivo da exploração da zona de jogo de Espinho, pelo período de 20 anos, a contar de 1 de janeiro de 1989”. A oferta mais elevada era o fator único de decisão, num concurso em que apareceram Solverde, que ficou em primeiro lugar, e Sonae.

Montenegro só teria intervenção nos casinos da Solverde se concursos não fossem decididos este ano. Governo de Costa avisou sobre prazos

“‘Equipa’ da casa ganhou o jogo”. Fazendo uso da metáfora futebolística, que a família Violas preza (esteve sempre ligada ao Espinho, clube da terra), o jornal Defesa de Espinho intitulava assim a vitória da Solverde da concessão em 1988. No artigo explicava-se que “o jogo em Espinho continuará a ser explorado por gente de Espinho, mas o concelho vai ter menos contrapartidas”. Isto porque nesse concurso público os pagamentos da concessionária passaram a ser feitos diretamente ao Estado. A Solverde ofereceu 6,1 milhões de contos (30 milhões de euros) para a concessão de 20 anos. Uma concessão que foi sendo prolongada. A última das vezes por causa da Covid-19, cujo aditamento com a prorrogação tem data de 10 março de 2022, ainda que só tenha sido publicado em Diário da República em junho desse ano, já o Governo tinha mudado.

2022 foi o ano em que o segundo Governo de António Costa, que tinha Pedro Siza Vieira, como ministro da Economia, caiu e lhe sucedeu o último do agora presidente do Conselho Europeu. António Costa Silva assumiu, então, a pasta. Poucos meses depois iria estar nas comemorações dos 50 anos do casino de Espinho ao lado do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa (e de Montenegro, então presidente do PSD).

Nos 50 anos da Solverde, Marcelo Rebelo de Sousa esteve em 2022 ao lado de Luís Montenegro (presidente do PSD), Manuel Violas e Miguel Reis (então presidente da Câmara de Espinho)

FOTO: ESPINHOTV

Com esses sucessivos arrastamentos, a concessão de Espinho termina apenas no final deste ano, à semelhança, aliás, do que acontece com a outra concessão da Solverde — a do Algarve, que tem os casinos de Portimão, Montegordo e Vilamoura. Pedro Reis, ministro da Economia, declarou que pretendia lançar o concurso a tempo de não serem necessárias  mais prorrogações da concessão.

Já no caso da zona de jogo do Algarve — criada em 1973 — só passou a ser da Solverde em 1996, tendo também sido prolongada a concessão por várias vezes. E, por isso, também essa termina este ano. A empresa de Manuel Violas conseguiu, ainda, juntar aos seus negócios o casino de Chaves, inaugurado em 2008 (cuja concessão termina em 2032), mas não foi capaz de sensibilizar o Governo para estender a concessão ao Porto (como sugeriu o atual presidente da Solverde quando a Estoril-Sol conseguiu ter o casino de Lisboa, por extensão da área do Estoril).

Manuel Oliveira Violas não viu crescer o seu império do jogo. Nesta fase já era o filho, Manuel Soares Violas, a comandar o destino da empresa. O pai Violas morreu a 16 de fevereiro de 1991. Luís Montenegro fez 18 anos nesse dia.

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    Manuel Violas e Luís Montenegro no torneio dos economistas
    Clube Golfe Economistas
  • Manuel Violas
    Clube Golfe Economistas
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    Luís Montenegro
    Clube Golfe Economistas

As relações de Montenegro aos Violas

Os casinos não são a única área do grupo Violas, mas foi a Solverde que trouxe, nos tempos mais recentes, a família para as notícias. Uma exposição de que não gosta. Mas que agora não evitou quando se tornou conhecido que a Solverde era uma das clientes permanentes da Spinumviva, uma consultora criada por Luís Montenegro e que tinha a sua mulher e os dois filhos na estrutura acionista (o primeiro-ministro passou a sua quota, mas manteve-a na esfera familiar, passando primeiro para a mulher e agora desta para os filhos).

Luís Montenegro é assumidamente amigo de Manuel Soares Violas, filho do fundador Violas. Juntos estiveram, recentemente num torneio de golfe (que foi alvo de crítica).

Montenegro na mira da oposição por ter estado em torneio de golfe e não a caminho de Kiev

Luís Montenegro é praticante amador e não esconde que gostaria que a modalidade fosse mais democratizada. No golfe “todos jogam de igual para igual”, devido à existência de um handicap (uma avaliação do nível do jogador) — o handicap do primeiro-ministro é 22 (numa escala que vai até aos 36 e em que os profissionais têm zero) — que permite que, ao entrarem para um jogo, os golfistas partam sem vantagem mesmo quando são piores jogadores. Pouco tempo depois de assumir, em 2022, a presidência do PSD Montenegro, citado num programa da SIC, promete que não o deixariam de ver, apesar das funções, nos greens nacionais. Manuel Soares Violas também tornou o golfe o seu desporto principal, depois de ter, em jovem, apostado quase tudo no futebol (mas foi o seu pai que emprestou dinheiro a Pinto da Costa).

Carolina Salgado Launches Controversial Book About FC Porto Chairman Pinto da Costa
Pinto da Costa, em entrevista ao Porto Canal em 2021

“Um dia o Neca Couto disse-me para irmos jantar ao Casino de Espinho com o senhor comendador Manuel de Oliveira Violas. Disse-lhe que íamos perder tempo porque ele era benfiquista. Mas o Neca Couto disse-me que ele tinha grande admiração por mim e pela minha coragem. Ele disse que não alinhava no empréstimo, mas que dava. E não dava 200, era 400. Saímos com um cheque de 400 contos, nem queríamos acreditar. Ironia do destino, fizemos do hotel Solverde o nosso quartel-general. É uma homenagem ao comendador.”

Companheiros de golfe, amigos pessoais, e parceiros de negócios. Primeiro Luís Montenegro foi advogado da Solverde, através da sociedade Sousa Pinheiro & Montenegro (SP&M). É assim que o agora primeiro-ministro se vê envolvido na ação da concessionária a reclamar o reequilíbrio financeiro da concessão, processo que o Estado perdeu no tribunal arbitral, mas que já em 2024 garantiu a vitória no recurso no Supremo Tribunal Administrativo, que impediu o pagamento à concessionária de milhões de euros. Aliás, essa vitória e esse recurso são, agora, acenados por Luís Montenegro para garantir que não interfere, enquanto primeiro-ministro, em decisões relacionadas com a Solverde — “há 18 milhões de euros de razões para acreditar que o primeiro-ministro não se deixa influenciar por nenhum interesse”, atirou Montenegro no debate da moção de censura esta semana.

Montenegro deixou, mais tarde, a sociedade de advogados e em 2021 fundou a Spinumviva. A Solverde tornou-se um dos seus principais clientes, um contrato que a empresa dos casinos manteve até esta semana. Mensalmente a avença era de cerca de 4.500 euros.

Grupo Solverde anuncia fim do contrato com Spinumviva

Em comunicado, a Solverde indicou que o fim do contrato foi de acordo entre as duas partes. “Entenderam as duas empresas, ponderando o atual contexto e visando exclusivamente a salvaguarda do bom nome e da reputação de ambas, que a cessação da referida relação de prestação de serviços constitui, nas atuais circunstâncias, a solução mais adequada, permitindo à Solverde a escolha, no decurso do corrente mês de março, de um novo prestador de serviços com menor exposição pública”.

“Tal decisão revela-se essencial para proteger a Solverde, empresa com mais de meio século de existência, cujos nome, valores, elevados padrões éticos, bem como os seus contributos de responsabilidade social e o relevante número de trabalhadores que emprega, merecem cuidada defesa face aos ataques e referências que, no âmbito de um turbilhão mediático, têm vindo a colocar em causa a sua integridade e o seu prestígio, com divulgação de factos que não correspondem à verdade, com a mistura intencional de verdades e mentiras e a consequente especulação sem qualquer fundamento.”

O jogo, que Violas teve relutância em operar, tornou-se rentável para a família do empresário que conhecia mais o negócio de cordoaria — foi aí que começou com o tio depois de vir do Brasil. “O país precisa de mais comendadores como Manuel Oliveira Violas”, enfatizou Luís Montenegro, em 2011, no lançamento do livro “Manuel Violas, O Homem, o Industrial, o Vencedor”, escrito pelo jornalista António Moura, com coordenação de Mário Augusto. Montenegro era, então, presidente da Assembleia Municipal de Espinho e líder parlamentar do PSD no primeiro ano do Governo de Pedro Passos Coelho, mas também teve a missão, nesse evento, de ler o discurso do então secretário de Estado da Economia, Almeida Henriques (já falecido). E por isso é a sua voz que entrega a homenagem a Manuel Oliveira Violas: “teve o engenho e a capacidade de alguém que teve a visão e o arrojo empresarial”.

Almeida Santos, ex-presidente da Assembleia da República e que trabalhou com Manuel Violas, pai, foi quem apresentou a obra, falando do biografado como um grande industrial. “Criou um império de dimensão nacional, praticamente do nada”, declarou-se.

Das cordas e do jogo à banca e à cerveja, a “joia da família”

O grupo nasceu nos anos de 1940 com uma cordoaria tradicional, a Corfi, o ofício que Manuel Oliveira Violas conhecia de ter trabalhado desde tenra idade. Na década seguinte, o empresário que tinha nascido no Brasil (mas filho de portugueses) antecipou a revolução do plástico no setor que até então usava fibra natural e investiu numa nova unidade, a Cotesi.

“Se quiser, prenda-me ou dê-me a licença, porque eu vou mesmo fazer sacos sintéticos, isto é o futuro”. Foi com este arrojo que o pai Manuel Violas conseguiu a licença necessária do Governo para essa produção, numa visita do ministro da Economia à fábrica. Com mais de mil máquinas topo de gama instaladas em Grijó (Vila Nova de Gaia) chegou a ser a maior instalação mundial de produção de telas e sacos de ráfia de polietileno e polipropileno (plástico). Exportava quase tudo e empregava 2.680 pessoas em 1969, segundo a revista Indústria Portuguesa desse ano.

As empresas de Violas passaram ao lado da onda de nacionalizações. Manuel Violas mandou a família para Espanha em março de 1975, juntando-se ao filho Manuel que tinha ido estudar para Madrid em 1974 (mais tarde foi para a Suíça, preparando-o já para o seu futuro de gestor), enquanto o patriarca ficou em Portugal. Como conta Filipe Fernandes, no livro Fortunas & Negócios, Manuel Oliveira Violas sabia que “se abandonasse as empresas poderia ficar sem elas”: “Confiscaram-lhe o passaporte, mas foi para o quartel do Copcon em Lisboa e não saiu de lá enquanto o passaporte não lhe foi devolvido”.

Os valores do grupo

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  • A holding do grupo Violas registou um volume de negócios consolidado de 962 milhões de euros em 2023 e lucros de 38,6 milhões de euros que ficaram na empresa (não foram distribuídos dividendos). O último relatório e contas, consultado pelo Observador, indica que a Violas SGPS tem um capital próprio de mais de 700 milhões de euros e um ativo total de cerca de 1,5 mil milhões de euros. A maior fatia corresponde à participação na Super Bock Group, através da Viacer, que estava avaliada no balanço em mais de 500 milhões de euros.
  • A Solverde, que conta com cinco casinos — Espinho, Chaves e três no Algarve — além do jogo online e quatro hotéis (Espinho, Gaia, Algarve e Chaves), faturou 146 milhões de euros em 2023 e gerou um lucro de 14,9 milhões de euros que “permitiu mais que colmatar os prejuízos sofridos na pandemia”. A empresa pagou ao Estado 34,4 milhões de euros em “imposto de jogo” em 2023.
  • O grupo Cotesi tem participadas na América e na Europa e mais de 18 empresas fora de Portugal. O último relatório e contas disponível, de 2023, mostra uma queda nos lucros e nas vendas que é atribuída ao ajustamento da oferta à procura e ao efeito preço. O grupo faturou 272,3 milhões de euros em 2023, obteve lucros de 1,6 milhões de euros e empregava cerca de 650 pessoas.
  • Localizado no Porto, o Clip Oporto International School está orientado para a educação de filhos de famílias estrangeiras ou internacionais que residem na região. A empresa teve receitas de quase 13 milhões de euros em 2023, lucrou um milhão de euros e emprega mais de 200 colaboradores.

Se escapou às nacionalizações, não deixou fugir as oportunidades criadas pelas privatizações. E está na linha da frente da primeira operação realizada no pós-25 de Abril, juntamente com outros empresários do norte, quando a 26 de abril de 1989 consegue comprar uma participação na pública Unicer. Inicia-se, assim, a conquista “da joia da coroa da família Violas, hoje Super Bock Group”, na descrição feita no relatório e contas do grupo.

Dez anos antes, a sua Corfi tinha sido uma das fundadoras da Sociedade Portuguesa de Investimentos que viria a evoluir para o primeiro banco privado no pós 25 de Abril — o BPI. Entre os membros do clube, alguns viriam a ser parceiros e sócios — as famílias Pinho, da Arsopi, e Guedes, da Sogrape, estiveram com Violas na compra da Unicer. Outros viriam a ser rivais em negócios, como Américo Amorim que trocaria o BPI pelo BCP.

O núcleo de acionistas nacionais da Unicer acabou, depois, a perder a Sogrape, mas conquistou o banco fundado por Artur Santos Silva e garantiu o controlo acionista da cervejeira do norte. O parceiro estratégico escolhido foi a cervejeira Carlsberg, após uma primeira tentativa conflituosa de associação ao grupo Santo Domingo, da Colômbia, que acabaria por comprar a grande rival do sul, a Central de Cervejas.

O fundador Manuel Violas ainda estava no ativo quando foi feita a aquisição da Unicer, que permitiu ao grupo dar um salto de escala. Quando morreu, dois anos depois, teve como sucessor o filho mais novo Manuel — e que é agora o líder do grupo — apoiado pelas duas irmãs, Celeste e Otília e os dois cunhados, Edmundo Sá e Edgar Ferreira que já estavam no universo empresarial de Violas.

Manuel Oliveira Violas, o patriarca, “soube preparar bem os filhos para a sucessão e a família vai continuar na senda do êxito económico e empresarial”, apontou, em 2011, Almeida Santos. Já o filho, na mesma ocasião, assumiu em nome da família que “fomos felizes intérpretes desta maravilhosa história que nos cumpre cumprir”.

Pedro Reis, ministro da Economia, com Manuel Violas, na Super Bock já este ano

FERNANDO VELUDO/LUSA

A quase compra da Galp e as partilhas familiares

O trio nacional da Unicer viria a tentar reproduzir a fórmula na conquista de outra empresa emblemática cuja privatização tinha conduzido a uma sucessão de imbróglios acionistas — a Galp (nome que viria a substituir a Petrogal). A petrolífera foi colocada à venda pelo Governo de Durão Barroso depois de ter sido forçada a ceder o negócio do gás à EDP, num acordo que envolvia também a saída da empresa italiana ENI.

BPI, Arsopi e Violas criaram, então, a Petrocer e à frente colocaram o homem que mais sabia de petróleo em Portugal — o ex-presidente da Petrogal. Homem do norte, Manuel Ferreira de Oliveira tinha feito uma transição de setor, do petróleo para as cervejas quando assumiu a presidência da Unicer.

A corrida pela Galp em 2004 foi uma das mais acesas, colocando em confronto os maiores grupos nacionais — BES/GES de Ricardo Salgado associado a Américo Amorim e aos americanos da Carlyle; o grupo José de Mello, dono da maior indústria química; e o grupo acionista da Unicer que ganhou o concurso, mas perdeu na secretaria. Neste caso em duas. A secretaria de Bruxelas chumbou a integração do gás na EDP, que era condição para a venda da Galp à Petrocer. A secretaria de Lisboa promoveu a venda das ações detidas por empresas públicas na Galp a Américo Amorim (apoiado em fundos da Sonangol), com o alto patrocínio do ministro da Economia do Governo de Sócrates, Manuel Pinho.

O consórcio que tinha vencido o concurso da Galp ainda ponderou ir para o tribunal contra um negócio “feito no gabinete” do ministro e, assumindo, falta de transparência. Mas desistiu. Américo Amorim viria a tornar-se por causa da Galp no homem mais rico de Portugal e os investidores da Unicer focaram-se nas empresas que já tinham.

As partilhas familiares

Na família Violas, o ano de 2006 foi de divisões. “Em dois dias e em duas reuniões”, assim conta o relatório e contas da Violas SGPS, “a irmã Otília deixou o grupo, levando como principais ativos para a sua holding HVF (Holding Violas Ferreira) a participação no BPI de 2,9% e o imobiliário”. Continuando a seguir o guião escrito no relatório anual de 2023: “Foi uma forma de resolver as divergências sem pôr em causa a família”. Que divergências? O já referido documento não as explicita, mas o lado de Otília (marido e filho) admitiu publicamente, à revista Exame, que foi um conflito geracional com foco em incompatibilidades sobre a estratégia do grupo por parte de dois filhos herdeiros — de Pedro, filho único de Celeste, e de Tiago, filho único de Otília. Manuel Soares Violas explicou em 2006 à revista Exame que, “com a entrada da terceira geração, começa a haver pontos de vista um pouco diferentes”: “Chegámos a uma altura em que era muito desgastante estar sempre a gerir divergências e problemas. Uma das coisas mais cansativas que tive até hoje”.  

A partilha acabou por ser amigável e nem foi necessário recorrer a avaliadores externos. Citado no relatório e contas, Manuel Soares Violas conclui que “a separação correu bastante bem — cada um está nas suas áreas de negócio e existe uma relação muito próxima e saudável”.

A Violas SGPS continua a ser uma empresa de família, ficando, a partir de então, a ser detida em partes iguais por Manuel Soares Violas e pela irmã Celeste. É gerida pelos dois, estando Manuel na presidência, e pelos respetivos filhos — Manuel Alexandre Violas e Pedro Américo de Oliveira e Sá. Apenas dois administradores não são da família — Carlos Gomes da Silva e Ângelo Paupério, um histórico da Sonae e que foi braço direito de Belmiro de Azevedo. Apesar de não estar na administração da holding familiar, também a filha mais nova de Manuel Soares Violas, Ana Marta, já está a fazer o seu caminho dentro das empresas do grupo (depois de ter estado na Carlsberg, passou para a Super Bock e agora é responsável de marketing na Solverde).

Quem manda “somos nós” depois de compra da posição do BPI na Super Bock

Poucos meses depois de as ações do BPI passarem para Otília, irmã de Manuel Violas, e para o seu marido, Edgar Ferreira, o banco é alvo de uma oferta hostil do BCP. Apesar de mais-valias tentadoras, a família Violas Ferreira manteve as ações, tal como outros acionistas de referência, e o BPI permaneceu independente. Quando em 2016, o CaixaBank lança uma OPA com o beneplácito da administração do banco, o administrador que representa a família Violas demite-se contra esta opção. Em 2017 acaba por vender o grosso da sua participação na oferta que culminou com a saída do BPI da bolsa.

Um ano depois, a relação próxima entre o BPI e a família Violas iria atravessar outra separação, desta vez com o ramo de Manuel Violas.

Desde 2000, que os grupos Violas, Arsopi e BPI, reunidos na Viacer, tinham o controlo firme da Unicer com 56% após uma OPA que tirou a empresa da bolsa. Os outros 44% estavam com a Carlsberg. As partilhas familiares colocaram a “joia da coroa” do lado de Manuel Violas.

A joia inteira só viria a ser conquistada em 2018, quando se deu “uma revolução acionista” no agora denominado Super Bock Group. Na sequência da passagem para a esfera de um único  acionista — a La Caixa — o BPI foi-se desfazendo das participações empresariais.

Em fevereiro de 2018, vendeu os 25% que detinha na Viacer a Manuel Violas por 233 milhões de euros. Ao Jornal de Negócios, o empresário assumiu que foi iniciativa sua propor a compra ao banco que, apesar da “relação excelente”, já “não é o mesmo BPI de há uns anos”. Com este negócio, que avaliou a empresa de cervejas em 1,6 mil milhões de euros, foi cumprido um dos seus objetivos: manter a Super Bock portuguesa. Por outro lado, reconheceu Manuel Violas, “somos nós que mandamos”.

Meses depois, a Arsopi, da família Pinho, cedeu ao grupo Carlsberg a sua posição de 28,5% por 250 milhões de euros. Uma venda que foi vista como uma consequência da saída do banco que funcionava como elo de equilíbrio entre os dois grupos nacionais.

O grupo do homem que ficou conhecido por pagar a pronto ajudou a financiar a aquisição com uma emissão obrigacionista de cerca de 250 milhões de euros que em 2023 representa mais de metade do passivo financeiro da Violas SGPS. A operação vence este ano, mas em 2024 o grupo fez nova emissão de 240 milhões de euros cuja colocação foi privada (as obrigações não foram admitidas à negociação). Na gestão da Super Bock, “não vai mudar nada”. E não mudou, pelo menos no presidente.

Rui Lopes Ferreira, um gestor da casa que estava na administração da cervejeira desde 2006, assumiu a presidência executiva em 2015 depois da saída prematura de João Abecassis por “diferentes gestões estratégicas”.  A empresa tem tido uma gestão profissionalizada, fora da esfera familiar dos acionistas que estão representados no conselho de administração. Pela cervejeira passaram gestores conhecidos como Ferreira de Oliveira e Pires de Lima (que saiu da presidência da empresa para o Governo de Passos Coelho como ministro da Economia e agora lidera a Brisa).

O atual presidente teve de lidar com a crise que teve origem em Angola. O país — um dos principais mercados para a sua produção — impôs quotas à importação de cerveja para proteger a indústria nacional. A Unicer tentou investir numa unidade no país que não foi para a frente e em Portugal teve de fechar a fábrica de Santarém e despedir 140 trabalhadores.

O Super Bock Group recuperou da quebra nas vendas em Angola, mas teve de enfrentar o efeito da pandemia. O ano de 2023 já foi mais normalizado. A cervejeira faturou 526 milhões de euros e teve lucros de quase 70 milhões de euros. Emprega mais de 1.400 pessoas. É a maior empresa do grupo.

Sem a projeção da marca de cervejas, a Cotesi (Companhia de Têxteis Sintéticos) é a empresa mais internacionalizada do grupo Violas e um líder global na produção de fio agrícola.

No relatório de gestão da holding Violas, o mérito da “transformação da Cotesi” é atribuído à “terceira geração” e, em particular, a Pedro Violas e Sá. “Em 2003, a empresa tinha 80% das vendas concentradas em 10 clientes, hoje conta com mais de 10 mil clientes — com unidades fabris e distribuição nos Estados Unidos, Canadá, Brasil, França, Alemanha, Dinamarca, Reino Unido — e presença em todo o mundo”.

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