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Enfermeiros e técnicos auxiliares de saúde são dois dos grupos de profissionais mais presentes nas rotinas dos doentes de Psiquiatria do Hospital do Mar.

“A comunicação é a nossa grande ferramenta”

Equipa é a palavra que melhor define a nova unidade de internamento de Psiquiatria do Hospital do Mar. Enfermeiros e técnicos auxiliares de saúde partilham o que faz deste serviço uma resposta única.

Um, dois, três, quatro… bico de pato. Um, dois, três, quatro… bico de pato. Idalina Rebelo não se cansa de repetir a lengalenga, de braço dado com Sónia (nome fictício), ao ritmo dos seus passos, procurando motivá-la a continuar. Sónia ajuda a terminar as rimas, entusiasma-se, e procura que os pés cooperem e avancem mais um pouco. Para quem acaba de chegar à sala de convívio da nova unidade de internamento de Psiquiatria do Hospital do Mar, em Lisboa, os passos de Sónia parecem pesados e vagarosos. Como se os sapatos estivessem de alguma forma colados ao chão, impedindo o joelho de dobrar e a perna de se erguer, por ligeiro que seja o movimento. Mas Idalina Rebelo, técnica auxiliar de saúde desta unidade, e que tem acompanhado o internamento desde o primeiro dia, garante que esta lengalenga parecia impossível dias antes, quando apenas podia empurrar a cadeira de rodas da doente pelos vários espaços deste novo serviço, com a cabeça de Sónia a mantê-la, nessa fase, ainda afastada das rotinas, por mais banais que parecessem.

Rodrigo Cabrita

A unidade de internamento de Psiquiatria do Hospital do Mar, que abriu portas em fevereiro de 2024, conta, por agora, com um total de 14 quartos individuais e duplos, e veio reforçar a resposta da Rede Hospital da Luz na área da Saúde Mental. Psiquiatras, enfermeiros, técnicos auxiliares de saúde, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, entre muitos outros profissionais, fazem parte da equipa multidisciplinar. Todos garantem que esta nova unidade vem dar uma resposta diferenciada e personalizada numa área com bastantes carências, assegurando que cada dia neste internamento representa um passo em frente na vida de quem por aqui passa.

Saúde Mental na UE

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A boa saúde mental é um estado de bem-estar que permite que as pessoas realizem o potencial, lidem com o stress, trabalhem e contribuam para a vida comunitária. No entanto, o peso dos problemas de saúde mental na UE é muito elevado. A melhoria da saúde mental é uma necessidade social e económica para a UE e os seus Estados-Membros, que se tornou mais evidente desde a pandemia de COVID-19. (1)

25 %

Crescimento da ansiedade e da depressão no primeiro ano da pandemia em todo o mundo (1)

22 %

Aumento da solidão na UE após a COVID-19 (1)

84000000

Pessoas em toda a UE que sofriam de problemas de saúde mental antes da pandemia, segundo dados da OCDE, o que equivale a 1 em cada 6 pessoas (17,3%), valor que disparou para 1 em cada 2 (46% da população) (2)

As atividades e conversas na sala de convívio são acompanhadas de perto por Pedro Freire. É o enfermeiro responsável pela Unidade de Internamento de Psiquiatria. Soma mais de três décadas de experiência em hospitais psiquiátricos e em serviços de psiquiatria de hospitais gerais, mas assegura que cada passo que vê um doente a dar, continua a ser motivo para uma alegria renovada. Pedro Freire começou por trabalhar num serviço de hematologia, onde presenciou muitos casos limite, em pessoas muito jovens. Quando existiam notícias difíceis, era apontado como o mais preparado para comunicar com os doentes e com as famílias. “Nessa altura fiz a especialidade em saúde mental, apenas para ganhar novas competências, mas a verdade é que ficou o bichinho e acabei por mudar”, conta.

“Acredito que a comunicação e a relação são muito importantes na área da saúde e que contribuem muito para a recuperação. Para trabalhar em saúde mental, temos de nos conhecer muito bem para sermos capazes a nível relacional e comunicacional de interagir com o outro e ajudá-lo. É isso que procuro fazer, tornar-me sempre numa ferramenta terapêutica”, explica o enfermeiro, que reforça a importância que todos têm nesta unidade e que faz a diferença, acelerando a recuperação dos doentes.

“Nesta área, as pessoas precisam de muita paciência e de muito amor ao próximo.” 
Neuza Muchini

As partilhas que os doentes fazem com os profissionais, por mais simples que pareçam, podem ter significado clínico e devem ser valorizadas. “Formamos todos os profissionais que integram este serviço com muito cuidado. Por exemplo, a equipa de auxiliares sabe que há informações muito relevantes no contexto da Psiquiatria. Se um doente diz que não quer viver mais, isso tem de ser partilhado connosco, se o doente está a ver bichos na parede, isso é algo que tem de ser valorizado do ponto de vista orgânico ou não orgânico”, exemplifica Pedro.

“Acredito que a comunicação e a relação são muito importantes na área da saúde e que contribuem muito para a recuperação. A comunicação é a nossa grande ferramenta para ajudar e compreender as dificuldades do outro.”
Pedro Freire

A opção do grupo Luz Saúde por abrir esta nova unidade no Hospital do Mar não foi um mero acaso. Situado no antigo bairro operário da Petrogal, foi em 2006 que o grupo Luz Saúde deu uma nova vida ao edifício que foi, noutros tempos, a Estação Agronómica Nacional, e que alia agora a traça antiga com uma expansão do edifício, mais moderno e adaptado à atual função hospitalar. Uma nova vida que tem precisamente procurado dar mais qualidade de vida em áreas como a geriatria, cuidados paliativos, demências e reabilitação, Acidente Vascular Cerebral (AVC), situações ortopédicas traumatológicas, entre muitas outras, às quais se juntou agora o desafio de abrir um internamento de Psiquiatria. Este internamento destina-se aos casos mais graves, mas sem ser preciso esperar por uma situação limite para ter acesso a esta resposta.

Prioridades na UE

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O Conselho Europeu está a trabalhar no sentido de dar prioridade à saúde mental e ao bem-estar, colocando a tónica nas questões mais urgentes e nos grupos mais vulneráveis: trabalhadores precários, jovens e pessoas que têm simultaneamente problemas de consumo de drogas e problemas de saúde mental. (1)

São muitos os nomes que cabem nestas paredes, às quais os doentes podem chegar referenciados pelo psiquiatra ou outro médico assistente, através de uma urgência hospitalar, por iniciativa própria (com indicação do médico assistente) ou pelo serviço Luz 24 (217 104 424). Perturbação depressiva ou perturbação de ansiedade grave, esquizofrenia e outras perturbações psicóticas, doença bipolar ou adições – das mais clássicas, como o álcool, às mais recentes, como os videojogos – são vários os exemplos das rasteiras que a vida pode trazer a qualquer um de nós, fazendo-nos naufragar, e procurar no Hospital do Mar uma nova rota.

Rodrigo Cabrita

Problemas mais comuns

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A ansiedade e a depressão são os problemas de saúde mental mais comuns na UE, seguidos dos distúrbios associados ao consumo de álcool e de drogas, da perturbação bipolar e da esquizofrenia. (2)

“A integração desta nova unidade no Hospital do Mar foi bastante natural e fácil, até porque em muitas das patologias que existiam nos outros serviços, as alterações do comportamento também são frequentes”, explica o enfermeiro coordenador. Pedro Freire assegura que ajudar as pessoas que aqui passam a ter resposta a perguntas muito difíceis é mais estimulante do que exercer enfermagem numa área que associamos a grande complexidade, como os cuidados intensivos, mas onde existe um apoio de uma parafernália de equipamentos que na psiquiatria ainda não são possíveis de utilizar. “A comunicação é a nossa grande ferramenta para ajudar e compreender as dificuldades do outro”, sublinha, reforçando que a confiança é a base da relação que constroem com todos. “Partilhamos com os doentes tudo o que faz parte do seu plano de cuidados, conversamos sobre os medicamentos e os seus efeitos. Se a pessoa não souber o que está a fazer, não estamos a construir resultados sólidos”, defende.
“Sabemos que temos de estar sempre bem dispostos e ter paciência, porque quem está doente precisa de ser cuidado.”
Neuza Muchini

Neuza Muchini, auxiliar de ação médica, reforça as palavras de Pedro Freire. Começou por trabalhar num lar, já passou por vários serviços do Hospital do Mar, mas acabou por se juntar à equipa deste novo internamento. É natural de Angola e sempre se quis formar na área da saúde. A vida não lhe permitiu seguir para a universidade, mas sente-se todos os dias agradecida por ter um trabalho em que faz a diferença na forma como toca as pessoas. “Quando apareceu a oportunidade, agarrei logo”, diz. “Nesta área, as pessoas precisam de muita paciência e de muito amor ao próximo. Os doentes chegam em situações graves, por vezes têm surtos que nem sempre compreendemos, mas temos de estar sempre disponíveis para eles. Como auxiliares, enfermeiros ou médicos, mas sobretudo como humanos, há dias em que não estamos bem, mas aqui sabemos que temos de estar sempre bem dispostos e ter paciência, porque quem está doente precisa de ser cuidado”, frisa.

Neuza corrobora que os rótulos não entram no Hospital do Mar. Em todos os serviços há pessoas com problemas, e o que importa é atender as necessidades de cada um, seja na Psiquiatria ou na unidade de AVC. É por isso que a auxiliar, mal entra, procura inteirar-se com os colegas do turno anterior sobre como correu a noite. Entre banhos e pequenos-almoços, lá vai conversando com os doentes, sempre atenta, e aproveita o caminho até outros serviços, onde decorrem terapias individuais e em grupo, para conhecer melhor quem acompanha. “Por exemplo, a hora da refeição aqui é um pouco diferente. Temos de estar sempre muito perto, porque temos de ter mais cuidado. Estes doentes têm mais risco de se engasgarem ou de se poderem magoar”, relata, acrescentando que a relação com as famílias também é muito valorizada.
“As pessoas ainda têm dificuldade em perceber que isto pode acontecer a qualquer um de nós, ainda há preconceitos. Um dia, por um motivo ou por outro, todos podemos precisar de apoio.”
Neuza Muchini

Aliás, a possibilidade de recorrer a todos os serviços do Hospital do Mar é verdadeiramente diferenciadora. “Se temos um doente com 80 anos deprimido e que fica na cama uma semana, já teremos problemas de mobilização. Com a equipa multidisciplinar e o apoio da fisioterapia é muito fácil falar logo com todos os colegas e mobilizar o que for necessário para o doente”, justifica Pedro Freire.

Rodrigo Cabrita

“Partilhamos com os doentes tudo o que faz parte do seu plano de cuidados, conversamos sobre os medicamentos e os seus efeitos. Se a pessoa não souber o que está a fazer, não estamos a construir resultados sólidos.”
Pedro Freire

Do primeiro ao último dia, o foco é na alta e na preparação do doente para o regresso a uma vida lá fora, com mais e melhores ferramentas para os desafios. “Temos de envolver as famílias do primeiro ao último momento. São os nossos maiores parceiros. Desde a entrevista inicial, avaliamos as condições sociofamiliares e socioeconómicas. Fazemos também licenças de ensaio em que o doente vai a casa por um período curto ver como corre tudo. Dá segurança à família, ao doente e também a nós”, adianta o enfermeiro, que aproveita para reforçar a importância de se trabalhar o estigma que ainda persiste.

“As pessoas não são piores pessoas por precisarem de ajuda. Devem pedi-la para serem felizes na sua vida e com quem está à sua volta. Todos podemos ter problemas destes”, lembra. Ainda assim, o principal motivo de contentamento é saber que quem passa pelo Hospital do Mar sai com um caminho bem definido. “O nosso objetivo é que um doente saia daqui bem e que não volte. Ou que volte só para nos visitar”, afirma Pedro Freire.

14000000

Jovens com idades entre os 15 e os 29 anos que tinham, em 2019, algum problema de saúde mental. Os valores agravaram-se com a pandemia (3)

49 %

Jovens da UE que declararam necessidades de cuidados de saúde mental não satisfeitas, contra 23% da população adulta (3)

Em menos de um ano, são já várias as histórias que dão alento para continuar. Neuza recorda “uma senhora que entrou com uma depressão grave, mas que era muito bem-disposta. Tinha uma ansiedade fora do comum, mas ao fim de três semanas saiu daqui muito diferente. Até queria ficar cá mais tempo, porque se sentia muito bem aqui. É possível sair daqui curado e vir cá apenas dar boas novidades”, assegura a auxiliar, mas que aproveita para reforçar que “isto não acontece só aos outros”. “As pessoas ainda têm dificuldade de perceber que isto pode acontecer a qualquer um de nós, ainda há preconceitos. Um dia, por um motivo ou por outro, todos podemos precisar de apoio”, diz Neuza.

Pedro também tem uma responsabilidade especial. O espaço do Hospital do Mar é complementado por um jardim sensorial a que todos os doentes podem ter acesso, desde que a equipa médica entenda que há condições e benefícios. Pedro acompanhou várias vezes um doente até aos morangueiros que fazem parte deste jardim, num passeio frequente, feito de braço dado, que se tornou importante para a recuperação. De tal forma que o senhor, após a alta, já veio confirmar se os morangos continuam de perfeita saúde – e Pedro sabe que cuidar dos morangos é, agora, parte da sua função, porque a diferença está mesmo nos detalhes.

“Fazemos também licenças de ensaio em que o doente vai a casa por um período curto ver como corre tudo. Dá segurança à família, ao doente e também a nós.” 
Pedro Freire

Saúde Mental em todos os contextos

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Em 30 de novembro de 2023, o Conselho Europeu adotou várias conclusões sobre a saúde mental, salientando-se a importância de abordar a saúde mental e o bem-estar nos diferentes contextos ao longo da vida, no interesse tanto dos indivíduos como das sociedades. Os Estados-Membros são convidados a elaborar planos de ação ou estratégias com uma abordagem intersetorial da saúde mental. (1)

O resultado do envolvimento mútuo vê-se nas paredes. Aqui e ali, são já vários os desenhos e mensagens deixados pelos doentes e suas famílias. Quase ao lado de um cartaz de cores vibrantes, com sardinhas e manjericos, a evocar aquele que foi o Arraial do Mar 2024, e que se espera que seja o primeiro de muitos, está uma pequena tela cheia de significado. Na tela aparece um cão e um gato, recortados pelos doentes, ladeados pelos nomes dos vários enfermeiros e auxiliares que preenchem os dias neste internamento. Pedro, Idalina e Neuza não podiam faltar nesta homenagem, que se completa com uma frase “Nesta casa vive o Amor”. A frase não tem pontuação. No lugar do ponto final mora um coração rosa.

  • Rodrigo Cabrita
  • Rodrigo Cabrita

Pedro Freire e Neuza aceitam o desafio de retribuírem as palavras dos doentes e de definirem as suas profissões e este internamento em três palavras apenas. Para Pedro, a profissão de enfermeiro, sobretudo nesta área, define-se por “empatia, assertividade e comunicação”. Já Neuza considera que “gratidão, sabedoria e aprendizagem” são três ingredientes-chave de um auxiliar. O enfermeiro assegura que a nova unidade representa “proteção, resposta e conhecimento” para quem passa pelo Hospital do Mar, com Neuza a fechar o desafio com “humano, diferenciado e cuidar”. Bem-vindos ao Hospital do Mar, agora na rota de mais Saúde Mental para todos.

Rodrigo Cabrita

Fontes utilizadas

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1 – Council of the European Union. (2023). Council conclusions on mental health. Adopted at the EPSCO Council (Health) meeting, 30 November 2023, Brussels.

2 – European Commission. (2023). Flash Eurobarometer 530: Mental Health, June 2023. Catalogue number EW-05-23-348-EN-N. ISBN: 978-92-68-07766-5.

3 – OECD/European Union (2022), Health at a Glance: Europe 2022: State of Health in the EU Cycle, OECD Publishing, Paris.

Este texto faz parte do conjunto de reportagens “Por detrás dos cuidados”, no âmbito do projeto “Redes Mentais”.

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