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José Nogueira chegou a Punta Arenas em 1858

José Nogueira chegou a Punta Arenas em 1858

A história desconhecida de José Nogueira, um rico aventureiro português na Patagónia /premium

Nasceu pobre e era analfabeto, mas quando morreu já teria uma fortuna de quase 24 milhões de euros. A vida extraordinária de José Nogueira é agora contada num livro da jornalista Mónica Bello.

Quem sabia que na segunda metade do século XIX um português de Vila Nova de Gaia, que nasceu pobre e não sabia ler nem escrever, foi dono e senhor de um vasto território da Patagónia e iniciou ali um pequeno império de milhões? Poucos sabiam, de facto, pois só em meios académicos portugueses é que esta história tinha até agora alguma circulação.

José Nogueira, assim se chamava o português, é daquelas personagens fascinantes e esquecidas à espera que alguém tropece nelas para as levar ao grande público. E foi precisamente isso que fez a jornalista Mónica Bello através de A Vida Extraordinária do Português que Conquistou a Patagónia, uma grande reportagem em livro que chegou às lojas por estes dias.

Antiga jornalista de O Independente, da revista Grande Reportagem, do Diário Económico e do Diário de Notícias, entre outros órgãos de comunicação social, Mónica Bello, de 63 anos, apaixonou-se por esta história em meados da década de 90, quando visitou a Patagónia pela primeira vez. Mas os anos passaram-se e só depois de se afastar do jornalismo diário é que encontrou tempo e paciência para voltar ao tema.

O principal historiador da região de Magalhães, o chileno Mateo Martinić — aliás entrevistado por Mónica Bello e citado no livro — fez publicar em 1986 um ensaio exclusivamente dedicado ao aventureiro português, sob o título Nogueira, El Pionero, e aí falou e de “um homem rústico, filho do seu próprio esforço”, considerado-o “cronologicamente e pela importância do seu legado o arquétipo do pioneiro austral”. E, no entanto, as origens humildes, que nunca lhe permitiram ganhar reconhecimento social, mais a morte precoce lá no extremo que o navegador Fernão de Magalhães cruzou em 1520 podem explicar o relativo esquecimento em que caiu o português, segundo Martinić.

José Nogueira nasceu em 1845 e morreu vítima de tuberculose aos 47 anos. No curto período que lhe foi dado viver fez-se ao mar como aprendiz de marinheiro, desembarcou aos 12 ou 13 anos na América do Sul, antes dos 25 era já um exímio caçador de lobos-marinhos e com perícia e inteligência conseguiu prosperar. Em Punta Arenas, na Patagónia chilena, território inóspito de ventos diabólicos, colonizado a partir de 1843, depressa se tornou dono de uma frota respeitável que continuou a dizimar lobos-marinhos, cuja pele e gordura eram cobiçadas por ingleses, franceses e espanhóis.

Casado e sem filhos, tinha à data da morte mais de 50 mil cabeças de gado, um milhão de hectares na Terra do Fogo, muitos terrenos em Punta Arenas, ouro e joias, uma fortuna, calculada a valores de hoje, de quase 24 milhões de euros. O resto, com factos e alguma ficção, está no livro de Mónica Bello — que há dias falou com o Observador sobre literatura, jornalismo e aventureiros.

Como é que descobriu esta história?
Foi por acaso, que é como normalmente as coisas acontecem. Estava a trabalhar na revista Grande Reportagem, por volta de 1995, e calhou-me fazer uma viagem à Patagónia, à Argentina e ao Chile. Passámos por Punta Arenas e foi aí que tropecei na história do José Nogueira. Existe lá um hotel chamado José Nogueira e achei que seria do nome de um português. Também podia ser de um brasileiro… Ainda explorei alguma coisa sobre o assunto naquela ocasião, mas não muito, porque estas reportagens são sempre a correr, em dez dias fazemos 10 mil quilómetros. Comecei a investigar, a interessar-me pela história, mas ficou tudo em banho-maria.

Até agora?
Até agora.

Não falou dele nessa reportagem de 1995?
Não, mas fiz um artigo sobre ele também para a Grande Reportagem, uns meses depois. Em 2005, voltei a Punta Arenas já a pensar num trabalho mais vasto sobre o José Nogueira, e aí consultei arquivos e entrevistei algumas pessoas, incluindo o professor Martinić e o então diretor do Museu Regional de Magalhães.

Dessa vez já pensava escrever um livro?
Sim, a ideia já era essa. Depois a vida não permitiu. Com o trabalho diário, este tema foi ficando de lado, até que em 2016, quando saí do Diário de Notícias [onde foi diretora-adjunta], voltei à história do José Nogueira. Hoje a internet dá-nos acesso a coisas que até há não muito tempo só poderíamos consultar indo aos locais. Neste caso, Santiago do Chile. Só aí conseguiria ter acesso a livros e publicações que agora estão digitalizadas e que posso ler no ecrã do computador. Aliás, a bibliografia que apresento no fim do livro está hoje quase toda digitalizada pela Biblioteca Nacional do Chile.

E se com o passar do tempo outro jornalista ou autor tivesse pegado nesta história?
De vez em quando pensava nisso, claro, mas só mesmo alguém que fosse de propósito à Patagónia ou que já tivesse muito boas indicações é que conseguiria lá chegar. Punta Arenas, que é na verdade a única cidade no Estreito de Magalhães, vive muito do turismo mas o turismo não fica ali, segue para Torres del Paine, é turismo de natureza. Ou saem dali para a Argentina ou para a Terra do Fogo e Antártida. Mas, sim, pensava: “Se não me despacho, ainda alguém vai pegar nisto”. Ainda bem que não aconteceu.

"Na Patagónia ninguém o julgava por ser quem era. Aquele território começou por ser uma colónia penal, depois ganhou uma comunidade pequena de imigrantes, todos mais ou menos nas mesmas condições: a roupa que traziam no corpo, vontade de não passar fome e de fazer fortuna."
Mónica Bello

Quem é o José Nogueira que surge neste livro? Um aventureiro…
Acho que se fez aventureiro. Já devia ter alma de aventureiro, mas a necessidade também o pôs a bordo de um navio para sair de Portugal. Não deve ter sido fácil ir ao encontro do desconhecido.

A quem vai ler esta entrevista como é que resumiria a personagem?
Acho que não era um homem totalmente mau, mas também não era totalmente bom. Era um homem da sua época e teve de se construir a si próprio. Era certamente inteligente, com uma visão dirigida para o mundo. Teve uma vida muito dura: em Portugal, certamente, por isso é que partiu, e depois também nos 10 a 20 anos que passou no mar. Dedicou-se à caça de lobos-marinhos, uma atividade sanguinária num sítio totalmente inóspito onde tudo era provavelmente possível, por isso é que ele lá ficou. Na Patagónia ninguém o julgava por ser quem era. Aquele território começou por ser uma colónia penal, depois ganhou uma comunidade pequena de imigrantes, todos mais ou menos nas mesmas condições: a roupa que traziam no corpo, vontade de não passar fome e de fazer fortuna.

Mas nem todos conseguiam e ele conseguiu. Porquê?
Ele, um asturiano, alguns judeus da Alemanha… Aliás, o José Nogueira vem a casar-se com uma judia, de apelido Braun. Ele era certamente um homem com grande tenacidade, sabia muito bem o que queria, embora alguns dos seus projetos também tenham fracassado. Tinha sempre vontade de fazer mais, de aproveitar as oportunidades. Como em tudo na vida, também teve sorte e aproveitou a sorte. Note-se que ele de certa forma foi precursor de uma realidade que ganha maior expressão anos depois de morrer, que é o fim dos indígenas na Terra do Fogo e na Patagónia. Sabemos que o cunhado e a viúva, que herdaram a sociedade exploradora da Terra do Fogo e fizeram criação intensiva de ovelhas, tiveram de limpar, eles e outros, aquele território. As tribos índias foram deportadas, enviadas para missões de salesianos, foram mortas. Isto no Chile e na Argentina, não só na parte chilena. De resto, penso que não tenha havido da parte dele uma ação direta violenta contra os índios; pelo menos, não encontrei referências a isso.

O livro narra um tempo que já não existe, de marinheiros que iam à aventura, da exploração de zonas inóspitas do planeta, e apresenta-nos um José Nogueira que pode bem ser um dos últimos aventureiros portugueses. Será assim?
Houve outros marinheiros e outros aventureiros. Se pensarmos noutras latitudes, em África, por exemplo, tivemos imensos portugueses que se lançaram por aquele continente para tentarem a sua vida. Não conheceremos todas as histórias, mas elas andam por aí certamente, escondidas em arquivos ou fotografias que as pessoas têm em casa. Aconteceu-me tropeçar nesta. Ele era um aventureiro com os pés muito bem assentes na terra. Fixou-se, fez crescer alguma coisa, nem sempre isso acontecia. Mas também penso que tanta terra e tanto poder talvez o tenham cegado a certa altura. É uma hipótese.

Escreve que nos últimos anos de vida José Nogueira se tornou uma pessoa ríspida.
Isso foi por causa da doença. Ele morreu com tuberculose, percebeu que não tinha saída, foi isso que fez dele uma pessoa revoltada e azeda.

"Foi ali mesmo, onde tudo faltava, tudo estava por fazer, mas tudo lhe parecia possível, naquele lugar do qual já nem Deus se lembrava, que José Nogueira teimou que ia deixar herança", lê-se no livro

DEENSEL/CC

Este é um livro de factos mas também com muitas hipóteses sobre a realidade. Está bem dito?
Está. Há anos da vida dele em que não sabemos o que aconteceu, há por exemplo um período para o qual não encontrei registos. Por isso, tentei inventar, digamos assim, dentro do que seria verosímil. O que ele pensou ou viu é invenção da minha parte. Pode ter sido assim, outra pessoa teria achado que foi de outra maneira. Tive de imaginar e a partir daí reconstituir alguns momentos.

Sobre a passagem dele pelo Rio de Janeiro há uma descrição curiosa. “Ele aprendera a não escolher a que chamava mais alto ou a que mostrava o decote mais fundo. José guiava-se pela flor que muitas prendiam no cabelo e procurava sempre a que lhe parecia mais fresca. Não lhe importava a cor da pele, branca como leite ou tão negra, por vezes, que lhe lembrava o azul profundo do mar alto. Era a macieza da carne delas contra a dele que ele desejava, um remédio que apagasse aquele fogo.” É um exemplo de ficção?
A parte da flor não é ficção. Por acaso, não conheço o Rio de Janeiro, mas fui pesquisar para saber como era a cidade e um testemunho da época dizia que as prostitutas estavam à janela e usavam uma flor no cabelo. Foi daí que tirei a ideia, é totalmente verosímil, eram marinheiros de porto em porto… Álcool, mulheres, até embarcarem de novo.

Como jornalista, teve algum dilema ético nestas reconstituições com base em factos reais?
Tentei que fosse tudo o mais verdadeiro possível. Penso que se percebe bem quais as passagens que são reconstituídas, percebe-se que pode ter sido assim. Os cenários, o ambiente, as circunstâncias são aproximações ao real. Se lhe aconteceu a ele ou não? É provável que sim. Acho que as pessoas percebem o que pode ser ficcionado. Claro que o jornalismo não sai de nós, é o que se costuma dizer, mas não escrevi como jornalista.

Diria que se trata de literatura de viagens?
Acho que não. Quem quiser ir lá, vai gostar de ler, há imensas referências, vê-se Punta Arenas e a região de outra maneira, menos com a impressão turística. Diria assim: não tenho opinião formada sobre se é literatura de viagens, cada um dirá o que lhe parece. É como se fosse uma reportagem, mas não se limita a factos, contém efabulações.

Sente que este registo narrativo é tradicionalmente dominado por homens? A Patagónia foi sobretudo narrada por homens…
Sim, mas temos também a Gabriela Mistral, Prémio Nobel da Literatura, que tem um longo poema sobre a Patagónia. Aquela zona foi certamente um mundo de homens, de caçadores, marinheiros, exploradores, garimpeiros, latifundiários, um mundo muito masculino. Não refleti muito sobre este aspeto, mas confesso que dei por mim a pensar que o púbico masculino talvez se interesse mais pela história do José Nogueira. Não sei porquê. Quer dizer, no mundo em que hoje vivemos, do politicamente correto, estas distinções perderam importância.

Vista aérea da cidade de Punta Arenas (cerca de 1942)

UNIVERSIDAD DE MAGALLANES, CHILE

Falemos de jornalismo e dos primeiros tempos de O Independente, onde se iniciou como jornalista, em 1988. Como é que recorda aquela época?
Foram os meus melhores anos profissionais, não no sentido de que fizesse melhor, mas no sentido da aprendizagem e da motivação. Trabalhar com o Paulo Portas e o Miguel Esteves Cardoso [primeiros diretores do jornal] foi muito especial. O Miguel está 500 quilómetros à nossa frente, o que pensamos agora já ele pensou há seis meses, corre-se atrás dele. Apesar de ele ser na prática um pouco caótico, é muito gratificante trabalhar com uma pessoa assim tão inteligente. O Paulo é o oposto do caos, trabalha 24 horas por dia, é igualmente inteligente, uma pessoa com quem dá gosto trabalhar, que trata bem quem se relaciona com ele.

Mantêm contacto?
Com o Miguel é raríssimo, com o Paulo só de vez em quando. Diria que mantemos uma amizade que não tem tempo. Apesar de não convivermos, a amizade ficou.

E o que ficou de O Independente?
Rompeu com o estilo de jornalismo que se fazia, era muito mais aberto, mais próximo das pessoas e de uma nova geração  que já não se revia na imprensa portuguesa. Só depois é que apareceu o Público, por exemplo. O Independente falava das coisas que interessavam, não ficava nos píncaros, o estilo de escrita era muito diferente, uma escrita muito direta, menos formal, menos floreada e menos cerimoniosa. Revolucionou o jornalismo, deu importância à fotografia, à opinião, deixou marca,  sem dúvida nenhuma.

Essas marcas são visíveis?
Os jornais não têm de deixar herança. Acho que há bons e maus jornalistas em todo o lado. Se conseguem fazer o seu trabalho, é outra questão. Hoje não há recursos… E apesar de haver cursos de jornalismo, isso não é garantia de termos mais bons jornalistas. Há mais jornalistas, certamente.

"Trabalhar com o Paulo Portas e o Miguel Esteves Cardoso foi muito especial. O Miguel está 500 quilómetros à nossa frente. Mantemos uma amizade que não tem tempo. Apesar de não convivermos, a amizade ficou."
Mónica Bello

Como leitora, está desiludida com o jornalismo português?
Sim, mas também não sou uma leitora normal, digamos assim. Olho para um texto e não consigo deixar de analisar, estou enviesada. Penso que alguma coisa vai ter de mudar. Esta falta de recursos e de independência é preocupante. Há muita pressão hoje sobre os jornais. Não falo da pressão política, falo da pressão para que a notícia seja publicada o mais depressa possível, seja lá como for. A luta pelas audiências, como antigamente só acontecia nas televisões, é uma coisa esquizofrénica e ajuda a degradar a qualidade. A falta de pessoas nas redações também ajuda.

Voltaria ao jornalismo?
Nesta fase da vida, dificilmente. Passou, foi uma fase, há muita gente por aí. Confesso que não me apetecia voltar para uma redação. Não é só o “já fiz e já experimentei”, não é só isso. Se aparecesse um projeto fantástico, muito especial, embarcava, não teria problemas, mas hoje quero coisas que não me deem stress, em que não seja preciso subir a montanha. Quando estamos num jornal, todos os dias subimos uma montanha, a mesma montanha todos os dias. Acho que quem está de fora tem a impressão de que a vida de jornalista é muito agitada, com muita aventura, mas a aventura na verdade tem rotinas e nem sempre é uma aventura. Agora quero fazer coisas com tempo, que me deem prazer, que possam demorar um mês ou sete meses.

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