A manhã minhota é generosa para António José Seguro que encontra não só um mercado cheio, como também pleno de insatisfeitos com o rumo das coisas. Palco ideal para tentar a sua sorte de candidato presidencial que jura estar em crescendo. A dada altura um senhor aproxima-se para lhe dar um abraço e grita-lhe: “O senhor foi um grande homem! E foi traído!“. Seguro sorri como quem consente a memória da grande guerra socialista de 2014, mas responde: “Isso já passou”. O machado dessa guerra tem vindo a ser lentamente enterrado desde que o antigo líder do PS se pôs a esta estrada e começou a subir nas sondagens.
O envolvimento começou tímido e com muitas reservas. Mas foi fazendo caminho. Tanto que, a dada altura, o candidato, confrontado numa ação de campanha com boas sondagens, já não sabia dizer quem nasceu primeiro: se um entusiasmo com a sua candidatura com a maior presença do PS ou se uma maior presença do PS com o entusiasmo com a sua candidatura.
Na campanha, o partido, que demorou até se decidir por Seguro, tem estado muito presente. Este sábado, ao almoço, essa mobilização saltou à vista: uma sala com mais de 600 pessoas para almoçar numa quinta em Santo Emilião, em Braga. A organização teve o dedo do dirigente local do PS Ricardo Costa, a quem Seguro até agradeceu durante a sua intervenção. Mas não foi só em Braga. A máquina partidária tem estado por toda a parte, nesta primeira semana de campanha oficial, sobretudo na organização de comícios onde têm aceitado a regra da caravana de serem parte menos ativa e visível em cima do palco.
Seguro quer manter a imagem do “candidato suprapartidário” e nos comícios as intervenções estão até reservadas aos mandatários distritais (por norma nomes fora do âmbito partidário) e ao próprio candidato. Os dirigentes distritais ou autarcas do partido de cada terra por onde Seguro passa também estão sempre presentes nas salas, mas ficam em silêncio — com raríssimas exceções, como aconteceu com os presidentes das câmaras de Portimão e de Coimbra (no caso de Ana Abrunhosa, também ela é independente, embora eleita em listas do PS).
Em Braga, a meio da campanha, Seguro teve o seu banho de multidão, o primeiro digno deste nome nesta campanha. E foi também o dia em que recebeu um conjunto de dirigentes notáveis e o líder do partido, José Luís Carneiro — que teve o cuidado de reconhecer que Seguro “não é um candidato partidário”, prometendo, ao mesmo tempo, dar “o apoio de todo o PS“.
A dada altura da sua intervenção no almoço de campanha, António José Seguro fez questão de lembrar que é “suprapartidário” e a sala reagiu com um aplauso tímido. Logo a seguir acrescentou: “Mas tenho orgulho no apoio do PS, claro que tenho orgulho no apoio do PS.” E a sala inteira rebentou num aplauso. Seguro aproveitou o embalo e ainda lembrou que “o PS só demonstrou em quatro ocasiões o seu apoio a candidatos presidenciais: a Mário Soares, Jorge Sampaio e Manuel Alegre e António José Seguro. Que abençoado que eu sou”. A sala voltou a apreciar o momento do quarto presidenciável apoiado pelo partido.
Foi também neste almoço em Santo Emilião que o presidente da Câmara da Póvoa de Lanhoso, Frederico Castro, falou no elefante adormecido das primárias de 2014, para dizer a Seguro, depois de ter avançado com um formato de eleição aberta a simpatizantes, “ganharia sempre”, qualquer que fosse o resultado. Uma forma hábil de tentar fechar um episódio que, dez anos depois, ainda tem peso no partido e que motivou por um arranque tímido da candidatura.
Na mesa mesmo ao lado de Seguro estavam os “três moderados” do PS, como lhes chamou o candidato: Francisco Assis, Álvaro Beleza e Sérgio Sousa Pinto. Na principal, estava o líder José Luís Carneiro e também a presidente das Mulheres Socialistas, Elza Pais. Também apareceu Laurentino Dias, Hernâni Loureiro (antigo chefe de gabinete de Pedro Nuno), os antigos deputados e dirigentes Ricardo Gonçalves e Hugo Pires, e ainda vários dirigentes das estruturas locais do distrito. Durante a manhã, Pedro Sousa, presidente da concelhia do PS em Braga, já tinha feito as honras da casa no mercado municipal sempre colado ao candidato presidencial.
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Quem já esteve, quem estará e os ausentes
No terreno outros nomes do partido são esperados, como o de Pedro Nuno Santos, cujo apoio público estará para acontecer. Este domingo, a caravana de Seguro passa por Aveiro, distrito do ex-líder, mas não há ainda confirmação sobre a sua presença em alguma das ações de campanha — é de recordar que o nome de Seguro para esta corrida até foi lançado por Pedro Nuno, numa entrevista a que depois veio tirar gás mas que Seguro aproveitou rapidamente para dar então mais um passo em frente
Há ainda outros altos quadros do PS que têm aparecido, figuras menos evidentes nesta campanha, pela proximidade com a ala costista — aquela onde mais reservas se levantaram a Seguro. Foi o caso de Ana Catarina Mendes, com uma presença muito discreta logo no início da campanha em Grândola, ou Fernando Medina, que faz parte da Comissão de Honra, ou a ex-ministra Ana Mendes Godinho, que passou pelo almoço de mulheres no restaurante da Assembleia Municipal de Lisboa.
Alexandra Leitão (não costista, mas também uma figura desses governos e ainda da direção de Pedro Nuno) também já apareceu num almoço, ainda em pré-campanha, organizado pelo PS. Ou até Duarte Cordeiro, o ex-ministro do Ambiente que organizou uma sessão com o candidato sobre o tema, também em Lisboa.
É um socialista com peso para o futuro do partido, tendo sido um dos que tem surgido como sombra de Carneiro, nomeadamente quando depois das legislativas veio contrariar uma leitura positiva das autárquicas por parte da direção. Aliás, uma leitura coincidente com a que tem servido de base a boa parte dos argumentos de Seguro para pedir o voto nesta campanha, quando fala no “poder absoluto” da direita e na “necessidade de equilíbrios”. Na área socialista o primeiro a usar o termo foi precisamente Cordeiro quando, num comentário às autárquicas, deixou um alerta sobre esse mesmo quadro.
“Não me recordo de um partido com tanto poder como o PSD agora tem. Tem um domínio absoluto dos governos do país”, disse enumerando os vários níveis em que isso acontece: governo central, regiões autónomas, maioria das câmaras, a maioria das áreas metropolitanas e a maioria das capitais de distrito. A declaração de Seguro podia ser decalcada desta, já que segue a mesma linha de raciocínio, dando substrato à ideia de existência de riscos ao pôr os ovos todos no mesmo cesto — ou de “concentrar o poder num lado”.
Um raciocínio que não tem sido totalmente eficaz no lado socialista, onde apesar de a leva de apoiantes ter engrossado muito, ainda há figuras influentes que se mantêm desaparecidas, como Mariana Vieira da Silva. A ex-ministra criticou sempre uma candidatura de Seguro e manteve essa mesma linha. Augusto Santos Silva, uma voz sempre dura com Seguro, admitiu recentemente à rádio Observador que Seguro é “quem mais se aproxima” de “preencher requisitos mínimos” como Presidente, mas não oficializou o seu apoio.
Outras já deram um passo, mas pouco mais. O antigo líder Ferro Rodrigues, que começou por ter reservas sobre esta candidatura, acabou a apoiá-la, ainda que sem grande aparato. Fez uma declaração à Lusa e não deve tomar iniciativa individual de aparecer. E mesmo o presidente do partido, Carlos César, figura do topo do costismo, continua sem aparecer na campanha, depois de ter deixado uma frase pouco inflamada quando anunciou a aprovação do apoio oficial do PS pela Comissão Nacional do partido ao mesmo tempo que declarava que o PS “esgota a sua participação enquanto entidade autónoma” nesta eleição.
▲ Ana Abrunhosa, o lider Carneiro, Duarte Cordeiro e outras figuras do PS, como João Soares, passaram pela campanha esta semana.
VASCO COELHO/OBSERVADOR