“A luta contra a pedofilia não é uma coisa que interesse ao Papa Francisco”

15 Outubro 2017433

Depois de "Avareza", Emiliano Fittipaldi, julgado pelo Vaticano por roubo de documentos, publica "Luxúria", onde mostra documentos inéditos sobre escândalos de pedofilia na Igreja. Leia a entrevista.

O jornalista italiano Emiliano Fittipaldi foi julgado em 2016 pelo tribunal do Vaticano, acusado de ter roubado e divulgado documentos secretos que mostravam os escândalos de corrupção envolvendo alguns dos mais importantes membros da Cúria Romana. Acabaria por ser absolvido, por ficar provado que não cometeu nenhum crime no interior da Cidade do Vaticano, pelo que o tribunal católico não tinha a jurisdição para o condenar. Já sobre os padres, bispos e cardeais que denunciou — no seu primeiro livro, Avareza — nem uma acusação por parte da igreja católica.

Apenas Fittipaldi e Gianluigi Nuzzi, outro jornalista italiano julgado pela divulgação de documentos secretos do Vaticano e sobre dois sacerdotes, suspeitos de terem passado a documentação para as mãos dos jornalistas, foram à barra do tribunal. Um destes clérigos, o padre espanhol Lucio Ángel Vallejo Balda, antigo colaborador próximo do Papa Francisco, foi mesmo condenado a 18 meses de prisão efetiva por ter divulgado documentos secretos. Francisco deixou-o sair da cadeia após ter cumprido seis meses de pena, como “ato de clemência”, e retirou-lhe todas as funções no Vaticano.

Durante o julgamento, Fittipaldi continuou a investigar e preparou, em segredo, um novo livro, que agora chega às bancas em português. Em Luxúria, o jornalista italiano volta-se para outro dos grandes escândalos da igreja católica: o abuso sexual de menores por parte de membros do clero. No livro, Fittipaldi publica dezenas de documentos secretos que mostram como vários bispos e cardeais — incluindo alguns dos mais próximos colaboradores do Papa Francisco — ocultaram durante anos casos de pedofilia ocorridos nas suas dioceses.

Um dos casos mais conhecidos é o do cardeal George Pell, atual líder da secretaria para a Economia do Vaticano e número três do Vaticano, que durante perto de três décadas terá ocultado centenas de casos de pedofilia na sua diocese, na Austrália. Fittipaldi publica inclusivamente uma carta enviada por Pell a Emma Foster, uma das vítimas de abusos sexuais, a oferecer à jovem um pagamento em troca do seu silêncio sobre o caso — caso não aceitasse, a Igreja defender-se-ia em tribunal até às últimas consequências, lê-se no documento.

Em entrevista ao Observador, o jornalista mostra-se desiludido com o Papa Francisco, considerando que a anunciada revolução do papa argentino é na verdade apenas uma ação de marketing e exemplificando com o facto de Francisco ter escolhido para o seu conselho consultivo (composto por nove elementos) três cardeais envolvidos em escândalos de pedofilia. Fittipaldi acusa mesmo o Papa Francisco de não fazer da luta contra a pedofilia uma prioridade e dá detalhes sobre a influência do lobby gay no Vaticano, que diz ter sido responsável pela resignação de Bento XVI.

"Luxúria" é editado em português pela editora Saída de Emergência (FÁBIO VILARES/OBSERVADOR)

Começo pelo prólogo do livro, em que descreve detalhadamente os momentos do seu julgamento no Vaticano — era acusado de ter roubado e divulgado documentos secretos — a poucos metros dos apartamentos dos cardeais que tinha denunciado. Acabaria por ser absolvido. Como se sentiu a ser julgado pelo Vaticano?
Nada bem, porque considero a minha experiência e do meu colega [Gianluigi] Nuzzi uma das coisas mais absurdas que podem acontecer a um jornalista. É uma coisa que pode acontecer na Turquia de Erdogan ou na Coreia do Norte, mas não no Vaticano. Não sabia que havia uma lei tão severa contra a imprensa, que prevê a prisão entre os quatro e os oito anos para quem divulga informações reservadas.

Foi até humilhante, porque houve colegas jornalistas, sobretudo colegas vaticanistas [os jornalistas com acreditação permanente no Vaticano], que me atacaram ao definirem-me como um ladrão. De facto, eu no livro começo por dizer que a minha mãe quase teve um enfarte quando o Papa Francisco disse “o Fittipaldi é um ladrão de documentos”. Não é verdade que seja um ladrão. Nem uma goma roubei na minha vida. Mesmo assim, resolvi ir ao julgamento para explicar como se desenvolveram os factos e também para tornar claro na opinião pública italiana como se desenvolveu a história, como tudo aconteceu.

Podia ter recusado comparecer em tribunal. Porque é que preferiu ir?
Sim. Sou um cidadão italiano, não sou um cidadão do Vaticano. Mas, se eu não tivesse lá ido, iam fazer o julgamento na mesma sem eu estar presente e podiam inventar acusações de qualquer tipo. Portanto, preferi ir. Obviamente, foi tudo muito paradoxal, por vezes cómico, porque não obstante eu ter denunciado no livro “Avareza” todos os escândalos financeiros e económicos do Vaticano e dos cardeais, o único julgamento que havia era sobre os documentos divulgados. Éramos nós, os dois jornalistas, e os dois que nos teriam supostamente passado os documentos, os papéis, os únicos a ser julgados.

No Vaticano, neste momento, está a acabar um julgamento que foi aberto graças ao meu livro “Avareza”, sobre o apartamento de Bertone [Tarcisio Bertone, antigo secretário de Estado do Vaticano], que foi financiado com o dinheiro do hospital infantil Bambino Gesù. Um julgamento onde se pede três anos de prisão para o diretor do hospital, que deu o dinheiro ao cardeal Bertone. Mas o cardeal Bertone não foi nem chamado ao tribunal.

Neste novo livro, o Emiliano escreve precisamente sobre esse problema, dizendo que no Vaticano se aplicam penas mais pesadas a quem é transparente sobre os escândalos — neste caso sobre os da pedofilia — do que para os próprios criminosos. Há uma inversão de prioridades na Igreja?
A luta contra a pedofilia não é uma coisa que interesse ao Papa Francisco. Não é uma prioridade do Papa Francisco. Se tu és um pedófilo ou encobriste algum caso de pedofilia, muitas vezes és condenado a uma vida de oração e penitência. Nos casos mais graves, mas esses são muito poucos, és expulso da Igreja — mas muitas vezes continuas a receber um salário de padre em vez de fazer uma vida de penitência. Quem, pelo contrário, conta a um jornalista uma destas centenas de casos, quem fala de um destes processos secretos que há na Congregação para a Doutrina da Fé, arrisca o despedimento e a excomunhão. Nada disto mudou com o Papa Francisco. É exatamente igual.

"Se tu és um pedófilo ou encobriste algum caso de pedofilia, muitas vezes és condenado a uma vida de oração e penitência. Nos casos mais graves, mas esses são muito poucos, és expulso da Igreja -- mas muitas vezes continuas a receber um salário de padre em vez de fazer uma vida de penitência. Quem pelo contrário, conta a um jornalista uma destas centenas de casos, quem fala de um destes processos secretos que há na Congregação para a Doutrina da Fé, arrisca o despedimento e a excomunhão"

Quando foi julgado, disse que a Igreja, com o seu julgamento, queria passar uma dupla mensagem. Por um lado aos jornalistas, para que desistissem de investigar o Vaticano, ou seriam duramente julgados; e por outro lado aos próprios membros da Cúria, para que desistissem de ajudar jornalistas, caso contrário seriam excomungados. Pensa que a Igreja conseguiu passar essa mensagem?
Não! Porque no “Luxúria”, o livro que aí tem, há informações secretas que consegui obter durante o julgamento. Quando fui julgado e ia ao Tribunal do Vaticano, havia quem ficasse à minha espera no corredor entre a entrada e a sala do tribunal, que tinha uns 300 metros, havia quem aparecesse por ali para me falar de notícias, para me entregar documentos. Porque há uma parte do Vaticano que quer uma verdadeira reforma. Claro que agora há muitas pessoas que têm medo de falar comigo.

Por exemplo, publiquei, no mês passado, um livro em Itália com um documento reservado sobre o caso da Emanuela Orlandi [jovem cidadã do Vaticano que desapareceu em 1983 com 15 anos, naquele que se tornou num dos casos mais obscuros da igreja católica], um documento que saiu diretamente do Vaticano, um documento apócrifo muito discutido. O Vaticano veio logo negar tudo. É impossível parar esta onda contra os jornalistas, de negações e de ocultação dos documentos. Seria muito melhor que o Vaticano adotasse uma política de transparência total, se realmente quer mudar.

Emiliano Fittipaldi falou ao Observador em Lisboa, onde esteve este mês a apresentar o livro "Luxúria" (JOÃO FRANCISCO GOMES/OBSERVADOR)

No livro refere um detalhe significativo: três dos nove cardeais escolhidos pelo Papa Francisco para o C9, o conselho consultivo mais próximo do Papa, estão envolvidos em casos de ocultação de casos de pedofilia. Ainda há pouco dizia que, no que toca aos procedimentos internos, nada mudou com a mudança de Papa. O Papa Francisco não é a revolução de que tanto se fala?
Creio que os jornalistas têm de se preocupar com os factos e não com as palavras. O Papa Francisco diz que quer mudar a vergonha da pedofilia na Igreja, que vai mudar, que vai ser severo. São belas palavras, mas se depois vai promover para o C9 três cardeais como [George] Pell, como [Óscar Rodríguez] Maradiaga ou como [Francisco Javier] Errázuris, que são pessoas envolvidas em casos de pedofilia, e um inclusivamente — George Pell — com uma acusação por parte de um tribunal australiano, está a fazer uma mudança com as palavras, mas não com os factos.

O Emiliano escreve que em Itália, e nos países latinos e católicos no geral, é difícil haver uma investigação como a que houve no caso Spotlight, nos EUA, porque a imprensa é muito controlada pela Igreja. Enquanto jornalista italiano a investigar a Igreja, sentiu essa pressão?
Sim. Senti-a diretamente, esta pressão é muito forte. Nós, jornalistas que trabalhamos nos países latinos, nos países católicos, temos dificuldades objetivas muito mais fortes do que os que trabalham nos países anglo-saxónicos, porque temos uma imprensa menos livre, porque não temos uma tradição de jornalismo de investigação. Particularmente quando vamos contra um poder tão intocável como o da Igreja, é muito fácil ou autocensurarmo-nos, para não termos problemas, ou encontrar poucas fontes que ajudem a chegar à verdade no escândalo.

Isto não significa que não tenhamos de tentar romper o muro de silêncio e tentar ajudar sobretudo os mais inocentes, as crianças que não se podem defender. Esse é um dos motivos pelos quais eu fiz este livro. Quis contar como no Vaticano e em Itália existe um sistema como o do Spotlight, mas em 2017, com ocultação de casos e silenciamento das vítimas, exatamente sob o governo do Papa Francisco. Ele, nas suas palavras, disse que ia destruir o sistema da pedofilia na Igreja, mas o que acontece é o contrário, como o meu livro demonstra.

Pode dar exemplos concretos de como sentiu essa pressão por parte da Igreja?
Houve bispos em Itália, dos quais não vou dizer o nome, que me ameaçaram. Que me disseram “se publicares isto, faço-te a vida negra”. Houve cardeais que não responderam às minhas perguntas, mas que me telefonaram através do meu jornal para me dizer “tem cuidado com o que escreves”. Tenho a sorte de trabalhar num jornal livre, no L’Espresso, onde sempre pude escrever o que queria, mas é claro, é notório, que há uma força, um poder, que está a ameaçar. O Vaticano — não a Igreja, que eu tenho muito respeito pela base da Igreja, mas a cúpula — tem uma memória muito longa. Fazerem um julgamento a um jornalista já é algo que dá uma grande pressão sobre o jornalismo. Eu e Nuzzi tivemos a sorte de sermos dois jornalistas bastante estruturados, mas noutros casos o risco é o de passar por um processo mediático, ser destruído por um processo mediático.

"Houve cardeais que não responderam às minhas perguntas, mas que me telefonaram através do meu jornal para me dizer 'tem cuidado com o que escreves'"

Ao contrário de outros jornalistas e investigadores que têm publicado sobre os escândalos do Vaticano, o Emiliano nunca atacou diretamente a doutrina ou a fé católica, mas apenas os factos praticados pelos clérigos. Nem mesmo nestes casos de abusos sexuais, em que a relação com a doutrina — o celibato, por exemplo — pode ser fácil. Nunca sentiu essa tentação?
Não, nunca. Neste livro eu só falo de doutrina no último capítulo, que é sobre o lobby gay, porque me interessava a hipocrisia da doutrina católica, que é muito severa com os homossexuais, muito rígida. Ainda hoje, nada mudou com o Papa Francisco. A doutrina é idêntica à de há 100 anos. No catecismo, ainda se encontram referências a Sodoma e Gomorra, às cartas de São Paulo, em que ele diz que um homossexual não pode entrar no reino dos céus. Mesmo com esta doutrina em vigor — de que não gosto, porque acho que é muito retrógada — surgem os factos que dão conta de um lobby gay dentro do Vaticano, que é muito poderoso, que decide carreiras, destinos. Este lobby foi tão forte durante o período de Ratzinger que contribuiu para o fim de um papado ao fim de mais de mil anos. Aí, sim, interessa-me a hipocrisia entre uma instituição que fala da perfeição da heterossexualidade, criticando qualquer coisa que seja diferente disso, e que depois na vida privada se comporta exatamente como aquilo que demoniza.

Outros aspetos que me preocupam em relação à doutrina têm a ver, por exemplo, com o facto de os homens serem os únicos detentores de poder na igreja católica. As mulheres não têm nenhum tipo de poder. O Papa disse que ia abrir uma comissão de estudo para avaliar se as mulheres podiam aceder ao diaconado. Desta comissão não se sabe nada. Acho que uma Igreja mais aberta às mulheres — porque eu sou um feminista convicto — seria menos corrupta e os escândalos de pedofilia seriam muito menos. Quase sempre, os escândalos de pedofilia têm a ver com os homens, quase nunca têm a ver com freiras, com as mulheres. Na Irlanda foram relatados casos muito graves com as freiras, mas os casos de pedofilia, 90% deles, estão relacionados com os homens.

Já que falou do lobby gay, vamos já lá. Há muitas questões em torno deste lobby, muito mistério, muita negação, apesar de tanto Bento XVI como Francisco terem acabado por reconhecer, timidamente, a sua existência. Afinal, quem são estas pessoas, o que é que pretendem, que influência têm no Vaticano?
O perigo deste lobby ficou bem demonstrado pelo primeiro Vatileaks — eu sou protagonista do segundo Vatileaks. O primeiro foi o que levou ao fim do Papa Bento XVI. O lobby gay influenciou de forma pesada a demissão de Ratzinger. Houve um grupo de poder que se inseriu nos vértices da administração da Santa Sé, que controlava o Instituto de Obras Religiosas [o banco do Vaticano], os hospitais, a grande riqueza do Vaticano e, a dada altura, percebeu-se que muitas dessas pessoas estavam ligadas pela mesma orientação sexual.

Por mim não há nenhum problema que tenham a mesma inclinação sexual. O problema é que quando há um lobby assim — e nisto concordo com o Papa Francisco — quem tem a mesma inclinação cultural ou sexual tem a tendência a excluir os outros, a comportar-se como uma máfia. Foi isto que aconteceu durante o pontificado do Bento XVI. Ele chegou a admitir a existência de um lobby gay, disse que este lobby gay tinha sido eliminado. O problema é que depois há outros que se vão formando, e houve lobbys que se formaram no pontificado do Papa Francisco. Um ex-líder dos guardas suíços [guarda oficial do Papa] descreveu o problema dos homossexuais dentro da Santa Sé como um problema muito grave, de pessoas unidas por interesses económicos e que poderiam até atentar contra a vida do Papa. Eu acho isso excessivo, mas com certeza há forças, há lobbys homossexuais que decidem carreiras no Vaticano. Se fores homossexual, tens oportunidade de fazer uma grande carreira no Vaticano, se não fores arriscas fazer menos carreira. A homossexualidade funciona ao contrário, porque pela doutrina a homossexualidade não é aceitável, mas aqui funciona como arma para destruir carreiras.

"Há lobbys homossexuais que decidem carreiras no Vaticano. Se fores homossexual, tens oportunidade de fazer uma grande carreira no Vaticano, se não fores arriscas fazer menos carreira"

Um dos trabalhos de investigação mais notáveis que publica neste livro é relativo ao cardeal George Pell [antigo arcebispo de Melbourne, Austrália, atual secretário para a Economia do Vaticano, acusado de encobrir centenas de casos de padres pedófilos na Austrália]. Teve acesso a documentos reservados, como por exemplo a carta que Pell enviou a uma das vítimas a propor-lhe uma indemnização em troca do silêncio, ou outro documento interno da diocese a preparar a ajuda aos padres pedófilos que saíam da prisão. Foi difícil ter acesso a esta documentação e investigar este caso? Estamos a falar de um dos homens mais poderosos do Vaticano.
Foi difícil contar toda a história, todo o escândalo de pedofilia de Pell, porque o caso dura há quase trinta anos. Precisei de aceder a documentação que está na Austrália, porque era documentação que as vítimas tinham entregue à Royal Commission, uma comissão criada pelo governo de Camberra para investigar todo o fenómeno da pedofilia na Austrália, e não apenas na Igreja, mas também nas escolas e outras instituições australianas. Tive fontes no interior da comissão e até jornalistas australianos que me ajudaram a encontrar, no meio de milhares de papéis, os documentos mais importantes, os que podiam demonstrar como Pell sabia muito bem o que estava a fazer, como estava a tentar defender a Igreja, defender os cofres da Igreja, porque essa era a sua prioridade, ou a fingir que protegia as vítimas. Houve pessoas na Austrália que me ajudaram.

Em todos os outros países tive pessoas que me ajudaram, por exemplo no Chile [onde ocorreu o caso do cardeal Errázuriz] também tive fontes. De facto, foi uma investigação muito comprida, demorei quase um ano a fazer este livro, mas no final estes documentos, sobretudo os que estava a citar, relativos a Pell, demonstram sem sombra de dúvida o nível ético e moral de Pell. Não estou interessado se ele vai ser ou não condenado por estas novas acusações de pedofilia de que é agora alvo. Até desejo que ele consiga demonstrar a sua inocência. Acho que será muito difícil demonstrá-lo, após 30 anos de acusações tão graves. Mas há estes documentos que mostram como ele tentou comprar as vítimas, como negou violências muito evidentes, como não quis ouvir os gritos de dor das pessoas que não tinham maneira de se defender, como tentou proteger o dinheiro das dioceses de Melbourne e de Sidney.

Tudo isto está provado por este livro, não é preciso um julgamento. Provavelmente nem cometeu crimes, mas é uma sentença moral que já pode ser emitida. Por mim negativa, obviamente. Eu fiquei muito surpreendido com a notícia da nomeação de Pell. Mesmo tendo, provavelmente, as mesmas informações que eu tenho sobre ele, o Papa Francisco resolveu promover o cardeal para número três do Vaticano.

Fittipaldi publica documentos da diocese de Melbourne, como a carta enviada a Emma Foster, vítima de abusos sexuais, a oferecer-lhe um pagamento em troca do seu silêncio (FÁBIO VILARES/OBSERVADOR)

No caso Spotlight, o cardeal Bernard Law acabou por ser forçado a renunciar ao seu cargo como arcebispo de Boston. Mas o cardeal Pell, que também encobriu padres pedófilos, fez carreira, chegando ao topo do Vaticano. Porque é que estes casos tiveram desfechos tão distintos?
Antes de mais, não diria que o cardeal Law não tenha sido também promovido. Ele foi nomeado como arcipreste da Basílica de Santa Maria Maior [em 2004, dois anos depois da resignação em Boston]…

O Papa João Paulo II na altura disse que essa nomeação, para um cargo sobretudo simbólico, fazia parte de um “processo de cura”…
Sim, mas de facto tornar-se arcipreste… Um processo de cura para o cardeal Law seria pegar nele e pô-lo num iglu na Gronelândia, para rezar, pensar nos seus pecados. Não é numa das igrejas mais importantes para o Cristianismo, que é a de Santa Maria Maior. Isto é incrível. O caso de Pell é ainda mais incrível, porque fez exatamente o mesmo que Law — não acreditou nas vítimas, tentou comprar o seu silêncio. Durante o escândalo, Bento XVI não o quis em Roma. Bento XVI e Bertone pararam-no. Sabiam que havia este escândalo na Austrália. Depois, veio Francisco e promoveu-o imediatamente. Foi uma coisa incrível. Na Europa ninguém falou disso. Em Itália ninguém falou disso… falei eu um pouco no L’Espresso, e os meus colegas jornalistas australianos, que se tornaram meus amigos, e aos quais eu pedi depois ajuda para encontrar os papéis que mostravam a culpa de papel.

Recorde a entrevista do cardeal George Pell ao Observador:

Há pouco referia a ideia de sentença moral ao invés da sentença pela prática de crimes. No livro escreve sobretudo sobre questões éticas e morais e não sobre os crimes praticados. O seu objetivo é demonstrar a hipocrisia e a inversão de valores na Igreja?
O meu objetivo é ver a diferença entre o que a Igreja e os líderes da Igreja dizem através da sua propaganda e a realidade dos factos. Quero informar os leitores e a opinião pública sobre o que realmente acontece em relação a uma batalha civilizacional importantíssima, que é a luta contra a pedofilia. É só isto. É isto que tem de fazer um jornalista quando está a investigar um poder. Muitos destes crimes já não podem ser perseguidos na justiça porque já prescreveram, porque a Igreja tem a tendência de esconder estas violências e os abusos sobre as crianças durante anos e anos, até que a lei civil já não seja possível de utilizar para condenar os criminosos.

Por exemplo, o Papa Francisco fez algumas coisas que foram contadas por jornais do mundo inteiro como revolucionárias, como a criação da comissão contra a pedofilia. Descobri que esta comissão, em três anos, se reuniu cinco ou seis vezes, não fez nada e não tinha nenhum tipo de poder. Dois dos membros da comissão — os dois únicos sobreviventes de atos de pedofilia que faziam parte da comissão, Marie Collins e Peter Saunders — bateram com a porta, saíram em protesto. Diziam que esta comissão é uma palhaçada, que tinha sido instituída para fazer public relations ao Papa. A comissão de facto não tinha nenhum poder, e não tinha nenhuma informação da Congregação para a Doutrina da Fé, onde, pelo contrário, são escondidas todas as informações sobre os padres pedófilos. Fica tudo nos arquivos da Congregação, não chegou nada a esta nova comissão, criada só para mostrar aos jornalistas. O problema é que nós, jornalistas, muitas vezes, acreditamos nestas coisas.

Mas há mais exemplos destas hipocrisias. O Papa Francisco, em 2015, anunciou um tribunal contra os bispos que ocultaram crimes de pedofilia. Todos disseram que era uma decisão muito corajosa. Foi constituído o tribunal? Nunca. O Papa Francisco fez uma encíclica chamada Amoris Laetitia, explicando que finalmente o Papa tinha mais poder para mandar embora os bispos que escondiam a pedofilia e os padres pedófilos. Isto também foi descrito pelos jornais do mundo inteiro como uma revolução, mas é uma mentira. O Papa sempre foi o monarca da Igreja, sempre teve o poder de mandar embora quem entendesse, se fosse considerado indigno. E de facto, antes da Amoris Laetitia, o Papa Francisco já tinha afastado alguns dos seus inimigos de um dia para o outro.

Ou seja, a revolução do Papa Francisco de que se fala é uma fachada?
É comunicação. Marketing.

Porque é que a Igreja continua a esconder a documentação sobre a pedofilia nos arquivos secretos em vez de adotar uma política de transparência? É falta de preparação da Igreja para lidar com este assunto da forma mais eficaz?
A Igreja católica não está preparada para enfrentar estes escândalos, porque tem medo do que aconteceu nos EUA, na Irlanda, agora na Austrália. A dimensão dos escândalos foi espantosa nos locais onde os houve. Sobretudo a Igreja perdeu muito dinheiro nas indemnizações. Os juízes anglo-saxónicos não são como os juízes latinos, e os ressarcimentos, as compensações, podem ser milionários. Por isso, a Igreja hoje, em vez de mudar de política e tentar tornar-se realmente transparente, continua a esconder tudo. Porque tem medo de que novos escândalos possam destruir o pouco de credibilidade que ainda têm nos países latinos e, sobretudo, têm medo de que possa haver um ataque aos cofres pelas vítimas que querem reembolsos. Então, continua a esconder qualquer escândalo, como que a tentar parar um tsunami com as mãos. Os escândalos vão continuar a aparecer. Sobretudo, se não houver uma reforma verdadeira, os padres vão continuar a achar que podem sair limpos destes casos. É como um círculo vicioso, no futuro vai haver mais escândalos.

Eu esperava, do Papa Francisco, uma verdadeira revolução sobre este tema, essa foi uma das razões pelas quais ele foi eleito no conclave de 2013. Do Papa Francisco esperavam-se ações em relação a três coisas: os escândalos financeiros em Roma, a luta contra os abusos sexuais por parte dos padres e uma relação mais direta com o povo católico, porque Ratzinger tinha sido um papa muito afastado das pessoas. O Papa concentrou-se apenas neste último aspeto. Mas os aspetos mais importantes, aqueles que ficam no tempo, são os primeiros dois.

"Os escândalos vão continuar a aparecer. Sobretudo, se não houver uma reforma verdadeira, os padres vão continuar a achar que podem sair limpos destes casos"

Ter o Papa Francisco, uma celebridade de que todo o mundo gosta, a dizer em público que o Emiliano roubou documentos foi difícil para si?
Fiquei muito zangado, foi muito humilhante. Mas também me senti consciente de que tinha feito o meu trabalho de maneira rigorosa, respeitando a lei e a minha deontologia profissional. Eu sei bem quem me deu aqueles documentos, sei bem que estes documentos estavam à disposição das fontes e não foi porque os tinham roubado, mas sim porque eram titulares dos documentos. Estes documentos continham notícias muito importantes, que qualquer jornalista do mundo, tendo verificado, publicaria. Se não o fizesse, é melhor que mude de profissão.

Fiquei dividido. Por um lado, tive medo, fiquei desiludido e zangado. Mas, por outro lado, sei bem que o poder, quando é atacado, se defende de maneira muito forte. Estava consciente de que teria de ser muito forte para poder contra-atacar e demonstrar ao meu jornal, às pessoas que me rodeiam, que só tinha feito o meu trabalho e mais nada. E correu bem.

Depois de publicar estes dois livros, ficou com problemas em relacionar-se com a Igreja, desde as fontes oficiais aos membros da Cúria?
Eu não falo com as fontes oficiais do Vaticano. Nunca dão informações que não sejam de propaganda, por isso não estou interessado em falar com o gabinete de imprensa. Não estou interessado em falar com a comunicação oficial, com o Greg Burke [diretor de comunicação do Vaticano], e eu, como sou um jornalista de investigação, também sou um problema para eles. Tenho de tentar dar a volta e encontrar uma fonte interna que tenha coragem de contar o que a propaganda não contou.

Com os membros da Igreja, no geral… eu sou um agnóstico, por isso não sinto necessidade de me relacionar com a Igreja. Não sou um católico praticante. Sou batizado, vivo na cultura católica, tenho respeito pela fé, mas para mim a Igreja, em particular a cúpula da Igreja, é um poder como outro. Eu faço investigações sobre o poder, utilizando o mesmo método para políticos, empresários corruptos ou o príncipe da Igreja. Vivo em Roma, faço um jornalismo de investigação sobre o poder. Se não fizesse também sobre a Igreja, eu próprio seria uma piada.

No início da nossa conversa referiu que chegou a ter cardeais a telefonar-lhe para o jornal a ameaçá-lo para não publicar determinados assuntos. Alguma das ameaças chegou a concretizar-se? Não tem medo?
Um padre importante, diretor da Rádio Maria, disse durante a transmissão em direto que eu tinha de acabar enforcado como Judas. Disse-o a toda a Itália. Aí, assustei-me um pouco. Não foi por ele, mas porque o mundo está cheio de loucos, pensei que se ele dizia alguma coisa assim, alguém podia ouvir, não sei. Chamei a polícia para pedir proteção. O que mais me impressionou foi que ninguém me deu solidariedade em Itália. Ninguém na Igreja disse “este padre é um louco”.

Repito: é uma tensão contínua ir contra um poder deste tipo. Consideram-me um jornalista que quer vender livros para ganhar dinheiro, que inventa os escândalos movido por alguma maçonaria internacional que quer destruir a Igreja (risos). Fizeram-me as acusações mais incríveis. Pergunto-me como é que num país como o nosso, Itália, por vezes acusações deste tipo são tomadas em consideração.

Já publicou “Avareza” e “Luxúria”, ainda faltam mais pecados. Planeia continuar a investigar a Igreja?
Não vou fazer livros sobre todos os sete pecados mortais! (risos) Se alguém quiser, encontrará muitos outros escândalos. Depende do tipo de notícia que venha a descobrir. Se forem notícias importantes, um jornalista tem sempre de publicar. Num livro, numa transmissão televisiva, num jornal. Não sei se vou fazer um livro ou se vou publicar no L’Espresso. Há um mês descobri que [o cardeal Luis] Ladaria, o líder da Congregação para a Doutrina da Fé, que sucedeu a Muller, assinou uma carta em que avisava um bispo que tinha mandado embora um padre pedófilo, que tinha feito um julgamento de que ninguém sabia nada. Ladaria disse ao bispo para não dizer nada, para evitar um escândalo público. Acontece que este padre pedófilo deixou de ser padre, tornou-se treinador de futebol infantil, e abusou de metade da equipa. Exatamente por culpa do novo chefe da Congregação para a Doutrina da Fé. Se eu tiver uma notícia deste tipo — esta publiquei em julho — como é claro vou publicar. Se forem muitas, então faço um livro.

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