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Rose Wang, diretora de operações da rede social Bluesky. Web Summit Lisboa 2025
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▲Rose Wang, de 34 anos, é diretora de operações da rede social Bluesky

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▲Rose Wang, de 34 anos, é diretora de operações da rede social Bluesky

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A "máquina do tempo" Bluesky rejeita a ideia de que "só crescemos no pós-eleições dos EUA não é verdade”

A diretora de operações da Bluesky diz ao Observador que a rede social está em “crescimento”, incluindo na Europa. Foco passa "por resolver os problemas que as redes sociais tradicionais criaram".

A rede social Bluesky nasceu como um projeto interno do Twitter, apoiado por Jack Dorsey, fundador da rede social do antigo pássaro azul. Mas, desde o início de 2022, passou a ser uma estrutura independente. Quando o multimilionário Elon Musk sinalizou, em abril de 2022, o interesse em comprar o então Twitter, a equipa liderada por Jay Graber fez questão de tornar pública a separação entre entidades. A Bluesky era “propriedade da própria equipa, sem qualquer participação detida pelo Twitter”.

A ideia do projeto, iniciado em 2019, era simples: ser uma rede social “aberta”, sem anúncios e ser baseada num protocolo com servidores (cada pessoa escolhe o servidor com que quer aceder) mas que comunicam entre si. Ainda que assumissem que o Bluesky era da “equipa” e não do Twitter, as mudanças na rede do pássaro azul (hoje X) levaram à independência da rede do céu azul. Em fevereiro de 2023, começou a receber utilizadores, primeiro só com convites. Um ano mais tarde, os registos foram abertos ao público em geral.

Um céu azul pelo pássaro azul? A Bluesky quer competir com o Twitter, mas ainda é “mais pequena do que muitas cidades”

A caminhar para a marca de dois anos desde que dispensou as inscrições por convite, a Bluesky conta com “40 milhões de utilizadores”, avança Rose Wang, diretora de operações, numa entrevista ao Observador durante a sua passagem pela Web Summit. Os EUA ainda são o maior mercado para a empresa, “mas a Europa está a crescer”, assegura. “Estamos a crescer em mercados como a Alemanha, Reino Unido, Espanha e França. Também estamos à espera de ver mais crescimento em Portugal”, diz. Mas não detalha números exatos para o mercado português, acrescentando apenas “que o país não está ainda no top 10 de mercados”.

No ano passado, a Bluesky foi uma das empresas que mais beneficiou com um fenómeno chamado Xodus — a saída de utilizadores devido às mudanças no X, uma situação que se tornou mais visível após as eleições norte-americanas. Segundo dados da Similarweb, a Bluesky chegou a encaixar quase um milhão de novos utilizadores por dia.

#Xodus. Mudanças de Musk no X empurram cada vez mais utilizadores para outras redes. Pressão aumenta para Bluesky e Threads

A responsável pelas operações recusa que a empresa só tenha visto os números crescer nesse momento. “A ideia de que só vimos este crescimento após as eleições [dos EUA em 2024] não é verdade”, diz. Considera que há interesse em novos espaços na internet, dando como exemplo o “primeiro milhão de utilizadores conquistado no Japão na primeira semana de lançamento” da rede social.

Apesar da vontade de se descolar da ideia de “clone” do Twitter ou de local para os descontentes do X, há fenómenos de crescimento exponencial associados à empresa do homem mais rico do mundo. Como “quatro milhões de utilizadores do Brasil se registaram” na Bluesky quando “o X foi bloqueado no Brasil”. Por determinação do juiz Alexandre de Moraes, a rede social X esteve bloqueada durante alguns dias por não ter cumprido uma ordem para nomear um representante legal da plataforma no Brasil.

X de regresso ao Brasil. Alexandre de Moraes decreta desbloqueio da rede social

Nem sempre há fatores geográficos ou políticos para explicar as variações nos registos. “É difícil saber. Há sempre coisas a acontecer, às vezes temos enormes migrações de utilizadores devido a um acontecimento, outras vezes está ligado à moderação que não corre bem noutras plataformas. Acho que, nesta altura, há muitas razões diferentes para as pessoas virem para a Bluesky”, resume.

“As pessoas não percebem que o crescimento das redes sociais viradas para o consumidor tem tendência a ser irregular. A Bluesky tem 21 meses. Só por comparação, o Facebook levou dois a três anos a chegar aos nossos números. O Twitter três a quatro anos…” Admite que, quando estas redes foram lançadas, “eram tempos diferentes” na internet. “Mas também não vemos redes sociais [a surgir] nos últimos dez, vinte anos, certo? O Snapchat foi, em 2012, na verdade, uma das últimas empresas a ser lançada no panorama de redes sociais.”

“Há tanta coisa a acontecer no mundo e as pessoas estão a tentar lidar com isso”, afirma. “Acho que se não tivermos espaços [online] para as pessoas se juntarem e se aproximarem só vamos estar a afastá-las cada vez mais. E será assim que vamos chegar a um mundo em que há relações mais próximas com chatbots de inteligência artificial  do que com outros humanos.”

Além dos acontecimentos localizados, o que leva então as pessoas à Bluesky? “Quando falamos com os utilizadores, muito deles dizem-nos que gostam da Bluesky porque parece o Twitter de 2012 — e com isto querem dizer que estão a fazer amigos online outra vez”, exemplifica. “Já tivemos casais que casaram depois de se conheceram na Bluesky. Há pessoas que encontraram trabalho” na rede social.

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▲ A Bluesky tem atualmente 40 milhões de utilizadores

NurPhoto via Getty Images

“Acho que [a Bluesky] é uma máquina do tempo no sentido em que qualquer outra plataforma social está a inclinar-se mais para a parte de media, enquanto nós estamos estamos mais virados para a parte social.”

Um mundo de feeds, organizados por interesses, onde os utilizadores podem ditar as regras

Quando se fala em redes sociais é habitual falar-se do difícil equilíbrio a atingir entre a moderação de conteúdos e a liberdade de expressão. A matemática é fácil: quanto mais pessoas estiverem reunidas no mesmo espaço virtual, a partilhar conteúdos, maior a probabilidade de surgirem desafios.

A partir do momento em que a Bluesky surgiu e começou a operar na escala dos milhões de utilizadores, levantaram-se dúvidas sobre como a reduzida equipa — na ordem de dezenas — poderia gerir o assunto. A equipa principal da Bluesky “tem 30 pessoas”, diz Rose Wang, mas a equipa de moderação tem outros números.

“Temos uma equipa de moderação à parte, na ordem de centenas de pessoas”, esclarece. “E a nossa moderação também funciona de forma diferente.” A executiva explica que a Bluesky não opera com prestadores de serviço. “Empregamo-los diretamente, são funcionários diretos da Bluesky”, diz.

“A forma como a moderação funciona na Bluesky é muito diferente”, diz Wang. “Na app da Bluesky temos termos de serviço e diretrizes da comunidade que são muito semelhantes aos do antigo Twitter. Temos o nosso próprio líder de confiança e segurança”, referindo-se a Aaron Rodericks, que foi até janeiro de 2024 co-líder da equipa de segurança e confiança do Twitter. “Temos a nossa equipa de moderação, que gere o conteúdo da aplicação da mesma forma como faz o Twitter, mas com uma principal diferença: temos feeds diferentes, que são criados pelos utilizadores.”

“Dentro desses feeds, é possível haver regras de moderação ainda mais apertadas e [os criadores dos feeds] podem ter os seus próprios voluntários a fazer a moderação, que é muito o que acontece no Reddit, onde a comunidade assegura 40% da moderação”, acrescenta Wang.”É semelhante na Bluesky, onde em qualquer um destes feeds é possível ter regras mais rigorosas de moderação” ou mais adaptáveis à comunidade. “Por exemplo, proibir os spoilers de filmes, que é algo com o qual a maioria das plataformas não se preocupa. E, enquanto comunidade, é possível ditar essas regras”.

“Basicamente estamos a colocar as ferramentas nas mãos das pessoas para que possam criar as suas próprias comunidades.” E, depois disso, “podem ditar como é que a comunidade é gerida”, nota. “Vamos imaginar que um feed é uma cidade dentro de um estado maior, que é a Bluesky. Há que seguir as nossas regras, mas é possível decidir as suas próprias regras, numa escala menor, desde que as nossas também sejam seguidas.”

▲ Rose Wang participou numa das sessões da Web Summit deste ano

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Bluesky não quer anúncios para se distinguir de outras redes

Operar no mundo das redes sociais “é muito dispendioso”, admite Rose Wang. Mas, por agora, a empresa “recebeu investimento”, não estando por isso a “acelerar” os trabalhos na monetização”, explica. Mas há alguns planos para isso.

Por agora, o foco “está ligado a garantir que as pessoas têm uma boa experiência online” e “um espaço mais saudável”. “Queremos criar um mundo onde os humanos se podem ligar a outros humanos”. “É o nosso objetivo número um e aquilo em que estamos focados”, assegura. “Ainda sem anúncios”, frisa.

“Acho que o ponto da Bluesky passa por resolver os problemas que as redes sociais tradicionais criaram. E um dos maiores problemas é que se trata de um mercado em que o incentivo passa por ter as marcas como cliente final e os utilizadores como produto”, afirma. “Não estamos interessados em vender um serviço que não beneficia os utilizadores ou anunciantes.” Considera que “é isso que a publicidade centralizada impulsiona”. “O que posso garantir é que nunca faríamos publicidade dessa forma.”

“Toda a gente está muito focada na publicidade porque é o único modelo de negócio que sabem que funciona. ‘Bem o que é que vamos fazer?’, ‘onde vamos fazer?'”, refere. Mas “há outras formas em que a publicidade poderia funcionar num modelo de web aberta, mais baseada em intenções”, admite.

“Acho que todo o ponto da Bluesky é que existimos para experimentar novos modelos de negócio e não aqueles que têm estado a ser usados nos últimos dez, vinte anos.” Dá como exemplo a experiência do TikTok com o comércio eletrónico. “O comércio eletrónico e as compras o TikTok já ultrapassou o eBay, por exemplo. Portanto há muitos modelos por aí — só que ainda não os experimentámos.”

No passado, a Bluesky já falou sobre o interesse em explorar um modelo de subscrições, em que os utilizadores poderiam pagar para ter acesso a mais ferramentas de personalização de perfil ou carregamento de vídeos com uma qualidade mais alta. Agora, Rose Wang afirma que “estão mais interessados em pagamentos”.

“Ou seja, a possibilidade de os utilizadores poderem pagar uns aos outros.” Refere que “há interesse” por parte de quem usa a Bluesky. “Temos mais de 100 mil feeds e pacotes de iniciante”, referindo-se à opção de convites personalizados que permitem a um novo utilizador aceder ao feed ou comunidade criada por outra pessoa. Por exemplo, passar automaticamente a seguir um feed que dá acesso à publicações de quem está ligado às ciências ou às artes.

“Muitos programadores e criadores já estão a receber apoio [financeiro] de outros utilizadores através da Bluesky, por exemplo com o Patreon ou Open Collective”, opções em que é possível fazer donativos a alguém. “Já estamos a ver o dinheiro circular e achamos que é uma excelente oportunidade.” Ou seja, em troca do uso da infraestrutura de pagamentos, a Bluesky passaria a ser recompensada com uma comissão associada ao pagamento.

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