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A perder espaço à esquerda e obrigado a apoiar o candidato que mais criticou. Os contornos da derrota de António Filipe

PCP obrigado a "engolir sapo" para apoiar António José Seguro depois de campanha em que socialista foi alvo a abater. Mas não vai aparecer ao lado do candidato na segunda volta.

Menos de 2% dos votos, abaixo da marca dos 100 mil eleitores, atrás de Catarina Martins e pouco mais de 30 mil votos acima de uma candidatura assumidamente satírica como a de Manuel João Vieira. Pegue-se por onde se pegar, o resultado de António Filipe nas presidenciais de 2026 é inequivocamente o pior da história para um candidato apoiado pela CDU. E, por isso, a maior derrota de sempre para os comunistas.

A descida tem sido gradual, de eleição para eleição, e desta vez nem Paulo Raimundo nem António Filipe falaram em “resistência” — uma palavra que se ouviu em praticamente todas as reações aos maus resultados registados nos últimos anos. Ambos dizem que “a luta continua”, mas falar em resistir seria negar os dados que estão em cima da mesa, e que apontam para um futuro em que o PCP terá mesmo de lutar para sobreviver.

“O resultado obtido pela minha candidatura ficou aquém do que Portugal precisa e não permite alimentar a ideia de que o resultado destas eleições se traduza na expansão da vontade de mudança e um novo rumo de sentido progressista para a política nacional”. A frase é de António Filipe, no discurso de reconhecimento dos resultados, e mostra que o candidato não alimenta ilusões sobre a vontade dos portugueses em aderir ao discurso da esquerda — ou desta esquerda — no atual contexto político.

Tanto o candidato como o secretário-geral comunista justificam o mau resultado com os apelos ao voto útil à esquerda. Se António Filipe agradeceu a quem nele votou por não ter “soçobrado perante a chantagem do medo”, Paulo Raimundo vai mais longe e culpa também a comunicação social: diz que o resultado foi “construído num quadro de uma campanha eleitoral de tratamento desigual, de promoção e favorecimento de outras candidaturas, focada no acessório para ocultar e dissimular as questões cruciais da vida nacional. “Uma campanha marcada pela chantagem, condicionamento e opção do livre voto”, resume o líder do PCP.

O candidato à Presidência da República, António Filipe, acompanhado pelo Secretario Geral do Partido Comunista Paulo Raimundo durante uma ação de campanha de arruada na rua de Santa Catarina, no Porto, 15 de janeiro de 2026. Os portugueses elegem o novo Presidente da República em 18 de janeiro. PEDRO GRANADEIRO/LUSA

▲ Paulo Raimundo na campanha de António Filipe, no Porto

Pedro Granadeiro/LUSA

António Filipe também reconhece que essas pressões para o voto útil funcionaram, especialmente pela hipótese de crescimento eleitoral da extrema-direita. “Creio que houve muitas pessoas que votaram na candidatura de António José Seguro por terem o receio de que pudesse haver dois candidatos mais à direita na segunda volta. Creio que isso pesou muito na cabeça de muitos eleitores e, aliás, houve pressões muito grandes nesse sentido. Quando me referi ao medo é precisamente a isso que me estou a referir”, disse o candidato.

António Filipe assegura que “muitas pessoas” teriam votado na sua candidatura se a possibilidade de uma segunda volta “muito à direita” não estivesse em cima da mesa. E garante que a cedência desses eleitores não significa “um claro apoio” a António José Seguro, mesmo que nele tenham votado.

Confiando que assim é, o PCP e a candidatura de António Filipe apoiam Seguro na segunda volta contra André Ventura. Mas, sublinham, esse endorsement só acontece porque do outro lado está o líder do Chega.

“A passagem à segunda volta de António José Seguro e André Ventura configura um quadro em que, do desfecho das eleições, não é possível afastar do exercício das funções presidenciais uma clara identificação com a política da direita e o que ela representa de apoio e promoção dos interesses dos grupos económicos”, lamentou Raimundo, antes de apelar ao voto no socialista.

“Face às candidaturas em presença, impõe-se impedir a possibilidade de vir-se a instalar como Presidente da República alguém que, para lá do compromisso com a política da direita e da partilha de muitas das opções do atual Governo e de maioria parlamentar, assume de forma clara uma agenda e conceções reacionárias, retrógradas e antidemocráticas, de questionamento do regime democrático e de ofensiva desvalorização e ataque à Revolução de Abril”. Assim sendo, Raimundo não vê outra opção senão a exigência “de forma clara e evidente” do voto “contra a candidatura de André Ventura”.

Já António Filipe aproveita para fazer um reparo: “O apelo ao voto em António José Seguro na segunda volta não significa um apoio ao candidato António José Seguro, àquilo que defendeu enquanto candidato e que tem defendido ao longo da sua atividade política”. Para o candidato comunista, está em causa a necessidade “imperiosa” de derrotar André Ventura, até porque não acredita que esteja em cima da mesa uma “clivagem esquerda-direita”. E garante que muita gente teria votado na sua candidatura se essa ameaça não se pusesse já na primeira volta, em que chegou a prever-se uma segunda ida às urnas apenas com candidatos da direita.

No essencial, tanto António Filipe como Paulo Raimundo se viram obrigados a justificar um “ziguezague” que o candidato foi garantindo durante a campanha que não o caracterizava. Depois de duas semanas em que tiveram Seguro como alvo principal, os comunistas veem-se agora sem opção senão posicionar-se ao seu lado, por considerarem que Ventura é uma ameaça ao sistema. No final de contas, Filipe acaba por defender o “mal menor” que vinha garantindo que não era necessário apoiar.

O eleitorado até pode perceber o argumento, mas também não esquecerá que António Filipe passou as últimas semanas a garantir que não podia desistir em favor de António José Seguro porque o antigo líder do PS nem sequer é um homem de esquerda

Os riscos do apoio a Seguro e as lições que Carneiro aprendeu com o candidato socialista

O apelo ao voto em António José Seguro na segunda volta não está desprovido de riscos — e tanto Raimundo como Filipe o sabem. Se assim não fosse, não teriam sublinhado no discurso de reconhecimento dos resultados que o apoio ao socialista nem de um verdadeiro apoio se trata, mas sim de uma opção necessária face à possibilidade da entrada de Ventura em Belém.

O eleitorado até pode perceber esse argumento, mas também não esquecerá que António Filipe passou as últimas semanas a garantir que não podia desistir em favor de António José Seguro porque o antigo líder do PS nem sequer é um homem de esquerda.

Os comunistas olham para a segunda volta como uma batalha entre um democrata e um reacionário que quer destruir a democracia, mas ao posicionar-se ao lado de Seguro — especialmente se o candidato derrotar Ventura — correm o risco de dar capital político ao Partido Socialista como primeira e principal barreira contra a extrema-direita. A eventual vitória de Seguro dará um novo fôlego ao partido que antes liderava, e o PCP pode estar por isso a contribuir para dar oxigénio à força política que a cada nova ida às urnas lhe pode roubar mais eleitores.

Talvez por isso, e para fugir a possíveis acusações de hipocrisia ou de mudança repentina de ideias, o Observador sabe que o apoio a António José Seguro se vai ficar pelo apelo ao voto feito pelo candidato e pelo secretário-geral comunista na noite eleitoral da primeira volta. O PCP não vai fazer campanha nem vai sair à rua pelo socialista nas próximas três semanas, e espera que o apelo e o posicionamento político cheguem como sinal aos eleitores mais reticentes à esquerda de que é preciso “engolir o sapo” e votar no candidato que foi sendo descrito nesta campanha como “nem carne nem peixe”.

Mesmo que o candidato fuja à colagem ao partido, os resultados de António Filipe são inseparáveis da realidade do PCP, e são uma peça importante para o futuro político dos comunistas. Especialmente numa eleição que, sendo por natureza de carácter unipessoal, teve quase todos os partidos com assento parlamentar representados através de um candidato. E essas contas para o futuro vão ser feitas, logo a começar pela relação com o Partido Socialista.

Sendo provável que também tenha colhido votos no eleitorado de centro-direita, António José Seguro veio com uma estratégia clara para a convivência com os adversários à sua esquerda: mostrar que o voto nesses candidatos de pouco valia para os eleitores que quisessem evitar uma segunda volta disputada apenas à direita. Os apelos ao voto útil começaram cedo, foram-se repetindo dia após dia e até nem tiveram de vir sempre da boca de Seguro — a quase-desistência de Jorge Pinto e os lamentos de Rui Tavares pela ausência de convergência à esquerda fizeram o resto.

Ora, o resultado obtido pelo socialista prova que essa estratégia foi bem-sucedida. E, se assim foi, é provável que seja repetida pelo PS no futuro. José Luís Carneiro terá tomado notas sobre as últimas semanas, e nas próximas campanhas o PCP deve por isso ter de voltar a combater uma batalha que perdeu nestas presidenciais. Caberá a Paulo Raimundo a tarefa de explicar aos eleitores que não queiram a direita no poder porque é que a dispersão dos votos à esquerda pode contribuir para esse objetivo.

▲ Jorge Pinto, António Filipe, Catarina Martins e António José Seguro no último debate televisivo da primeira volta

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

De resto, a noite também traz uma derrota para os comunistas pelo resultado de Catarina Martins. Tanto a antiga coordenadora do Bloco de Esquerda como António Filipe avançaram para a corrida a Belém com o objetivo de fazer prova de vida dos respetivos partidos, tentando aproveitar uma eventual rejeição de Seguro à esquerda para conseguir um resultado que afirmasse uma dessas forças políticas como líder do espaço à esquerda do PS.

Para o PCP, há duas más notícias: não só essa rejeição não se verificou como que foi Catarina Martins quem aproveitou mais o pouco espaço que sobrou à esquerda de Seguro, e ganhou essa corrida com pouco mais de 2% dos votos.

A noite teria sempre laivos de vitória (mesmo que curta) para António Filipe se conseguisse vencer a corrida paralela à esquerda. Não o conseguiu fazer, e pelo caminho acaba por dar forças a um adversário que estava instalado numa crise profunda.

Nestas presidenciais, os comunistas desperdiçaram a hipótese de se destacar dos adversários com que disputam eleitorado. Podem agarrar-se à hecatombe ainda maior no Livre, mas até essa vem com um asterisco.

É verdade que Jorge Pinto nem 1% dos votos alcançou, mas isso acontece depois de ter “autorizado” os apoiantes a votar em Seguro, desresponsabilizando-se assim do péssimo resultado que se previa e que se concretizou. Isso mostra que o partido de Rui Tavares tem um eleitorado menos fixo que o PCP, sim, mas não significa necessariamente que os votos que foram para Seguro não voltem noutro tipo de eleições, e que o Livre tenha passado para trás dos comunistas na hierarquia de poder a nível nacional — até porque continuam a ter uma representação maior na Assembleia da República.

Uma campanha marcada por Seguro e incapaz de fixar uma agenda

Fê-lo durante a campanha e voltou ao tema no discurso final. António Filipe sublinhou várias vezes que a sua candidatura teve o mérito de trazer vários temas diferentes para a campanha que dizem respeito à vida dos portugueses — como a cultura ou o trabalho por turnos — mas a verdade é que esses temas não só não marcaram a agenda mediática como raramente lá chegaram.

O “tratamento desigual” de que Paulo Raimundo e António Filipe se queixam passa também por aí: foram raras as vezes em que o candidato foi notícia ou mereceu uma menção isolada (nos telejornais, por exemplo) em que o destaque não fosse uma bicada a António José Seguro.

Ou porque Seguro não é de esquerda, ou porque abandonou a esquerda nos tempos da Troika, ou porque estava a contribuir para a desvalorização do direito ao voto conquistado em Abril. Foi quando António Filipe contra-atacou os avanços do adversário socialista que conseguiu ser tema de conversa, e isso não se explica apenas pelos critérios da comunicação social. É que o candidato, que chegou a confessar aos jornalistas que tinha prometido a si mesmo não voltar ao tema durante a campanha, não foi propriamente obrigado a falar de Seguro.

Depois dos primeiros dias de campanha, em que efetivamente foi várias vezes questionado sobre o antigo líder do PS, acabou por partir várias vezes do próprio António Filipe a iniciativa de atacar o adversário, geralmente nos discursos direcionados aos apoiantes. O objetivo era óbvio: tentar estancar a sangria de eleitores que iam cedendo à pressão do voto útil. Ficará por saber que destaque e que imagem teria Filipe conseguido passar se tivesse largado o tema mais cedo.

Além disso, António Filipe também se pode queixar das previsões de mau tempo que raramente se concretizaram. Na primeira semana de campanha do candidato, não houve ações de rua nem de contacto espontâneo com a população. Os responsáveis da candidatura explicam que isso se ficou a dever à altura do ano em que a campanha acontece, e que o objetivo passava por não marcar iniciativas que poderiam ter de ser canceladas à última hora por causa da chuva por exemplo.

Mas há dois problemas: primeiro, o facto de raramente ter chovido, apesar das previsões de que isso iria acontecer. Segundo, a campanha dos adversários também acontece no inverno e a meteorologia é a mesma para todos. Nada disso os impediu de marcar presença em festas populares, mercados ou de fazer mais arruadas.

A segunda semana de campanha, em que as arruadas passaram de facto a fazer parte da agenda de António Filipe, mostraram o candidato a crescer em termos de confiança e à vontade no contacto direto com eleitores na rua. Era tarde demais. Quando chegou a um ponto em que já se mostrava pronto para liderar essas iniciativas sozinho — sem necessidade de ter ao seu lado figuras do seu partido como Paulo Raimundo, João Oliveira ou João Ferreira a servir de complemento –, tendo oportunidade de entusiasmar cidadãos indecisos, a campanha já estava a terminar. Estava feito o caminho para um resultado histórico pela negativa, e que obriga os comunistas a refletir e a repensar o futuro.

O candidato às eleições presidenciais, António Filipe (E), durante uma ação de campanha na Baixa da Banheira, Moita, Setúbal, 16 de janeiro de 2026. Os portugueses elegem o novo Presidente da República em 18 de janeiro. RUI MINDERICO/LUSA

▲ António Filipe numa arruada na Baixa da Banheira, no último dia de campanha

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