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A primeira semana de campanha do BE. Marisa Matias não arrisca. Mas petisca? /premium

Marisa Matias tem fugido às polémicas e falado de Europa. Dispensou o contacto popular e tentou colher votos em eleitorados de outros partidos. Uma campanha sóbria mas morna, até agora.

Marisa Matias entrou para esta campanha com uma ideia fixa em mente: não entrar em despiques diretos com os seus adversários a não ser que o tema fosse diretamente relacionado com a Europa. “Não vou entrar nesse tipo de campanha”, avisou. Justiça lhe seja feita: até este momento manteve-se fiel a esta regra. Assim, passou ao lado dos bate-bocas sobre os candidatos fake, não se lhe ouviram comentários sobre empatia nas feiras, não alimentou as discussões sobre o melhor candidato para liderar a Comissão Europeia e sobrevoou a polémica do helicóptero, que animou as campanhas de PS, PSD e CDS durante a semana.

Não se pense, porém, que a cabeça-de-lista do Bloco de Esquerda ignorou os seus adversários. Quando falou dos refugiados criticou Costa por ter cedido “à chantagem de Salvini” num acordo assinado no Conselho Europeu, quando falou dos populismos atacou a direita por “normalizar o discurso” dos partidos de extrema-direita,  e quando falou da legislação laboral ou da lei de bases da Saúde voltou a deixar PSD e CDS com as orelhas a arder.

E se para a direita e o PS o discurso foi crítico, para a esquerda dos socialistas Marisa Matias tentou apresentar-se como uma candidata disposta a ter iniciativa. Dedicou uma ação à causa animal, tentando piscar o olho ao eleitorado que se revê no PAN; deu uma prova de força ao surgir rodeada de sindicalistas na visita às instalações da EMEF no Porto, território tipicamente comunista; alongou-se em discursos sobre ambiente, sabendo que o tema está hoje no topo da agente dos eleitores mais jovens, que se tem mobilizado em torno desta causa desde que Greta Thunberg promoveu a greve climática; e não esqueceu o eleitorado bloquista, dedicando discursos ao feminismo, aos direitos laborais e ao combate às instituições europeias.

Tudo isto, tentando sempre tirar ilações positivas dos feitos da “geringonça”. Uma estratégia que tem sido executada com competência, mas sem novidade ou garra. A postura tem sido mais defensiva do que ofensiva, deixando esta segunda parte para outros atores que reforçam a campanha. E foram vários esta semana: José Gusmão, Fernando Rosas, Catarina Martins — mais do que uma vez — e até Mariana Mortágua. Os discursos galvanizantes, de levantar salas e de colocar plateias ao rubro ficaram sempre para terceiros.

Se por um lado esta tática pode ser pensada para retirar a pressão da candidata, deixando-a livre para manter o seu tom moderado e de discrição, fazendo a campanha “pela positiva”, também traz riscos. Isto porque quem assiste aos jantares ou comícios da campanha bloquista pode ficar com a sensação de que Marisa Matias saiu ofuscada por outras figuras que não se querem protagonistas nesta campanha. Aliás, o discurso mais ambicioso desta primeira semana de campanha pertenceu a Catarina Martins, no mega-almoço de sábado em Lisboa, quando pediu que ao eleitorado que deu o terceiro lugar ao BE nas legislativas de 2015 e ao eleitorado que “nunca votou Bloco” que saíssem de casa no dia 26 para colocar a cruz nos bloquistas.

Este domingo, na Madeira, Marisa Matias acabou por ser mais agressiva no discurso quando acusou Bruxelas de estar a preparar um assalto às pensões. Foi dela o soundbite do dia na campanha bloquista. Mudança de estratégia ou uma vez sem exemplo?

Resta ainda sublinhar uma nota final: a quase ausência de contacto com grandes multidões. A campanha bloquista tem-se concentrado em ações muito localizadas e direcionadas a temas — e eleitorados — muito específicos. Sendo Marisa Matias uma figura que tem facilidade em mexer-se nesse tipo de ambientes e que goza de uma certa popularidade em ações de rua, o Bloco de Esquerda pode estar a preterir de um trunfo que podia trazer mais cor e imprevistos a uma campanha demasiado calculada.

Marisa Matias trouxe a lição bem estudada. Calculou as várias ações da campanha, conseguindo na maioria dos casos relacionar o seu propósito com um discurso virado para a Europa. Os três eixos centrais dos bloquistas para estas eleições são a defesa do Estado Social, as alterações climáticas e os direitos laborais. Uma agenda demasiado genérica quando lida mas a que a eurodeputada tem tentado dar algum corpo ao longo desta semanas.

Defendeu o SNS depois de visitar uma Unidade de Saúde Familiar e a Educação pública depois de conhecer uma escola lisboeta; aproveitou os primeiros discursos e a visita a Monchique para alertar para as questões climáticas; visitou a EMEF no Porto e apresentou um manifesto de apoio assinado por sindicalistas de 57 sindicatos diferentes para reivindicar mais condições de trabalho.

Mas a calendarização das visitas permitiu ainda introduzir mais temas no discurso da candidata: desde a causa animal ao feminismo, passando pelo combate aos populismos.

Alto. O momento mais alto da campanha foi também o último em Portugal continental. O mega-almoço do Bloco de Esquerda foi uma injeção de energia nas hostes bloquistas. Com cinco intervenções fortes e eficazes — aqui Marisa Matias não se apagou –, e perante a maior plateia com que a campanha contou até ao momento, o almoço-comício de sábado mostrou um partido com uma mensagem afinada e apostado em alargar o horizonte eleitoral. Não apenas o de 2014, que quase não chegava para eleger Marisa Matias, mas também o das legislativas de 2015 ou o das presidenciais de 2016, como assumiu Catarina Martins no seu discurso. A Sala Tejo do Altice Arena entusiasmou os bloquistas, que na arruada que se seguiu ao almoço chegaram a fazer uma pequena festa para si próprios — e com direito a danças de Catarina Martins e Marisa Matias.

Baixo. O excesso de zelo. Marisa Matias tem conseguido levar a sua estratégia avante, evitando até agora entrar na parte dos noticiários em que os candidatos surgem uns atrás dos outros a responderem-se mutuamente. A eurodeputada não entra “neste tipo de campanha” mas isso tem retraído em demasia a candidata em situações inofensivas. Um exemplo disso foi a recusa de Marisa Matias em comentar a sondagem do Expresso, que até é favorável aos bloquistas já que coloca o partido em terceiro lugar conseguindo a eleição dois mandatos.

O excesso de cuidado para não tocar em temas que a possam colocar ao lado do trio Marques-Rangel-Melo tem-na colocado a fazer uma campanha demasiado cinzenta em alguns momentos. Como Fernando Rosas ou Catarina Martins mostraram nas suas intervenções é possível entrar num confronto saudável — e desejável, já agora, porque uma campanha também serve para contrapor pontos de vista — sem ter de recorrer “à sujeira política”, como caracterizou António Costa a meio da semana.

Se por um lado a candidata tem estado demasiado concentrada em fugir à espuma dos dias e aos temas que vão marcando a atualidade, por outro lado isso tem permitido que se possa proclamar candidata ao título de cabeça-de-lista que mais fala sobre Europa. Em todas ações tem conseguido encontrar um gancho para falar sobre a União Europeia, as suas virtudes e os seus defeitos.

Se anda de comboio para assinalar a insuficiência do serviço de ferrovia portuguesa denuncia os critérios do Plano Juncker, se ouve os habitantes de Monchique a queixarem-se da falta de apoio no pós-incêndio Marisa Matias ataca a falta de fiscalização dos “poucos apoios europeus”, se visita o forte de Peniche e relembra a resistência ao fascismo em Portugal alerta para o crescimento da extrema-direita na Europa. Pode dizer-se que não há nenhuma ação inocente, que não se relacione com a Europa.

A mensagem a passar, aliás, é mesmo essa: tudo o que mexe com “a vida concreta das pessoas” em Portugal também se decide nos palcos europeus. A cabeça-de-lista do BE às eleições europeias tem sido eficaz nesse esforço, embora não tenha ainda trazido para cima da mesa uma proposta ou uma iniciativa relacionada com Europa que marque a agenda ou coloque os adversários a debater com ela. Na CDU passa-se exatamente o mesmo. Uma corrida que vão fazendo, para já, em solitário.

PAULO NOVAIS/LUSA

PAULO NOVAIS/LUSA

Marisa Matias protagonizou uma das ações mais originais da campanha. Na sua cidade natal, em Coimbra, quis dedicar uma iniciativa à causa animal. Para isso contactou a Associação Gatos Urbanos, que cuida dos gatos selvagens da cidade. O objetivo era procurar, juntamente com esta associação, gatos na cidade e mostrar um pouco do trabalho que os voluntários fazem todos os dias.

O plano ia saindo furado. Depois de vinte minutos a caminhar por ruelas e becos de Coimbra, lá surgiram dois gatos, por baixo de uma porta de uma casa abandonada para se deliciarem com um paté colocado por uma das responsáveis da associação instantes antes. Não tivessem aparecido e não haveria fotos como esta para comprovar o momento. Que, apesar de insólito, serviu para iniciar uma suave investida sobre o eleitorado do PAN.

O Bloco de Esquerda tem tido uma campanha que, a nível de organização, tanto passa um dia completo numa só cidade como consegue atravessar o país em toda a sua largura em menos de oito horas. Ao longo da semana o partido apostou sobretudo em distritos onde obteve uma boa votação nas legislativas de 2015. Com a exceção de Beja e Castelo Branco — com uma ação cada –, Marisa Matias esteve sempre em distritos favoráveis ao Bloco de Esquerda. Este domingo viajou ainda para a Madeira, saindo também da sua zona de conforto, e tentando aproveitar para ensaiar um discurso de esquerda no arquipélago com as eleições regionais de setembro no horizonte.

Com tudo isto os bloquistas já estiveram em Lisboa, Setúbal, Beja, Faro, Santarém, Castelo Branco, Leiria, Coimbra, Porto, Aveiro e Madeira. Contabilizando a ida e regresso à Madeira, o partido percorreu, ao longo da primeira semana, um total de 4.065 quilómetros. A caravana bloquista arranca para a segunda semana de campanha em Espinho, logo na manhã de segunda-feira.

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