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Javier Milei, o autoproclamado “anarco-capitalista”, “liberal libertário” e “toupeira do Estado”, completou esta semana o primeiro ano como Presidente da Argentina. “O sacrifício que foi feito é comovedor e garanto que não foi em vão. Deixámos para trás o pior”, afirmou Milei numa declaração oficial em que fez o balanço dos últimos 365 dias.
Um saldo que diz ser positivo já que o argentino conseguiu cumprir as principais promessas eleitorais em apenas um ano como um vídeo publicado na sua página do Facebook faz questão de mostrar.
Reduziu drasticamente a inflação, desbastou o aparelho do Estado com a sua “motosserra” e suportou o superavit fiscal — ou seja, manteve mais receitas do que despesas. Mas as melhorias na economia pesaram sobre a população: milhares de pessoas ficaram desempregadas e a Argentina regista as taxas de pobreza mais altas deste século.
Ainda assim, Javier Milei mantém uma das taxas de aprovação popular mais altas: 56% dos argentinos tem uma visão favorável do Presidente, segundo um inquérito do La Nacion. “Ajustamento fiscal anti-inflação com apoio popular era um paradoxo político que ninguém podia imaginar ou queria enfrentar”, escreve a jornalista e analista política Luciana Vasquez no mesmo jornal. Pelo menos, “até Milei chegar”, remata.
Menos Ministérios, funcionários públicos e normas. Onde funcionou a “motosserra do Estado?”
O discurso em que Milei assinalou o primeiro ano de presidência foi, em grande parte, um discurso de celebração. “Emergimos do deserto: a recessão acabou e o país começou finalmente a crescer”, declarou. Ao longo de 36 minutos e rodeado pelo seu executivo — em que se inclui a irmã, Karina Milei, secretária-geral da presidência — o Presidente lembrou todos os objetivos que conseguiu alcançar e renovou promessas para o segundo ano no cargo.
Segundo documentos oficiais, citados pelo La Nacion, o executivo conseguiu reverter mais de 400 leis do governo anterior, uma média de pouco mais de uma medida por dia. Entre elas inclui-se a reversão da lei de arrendamento, o fim das limitações nos preços de produtos básicos e medicamentos e da exclusividade em áreas como os transportes ou a aeronáutica. De um modo geral, verificou-se uma total desregulação do Estado e uma queda da inflação.
▲ Milei e a irmã, Karina Milei, secretária-geral da presidência
Getty Images
“Hoje, a inflação é coisa do passado“, garantiu Milei no seu discurso. Os números comprovam esta convicção: em dezembro de 2023, a inflação na Argentina estava fixada nos 25,5%. Em outubro de 2024, este valor tinha baixado para 2,7%. Ainda assim, este valor continua a estar mais alto que o de outros países na região, nota o jornal espanhol ABC.
Olhando para a máquina estatal, foram encerrados 10 ministérios, 100 secretarias de Estados, 200 gabinetes e despedidos 34 mil funcionários públicos, reduzindo em 30% os gastos públicos. O corte de despesas contribuiu para um superavit de 747 mil milhões de pesos (cerca 700 milhões de euros) em novembro de 2024, o décimo mês seguido em que o Estado teve lucros e não défice, como se sucedeu com os governos anteriores.
“Isto não significa que chegámos a terra”, ressalvou, ainda assim, Milei. “Deixamos para trás o pior. O futuro será cada vez melhor. Serão tempos felizes na Argentina”, acrescentou.
Economistas reconhecem progressos, mas deixam alertas
De olhos postos no futuro, o Presidente prometeu que, em 2025, iria reduzir em 90% os impostos nacionais, atribuindo autonomia tributária às províncias e transformar a Argentina num centro para a Inteligência Artificial e modernização. “Queremos fazer 3200 reformas estruturais até ao final do mandato”, anunciou Milei.
Este desejo radical de mudança justifica a perceção positiva que as pessoas têm de Javier Milei. Pedro Gentil, empresário português residente nos EUA e com fortes ligações à Argentina, sublinha esta postura da população. No programa Contra-Corrente da Rádio Observador, lembra os amigos argentinos — alguns dos quais também residem nos Estados Unidos — que querem voltar a investir no país, porque veem esperança na governação de Milei.
Com os anteriores governos assistiu-se à “destruição da economia”, mas com Milei, “há uma tendência de aumento de alocação de investimento”, argumenta o empresário, que passou uma temporada na Argentina este ano.
“Não é um milagre. O milagre é o facto de nós, europeus, continuarmos a chamar de loucos a quem tem uma solução”, afirma. Pedro Gentil partilha que, mesmo entre a classe trabalhadora, as pessoas lhe disseram que estão esperançosas e dispostas a trabalhar pelo país. “Ver uma Argentina forte vai [acontecer] muito mais rápido do que estávamos à espera”, remata.
Muitos economistas concordam com a análise no terreno do empresário português: Milei conseguiu mudar a perceção da comunidade internacional, arrancar o país de uma crise inflacionária e os “ventos internacionais” sopram de forma animadora para as suas políticas. Nomeadamente com a subida ao poder de Donald Trump, nos Estados Unidos, que classificou Milei como o seu “Presidente favorito”.
Também a avaliação do Fundo Monetário Internacional (FMI) aponta neste sentido, ao afirmar que a economia argentina “está num bom caminho”. “A consolidação do progresso sólido exige a melhoria da qualidade da consolidação orçamental, a tomada de medidas para estabelecer um roteiro para melhorar a situação monetária e cambial e a implementação de um programa estrutural”, pode ler-se no comunicado de junho deste ano.
O foco na política monetária e cambial é uma fragilidade para Javier Milei, uma vez que inclui uma série de medidas que acabou por não cumprir, como por exemplo a total substituição do peso pelo dólar. “Neste ponto, acho que a dolarização continua a ser um cavalo de carga; um formato que ele utilizou na campanha e com que se deu bem”, aponta Carlos Melconian, economista e antigo governador do Banco da Argentina. “O programa [de Milei] tem de continuar com este tom, precisamente porque é o oposto da dolarização”, justifica, citado pelo La Nacion.
O economista argumenta que Milei pode continuar a fazer promessas, mas que o governo atingiu o limite das medidas e “já não tem nada para gastar”. “Provavelmente vêm aí tempos felizes, mas um Presidente não pode dizer que vêm aí tempos infelizes depois de um ano de ajustamentos”, sublinha, contrapondo as afirmações de Milei, que dão a entender que o futuro animador é uma garantia.
Esta visão crítica de Milei não é unânime, mas também existe. Carlos Rodríguez, economista que já foi assessor de Milei, por exemplo, acusa o governo de “esconder o défice” através de “malabarismo financeiro”. A crítica de Rodríguez, citada pela BBC, foca-se no facto de o superavit ser financiado com títulos do Tesouro, que permitem o adiamento de juros.
Perda de poder de compra, pobreza e desnutrição. Mas há quem confie “num louco”
As críticas dos economistas refletem-se num lado negro da política de Milei, que se faz sentir entre a população. O despedimento de 34 mil funcionários públicos faz parte de um total de 242 mil postos de trabalho que foram suprimidos, devido ao fim de contratos a prazo. Por causa disto, o poder de compra dos argentinos — independente da descida da inflação — caiu 15% desde o início do ano, segundo a Assembleia de Pequenas e Médias Empresas.
▲ Mais de metade da população vive abaixo do limiar de pobreza. Muitos recorrem a cozinhas solidárias
AFP via Getty Images
Isto atirou para situações de pobreza 5 milhões de pessoas. Ao todo, 52,9% da população vive abaixo do limiar de pobreza, o valor mais alto desde a crise económica no início do século XX, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística. Margarita Barrientos, organizadora de uma cozinha solidária em Buenos Aires confirma esta realidade. “Todos os dias, temos mais gente que vem aqui comer”, partilha com o New York Times.
Norma Piazza, pediatra especialista em nutrição, conta à Reuters que tem tratado cada vez mais crianças com problemas neurológicos e convulsões, devido à falta de B12, uma vitamina muito presente na carne de vaca. A Argentina é um dos maiores exportadores mundiais deste produto, mas foi o primeiro a sair das listas de compras das famílias quando perderam poder de compras. E as consequências da insegurança alimentar estão a fazer-se sentir, relata a agência noticiosa.
Para além da alimentação, a pobreza também se faz sentir na medicação. Roberto Bejerano, um taxista reformado, só consegue comprar a medicação e uma alimentação básica, devido ao veto de Milei sobre um possível aumento da sua pensão. “Estão a rir-se na nossa cara quando dizem que estamos melhor“, atira, ouvido pelo Times. E aponta o dedo às pessoas que celebram Milei, quando “tantos estão a sofrer”.
▲ Javier Milei na leitura do seu discurso de balanço de um ano, rodeado dos seus ministros
Mas tal como as sondagen s mostram, Milei é popular mesmo entre a classe trabalhadora, que está a sentir no bolso o peso das suas medidas. Várias pessoas ouvidas pelo Finantial Times explicam esta posição. “Estamos cansados dos mesmos velhos políticos do costume, que dizem que vão corrigir as coisas e nunca o fazem. Temos fé que um louco consiga mudar a Argentina“, partilha Emir Gullo, um trabalhador num supermercado.
Gerardo Martínez, líder do maior sindicato de trabalhadores de construção civil, também coloca a culpa no movimento sindical. Historicamente, a sociedade argentina sempre se mobilizou e organizou grandes protestos. Mas, ao longo do último ano, as greves e manifestações convocadas por sindicatos e associação têm tido pouca tração ou participação. “A sociedade responsabiliza-nos pela crise, ao lado dos políticos”, afirma ao mesmo jornal. “Eles precisam de sentir que confiam em algo novo para resolver problemas estruturais da Argentina”, acrescenta. Desorganizados e derrotados, oposição política e movimentos sociais não conseguem ganhar força e ripostar. E Milei sabe aproveitar-se disso.
“Jogo de cintura” e “pragmatismo”. Como Milei equilibra ideologia com jogos políticos
Javier Milei não tem medo de fazer braço de ferro com a oposição. Nesse sentido, o seu discurso também incluiu um aviso: “Podem entrar no comboio do progresso ou ser atropelados por ele. Este ano que passou será lembrado como o primeiro ano de uma nova Argentina”, afirmou. Esta postura tem várias interpretações. Os apoiantes dizem que é “loucura” necessária ou “genuinidade”. Milei, em entrevista à The Economist, chama-lhe paixão. Marcelo Longobardi, radialista crítico de Milei, classifica-o como “autocrata”. “Ele tem uma centralidade absoluta, que se baseia na sua forma ‘disruptiva’ de fazer política e na sua capacidade de iniciativa”, argumenta, por sua vez, Miguel De Luca, cientista político na Universidade de Buenos Aires.
Foi esta capacidade de iniciativa e o desejo de romper com o sistema que o fez chegar à presidência. Isto porque Milei não tinha uma longa carreira política — só chegou à política em 2021, como deputado — ou uma ampla base de apoio. O seu partido, La Libertad Avanza (LLA), nasceu de uma coligação para promover a sua candidatura a deputado em 2021 e só foi formalizado como partido em setembro deste ano. Antes de ser político, Milei é economista, uma posição que o próprio continua a defender. “Eu entendo [a presidência] literalmente como um emprego. Sou o novo inquilino [do palácio presidencial] durante quatro anos, com a opção de oito”, relatou à The Economist.
Os muitos títulos que veste com orgulho — de “anarco-capitalista” a “toupeira do Estado”, porque o destrói por dentro — resumem-se na sua declaração. “Eu odeio o Estado, eu acho que o Estado é mau. É uma visão diferente das coisas, eu não quero o Estado como forma de vida”, relatou.
Apesar de fincar os pés nesta questão ideológica, Milei tem “jogo de cintura”. Quem o diz é Marcos Novaro, diretor do Centro de Investigação Política em Buenos Aires, à BBC. “É um político muito intuitivo, muito astuto, tem uma enorme capacidade de construir poder e instinto suficiente para preservá-lo”, elogia, sublinhando ainda o seu “pragmatismo”.
▲ Milei já chamou Lula de "corrupto", mas já se mostrou diposto a colaborar desde aí
dpa/picture alliance via Getty I
O instinto de preservação reflete-se em duas frentes. Por um lado, na forma como mudou o seu discurso em relação a líderes internacionais — depois de ter chamado “corrupto” ao Presidente brasileiro Lula da Silva e “comunista” ao Presidente chinês Xi Jinping, passou a dizer que têm de colaborar para o bem de interesses maiores.
Por outro lado, viu-se na forma como aproveitou a fragilidade do sistema de partidos tradicionais para poder governar. O verdadeiro teste a esta capacidade chega ainda em 2025, quando em outubro o país for às urnas para as eleições legislativas. Será a primeira vez que o LLA enfrenta este desafio, que pode consolidar a política disruptiva de Milei como um rumo a longo prazo para a Argentina.
A derrota pesada que Milei quer impor aos partidos da oposição tem mais uma vertente: o que o Presidente argentino chama de “batalha contra o marxismo cultural”. À The Economist, Milei é claro sobre aquilo em que acredita: afirma que ganhou a batalha económica aos socialistas. Agora, está pronto para ganhar a batalha contra as “novas agendas” que “os marxistas criam”. Os dados para o seu segundo ano estão lançados.