A frase ecoa nos momentos iniciais de A Vida Luminosa: “De todas as coisas certas, a mais certa e sabida é a dúvida”. O mantra resume o estado de espírito de Nicolau, personagem interpretada por Francisco Melo, e é também o mesmo que João Rosas tem vindo a explorar no cinema que faz, desde 2012, num acaso que se revela tema central da tetralogia formada pelos seus filmes de ficção.
Neste A Vida Luminosa, onde dá o salto para a longa-metragem, vemos o mesmo Nicolau, na casa dos 20, justamente num lugar de dúvida e transição entre a adolescência e a idade adulta. O filme, que esteve no Indielisboa e tem esta quinta-feira estreia marcada nas salas nacionais, é sobretudo “um reencontro”, como sublinha a dupla realizador/ator em conversa com o Observador. O reencontro de uma “família” que, à frente e atrás das câmaras, se foi formando ao longo da última década, permitindo retratar as transformações geracionais das personagens — e também da cidade que as envolve.
Será, porventura, fácil comparar o trabalho conceptual de Rosas ao de um outro cineasta para quem o tempo no cinema é matéria fundamental: o norte-americano Richard Linklater, cujo trabalho em projetos como a trilogia Before ou a longa Boyhood, filmado durante 12 anos, se não é uma inspiração constitui, no mínimo, um ponto de referência.
[o trailer de “A Vida Luminosa”:]
Questionado sobre a eventual comparação, João Rosas faz questão de ressalvar as devidas distâncias. “Percebo e fico contente, mas acho que são coisas diferentes. Pelo que percebo do ponto de vista dele, o Boyhood foi um projeto que estava desde o início pensado em torno dessa ideia do tempo e do crescimento. No nosso caso foi diferente”, diz.
Fazer filmes para conhecer pessoas
Quando surgiu Entrecampos, curta-metragem de 2012 que o realizador descreve como “o primeiro filme mais a sério”, não estava então prevista nenhuma continuação das personagens de Nicolau e Mariana (Francisca Alarcão), que na altura era a protagonista e que nos trabalhos seguintes, incluindo este A Vida Luminosa, continua a aparecer num plano secundário (uma “observadora imparcial”, como diz o cineasta). “Não tinha a ideia de fazer uma sequela ou de continuar essa história. Mais tarde, quando fiz o Maria do Mar e tinha esta imagem de querer contar a história de um rapaz adolescente que passa um fim-de-semana com os amigos do irmão, durante o qual começa a despertar para a sua sexualidade, lembrei-me do Francisco, e foi a partir daí.”
Hoje com 25 anos, Francisco Melo tinha apenas 11 na altura daquela primeira curta. As memórias são, por isso, difusas. “Lembro-me que o Rosas estava a fazer casting, a procurar entrevistar crianças para o filme. Na altura, estava num campo de férias, precisamente com a Francisca, que faz de Mariana nos filmes. Foi por acaso, na altura não nos conhecíamos bem, mas fomos os dois e acabámos por ficar.”
Sobre as memórias existentes, confessa que muitas vezes se confundem com as dos próprios filmes. “Os cenários, os décors, acabam por se transformar em memórias, menos associadas a um período qualquer da minha vida e mais com as próprias rodagens.” Desses dias, aquilo que guarda é sobretudo a descontração, e uma sensação de aventura própria da infância. “A minha posição sempre foi de zero stress — e como comecei em criança, era um pouco parte de diversões. Portanto, só tenho boas memórias.”
▲ Ao mesmo tempo que se afirmam como retratos geracionais, os filmes de João Rosas são também autênticos “retratos” de uma cidade em estado de mudança
A revisitação da personagem, em Maria do Mar (2015), onde assume o estatuto de protagonista na tetralogia, Catavento (2020), e neste último filme são, sobretudo, atos de reencontro entre quem, à frente e atrás das câmaras, foi criando uma comunidade ao longo dos anos. Daí também que, em muitos aspetos, a caracterização da personagem se vá confundindo com a do ator que lhe dá vida, e vice-versa. “Acho que o Nicolau é um bocado a versão tímida de mim, sou um bocado como ele quando conheço as pessoas. Mas gosto de pensar que depois me torno mais fixe”, brinca o ator.
Esta metodologia de trabalho é algo muito consciente para João Rosas. “Parto com uma ideia para as cenas e para a função das personagens na história, mas depois há um diálogo em que ouvimos as pessoas falar sobre a sua vida. Em cada filme, há muito que vem do Francisco, e com as outras personagens é igual. No Maria do Mar isso aconteceu com os truques de magia, depois no Catavento ele estava a aprender a tocar guitarra e isso entrou também no filme, neste há a questão da banda, e por aí em diante.”
Parte isso também de uma curiosidade natural do realizador pelas pessoas, para conhecer as suas histórias. Um desejo que, sublinha, é anterior aos filmes em si. “Não me dou com as pessoas porque depois quero fazer um filme; pelo contrário, estou a fazer o filme porque me quero relacionar com elas. O filme é uma desculpa para as conhecer melhor e todo o processo está construído nesta ideia da relação. Todos os filmes acabam depois por funcionar como esses pequenos reencontros com as pessoas que vamos conhecendo. É isso que também me interessa no cinema, esse potencial de encontro e de relação”.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 6.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]
A política, o cinema e a cidade
Ao mesmo tempo que se afirmam como retratos geracionais, os filmes de João Rosas são também autênticos “retratos” de uma cidade em estado de mudança. Profundamente ligados aos lugares de Lisboa onde o realizador cresceu, desde Entrecampos que essa “radiografia” se assume como central, funcionando também numa dimensão metafórica das dinâmicas e conflitos das personagens. “Uma coisa que faço há muitos anos, como não tenho carro, é percorrer a cidade a pé, de transporte e de bicicleta. Ando sempre um bocadinho à procura do cinema na cidade, nesse sentido até posso dizer que os filmes nascem em parte da cidade, seja destes lugares, seja das pessoas que vou encontrando”, explica.
▲ João Rosas: “Parto com uma ideia para as cenas e para a função das personagens na história, mas depois há um diálogo em que ouvimos as pessoas falar sobre a sua vida"
Esse trabalho feito ao longo dos anos permite desde logo evidenciar algumas mudanças desde a Lisboa de Entrecampos. O que, por seu turno, permite ao realizador explorar uma outra dimensão: a memória. “Para mim tem um valor, que para os espectadores não terá, o facto de o Nicolau crescer em Carnide, na Quinta Luz, que é o bairro onde eu cresci, e que mudou muito desde a minha infância. Mais do que questionar, tenta também dar uma imagem sobre o que é isto da memória das cidades, a ideia das camadas da distribuição da cidade.”
Francisco Melo reforça: “Fico muito grato por haver realizadores como o João, que mostram a cidade desta forma. Vivo em Lisboa desde que nasci, mas muito a olhar para o chão. Nesse sentido, até me tem ajudado a ter mais noção do que está à minha volta, a abrir um bocadinho os olhos”.
Esse estudo da cidade é também, invariavelmente, político. Foi-o declaradamente em A Morte de Uma Cidade (2023), — “o filme da obra”, como o cineasta o descreve — documentário que marcou a estreia de João Rosas na longa-metragem, e também o é aqui, na imagem de um jovem adulto que enfrenta os desafios colocados por temas prementes, como o da crise da habitação — e em menor grau, o de uma crise de masculinidade.
“No filme da obra, era um gesto político por força do tema, de me focar naquele lugar do estaleiro, naqueles trabalhadores, muitos deles imigrantes, racializados, que muitas vezes não têm oportunidade de produzir discursos sobre eles mesmos… Aqui pronto, é diferente, é um filme sobre uma certa classe média, são ‘problemas de primeiro mundo’ até certo ponto. Mas por exemplo, e não querendo sublinhar demasiado, a ideia de o Nicolau no filme estar rodeado de mulheres, num lugar de escuta, ouvir as mulheres a produzirem discursos sobre a vida delas e isso ser o que o inspira a ele, e o leva a tomar certas decisões, isso para mim é também uma maneira de subtilmente falar de política, do papel dos homens no mundo de hoje”.
▲ Em "A Vida Luminosa" vemos "Nicolau" (e não só) na casa dos 20, num lugar de dúvida e transição entre a adolescência e a idade adulta
Ainda que o cinema seja uma parte importante da sua vida, Francisco Melo admite que não é a sua prioridade. “Gosto de cinema, mas só se for de vez em quando”. O seu foco, por isso, está na música, integrando desde 2019 a banda Quase Nicolau (assim chamada, ironicamente, porque o vocalista, José Lobo Antunes, também fez o casting para a personagem na altura de Entrecampos), e tendo começado recentemente a ter aulas de contrabaixo no Hot Clube de Portugal. Algo que não teria acontecido se não fosse o filme. “Foi por influência do Bernardo Moreira, um grande contrabaixista jazz português que faz de meu pai no filme, e que me incentivou”, conta o jovem ator e músico. Para o realizador, estas histórias “resumem a riqueza das rodagens”.
João Rosas não sabe o que o futuro reserva para Nicolau. “ Sei que o próximo filme não é com ele, e já estou com muita pena porque quando estou com o Francisco fico sempre com vontade de voltar a trabalhar com ele… mas também tenho vontade de pensar em outras coisas, outras idades, outras maneiras de pensar”, diz. “Sempre que acabamos um filme, o Rosas dá-me a ideia de que é o último. Gosto disso”, confessa Francisco Melo. Ainda assim, instado a ponderar onde poderá estar a sua personagem após o fim do filme — quando Nicolau se resolve a ir atrás da mulher francesa com quem se envolve —, brinca: “Do que discutimos, provavelmente estará perdido nos Alpes a perguntar se alguém conhece uma Chloé. Mas de certeza que não está melhor do que eu”.