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Victor Machado

Victor Machado

Água: um desafio comum?

As alterações climáticas e a escassez hídrica são uma realidade. A intervenção de todos é necessária. Mas que trabalho tem sido desenvolvido pela comunidade, empresas e entidades neste sentido?

No passado dia 27 de novembro, todos os caminhos foram dar ao Museu da Água, em Lisboa. Numa talk promovida pelo Observador, em parceria com a Coca-Cola, a água foi, como não poderia deixar de ser, o centro do debate e a escassez hídrica foi o palco de todas as atenções. Sob o mote “Água: um desafio comum”, as intervenções de Luiz Felipe Schmidt, Diretor de Public Affairs, Sustentabilidade e Comunicação da Cola-Coca Company, José Pimenta Machado, Presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, Catarina Grilo, Diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal, e Sandra Pires, Diretora Técnica da Hidrosoph, foram moderadas pelo host do Observador, Paulo Ferreira.

As alterações climáticas e a escassez hídrica são uma realidade que exige uma resposta eficaz de toda a comunidade. Mas em que lugar nos encontramos? José Pimenta Machado ficou encarregue de fazer o ponto de situação do país ao nível da gestão dos recursos hídricos. E o balanço é bastante positivo. “Eu diria que, nas médias, estamos bem. Do ponto de vista das reservas de água nas nossas albufeiras, o valor é muito agradável: 80%. O Algarve, em particular, sabemos que é um território difícil, mas também está bem. Ainda por cima estamos no inverno e havemos de ter mais água nas albufeiras. Mas há um recurso que não valorizamos muito, porque não se vê, que são as águas subterrâneas. Aqui também há uma boa recuperação, mas de facto é uma recuperação mais lenta”. Para o Presidente da APA, há uma clara divisão do território entre norte e sul, em representação de um país “pequeno, mas muito assimétrico. Nos últimos 10 anos, no Algarve, há uma clara redução da precipitação, na ordem dos 30%, 40%. E que foi agravada na ordem dos 45%. Nós temos uma linha abstrata que define o sul – Alentejo e Algarve – mais seco, com uma seca estrutural, e o norte-centro com mais água. Dos 10 anos mais secos de sempre, seis foram depois do ano 2000. Alguma coisa está a acontecer, não é por acaso”.

Mas para Catarina Grilo, a quantidade de água disponível varia anualmente e, para além desta, há outro fator a ter em conta: a sua qualidade. “Ao nível da qualidade temos um problema associado à contaminação, muita dela decorrente de poluição difusa, ou seja, essencialmente relacionado com a produção agrícola. Isso é uma preocupação. Temos aqui um setor que precisa de muita água, que é a agricultura, legitimamente, para produzir alimentos, mas que também tem um grande impacto, quer na quantidade, quer na qualidade dos recursos hídricos”. A Diretora de Conservação e Políticas da WWF alertou, ainda, para outras questões como as espécies exóticas invasoras, que degradam muito a qualidade dos ecossistemas e as barreiras físicas ao livre fluir dos rios, responsáveis por travar o curso da água, mas também dos nutrientes, da fauna, da flora, degradando a qualidade dos recursos. “As alterações climáticas são uma preocupação e estão na ordem do dia, mas há outros problemas que não têm que ver com as alterações climáticas, mas que estas vêm agravar”, ressalvou Catarina, acrescentando: “Temos, a nível global e também em Portugal, um declínio muito acentuado da biodiversidade. Isto deve-nos preocupar, não apenas pelo valor intrínseco da biodiversidade, mas porque é um indicador de que algo não está bem com a qualidade dos ecossistemas de água doce e com os recursos hídricos. Temos de pensar em moderar a nossa procura pela água e em adaptarmo-nos às alterações climáticas que já estão a acontecer e não são um cenário futuro”.

E o que estão as empresas a fazer neste sentido? O trabalho desenvolvido pela Coca-Cola foi um dos exemplos. “Para a Coca-Cola, a água é fundamental. 90% do que existe no nosso produto é água. E nós olhamos para esse tema com muito carinho e muito empenho. A Coca-Cola atua dentro das suas fábricas, conseguindo reduzir o seu consumo de água há muito tempo”, partilhou Luiz Felipe. Desde 2010, a empresa reduziu 30% do consumo de água nos seus processos produtivos. Mas os números não ficam por aqui. “Para produzir um litro de Coca-Cola, usamos 1,58 litros de água, um rácio muito bom. E o que não utilizamos, devolvemos ao sistema público. E isto é o que fazemos dentro daquilo que controlamos. Mas ainda podemos fazer mais. Em parceria com a WWF Portugal, atuamos onde o país mais precisa. Ou, pelo menos, num dos lugares onde o país mais precisa. É um orgulho estarmos no Algarve desde 2019, com continuidade”, partilhou ainda o Diretor de Public Affairs, Sustentabilidade e Comunicação da Cola-Coca Company, ressalvando as conquistas desta presença até agora: 120 hectares restaurados em manutenção e 80 hectares adicionais, totalizando 200 hectares de intervenção.

Sandra Pires juntou-se à conversa, em mais um exemplo do trabalho de empresas no caminho da sustentabilidade hídrica. Como Diretora Técnica da Hidrosoph, explicou um pouco mais do trabalho desenvolvido pela empresa e com grande impacto em todos os profissionais com quem colaboram: “Nós somos uma empresa portuguesa que desenha e implementa sistemas de apoio à decisão para a gestão de rega com base num software que é desenvolvido por nós. Atuamos principalmente na Península Ibérica, em conjunto com Hydrosoft Espanha, mas estamos também nos países da Europa, na Grécia e na Itália, depois na América do Sul e também em África. Nós produzimos calendários de rega que damos aos agricultores com a informação essencial que eles precisam”, afirmou. No fundo, através de informação simplificada, com recurso a software e parte sensorial, o trabalho desenvolvido pela Hidrosoph tem permitido uma gestão mais eficiente, por parte dos agricultores, na sua utilização de água.

Depois das empresas, a “Água que Une”

Esta estratégia nacional de gestão de água alia os esforços da Águas de Portugal (AdP), da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), da Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR) e da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA), traduzindo-se num plano de ações e investimentos que visam garantir a gestão sustentável deste recurso, em todo o território nacional, durante os próximos 15 anos. De acordo com José Pimenta Machado, este é um projeto que se propõe a pensar o país até 2040 e que se apoia em três eixos fundamentais: “a eficiência, a resiliência – trazendo mais água para os sistemas – e a inteligência”. Contempla perto de 300 medidas e tem o potencial para acrescentar mais de 1000 milhões de m3 de água disponível para todos os usos consumptivos do território nacional. E se por um lado se assume como uma estratégia disruptiva que, nas palavras do Presidente da APA, permitirá tomar-se melhores decisões, Catarina Grilo expôs o outro lado da “moeda”: “Há alguns problemas com esses três pilares. A eficiência obviamente que é necessária, mas não nos podemos esquecer do paradoxo da eficiência, que é aquilo que nós temos assistido nos últimos 20 anos em Portugal, que é um aumento da eficiência, mas também é um aumento da água irrigada. Aquilo que estamos a ter em termos de ganhos de eficiência, depois estamos a perder, porque aumentámos muito a água e temos usado muito mais do que estávamos a utilizar antes”. Para a representante da WWF Portugal, é importante trazer água para o sistema, mas é igualmente importante reduzir aquela que estamos a retirar do sistema. “Outra coisa que eu gostaria de ressalvar tem que ver com a adaptação. Ao longo da estratégia, que é uma estratégia bastante longa, só se diz cinco vezes ‘adaptação’ e uma delas é porque está a citar o título de um outro documento. E nós temos que nos preparar para esta flutuação que temos na disponibilidade da água. Temos que nos preparar para a redução da precipitação e essa preparação passa por conseguirmos produzir, mas com menos recurso a água. E isso é algo que não está transparente”, acrescenta.

E o projeto “Plantar Água”?

Também houve tempo para falar nele. O projeto “Plantar Água” dedica-se ao restauro ecológico e à gestão de água na região do Algarve e vai já na sua terceira edição. Tem como objetivo promover a biodiversidade, reduzir o risco de incêndio e, principalmente, criar condições no solo para que a água seja absorvida e recarregue aquíferos. Ao longo da conversa foi possível perceber que o projeto tem agora duas novas componentes, fruto do apoio da Fundação Coca-Cola: a identificação de locais onde é possível fazer a recarga de aquíferos e o trabalho com alguns produtores de abacate da região para a redução do seu consumo de água. A estimativa é a de que, com o esforço de restauro, de recarga e redução do consumo de água, até 475 milhões de litros de água, por ano, sejam recuperados até 2057, numa estimativa da WWF Portugal (resultado das fases I, II e III).

Neste campo da sustentabilidade hídrica, Luiz Felipe aproveitou ainda para deixar uma nota para todos os seus colegas: “Eu entendo esta agenda como uma agenda pré-competitiva. Eu acho que as empresas podem, e devem, falar mais, conversar mais, ter mais ideias juntas para propor mais coisas. É um tema amplo onde toda a gente se deveria esforçar para ser parte da solução. Eu sei que muita gente faz muita coisa, mas quanto mais pudermos juntar-nos e trazer este tema para a conversa, mais nos podemos ajudar”.

Victor Machado

Depois dos projetos, o futuro

Uma coisa ficou clara: os desafios são reais e todos os esforços são necessários para que a sustentabilidade neste setor seja possível de concretizar. Ainda que o presente se mostre positivo, os braços não se devem baixar para o futuro. Pelo contrário. “As alterações climáticas têm-se feito notar. Os verões são cada vez maiores, temos picos de calor que muitas vezes acontecem em alturas críticas para as culturas, como durante a floração, durante a primavera, e muitas vezes também quando nós não estamos preparados para conseguir suprir água às plantas nessas alturas”, começa Sandra Pires, reforçando: “Os agricultores sabem que a água é um recurso escasso. É muito importante para eles esta questão da rega. O agricultor está interessado e envolvido nesta questão”. Já para Catarina Grilo, a importância está em “cuidar da água. Envolve-nos a todos. Não sou otimista, mas tenho um otimismo cauteloso”. Nas palavras de José Pimenta Machado, um pouco em espelho das dos colegas, “só valorizamos a água quando a perdemos. Por isso, o foco deve ser executar, implementar”.

Ou seja, é tempo de agir. O recurso é vital e vários são os projetos que se propõem a salvaguardá-lo. Mas para o concretizar, todos somos chamados a intervir. Se a água é de todos, cabe-nos a nós lutar pela sua preservação, dar-lhe um uso consciente e, acima de tudo, sustentável. E ao longo de toda a conversa, isso ficou claro. Claro como água.

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