No passado dia 27 de novembro, todos os caminhos foram dar ao Museu da Água, em Lisboa. Numa talk promovida pelo Observador, em parceria com a Coca-Cola, a água foi, como não poderia deixar de ser, o centro do debate e a escassez hídrica foi o palco de todas as atenções. Sob o mote “Água: um desafio comum”, as intervenções de Luiz Felipe Schmidt, Diretor de Public Affairs, Sustentabilidade e Comunicação da Cola-Coca Company, José Pimenta Machado, Presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, Catarina Grilo, Diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal, e Sandra Pires, Diretora Técnica da Hidrosoph, foram moderadas pelo host do Observador, Paulo Ferreira.
Depois das empresas, a “Água que Une”
Esta estratégia nacional de gestão de água alia os esforços da Águas de Portugal (AdP), da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), da Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR) e da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA), traduzindo-se num plano de ações e investimentos que visam garantir a gestão sustentável deste recurso, em todo o território nacional, durante os próximos 15 anos. De acordo com José Pimenta Machado, este é um projeto que se propõe a pensar o país até 2040 e que se apoia em três eixos fundamentais: “a eficiência, a resiliência – trazendo mais água para os sistemas – e a inteligência”. Contempla perto de 300 medidas e tem o potencial para acrescentar mais de 1000 milhões de m3 de água disponível para todos os usos consumptivos do território nacional. E se por um lado se assume como uma estratégia disruptiva que, nas palavras do Presidente da APA, permitirá tomar-se melhores decisões, Catarina Grilo expôs o outro lado da “moeda”: “Há alguns problemas com esses três pilares. A eficiência obviamente que é necessária, mas não nos podemos esquecer do paradoxo da eficiência, que é aquilo que nós temos assistido nos últimos 20 anos em Portugal, que é um aumento da eficiência, mas também é um aumento da água irrigada. Aquilo que estamos a ter em termos de ganhos de eficiência, depois estamos a perder, porque aumentámos muito a água e temos usado muito mais do que estávamos a utilizar antes”. Para a representante da WWF Portugal, é importante trazer água para o sistema, mas é igualmente importante reduzir aquela que estamos a retirar do sistema. “Outra coisa que eu gostaria de ressalvar tem que ver com a adaptação. Ao longo da estratégia, que é uma estratégia bastante longa, só se diz cinco vezes ‘adaptação’ e uma delas é porque está a citar o título de um outro documento. E nós temos que nos preparar para esta flutuação que temos na disponibilidade da água. Temos que nos preparar para a redução da precipitação e essa preparação passa por conseguirmos produzir, mas com menos recurso a água. E isso é algo que não está transparente”, acrescenta.
E o projeto “Plantar Água”?
Também houve tempo para falar nele. O projeto “Plantar Água” dedica-se ao restauro ecológico e à gestão de água na região do Algarve e vai já na sua terceira edição. Tem como objetivo promover a biodiversidade, reduzir o risco de incêndio e, principalmente, criar condições no solo para que a água seja absorvida e recarregue aquíferos. Ao longo da conversa foi possível perceber que o projeto tem agora duas novas componentes, fruto do apoio da Fundação Coca-Cola: a identificação de locais onde é possível fazer a recarga de aquíferos e o trabalho com alguns produtores de abacate da região para a redução do seu consumo de água. A estimativa é a de que, com o esforço de restauro, de recarga e redução do consumo de água, até 475 milhões de litros de água, por ano, sejam recuperados até 2057, numa estimativa da WWF Portugal (resultado das fases I, II e III).
Neste campo da sustentabilidade hídrica, Luiz Felipe aproveitou ainda para deixar uma nota para todos os seus colegas: “Eu entendo esta agenda como uma agenda pré-competitiva. Eu acho que as empresas podem, e devem, falar mais, conversar mais, ter mais ideias juntas para propor mais coisas. É um tema amplo onde toda a gente se deveria esforçar para ser parte da solução. Eu sei que muita gente faz muita coisa, mas quanto mais pudermos juntar-nos e trazer este tema para a conversa, mais nos podemos ajudar”.
Depois dos projetos, o futuro
Uma coisa ficou clara: os desafios são reais e todos os esforços são necessários para que a sustentabilidade neste setor seja possível de concretizar. Ainda que o presente se mostre positivo, os braços não se devem baixar para o futuro. Pelo contrário. “As alterações climáticas têm-se feito notar. Os verões são cada vez maiores, temos picos de calor que muitas vezes acontecem em alturas críticas para as culturas, como durante a floração, durante a primavera, e muitas vezes também quando nós não estamos preparados para conseguir suprir água às plantas nessas alturas”, começa Sandra Pires, reforçando: “Os agricultores sabem que a água é um recurso escasso. É muito importante para eles esta questão da rega. O agricultor está interessado e envolvido nesta questão”. Já para Catarina Grilo, a importância está em “cuidar da água. Envolve-nos a todos. Não sou otimista, mas tenho um otimismo cauteloso”. Nas palavras de José Pimenta Machado, um pouco em espelho das dos colegas, “só valorizamos a água quando a perdemos. Por isso, o foco deve ser executar, implementar”.
Ou seja, é tempo de agir. O recurso é vital e vários são os projetos que se propõem a salvaguardá-lo. Mas para o concretizar, todos somos chamados a intervir. Se a água é de todos, cabe-nos a nós lutar pela sua preservação, dar-lhe um uso consciente e, acima de tudo, sustentável. E ao longo de toda a conversa, isso ficou claro. Claro como água.