Alice Vieira: “A minha gargalhada é que me ajudou a sobreviver estes anos todos”

28 Maio 2017356

Preferia o "cheiro a chumbo" nos jornais a livros — que só escreveria por causa dos filhos. A gargalhada de Alice é inconfundível nesta entrevista de vida: "Foi a defesa para uma infância complicada."

Em 1979 publicou Rosa, Minha Irmã Rosa. Foi o primeiro livro de Alice. Não há quem não a tenha lido na infância. Ainda hoje é lida: “As crianças não mudaram. Os dramas são os mesmos; os ‘adereços’ é que são outros”. Mas Alice Vieira nunca quis ser escritora. “Nunca na vida. Aprendi a ler sozinha. E sempre me lembro de mim a escrever e a ler. Mas ainda muito pequenina dizia sempre que queria ser jornalista.”

E foi-o. Criada por tios-avós — austeros, republicanos, cultos –, cedo a adolescente Alice chegaria às páginas do Diário de Lisboa. “Tinha a ideia que um jornalista era alguém que nunca estava em casa. Então se não estava em casa, era mesmo isso que eu queria ser! Lembro-me perfeitamente de subir as escadas do Diário de Lisboa, uma escadita íngreme para chegar até lá a cima, e pensar, mas pensar mesmo: ‘Esta é a vida que eu quero!'”

Deixaria o jornalismo — “Não deixei de ser jornalista; o que deixei foi o jornalismo a tempo inteiro: não estava lá [redação] sentadinha como antes” — quando lhe foi diagnosticado cancro e acabou por ser submetida a uma mastectomia. Os médicos dar-lhe-iam poucos anos de vida. Alice sobreviveria. Mas não se sente um exemplo para outras mulheres: “Não gosto de dizer que me via como um. Mas se me perguntares se lhes dei alguma coragem a mais, acho que sim”.

Hoje, não se veria a ser jornalista. Não como antes o fora. “São tempos perigosos, acho que são. Lembro-me de sair do Diário de Notícias à noite e nem pensava em vir para casa. Íamos todos para o Snob, íamos todos para o Ribadouro. Era a continuação do jornal.” Mas Alice Vieira quer continuar a escrever. Mais poesia do que romance — o seu género de eleição. E sempre, sempre crónicas para jornais. “O que eu realmente queria era fazer tudo isto com mais calma. Não era a andar a correr de um lado para o outro — tenho muita dificuldade em saber dizer que não mas já vou sabendo dizer. Queria poder pegar no meu computador, ir para a Ericeira e estar lá a trabalhar.”

A gargalhada, sonora, pessoalíssima, até desarmante, é presença a cada resposta de Alice. Sempre foi assim. “Foi uma defesa para a infância complicada que tive. Não faço isto por querer; é assim. Mas acho que foi o que me ajudou a sobreviver estes anos todos.”

Escreveu — e continua a escrever — livros para a adolescência e, até, para a infância. Mas sei que tem poucas ou nenhumas memórias da sua infância. Será porque não gostava de viver em casa das “velhas tias” — como sempre as descreve — em Lisboa ou porque não gostava da aldeia dos seus pais, em Lapas?
[Risos] Não sei… A verdade é que vivi muito pouco na aldeia. Sabes: era uma família muito, muito complicada. Eu nunca vivi com os meus pais. Às vezes ia visitá-los, mas nunca vivi propriamente com eles. Sai de casa da minha mãe e do meu pai com 15 dias. Digo sempre que devo ter sido a rapariga que saiu mais cedo da casa dos pais. Eu nasci na Almirante Reis, em Lisboa. E vivi sempre com os tios, tios-avós. E esses tios-avós tinham — como acontecia nessa altura — vidas duplas. Ou seja, tinham a senhora de Lisboa e tinham a senhora da aldeia. O que quer dizer que nunca me levavam muito à aldeia, pois tinham um bocado de medo que eu pudesse dizer depois à senhora de Lisboa o que tinha visto. Mas há algo de engraçado nisto: é que hoje o meu filho vive em Lapas. E recuperou a casa de família, a fábrica…

O negócio da família — a tal fábrica de que a Alice fala — era o álcool etílico, certo?
Sim, exatamente. E ele recuperou a casa também. Na altura disse-lhe, quando a recuperou: “É a primeira vez que entro nesta casa em setenta anos, André!” A aldeia até é bonita, tem um rio e tudo, mas não me diz muito. Em criança, nem pensar em ir lá. Aqui em Lisboa, como os tios eram já velhos, não tinham propriamente muita paciência comigo. Foi uma educação muito repressiva, de tal maneira que nunca me deixaram ir à escola. E era uma professora que ia lá a casa dar-me aulas.

Só quando entra para o liceu, para o D. Filipa de Lencastre, é que começa a ter mais contacto com jovens da sua idade, não é?
Exatamente, só quando chego ao D. Filipa de Lencastre. Lembro-me perfeitamente de dizer em casa: “Quero ir para o liceu!” E lembro-me perfeitamente de as velhas tias me dizerem: “Ah, vai, vai… Tu nunca estivestes com miúdos, não vais gostar nada e voltas logo para casa!” Enganaram-se. Até me inscrevia em mais aulas só para estar mais tempo na escola e não ir para casa. [Risos] O liceu foi a minha verdadeira casa na adolescência. Se há coisa de que me orgulho na vida é que a minha antiga sala de aula no Filipa tem hoje o meu nome. Os colegas, as professoras, as empregadas — fui ao casamento das empregadas todas do liceu –, essa foi a minha verdadeira família. Essa e duas “tias” — que não me são nada “de sangue”, mas que tomavam, elas sim, conta de mim na casa das velhas tias. E essas ainda estão vivas. Felizmente estão. Têm noventa e tal anos. É engraçado: no outro dia fui à médica de família e ela perguntou-me pelas mulheres da minha família. “Tenho uma tia com noventa e tal anos que está ótima!”, respondi-lhe. Depois, quando saí, pensei: “Estou a dizer que tenho uma tia, mas ela não me é nada”. A verdade é que sempre me dei sobretudo com pessoas que me são afastadas, primos em não-sei-quanto grau, ou que não me são absolutamente nada. Essas pessoas é que me ajudaram muito. Porque foi uma infância muito, muito complicada.

Embora tenha sido uma educação, como a Alice diz, “austera”, havia já dos tios uma educação cultural, por exemplo? Algo que a tenha influenciado a ser jornalista ou escritora.
Hmmm… havia uma coisa muito, muito boa: os meus tios — as velhas tias nem tanto — adoravam teatro. E tanto iam ao D. Maria II como iam à revista no Parque Mayer. E levavam-me. Resultado: eu conheço, ainda miúda, aquela gente toda do teatro. Ainda aqui há dias o Ruy de Carvalho dizia: “Esta [Alice Vieira] é uma amiga de infância…” E depois riu-se e concluiu: “Da infância dela, claro, não da minha”. [Risos] O teatro entrou muito, muito cedo na minha vida. E conhecia aquela gente toda, a Beatriz Costa, as estrelas todas, que me apaparicavam um bocado nos bastidores e conversavam comigo. Por outro lado, os tios eram republicanos ferrenhos. E contavam-me as histórias todas da república — histórias onde tinham participado. O que quer dizer que eu fui de esquerda desde que me lembro. Não havia outra possibilidade em casa.

Alice foi cedo criada em Lisboa pelos tios-avós. "Sai de casa da minha mãe e do meu pai com 15 dias. Digo sempre que devo ter sido a rapariga que saiu mais cedo da casa dos pais"

Foi também por causa da influência republicana que teve em casa que escreveu o livro Diário de Um Adolescente na Lisboa de 1910? É certo que é um livro recente.
É recente, foi lançado em outubro. A influência dos tios contou. Mas foi sobretudo uma encomenda do Jornal de Notícias, onde eu trabalhava na altura. No ano do centenário da República, o jornal pediu-me para escrever semanalmente, de janeiro até 5 de Outubro, meia página para os miúdos sobre a República. E pensei: “Coitados dos miúdos! Quando chegar o 5 de Outubro não aguentam ouvir falar mais de República…” Então, lembrei-me de fazer uma espécie de diário de um miúdo que tem 14 anos — tinha 14 anos para se lembrar ainda do regicídio dois anos antes –, uma história de vida um bocado complicada, porque o pai do miúdo era republicano, a avó era monárquica, a criada namorava com um tipo da carbonária, o professor dele foi quem matou o rei, e aquela cabeça era complicada. E deu-me imenso, imenso trabalho escrever aquilo. Quando a editora me pediu um livro para sair mais ou menos em outubro, peguei naquele “esqueleto” — digamos assim — que escrevi para o Jornal de Notícias e dei-lhe mais carninha. [Risos] E foi assim que saiu o livro.

Voltando um pouco atrás, ao teatro. Foi então que começou a ter o seu livrinho de autógrafos?
Ah, sim! Esse interesse começou muito, muito cedo. Lembro-me que escrevia para os atores de cinema, lá para Hollywood. E eles respondiam-me. Obviamente que não seriam eles a responder, mas responderia alguém por eles. Sempre gostei de colecionar autógrafos — agora nem tanto. Ainda tenho um autógrafo da Palmira Bastos — para veres como sou velha! [Risos]

Quer contar-me a história de como conseguiu o autógrafo da Maria Callas? Foi em março de 1958, quando a Callas cantou a La Traviata de Verdi no S. Carlos.
Como é que consegui? Consegui porque o porteiro do hotel Aviz era um homem extraordinário e me disse, enquanto me via à porta do hotel à espera que a senhora chegasse: “Vai ouvi-la amanhã? Vai? Então isso é que é importante, menina. Sabe: a Callas às vezes não tem assim um feitio muito bom, às vezes chega um bocadinho mal-disposta, e o que é preciso é que a menina guarde na memória o que vai ver amanhã. Façamos o seguinte: dê-me o livro, que eu consigo-lhe o autógrafo”. E pronto, foi assim. E aquele espectáculo no S. Carlos foi extraordinário.

"Ainda hoje velhas amigas minhas do liceu me dizem que escrevia romances onde entrávamos nós todas, as professoras, as funcionárias, éramos as personagens dos romance que escrevia. Acho que a gente nasce com jeito ou gosto por alguma coisa. Depois, o que é preciso é descobrir. E desenvolver. Acho que a escrita vinha comigo."

Quando é que se começou a interessar mais pela escrita? Foi ainda no liceu D. Filipa de Lencastre ou só mais tardiamente, quando estuda Filologia Germânica na Faculdade de Letras?
Muito antes da faculdade, muito antes. Sempre gostei muito de ler e de escrever. E aprendi a ler sozinha. As velhas tias diziam-me que uma vez tinha olhado para um jornal e lido. Não sei se foi milagre, mas alguma coisa terá sido. [Risos] E sempre me lembro de mim a escrever e a ler. Ainda hoje velhas amigas minhas do liceu me dizem que escrevia romances onde entrávamos nós todas, as professoras, as funcionárias, éramos as personagens dos romance que escrevia. Acho que a gente nasce com jeito ou gosto por alguma coisa. Depois, o que é preciso é descobrir. E desenvolver. Acho que a escrita vinha comigo.

Neste livro [Só Duas Coisas Que, Entre Tantas, Me Afligiram] de crónicas que agora escreveu, há uma crónica em particular sobre a as redações de escola. Curiosamente, conta que se aborrecia com as redações…
Pois aborrecia. Porque era o mesmo todos os anos! Todos os anos escrevia uma redação sobre as férias. Ou vaquinhas — e não tinha mais nada para dizer sobre vaquinhas. Mas as professoras do Filipa gostavam muito das minhas redações. Vou-te contar um segredo: é que eu era muito, muito espertalhona! [Risos] Quando sabia que havia teste, ou que tinha de escrever uma redação, no dia anterior punha-me a ler coisas e tinha logo frases na cabeça para meter na redação. E isso funcionava.

Licenciou-se em Filologia Germânica. Mas sempre quis ser jornalista, não é?
Ah, sim! Sempre.

Aos 14 anos envia um primeiro texto para o Diário de Lisboa. Foi rejeitado. Porquê?
E foi muitíssimo bem rejeitado. Foi-me respondido: “Agora não…” Porque aquilo era realmente tão mau, tão mau. E ainda estive muito tempo sem ter nada publicado no Diário de Lisboa.

Mas lembra-se desse primeiro texto?
Ah, então não me lembro! Era um texto sobre um poeta. Um poeta que “lançava a sua mão anémica”. E lembro-me que quando me responderam do Diário de Lisboa se questionaram porque é que ele haveria de ter uma mão anémica?! [Risos] A verdade é que eu achava lindo ele ter a mão anémica. E realmente não era. Mas depois lá me chamaram do jornal.

Antes de me contar como é que vai para o Diário de Lisboa, vai dizer-me quem é que lhe respondeu ao primeiro texto. Foi o Mário Castrim, não foi? Com quem haveria de casar anos depois.
Sim, foi do Mário a resposta. [Risos] Uma resposta a dizer-me que aquilo era uma porcaria. “Nem escreves mal e tal, mas faz outra coisa…”, dizia-me ele. Então, fui mandando histórias e mais histórias. Até que houve um dia em que, finalmente, ele me chamou ao jornal para dizer que tinham publicado um texto meu no suplemento “Juvenil” do Diário de Lisboa. Mais: esse texto tinha sido utilizado numa reportagem do Silva Pinto — grande jornalista na altura — sobre Lisboa. Porque o meu texto tinha um poemazinho sobre Lisboa. O poema não era mau — ainda hoje acho que não era mau de todo. Fiquei felicíssima. Pouco depois o Mário convidou-me para dirigir com ele o “Juvenil”. E dirigi até o suplemento acabar.

Quando é que se profissionalizou? E pensou em fazer outra coisa?
Nunca! Nunca pensei. Tinha 18 anos quando me profissionalizei. Ainda muito pequenina eu dizia sempre que queria ser jornalista. Até porque tinha jornalistas na família. Mas não era só por causa disso. Era sobretudo porque tinha a ideia que um jornalista era alguém que nunca estava em casa. Então se não estava em casa, era mesmo isso que eu queria ser! A minha prima Maria Lamas foi também importantíssima para mim, porque me puxava muito para os jornais. Nunca na vida me lembro, mas é que nunca mesmo, de querer ter sido escritora ou outra coisa. Nunca. Já tinha para aí quatro ou cinco livros publicados e ainda dizia: “Epá, vou deixar isto [escrita], a minha vida não é isto, trabalho tenho eu no jornal que chega!”

"O cheiro do chumbo entra-nos nas veias. É a pior droga que há! É aquele cheiro, nas tipografias, que vem chumbo com que se faziam as frases e as letras. E é um cheiro que nunca mais sai"

Não posso deixar passar a referência que fez à Maria Lamas — porque é uma figura incontornável do jornalismo e da cultura em Portugal. Que influência é que ela teve na Alice? Não só como jornalista…
Imensa!

Sei que foi viver com ela para Paris, por exemplo. A Maria Lamas vivia lá exilada.
Enquanto ela estava cá, a gente conversava muito. Não é que ela quisesse influenciar-me, mas mostrava-me as coisas — a Maria Lamas mostrou-me, por exemplo, As Mulheres do Meu País, que foi um grande livro que escreveu. Depois foi para Paris e fui viver com ela. Digo sempre que aquele tempo que vivi em Paris foi a minha universidade, a verdadeira universidade. Naquela altura trabalhava no Diário Popular e fui enviando umas coisas de lá para o jornal. Conheci lá o Jorge Amado, o Neruda, toda a gente estava em Paris naquela altura. E depois deu-se o Maio de 68…

E foi aí que regressou a Lisboa. Porquê?
Não posso dizer que foi o Maio de 68 que me fez regressar. Mas regressei aí, sim. Não há que dizer que não: toda a gente estava muito aflita. E ela [Maria Lamas] sentia que tinha responsabilidade em mim — não tinha, mas pronto –, tinha medo que me acontecesse alguma coisa. E depois… [Pausa] as paixões, que começavam a brotar aqui em Lisboa. E vim-me embora, pronto. Mas Paris será sempre a minha segunda casa.

Sempre quis ser jornalista — por causa da prima Maria Lamas, para não estar em casa. Mas desiludiu-se quando entrou numa redação pela primeira vez?
Não. Mas podia! [Risos] Fizeram de tudo para isso.

Então?
No começo tive que fazer a necrologia. [Risos] Quem era o morto, quem era a família do morto, como é que morreu o morto. Uma trabalheira! E ainda tinha que escrever umas cinco ou seis linhas sobre o morto. Mas nunca fiz nada por frete. Mesmo que fosse — como era — algo de que não gostasse. Tinha que fazer, fazia.

Mas fez muita coisa de que não gostava. Quer falar-me da Festa do Melão?
[Risos] Ai, ai… a Festa do Melão! Quando vais pela segunda vez à Festa do Melão não tens mais nada para escrever sobre a Festa do Melão. Era isso e a procissão da Senhora da Saúde. Os discursos são os mesmos, as altas individualidades são as mesmas, é tudo igualzinho. Mas tinha que escrever a reportagem, pronto. E escrevia. Tinha que encher páginas e páginas com aquilo. Ser jornalista aguça-nos o engenho. Por isso é que há muitos jornalistas que também são escritores. Não estou a dizer que são melhores ou piores; mas são diferentes. Eu tenho quatro ou cinco romances coletivos, que são feitos por sete pessoas, o que deu um trabalhão danado, e jornalistas só há dois, que sou eu e o Mário Zambujal. E os nossos capítulos nunca saem assinados, sai tudo por ordem alfabética. Ninguém sabe quem é que escreveu o quê. Os meus e os dele toda a gente adivinha. Não sei, há ali outra maneira de fazer as coisas.

Só para encerrar aqui o tema dos primeiros anos de jornalista e começar a falar de literatura: uma coisa que a Alice recorda dessa altura é o “cheiro do chumbo” nos jornais. Que cheiro é esse?
O cheiro do chumbo entra-nos nas veias. É a pior droga que há! É aquele cheiro, nas tipografias, que vem chumbo com que se faziam as frases e as letras. E é um cheiro que nunca mais sai de dentro de nós.

Sabe: sempre pensei que tivesse sido o Zeferino Coelho, editor da Caminho, a convidá-la para publicar o primeiro livro, o Rosa, Minha Irmã Rosa. Mas a história é outra…
É, é. Tinha escrito aquela história para os meus filhos. Nem era para um dia publicar — como te disse, nunca pensei ser escritora na vida. Entretanto, o Mário [Castrim] soube de um concurso e enviou o livro. Sei que houve muita gente que concorreu, mais de cem. E depois quando me ligaram para o jornal, na altura para o Diário de Notícias, a dar a notícia, eu disse: “Concurso? Prémio? Qual prémio?!” Nem me lembrava, a sério. [Risos] O regulamento dizia que a obra premiada seria logo publicada pela Caminho — que era quem organizava o concurso. Foi logo publicada, aquilo vendeu-se que foi um disparate, e depois o Zeferino viu que aquilo se vendia e pediu-me logo outro e mais outro. Até agora. Ninguém me descobriu ou me convidou. Não foi: “Olha, aquela é capaz de escrever umas coisas boas!”

O primeiro livro de Alice ["Rosa, Minha Irmã Rosa"] foi editado pela Caminho em 1979. "Ganhei o concurso. Ninguém me descobriu ou me convidou. Não foi: 'Olha, aquela é capaz de escrever um livro!'"

Mais ou menos, Alice. Acho que de certa forma até foram os filhos a descobri-la…
Sim. Acho que sim. [Risos] Nem foi por eles acharem que eu escrevesse bem, mas porque tinham aquela queixa que todos os filhos de jornalista têm, que nunca estava em casa, que passava pouco tempo com eles, que nunca escrevia nada para eles e só escrevia no jornal. E pronto, um dia disse-lhes: “Sentamo-nos a uma mesa e vamos lá escrever a história!” E foi assim. Tão simples quanto isto. Às vezes — quem nos conhece daquela altura — dizem que utilizei os meus próprios filhos no livro. E é verdade. Os meus filhos têm um ano de diferença — naquela altura um teria dez e outro teria nove. E estava para nascer um terceiro. Isso assustou-me. “Estes miúdos estão habituadíssimos a ser só eles os dois, agora quando vier um terceiro haverá ciúmes, não haverá ciúmes?!”, pensei. E aproveitei aquilo — espero que sem terem reparado — para os ir sondando, para ir fazendo aquela história da irmã que nasce dez anos depois.

O Rosa, Minha Irmã Rosa foi de tal maneira um sucesso que receberia, logo em 1979, o prémio de Literatura Infantil no Ano Internacional da Criança. Esperava?
Pois foi. Não esperava. Nada, nada. E foi um livro muito traduzido. Mas é curioso: Os Olhos de Ana Marta, que é um livro mais duro, mais forte, ainda é mais traduzido. Aqui há dias recebi um postal de um chinês que tinha lido o livro. E dizia-me ele, num inglês assim a dar para o atamancado, que tinha ficado “muito chocado” com o livro. E pensei: “Oh diabo, o que fiz ao homem?!” Afinal, era “chocado” porque eu escrevia muito bem. Achei muita graça. Mas há outros livros que também têm traduções, ou que têm muitas edições. Há uns que estão no Plano Nacional de Leitura. Curiosamente, são aqueles que têm mais uns anitos e não os recentes.

Os Olhos de Ana Marta é um livro de 1990. Foi em meados de 1990 que deixou — ou melhor: teve que deixar — o jornalismo.
Eu deixei o jornalismo em 1990 porque o médico — eu tinha feito uma mastectomia nessa altura — assustou-me muito e disse que no máximo, no máximo eu duraria para aí dois anos. “Ai tenho dois anos? Então espera aí!…” Saí do jornal. E depois comecei a ver: dois, quatro, seis, oito… [Risos] E tive que voltar a trabalhar.

A Alice não falava do assunto — nem publicamente nem com amigos — quando descobriu a doença. Porquê?
Se há coisa que eu não gosto é de misturar as doenças com o trabalho. Só falei disso publicamente sete anos depois da operação. E só o fiz quando a diretora de uma organização [Vencer e Viver] que tem a ver com o IPO me pediu para ir falar. O que aconteceu foi que muitos amigos me ligaram a seguir: “Então, foste operada?!” Fui, há sete anos… [Risos]

"Quando saí do IPO, quando saí da operação, antes de vir para casa fui ao jornal para ver se estava tudo bem, ver se eles estavam na maior. Só estive 15 dias de baixa. Vomitava, mas vomitava que era um disparate! E às vezes dizia: "Hoje não vou..." "Vais, vais!", respondia-me o Mário [Castrim]. Lá ia. Chegava lá e passava-me tudo. Acho sempre que é muito mau estar em casa, só a pensar no nosso sofrimento. Caramba, há quem esteja tão pior que nós!"

Mesmo após a operação esteve pouquíssimos dias de baixa. Às vezes era o próprio Mário Castrim quem a incentivava a ir para o jornal. E a Alice ia…
Estive 15 dias de baixa. Quando saí do IPO, quando saí da operação, antes de vir para casa fui ao jornal para ver se estava tudo bem, ver se eles estavam na maior. E depois estive 15 dias, sim… Ai, eu vomitava, mas vomitava que era um disparate! E às vezes dizia: “Hoje não vou…” “Vais, vais!”, respondia-me o Mário. Lá ia. E passava-me tudo. Chegava lá e passava-me. E trabalhava. Porquê? Acho sempre que é muito mau estar em casa, só a pensar no nosso sofrimento. Eu agora não estou muito bem, por exemplo. E é por isso mesmo que me esforço para estar com pessoas, para sair cedo para a rua. Às vezes custa, estou com a mão na porta, vou, não vou, e acabo por ir. Porque temos sempre que andar um bocadinho para a frente. E há, caramba, quem esteja tão pior que nós!

Quando falava publicamente sobre a doença, sentia-se um exemplo para mulheres que estavam a passar pelo mesmo?
Não gosto de dizer que me via como um exemplo. Mas se me perguntares se lhes dei alguma coragem a mais, acho que sim.

As pessoas abordavam-na na rua, por exemplo?
Exatamente. Eu, a Manuel Maria e a Simone [de Oliveira] tínhamos sido operadas mais ou menos na mesma altura. E convidavam sempre as três para falar sobre o cancro. Então, eu dizia: “Lá vão as cancerosas de serviço!” [Risos] Nós sempre tivemos uma posição muito “para a frente”. Acho que era a Manuela Maria que dizia: “Epá, não me apetecia nada morrer agora!” Mas também é preciso não esquecer que isto tem que ter um grande apoio familiar. Porque se não tens, é complicado.

E sempre teve.
E aqui na minha casa sempre tive um apoio familiar extraordinário. E elas também. Isso é muito importante.

Curiosamente, mesmo após a doença, não voltaria ao jornalismo. Porquê?
Não deixei o jornalismo; o que deixei foi o jornalismo a tempo inteiro. Ou seja, fiquei a colaborar sempre no Diário de Notícias, depois no Jornal de Notícias, na revista Activa, e agora no Jornal de Mafra. Portanto, estive sempre muito ligada aos jornais. Não estava era lá sentadinha.

É a Alice quem diz que quem é jornalista um dia é jornalista sempre.
É sempre, é sempre jornalista.

Mas foi simples deixar de um dia para o outro a rotina?
Custou-me um bocado deixar o fervilhar da redação. E a camaradagem. Nós vivíamos para aquilo! Lembro-me de sair do Diário de Notícias à noite e nem pensava em vir para casa. Íamos todos para o Snob, íamos todos para o Ribadouro. Era a continuação do jornal.

E nesse tempo os jornalistas quase só tinham amigos jornalistas e quase só casavam entre si. Verdade?
[Risos] Sempre achei isso e continuo a achar até hoje. Só um jornalista é que percebe um horário do outro jornalista. Tantas vezes que isto me aconteceu. Estava em casa, estava na cama, telefonavam-me porque havia um fogo não-sei-onde, e lá ia eu. E sabia lá quando é que voltava! Só quem percebia aquilo muito bem é que nos podia aturar. Aqui há, sei lá, cinco, seis anos, decidimos — o nosso grupo puro e duro — voltar ao Snob onde já não íamos há muito tempo.

Mário Zambujal…
Sim, o Mário, todos. Foi lindo! E estávamos numa mesinha e senhor Albino só me dizia: “Já tinha saudades das tuas gargalhadas!” Mas pronto, estávamos na mesita e ao lado estava um casal novo. E a gente falava, falava, falava… E quando vínhamos a sair, a rapariga puxa-me e diz-me assim: “Sabe, eu só gostava de uma coisa, é que quando chegasse à vossa idade tivesse tantas coisas para recordar!” A gente, realmente, tem tanta coisa para recordar. O que é bom. Mas não dei, se calhar, tanto apoio à casa como devia.

Mas os filhos sempre compreenderam muito bem isso, o facto de o pai e a mãe serem jornalistas e não estarem em casa?
Completamente. Mas sabes porquê, Tiago? Eu também fazia uma coisa que era: sempre que podia, que saía num serviço, levava os miúdos. Se ia entrevistar alguém importante, levava os miúdos. Por exemplo, a primeira vez que eu fui entrevistar a Amélia Rey Colaço — depois até fiquei amiga da senhora — levei a minha filha. E elas ficaram amigas.

Mas não era para os introduzir à profissão? Ou era? A verdade é que a sua filha é jornalista como os pais.
Não, não. Não. Quer dizer, o meu filho é que teve juízo: é professor de matemática e gestor da empresa da família. A minha filha [Catarina Fonseca], coitadinha, foi para o jornalismo. [Risos]

Mas alguma vez lhe sugeriu não ir, por exemplo?
Nunca. Nunca… Mas, lá está: perguntavas-me pelo cheiro do chumbo, o que era o cheiro do chumbo. Quando a Catarina nasceu, não tinha ninguém com quem a deixar e levava-a para a tipografia do Diário de Lisboa — o padrinho dela era o chefe da tipografia. Ela deve ter apanhado aquele chumbo todo! [Risos] Só se compreende assim.

"Não há nada pior do que a censura! Às vezes dizem-me que hoje também há. Calma lá! É diferente... Mas é engraçado que o mais complicado foi depois, quando acabou a censura: nós não éramos capazes de escrever. Estávamos tão formatados para aquele tipo de escrita, tão cheio de metáforas para contornar os censores, que não éramos. Lembro-me de parar e pensar: 'Mas porque é que estou a escrever assim?! Eu posso escrever isto como quiser!'"

A propósito de “chumbo”. Trabalhou durante décadas a conviver de perto com a censura nos jornais. Como foi?
Não há nada pior do que a censura! Às vezes dizem-me que hoje também há. Calma lá! É diferente… A gente ao menos pode falar, denunciar. Mas é engraçado que o mais complicado foi depois, quando acabou a censura: nós não éramos capazes de escrever. Não éramos! Estávamos tão formatados para aquele tipo de escrita, tão cheio de metáforas para contornar os censores, que não éramos. Lembro-me de parar e pensar: “Mas porque é que estou a escrever assim?! Eu posso escrever isto como quiser!”

Teve muitas notícias “rapinadas”, foi?
Muitas, muitas. E coisas perfeitamente incríveis. Há uma notícia — e felizmente roubei muitas provas de censura a tenho-as ainda hoje — muito pequenina, meia dúzia de linhas, que foi cortada. E tudo porque dizia assim: “O senhor presidente da República, Almirante Américo Thomaz, deslocou-se hoje a não-sei-onde para inaugurar um fontanário”. E os tipos cortaram tudo! [Risos] Mas mesmo quando estava no “Juvenil”, aquilo era cortes de alto a baixo.

Mas porquê? Sendo um suplemento juvenil…
Vamos lá a ver: quem é que eram os jovenzinhos poetas do “Juvenil”, Tiago? Eram jovens que viviam e que sabiam o que se estava a passar: o senhor ministro da Cultura [Luís Filipe de Castro Mendes], a Hélia Correia, o Jorge Silva Melo, esses todos. E escreviam muito bem sobre o que realmente se passava. Havia uma página que era só de noticiário e aquilo era tudo cortado de alto a baixo.

O “Juvenil” foi o suplemento que dirigiu com o Mário Castrim. Quando com apenas 14 anos se correspondeu pela primeira vez com ele imaginava que seria o homem com viria a casar e viver ?
Não, naquela altura não imaginava nada. Porque nem o conhecia, só nos correspondíamos por carta. Mas tempos depois, sim.

Quer contar-me a história da escadaria do Diário de Lisboa, quando o viu lá no alto?
[Risos] Tinha 18 anos. Ele pediu-me para ir lá — entretanto já tinha publicado coisas minhas no “Juvenil” –, e lembro-me perfeitamente de subir aquelas escadas do Diário de Lisboa, que era assim uma escadita íngreme para chegar até lá a cima, e pensar, mas pensar mesmo: “Esta é a vida que eu quero e aquele é o homem que eu quero!” E olha que eu até tinha namorado na altura…

Ele era uma referência para si?
Claro, claro. Ele ainda não tinha começado a escrever as suas famosas críticas, que só começaria muito depois. Mas era um grande, grande jornalista.

Sei que sempre foram críticos do trabalho um do outro. No melhor dos sentidos.
Muito! Mas eu gosto disso. Nas minhas editoras, por exemplo, gosto que me chamem e que nos sentemos a ver o que é que está bem e o que é que está mal. O Mário era muito assim. Eu acabava um livro — enquanto o fazia não o dava a ler a ninguém — e nunca entregava à editora sem ele ler. E ele dizia sempre isto: “Primeiro vou ler para gostar. E depois vou ver o que está mal…” E ele estava cheio de razão quando apontava o que estava mal. Era extremamente exigente. Felizmente era.

Falando dos livros que continua a escrever. É uma compulsão ou mais “obrigação”?
Talvez obrigação. Porque as minhas editoras me mandam. Se as minhas editoras um dia me dissessem assim: “Já escreveste tanto, fica sentada, não escrevas mais nada”. Eu ficava logo. Nos jornais não! Se alguém me dissesse isso sobre crónicas ou trabalho para o jornal, isso nem pensar. Agora os livros, acho que ficava. Mas gosto de escrever, é evidente. E tenho prazos — mas isso também nos jornais tinha e gosto de ter prazos.

E depois, como boa jornalista que é, só termina no último dia, não?
[Risos] No último dia, sim. Mas é que é mesmo! Gosto — e sou perfeitamente capaz — de fazer muita coisa ao mesmo tempo. Se não tenho nada para fazer, olho para o sol, vou lá para fora, deslumbro-me e não faço nada. Se tenho muita coisa, sou perfeitamente capaz de despachar tudo. Porque estou habituada a isso, à pressão — eu escrevo muito sob pressão. Mesmo que tenha um mês para escrever as coisas. Uma das coisas que me faz falta é o barulho. Mas hoje as redações também quase não têm barulho. E aquilo era barulheira terrível mas boa.

"As crianças não mudaram. Acho que mudei mais eu do que elas. Os livros que eles mais leem na escola são os meus livros mais antigos, por exemplo o 'Rosa, Minha Irmã Rosa'. Às vezes pergunto-lhes: "Não acham estranho que a coisa mais divertida que um miúdo tem para fazer é colar cromos?!" [Risos] Hoje é tudo digital. Mas os dramas deles são os mesmos. Os 'adereços' é que são outros."

A Alice está quase sempre de visita a escolas. Os seus livros mais antigos continuam a ser editados e lidos. As crianças não mudaram nada, é isso? Porque é que os primeiros livros permanecem tão atuais?
Não mudaram. Acho que mudei mais eu do que elas. Os livros que eles mais leem na escola são os meus livros mais antigos, por exemplo o Rosa, Minha Irmã Rosa — que tem trinta e tal anos. Ah, e a Viagem à Roda do Meu Nome! Nessa historieta, a pessoa está grávida, escolhe o nome para um rapaz e aparece uma rapariga. Acontecia muito naquela altura. E pergunto às crianças: “Ouçam lá, não vos parece um bocadinho estranho isto acontecer hoje? Hoje sabe-se logo se é rapaz ou rapariga…” E quando é o Rosa, Minha Irmã Rosa, pergunto: “Não acham estranho que a coisa mais divertida que um miúdo tem para fazer é colar cromos?!” [Risos] Hoje é tudo digital. Mas os dramas deles são os mesmos. Os “adereços” é que são outros.

Estamos a falar das crianças — e do quanto elas mudaram ou não. Mas a Alice também é cada vez mais voltada às novas tecnologias…
Que remédio! [Risos]

Só há bem pouco tempo é que deixou a máquina de escrever, não foi? E deixou-a porque avariou…
Avariou e já ninguém me sabia tratar dela. E disse: “Pronto, tem mesmo que ser um computador”. Mas houve jornalistas para quem foi difícil a chegada dos computadores. Lembro-me que no Diário de Notícias havia uma quantidade de computadores avariados.

Porquê?
Porque os meus velhos camaradas sempre escreveram na máquina. E quando a máquina chega ao fim, a gente dá um empurrão para o lado. E eles faziam no computador — e estragaram não-sei-quantos. Mas hoje é impensável para mim não usar o computador.

E usa-o também para comunicar. Pois corresponde-se muito com leitores através do Facebook, por exemplo.
Sou perfeitamente fanática pelo Facebook. E quando as pessoas me dizem que é horrível, que nos tira a privacidade toda, eu respondo que só é horrível e só tira se deixarmos. Todos os anos dou cursos de escrita criativa. Ainda hei-de fazer um sobre como usar bem o Facebook! [Risos] O que o Facebook nos pode dar é muito mais do que aquilo que tem de mau. Por exemplo: certa vez fui escrever um romance para o Porto Santo. E eu não conhecia nada nem ninguém no Porto Santo! Só sabia aquela história que tinha encontrado e que queria saber se ainda existia quem a conhecesse. E escrevi no Facebook. Quando lá cheguei, já tinha uma professora de quem em casa fiquei, já tinha outro que me foi mostrar tudo, já tinham uma data de pessoas prontinhas a darem-me tudo. Portanto, a gente muitas vezes não pensa nas coisas boas. E tenho imensos amigos. Quando a gente está assim um bocadito em baixo, também dá jeito. Mas também bloqueio muitos!

Há um lado perverso, não é?
Há. E bloqueio muitos. Porque aquilo, como eu costumo dizer, é o meu quintal. E no meu quintal só está quem eu quero. Discussão de ideias, tudo bem. Mas quando começa a ser mais do que isso, pimba, bloqueio logo. Tenho uma lista enorme.

A 7 de Março de 1997 foi feita Comendadora da Ordem do Mérito. "Prémios? Para mim responsabilidade é ter o texto acabado"

A Alice não deu muita importância àquela polémica, lá está, no Facebook, quando se disse supreendida com a atribuição do prémio Nobel da Literarura ao Bob Dylan e foi criticada.
[Risos] Mas é que só disse aquilo, não disse nada de mal. Não entendi a polémica toda. Se não estivesse doentinha como estou hoje, e sem poder sair, neste momento estava numa conferência sobre o Bob Dylan, acreditas? É verdade. Convidaram-me. Só disse que foi uma surpresa para mim vê-lo ganhar o prémio. Para mim e para muita gente. Eu gosto muito do Dylan. Mas até gostava mais que ganhasse o [Leonard] Cohen. Mas a propósito disso: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Uma coisa são os poemas que se fazem para canções — e que são extraordinários. Outra coisa são os livros. É outra coisa. Mas não barafustei nem nada, só achei que foi um disparate. Eu tive uma publicidade à pala do Bob Dylan que não queiras saber! [Risos]

Já que estamos a falar de prémios. A Alice esteve perto de vencer em duas ocasiões o prémio Hans Christian Andersen — que é uma espécie de “Nobel” da literatura infantil. Isso é importante para si? Ou não quer saber dos prémios para nada?
Foi importante. É importante. Foi na altura da nomeação para o prémio que tive, logo de seguida, traduções na Alemanha. E fui a muitas escolas na Alemanha. E claro que tem importância. Mas mais responsabilidade não dá. Para mim, querido, responsabilidade é ter o texto acabado. Sou muito, mas muito exigente. Rasuro, emendo, deito fora. E deito fora livros inteiros — que estão prontos e que fui rasurando e emendando. Mas, depois, fui reler outra vez e pensei: “Não está mal mas posso fazer melhor…” E deito fora.

Mas ainda ambiciona, hoje, vencer o prémio Hans Christian Andersen?
Não, nem pouco mais ou menos. Não sou nada do género de dizer que não quero prémios. Eu quero! Podem-me dar que eu recebo-os todos. Agora, não escrevo nem mais nem melhor por causa disso. Não estou sequer à espera. Há prémios a que eu acho muita graça, confesso. Há um que recebi da Alemanha, que é um diploma. Os miúdos tinham lido A Viagem à Roda do Meu Nome. Isto era na cidade de Mainz. E a cidade de Mainz faz todos os anos dois prémios: um para o melhor romance juvenil alemão e outro para o melhor estrangeiro. E nesse ano o meu ganhou. O júri é composto pelos miúdos das escolas. E acho esse prémio muito engraçado. O que quero é escrever o melhor que sei e aquilo que me interessa. Vês aquele prédio à frente da minha varanda, que está em obras? Aqui há dias ia a passar na rua cheia de sacos de supermercado. E ouço um dos trabalhadores dizer para os que estavam cá em baixo: “Ajudem lá a senhora! Vocês nunca leram nada dela na escola?!” Isso é que eu gosto.

E gosta do contacto com os leitores? Ou, por exemplo, quando são feiras do livro, isso aborrece-a? Porque é muita gente…
Gosto muito, gosto muito. E estou lá as horas todas que forem necessárias, faço os autógrafos que eles quiserem, falo com eles, e gosto muito do contacto com os leitores. Afinal, são eles que nos compram os livros. E é a eles que nós devemos ainda poder trabalhar.

"As pessoas fazem um bocadinho de confusão entre a política -- que é o que fazemos todos os dias -- e a política partidária, que é outra coisa. Que os meus livros devem estar cheios de política, estão com certeza. Partidária, só se for na brincadeira. Acho que quando somos leitores aquilo que nos interessa é a obra, independentemente de como é que é o autor e em que é que acredita. O Ezra Pound era nazi e ninguém vai dizer que ele não era um grande poeta."

No outro dia o Bruno Vieira Amaral escrevia que tinha encontrado um leitor muito indignado com a tomada de posição do Rentes de Carvalho nas eleições holandeses. A Alice é da opinião que os escritores não devem partilhar esse tipo de opiniões? A sua posição política nunca foi um segredo.
Oh querido, é assim: nunca me preocupei com isso. As pessoas fazem um bocadinho de confusão entre a política — que é o que fazemos todos os dias — e a política partidária, que é outra coisa. Que os meus livros devem estar cheios de política, estão com certeza. Política é tudo o que a gente faz. Partidária, só se for na brincadeira. Acho que quando somos leitores aquilo que nos interessa é a obra, independentemente de como é que é o autor e em que é que acredita. O Ezra Pound era nazi e ninguém vai dizer que ele não era um grande poeta. Era. Nós temos é que nos abstrair um bocadinho e ver a obra.

Quanto em Mafra, nas últimas eleições, resolveu fazer parte de uma candidatura, foi por “brincadeira”?
Foi a primeira vez que me envolvi partidariamente — tirando a [Assembleia] Constituinte em 1974 e 75, onde toda a gente se envolveu. E quem me aliciou foi um amigo meu, um grande amigo, que é o Elísio Summavielle. Tinha sido desafiado para concorrer a presidente da Câmara Municipal de Mafra e desafiou-me a concorrer à Assembleia. E fui. E foi uma grande aprendizagem, acredita. E iria outra vez. Foi realmente muito bom.

Entretanto, lá no concelho, continuou a colaborar com o Jornal de Mafra. E este livro [Só Duas Coisas Que, Entre Tantas, Me Afligiram] mais recente compila precisamente as crónicas que lá escreve.
É, vem do online para o papel. A editora perguntou-me se tinha mais algum livro de crónicas. Peguei naquelas — e em algumas mais que não são do Jornal de Mafra — e publiquei.

O género que mais gosta é o romance, nunca o escondeu. E a crónica?
Dá-me muito, muito prazer.

E quando terminarmos esta entrevista vai ter que escrever mais uma, precisamente para o Jornal de Mafra.
Vou, vou. Três mil e tal caracteres estão à minha espera. [Risos] Uma crónica não é uma short story, não é uma romance; é uma crónica. E as coisas que nos dão crónicas surgem do nada. Lembro-me que estava a trabalhar aqui em casa, tinha que escrever uma crónica e não tinha nada para contar. Nada! Até que, para aí às duas e tal da manhã, há uma barulheira aqui na rua. Era um desgraçado que andava de telemóvel na mão, porque tinha acabado o namoro com uma tal de Maria Bárbara, e andava rua acima, rua abaixo, a insultar a Maria Bárbara e a contar a história toda. E escrevi a história toda da Maria Bárbara na crónica. Com um remate: “Oh Maria Bárbara, para a próxima, quando acabares o namoro com o desgraçado, acaba um bocadinho mais cedo! Porque neste bairro ninguém dormiu por causa de ti…” [Risos] Há sempre qualquer coisa que nos dá para escrever uma crónica.

A crónica é jornalística. Mas quando escreve um romance sei que também tenta aproximar a sua escrita da da reportagem. Verdade?
Sim. Há uma coisa que eu digo nas escolas — e que as professoras até me pedem para não dizer — aos miúdos: os adjetivos não servem para nada. Têm que ser muito bem utilizados. Eu tive muitos bons mestres no Diário de Lisboa. Um era o Manuel Azevedo. Esse tirava-me os adjetivos todos. E dizia-me: “Um jornal que se preze não circula com palavras fora de circulação!” Isto por causa das palavras mais a dar para o pomposas que a gente às vezes punha para embelezar o texto. Com o Manuel Azevedo vinha logo para trás! Nós aprendíamos muito com os mais velhos, na tarimba, a fazer as coisas.

Acha que hoje há faculdades de jornalismo a mais e “mestres” — como o Manuel Azevedo — a menos?
Eu não deveria estar a dizer que sinto isso. Mas sinto. Lembro-me de ir assistir ao 1.º Congresso dos Jornalistas Portugueses. Fui com o Afonso Praça, do Diário de Lisboa. E lembro-me de ouvir umas miúdas a falar sobre a profissão. Depois, voltei-me para o Afonso e disse: “Oh meninas, vocês estão é todas cheias de semiótica nessa cabeça!” [Risos] Acho que todo o ensino é bom, tudo o que se aprende nas faculdades de jornalismo é bom, mas depois vão perceber que a prática é outra coisa.

Mas são tempos perigosos, estes, para o jornalismo?
São, são, acho que são. Às vezes estava no jornal e dizia assim: “Qualquer dia vou-me embora daqui…” Mas sabia que se saísse, atravessava a rua e ia para o jornal seguinte. Agora não é assim. Os jornalistas agora têm que pensar muito bem. Depois também há muitas “maneiras” de dar a mesma notícia. Estás a perceber? São tempos difíceis, acho que são, e não me via a ser jornalista agora.

Os jornalistas da sua geração falam muito da camaradagem que existia nas redações.
Era, era.

E não era só ir para os copos quando fechava o jornal…
[Risos] Não era só isso — também ajudava mas não era só isso. Quando foi o 25 Abril lembro-me perfeitamente de partilhar o relato do que ia vendo para vários jornais, não era só para o meu. Queríamos era passar informação, era preciso que se soubesse. Isso é camaradagem.

Falou no 25 de Abril. Trabalhou nesse dia, portanto?
Na noite de 24 para 25 de Abril estava no Coliseu a ouvir a Traviata, com o Alfredo Kraus. E o Krauss depois até me disse, quando o entrevistei anos depois: “Os primeiros cravos da vossa Revolução foram para mim!” As pessoas atiravam-nos para o palco… [Risos] Depois do espetáculo vim para casa. Não sabia o que se estava a passar. Nem desconfiava. Até que houve uma tia minha — que tinha muitas insónias e ouvia rádio a noite inteira — que me disse que tinha acontecido qualquer coisa. O nosso medo naquela altura é que fosse um golpe de direita — que era o que se estava a preparar. Fui logo com o Mário [Castrim] a correr para o jornal. Isto é verdade: entre o dia 25 de Abril e o 1.º de Maio não me lembro de ter havido noite e dia, de ter vindo a casa, não me lembro de nada disso. Foi um dia só. Só me lembro daquela loucura de tentar procurar saber o que é que se passava. E lembro-me que no dia 25 de Abril, à tarde, entro pela redação do Diário Popular e digo para o Fernando Teixeira, o chefe de redação: “Se o senhor hoje me corta nem que seja uma vírgula, nunca mas entro aqui!”. E ele respondeu: “Minha senhora, nesta casa nada vai mudar!” Horas mais tarde foi saneado… [Risos] Foi uma época como nunca vivi outra.

"O que eu realmente queria era fazer tudo isto com mais calma. Não era a andar a correr de um lado para o outro -- tenho muita dificuldade em saber dizer que não mas já vou sabendo dizer"

O que é que ainda quer fazer, Alice? Na literatura. Poesia?
No tempo que me resta, aquilo que queria realmente era continuar em jornais — isso sempre. Depois, gostava de escrever mais, mas não sei o quê. Tenho três livros de poesia e um quarto quase a sair. Se calhar um bocadinho mais de poesia — onde ainda sou mais exigente do que na prosa. Agora o que eu realmente queria era fazer tudo isto com mais calma. Não era a andar a correr de um lado para o outro — tenho muita dificuldade em saber dizer que não mas já vou sabendo dizer. E era isso: calma. Pegar no meu computador, ir para a Ericeira e estar lá a trabalhar.

Pronto, acabou. É curioso: durante a entrevista, e mesmo quando falámos de assuntos mais delicados, a Alice ria-se. Sempre.
[Risos]

É precisamente isso…
Falam muito da minha gargalhada. Eu tive a infância complicada que te contei. E quando é assim, temos que arranjar defesas. Lembro-me perfeitamente de quando era miúda e as velhas tias me chamavam — e quando me chamavam não vinha de lá coisa boa. “Matar, não me matam!”, pensava eu. E ria-me. Não faço isto por querer; é assim. Mas acho que foi o que me ajudou a sobreviver estes anos todos.

Texto de Tiago Palma, fotografia de Henrique Casinhas, vídeo de André Marques.

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