É um ritual que se repete com precisão suíça em tudo quanto é organização de trabalho: quando começa um ano novo, o primeiro instinto é garantir a marcação de férias com uma voracidade de rapina, dado que os próximos 365 dias poderão vir a ser arruinados se aquelas duas ou três semanas de pausa não forem asseguradas nas datas pretendidas e com os destinos fechados. Parece absurdo, mas é uma das facetas da vida moderna — e, segundo Anna Pacheco, é um dos pilares em que o turismo enquanto economia assentou para assumir um papel fulcral.
“A indústria do turismo é sustentada precisamente por um desejo de fuga, por uma necessidade desesperada de descansar e de fugir de alguma coisa. E penso que isto é muito interessante para analisar porque é que viajamos ou porque é que queremos viajar tanto”, afirma em conversa ao Observador. Jornalista natural de Barcelona, Pacheco esteve em Lisboa para divulgar o seu livro Estive Aqui e Lembrei-me de Nós, um ensaio que mistura investigação com análise antropológica — parte da sua formação académica — e sociológica sobre o fenómeno do turismo nos tempos que correm.
A premissa desta obra partiu da investigação da jornalista ao longo de sete meses em três hotéis de luxo da sua cidade natal, misturando-se entre os trabalhadores e infiltrando-se até em reuniões laborais. A partir daí, Pacheco faz o retrato não só de uma classe profissional altamente precarizada, mas também de uma indústria confrontada com o seu próprio papel na transformação das cidades e na crescente pressão habitacional. “Muitas vezes o argumento para desarmar os protestos é esse, que esta indústria dá muito trabalho. Mas depois temos de ver como são estes empregos e como as pessoas que vivem do turismo ganham mal. E há também a relação com a crise da habitação, que é muito evidente em Espanha. Quem consegue um emprego num local altamente turístico, e por causa da turistificação que aumenta as rendas, vai ver que o salário irá quase inteiramente ou mais de metade para esse fim”, defende.
No entanto, o espectro deste trabalho vai mais além. Pacheco tenta perceber porque é que o conceito de viagem tem um papel tão central nas nossas vidas — mais até do que a “natural curiosidade humana” de conhecer novos lugares. Não partindo de ponto de vista imparcial — nem fingindo que o faz —, a jornalista considera que o turismo vive numa relação simbiótica com o modelo de trabalho capitalista, em que ao viajar “muitas pessoas sentem que se podem comportar como os seus patrões” e em que o sítio que se escolhe tem um efeito prestigiante ou menorizante perante terceiros, resultando numa “curiosidade dopada” a braços dados com a “acumulação insubstancial de experiências”. Alerta, no entanto, para os riscos de políticas e discursos que promovam a elitização do turismo. “São falácias que têm a ver com esta ideia de tornar as viagens cada vez mais exclusivas e obviamente os efeitos continuam a ser os mesmos, se não piores”, assegura.
Ao longo da entrevista, Anna Pacheco explica que não é contra férias, mas que temos de “pensar noutras formas de descanso popular”, especialmente numa fase em que a pressão turística assume tal ordem que, por exemplo, Barcelona foi palco em 2024 de grandes protestos contra a turistificação. “Vamos ver como enfrentamos este verão e o próximo, porque sei que há uma rutura algo elementar que tem a ver com o facto de muitas pessoas de Barcelona já não poderem viver na cidade. Portanto, não é algo contra o turista. Vai para lá do slogan ‘tourist go home’. Temos de ir além do slogan e do graffiti e mais contra o modelo”, garante.
▲ A capa de "Estive Aqui e Lembrei-me de Nós", de Anna Pacheco, na edição portuguesa da Objetiva
A determinado momento, neste livro cita um sociólogo para caracterizar o nosso tempo como “a era do turismo”. Em que consiste?
Gosto muito da forma como ele define esta era como dois lados da mesma moeda. O turismo é revolucionário e, ao mesmo tempo, é de certa forma a assunção complacente de tudo; é, por um lado, o desejo de aceitar as coisas como elas são e, por outro, o desejo de as transformar. É-nos apresentada muitas vezes a ideia da idade de ouro do turismo, de que é uma aspiração democrática, afastamo-nos das grandes viagens do século passado, da aristocracia em que só alguns podiam viajar, e agora parece que toda a gente pode fazê-lo. E o turismo tornou-se também uma espécie de capital simbólico muito importante, em que não é apenas a viagem, mas tudo o que representa, porque também se viaja de certa forma para dizer que se viajou. Tento questionar o que sempre nos foi dito sobre o turismo como sendo uma fonte limpa de riqueza. Além de que essa ideia de que o turismo é democrático ou que toda a gente viaja é, no mínimo, questionável. Um dos dados que considero mais impressionantes é o facto de apenas uma percentagem inferior a 10% [da população mundial] poder viajar, atravessar fronteiras para fins turísticos. Ou seja, trata-se de uma minoria e, além disso, típica do Norte Global. Isto significa que, quando estes mantras são repetidos, podemos pelo menos questioná-los.
Para compreender o fenómeno turístico, fez um trabalho de campo ao longo de sete meses junto de três hotéis de Barcelona, entrevistando os trabalhadores e por vezes infiltrando-se em alguns espaços e atividades. A que conclusões chegou?
Em primeiro lugar, compreendi como o turismo tem algo de muito performativo, é quase uma espécie de teatro em que a cidade se coloca à disposição do visitante temporário e em que até os próprios trabalhadores da indústria turística se tornam, de certa forma, representantes ou atores desse teatro. E muitas vezes, quando se vai a um destino, espera-se que este corresponda às expectativas — ou seja, que haja uma certa italianidade em Itália, uma certa hispanidade em Espanha e aqui o mesmo em Portugal. Portanto, eu queria ver o que estava por detrás deste teatro, entrar um bocadinho nestes bastidores para ver qual é a cultura corporativa que existe nestes sítios. E também procurei — possivelmente contagiada por estas ficções como The White Lotus — ver se também há qualquer coisa nestes hotéis de luxo parecida com ressentimento de classe, se esse é um terreno interessante para uma revolução, porque há uma grande diferença entre as pessoas que tornam estes espaços possíveis e a obscenidade dos preços que um quarto custa — estamos a falar de noites de 12.000 euros ou mais. Procurei esse ressentimento de classe e encontrei-o de diferentes formas, como pequenas sabotagens dentro da empresa, mas não uma ideia épica ou grandiloquente de uma revolução que pudesse estar em gestação.
Descreve no livro algumas das formas como a indústria do turismo depende da própria precariedade dos seus trabalhadores para subsistir. Pode enumerar e explicar alguns exemplos?
Em Espanha e certamente aqui em Portugal, as economias têm sido baseadas no turismo de sol e praia. Para nós, este tem sido um dos pilares que tem sido fortemente promovido e propagado desde o regime de Franco. E, durante muito tempo, o turismo pareceu ser uma indústria limpa de riqueza, parecia até que não estava associada a uma materialidade poluente. Era simplesmente dinheiro grátis que nos caía do céu a nós, espanhóis.
É descrito como o “negócio da felicidade”…
Sim, de facto ela é chamada a indústria da felicidade no mundo empresarial, ou a indústria do acolhimento, o que também é muito interessante de ver, como de alguma forma os trabalhadores e os locais tornam-se anfitriões. De alguma forma, a cidade é preparada para acolher. Portanto, o que eu queria fazer era questionar toda esta riqueza supostamente limpa que nos chega, especialmente porque desde há 20 anos, mas especialmente agora, temos dados que corroboram que os lugares mais turísticos de Espanha — por exemplo, as Ilhas Baleares, as Ilhas Canárias, uma boa parte da costa catalã — são os que têm o rendimento familiar mais baixo. Ou seja, são aqueles onde os habitantes locais vivem em condições mais pobres ou mais empobrecidas. Portanto, isto é muito importante para ver que se trata de uma indústria que contribui com uma riqueza relativa, e teríamos de ver quem é que está a enriquecer. Nas Ilhas Canárias, que foram pioneiras em Espanha na liderança dos protestos contra a sobrelotação turística, é muito claro que se tratam de ilhas que sustentam uma elevada pressão turística, ou seja, cuja economia se baseia no turismo e onde as pessoas vivem muito mal, vivem muito precariamente, mesmo que trabalhem na indústria turística.
Porque, nestes locais, o turismo é uma das principais fontes de emprego.
Sim, e muitas vezes o argumento para desarmar os protestos é esse, que esta indústria dá muito trabalho. Mas depois temos de ver como são estes empregos e como as pessoas que vivem do turismo ganham mal. Há também a relação com a crise da habitação, que é muito evidente em Espanha. Quem consegue um emprego num local altamente turístico, e por causa da turistificação que aumenta as rendas, vai ver que o salário irá quase inteiramente ou mais de metade para esse fim. Portanto, é claro que o que estamos a ver é que muitas pessoas se dedicam ao turismo, mas muitas vivem mal precisamente por causa dele, porque as rendas sobem, as lojas das redondezas também estão centradas na indústria turística e, portanto, as necessidades básicas também se tornam mais caras. O que gera é relativo. No ano passado, em Espanha, o que constatámos foi que, nas ilhas, muitos trabalhadores em hotelaria já não conseguem suportar os custos de viver em apartamentos e foram para parques de campismo ou acampamentos de hoteleiros, onde as pessoas que já não conseguem pagar o aluguer na zona devido à pressão do turismo são obrigadas a viver numa tenda. O que estamos a ver agora é muitas vezes um sintoma de como o sistema se está a devorar a si próprio.
Essa é uma das supostas contradições insanáveis do turismo atual que descreve no livro?
Sim. Em 2024, um hoteleiro na costa catalã queixou-se que não tinha conseguido abrir o seu hotel a tempo porque não conseguia encontrar trabalhadores que pudessem pô-lo em funcionamento. Um vereador em Santorini, uma ilha grega altamente sobrelotada, no ano passado declarou uma espécie de estado de emergência e pediu aos habitantes locais que não saíssem à rua durante algumas horas, porque já estava muito cheia devido à chegada dos turistas. Ou seja, estamos a ver como há uma tensão e um confronto evidentes, em que pouco a pouco parece que já se pede aos habitantes locais que quase desapareçam do postal turístico, que se escondam para que, de alguma forma, o espetáculo possa continuar.
▲ Jornalista natural de Barcelona, Anna Pacheco já colaborou com o El País, a VICE, a Playground, o El Periódico e o Público.
No livro cita o discurso do diretor do hotel aos trabalhadores, ele identifica o problema e admite que trabalhar no setor do turismo é cada vez menos atrativo. Mas também acusa as gerações mais jovens de não quererem trabalhar.
Quando fui confrontada com esse discurso e estava a transcrevê-lo, pensei “tenho de pô-lo na íntegra e não tenho de dizer nem acrescentar mais nada. Tenho de fazer desaparecer a minha voz aqui e refletir isso”. Os grandes empregadores hoteleiros já não estão alheios aos conflitos ou tensões que o turismo gera e, de facto, já se apropriam deles em grande parte do seu discurso. Por exemplo, vemos isso em relação à crise climática, com todas essas eternas promessas de sustentabilidade que se repetem constantemente em todos os hotéis, mas também ao admitir isso, que há falta de trabalhadores, ou que mesmo fazendo melhorias no hotel, não encontram ninguém que queira trabalhar. Ou, como é mencionado nesse discurso, admitindo de forma muito severa que este é um trabalho desgastante, em que praticamente os obrigam a escolher entre a vida e o trabalho, nesta chantagem. Mas depois o que se vê é como as respostas propostas nos levam cada vez mais ao desastre. De certa forma, chegámos a uma fase — e estou certa que em Portugal é igual — em que parece que não há época alta nem época baixa, porque há uma constância. Portanto, é dura a forma como vemos que o setor está em plena saúde, ou seja, que se bateram recordes depois da pandemia, em que toda a gente de alguma forma afirma que isto é algo imparável, mas ao mesmo tempo as pessoas que sustentam este modelo não conseguem viver bem dele.
Há aspetos que descreve que parecem evocar distinções sociais do passado, como a questão dos trabalhadores entrarem por uma porta paralela ou não poderem ser vistos nos espaços de fruição do hotel. Como é que encarou isto no seu trabalho?
O hotel está cheio desse mimetismo, de gestos que têm muito a ver com a servidão e com o caráter extrativista e colonial da própria indústria. Portanto, o que vemos é uma performatividade constante em que o que nos é dito e que é repetido em todo o tipo de publicidade é que nas férias vale tudo, tudo é permitido, porque merecemos. E isto é também muito interessante porque se liga à ideia deste sistema de modelo produtivo em que vivemos, em que se trabalha todo o ano para poupar um pouco de dinheiro, se vai de férias durante sete dias ou o que se puder, se recarrega o corpo e depois se continua a trabalhar. E parece que, nessa semana, há uma espécie de suspensão, um limbo jurídico, mesmo dos nossos próprios princípios, e em que estas relações de servidão se reproduzem de uma forma um pouco mais feroz, em que muitas pessoas sentem que se podem comportar como os seus patrões.
O livro não se debruça apenas sobre as consequências do turismo, mas também sobre as causas. Que efeito inebriante é este que o turismo exerce sobre todos nós?
Quando escrevi o livro quis evitar fazer um “guia ético do bom e do mau turista”, porque isso é sempre perigoso. E, nalguns casos, esse preconceito é classista, as pessoas dizem “são os passageiros dos cruzeiros que estão a atrapalhar, o bom turista é aquele que faz este outro tipo de viagem”. Precisamente, o que a indústria do turismo faz de uma forma muito inteligente é posicionar-se através da diferenciação, alimentando a ideia de que o turista pensa que é, por definição, melhor do que o outro turista. Recordo como as plataformas como o Airbnb foram propagadas precisamente como uma forma de fugir ao turista comum e aos circuitos habituais e viver como um local, “num apartamento acolhedor” no centro de Lisboa. E é interessante porque durante algum tempo pareceu que o Airbnb era mais ético, que era até outra forma de viajar. É por isso que sou muito cuidadosa neste sentido. Além de tudo o resto, estes diálogos, estes debates que temos não devem acabar por disparar contra o turista, mas contra o modelo de turismo. O efeito inebriante do turismo é, portanto, evidente — e é, em primeiro lugar, por causa do que estávamos a dizer sobre este sistema compensatório em que vivemos, um sistema em que se trabalha muito para descansar um pouco.
Airbnb: “Mais do que dizer que restringe ou não, Lisboa tem de escolher que tipo de turismo quer”
É o efeito de pôr uma cenoura à frente de um burro para fazê-lo andar?
Totalmente. A indústria do turismo é sustentada precisamente por um desejo de fuga, por uma necessidade desesperada de descansar e de fugir de alguma coisa. E penso que isto é muito interessante para analisar porque é que viajamos ou porque é que queremos viajar tanto. Sem ignorar o facto de que existe obviamente uma natural curiosidade humana, penso que, de alguma forma, essa curiosidade está dopada.
Quanto a esse tema, escreve que viajar é um carácter social de capital simbólico. Ou seja, quem não quiser viajar, não é interessante, não é desejável?
Aqueles que não viajam porque não querem ou porque não podem, de certa forma, são muitas vezes vistos como ignorantes, como alguém com pouco mundo. Acho que é isso, é uma curiosidade dopada. Além de que, em muitos sítios e em muitas ocasiões, também se baseia numa acumulação insubstancial de experiências. Ou seja, tem havido esta cultura do “cheque”, do visitar para dizer que se viu, e depois é evidente que isso também se traduz na forma como consumimos as cidades, em que nem sequer damos um passeio minimamente livre por um sítio; pelo contrário, há um percurso pré-estabelecido, quase sempre privatizado, em que é preciso ir ao melhor restaurante, ao melhor miradouro — que é pago —, ou ao melhor elevador — que é pago também. Portanto, penso que esta curiosidade dopada é o que temos agora de explorar e de nos perguntarmos quanto a tudo isto. Até para pensar num mundo em que, se calhar, se o descanso não fosse tão excecional, talvez não tivéssemos tanta vontade de fugir. E, claro, também contrasta com algo muito essencial: numa altura em que as cidades estão a tornar-se inabitáveis, precisamente devido à sua turistificação, muitos de nós queremos sair dessas mesmas cidades para nos afastarmos, mesmo que seja apenas por uma semana. Por isso, é lógico que exista esta tensão.
▲ "Estamos a ver como há uma tensão e um confronto evidentes, em que pouco a pouco parece que já se pede aos habitantes locais que quase desapareçam do postal turístico, que se escondam".
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No início do livro, recorda como a sua família tem um souvenir de um cruzeiro que fizeram no Mediterrâneo. Ou seja: como não fazer parte do que diz ser o problema?
Venho de uma família de classe trabalhadora para quem fazer esse cruzeiro foi um feito e uma aspiração. Foi algo de que nos orgulhamos muito, a ponto de comprar uma lembrança e colocá-la na sala de jantar. E é importante apresentar esta crítica da turistificação sem cair no elitismo nem no classismo e sem deixar ninguém de fora, porque o mais importante aqui é que o turismo vai mudar de uma forma inevitável, irreversível, devido às mesmas limitações climáticas e devido às próprias estruturas que já vemos neste momento, que já se estão a autoconsumir. Às vezes as pessoas perguntam-me “espera aí, mas queres estragar-nos as férias?” Não, nada disso, o que temos de pensar é como propor outros modelos de descanso que sejam maioritários, que sejam populares, que não se baseiem nestas estruturas de precariedade. De forma alguma estou a falar de deixar a classe trabalhadora sem descanso. Temos de ser capazes de imaginar esses futuros agradáveis de descanso, ou seja, é normal que queiramos desfrutar da praia, das montanhas, de um verão agradável e quente. Por outras palavras, o que temos de pensar é como é que fazemos tudo isto mudando ou regenerando o modelo a partir do zero.
Durante a pandemia, os governos de muitos países, na Europa por exemplo, tiveram a estratégia de apelar aos habitantes para que viajassem dentro das fronteiras. O facto desta forma de viajar não ter continuado é uma oportunidade perdida?
Claro que sim. E penso que a pandemia nos fez colocar estas questões pela primeira vez e que têm a ver com uma inevitável redução das viagens e com o facto de se tornar exótico o que nos é próximo. O facto de ficarmos na nossa própria terra ou em países vizinhos, o facto de viajarmos para ambientes mais ou menos familiares, não ser visto como uma renúncia, como algo resignado, como algo menor; pelo contrário, ser visto como algo interessante. Nesta espécie de batalha pela melhor viagem, parece que, se ficarmos [pelo nosso país], nunca a ganharemos. E, portanto, penso que este é também um passo, mas não se trata apenas de virtuosismo moral, não se trata apenas do que fazemos — que é importante —, mas também que haja, por exemplo, uma boa rede de transportes ferroviários. Em Espanha, é por vezes difícil ir do norte para o sul de comboio.
É curioso que diga isso, porque em Portugal olhamos para Espanha como um exemplo.
Entendo, mas em Espanha há muito centralismo. Ou seja, a partir de Madrid é fácil chegar de comboio a quase todo o lado, mas o resto das comunidades são absolutamente negligenciadas. Ao ponto de, como acontece aqui, ser mais cómodo ir de avião porque se poupa muito tempo. Mas também é nisso que temos de pensar. Como pensar em viajar desta outra forma, mas também como exigir as infraestruturas que o tornam possível.
Sobre o turismo e relações de poder, refere como várias séries e filmes apresentam-se como sendo supostamente subversivos, mas na verdade parecem reforçar uma certa ideologia. Estamos a falar de The White Lotus, Succession, Triângulo da Tristeza, O Menu, etc… Na análise que fez entre a forma como o turismo é representado nestas produções e a realidade, a que conclusões chegou?
A produção não é nada sem o meio em que é veiculada, e portanto o que estamos a ver é que, mesmo qualquer obra com o mínimo potencial subversivo acaba por ser cooptada pela lógica de uma plataforma — e mesmo nas suas formas de veiculação e distribuição, parte da mensagem é neutralizada. Muitas vezes pode até ser uma boa história, mas a forma como é apresentada por uma plataforma como a Netflix, a forma como é propagandeada, escapa até ao próprio autor, ao próprio realizador, ou ao que ele queria dizer. E neste mundo audiovisual parece-me ainda muito difícil escapar ao grande monopólio das plataformas e como de uma forma fascista, de alguma maneira, elas também orientam e acompanham estas produções. Tenho colegas e amigos que trabalham em plataformas e isso também se vê na representação, na exigência de certos plot twists, de uma falsa diversidade ou inclusividade, com um elenco de atores que parece representar a diversidade, mas que no fundo tem a ver com uma lógica muito autoritária. Portanto, penso que, obviamente, isto também afeta as próprias representações. No caso daquelas a que prestei mais atenção [para o livro], pareceu-me interessante ver como o ambiente, o enclave turístico, é incrivelmente atrativo — tanto quando corre bem, como quando corre mal, porque gostamos e ficamos fascinados com a decadência destes ambientes turísticos. Eu sou a primeira a admitir que gosto de vê-lo, como se fosse por um olho mágico. Mas o que vemos muitas vezes nessas representações é que há quase mais uma reafirmação clássica e explícita das relações entre senhor e escravo, em que raramente há uma verdadeira subversão desse próprio sector.
“The White Lotus”, temporada 3: como é que eles se desgraçam com tanto requinte?
Usa a expressão de Mark Fisher, de “impotência reflexiva”. É curioso porque uma das consequências interessantes, por exemplo, de The White Lotus, é que quem vê acaba a dizer coisas como “sim, estes tipos são ridículos, mas eu também quero uma semana de férias de resort, com pulseira”.
Quero deixar bem claro que adoro The White Lotus! Mas é engraçado, não é? Tal como muitas destas obras que se centram, por exemplo, nos muito ricos, na classe alta, levam isso ao paroxismo do grotesco, do ridículo, do cómico, ao ponto de, bem, a crítica se tornar insubstancial, porque o que vemos é um pouco uma caricatura do que eles realmente são. E com The White Lotus, acho que houve um disparar direto do interesse quanto a alguns dos destinos que a série mostrou, certo? Esta representação serve para alimentar certos anseios, certas aspirações.
A certa altura do livro, diz que entre os trabalhadores não existe um verdadeiro desejo ou expetativa de melhores salários, apenas de melhores condições de trabalho. Cita uma jornalista que, neste âmbito, fala dos fracassos da esquerda, sendo que o seu trabalho de campo parece demonstrar que o tradicional discurso deste campo político não chegou a estes trabalhadores. Parece-lhe uma análise justa?
O que encontrámos, por exemplo, com as camareiras, é que uma grande parte das suas reivindicações prioritárias tinha a ver com as ferramentas do ofício, para não lhes estropiar as costas — e muitas enfermidades das camareiras não são consideradas enfermidades profissionais. Ora, assim é claro que, no momento em que o corpo desgastado já não pode trabalhar sem se lesionar, compreendo que há prioridades que têm a ver com a saúde, com o desempenho da própria atividade, o que significa que outra questão essencial, como os salários, é miseravelmente relegada para segundo plano. Mas penso que faz parte da perversidade do modelo, em que têm de pôr as ferramentas do trabalho à frente do dinheiro que ganham.
A minha pergunta é também no sentido da “Hustle Culture” que menciona e que está a crescer. Por um lado, é um sinal de que a mensagem de uma das bandeiras da esquerda, a luta pelos direitos laborais, não está a chegar a esses trabalhadores.
Sim, compreendo. Teria de pensar mais, mas sim, claro que hoje há um discurso muito sedutor e muito sugestivo. Em Espanha, há muitos youtubers e streamers que são homens brancos, geralmente muito jovens, com menos de 30 anos, que são precisamente os grandes campeões desta “Hustle Culture”, da cultura da promessa de enriquecer em muito pouco tempo. E isso penetrou muito bem na sociedade. E é verdade que é interessante perguntarmos à esquerda como é possível que não estejam a apresentar um contra-discurso tão atraente, tão sugestivo, que não esteja a ser proposta uma alternativa, em que talvez tenhamos mesmo de tornar desejável um mundo em que enriquecer não seja necessariamente uma aspiração, em que talvez o desejável seja trabalhar menos horas, poder viver tranquilamente numa casa, poder restabelecer laços com mais pessoas, gerar uma comunidade. Para uma parte da população, continuam a prevalecer estas ideias do O Lobo de Wall Street e estas fantasias monetárias de ganhar muito dinheiro. E é verdade que, pelo menos em Espanha, especialmente num segmento da população jovem, estas propostas estão a chegar até eles. Há uma sensação ou um pressuposto trágico de que não há nada a fazer, de que não há um nós coletivo, e é por isso que eu também pus no título “Estive Aqui e Lembrei-me de Nós”, em vez de “Lembrei-me de Ti” ou “Lembrei-me do Manolito”, porque acho precisamente que o que há agora é uma aniquilação do nós, de uma possível coletividade, e depois o que há é uma privatização do desconforto. Há uma ansiedade, um stress, um desconforto que cada pessoa interiorizou como seu e que entende que sair dele ou superá-lo é algo que só ela pode fazer.
De um ponto de vista jornalístico, como se opera nestes meios, como se conquista a confiança destes trabalhadores sem que sintam que estão a ser usados?
Um dos meus grandes receios num trabalho de campo deste género é não conseguir essa confiança com as pessoas, que no mundo da antropologia se chamam informadores — no jornalismo são fontes. O que me assombrava é até que ponto é que eu também tenho de informar essas pessoas que estão a ser, em alguns casos, um objeto de estudo. Isso deixa-nos numa posição um pouco delicada, porque de certa forma também nos estamos a apropriar de uma história que não é nossa. Infiltrei-me, na maior parte das vezes, com a generosidade e a cumplicidade dos trabalhadores. Nalguns casos, eles já conheciam o meu trabalho anterior e diziam-me “vem com o gravador, de certeza que vais sacar ouro das nossas reuniões”. Portanto, é claro que tive sempre a cumplicidade dos trabalhadores. Não foi, por exemplo, como no caso de Ehrenreich, em que ela trabalhava mesmo e, de certa forma, era apenas mais uma trabalhadora junto dos colegas. No meu caso, eles sabiam o que eu era e eles próprios ajudaram-me um pouco a camuflar-me. Nalguns casos, surgi como um conselheira sindical infiltrada; noutros, limitei-me a participar nos jantares de Natal ou nos “Meet Togethers”, essas reuniões trimestrais, com a cumplicidade dos trabalhadores que, de alguma forma, me diziam “entra por aqui, vai por ali”.
▲ "Também procurei — possivelmente contagiada por estas ficções como The White Lotus — ver se também há qualquer coisa nestes hotéis de luxo parecida com ressentimento de classe"
Há sempre o risco de os trabalhadores se sentirem observados e de “atuarem” para si, certo?
Sim, isso para mim foi muito importante também para não tender para uma exotização que muitas vezes é feita, esse olhar externo em que também é fácil cair num tom condescendente em relação a estes trabalhadores que obviamente fazem o que podem, ou mesmo um olhar excessivamente cínico e distante. E perguntei-me muitas vezes, durante a minha própria investigação, se a forma de fazer este trabalho não seria eu trabalhar num hotel. Ou seja, observando à mesma, mas indo efetivamente trabalhar nele. Portanto, foram esses os conflitos éticos que fui colocando a mim própria. E também tive bem clara a ideia de evitar gerar uma história épica da classe operária a transformar-se e a organizar-se, embora às vezes pudesse ser tentador fazê-lo precisamente por não querer cair num olhar condescendente. Tentei encontrar esse meio termo, também para deixar claro — e acho que consegui através do meu discurso na primeira pessoa —, do lugar em que estava a falar e da minha posição também para falar nele, houve uma espécie de um híbrido estranho. Mas foi difícil, e por isso há alguns momentos em que deixo apenas as vozes dos trabalhadores e a minha desaparece de alguma forma, precisamente para não torná-la mais intrusiva.
Barcelona foi palco em 2024 de um protesto mundialmente difundido contra o turismo massificado, mas esse é um fenómeno que já se encontra um pouco por toda a parte. Acredita que estamos a chegar a um ponto de rutura?
Gostaria de pensar que sim, mas preciso de frisar que isto é relativamente recente. O que vivemos em Espanha foi precisamente o contrário, havia um certo consenso de que o turismo era bom, que era o pilar fundamental da nossa economia. Entretanto, e devido também ao trabalho dos sindicatos da habitação, pela primeira vez estabelecemos esta ligação entre a crise da habitação e a turistificação, porque parecia que eram coisas diferentes e agora vemos causa e efeito entre uma e outra. Já houve movimentos contra a turistificação e contra a superlotação em Barcelona, mas eram compostos por muito poucas pessoas. Era um movimento muito alternativo, normalmente associado a correntes ambientalistas, mas que não tinha muito espaço e agora parece estar mais generalizado. As manifestações do ano passado em Espanha foram invulgares, porque nunca tinha havido tanta gente. Quem as liderou foi, em parte, a plataforma das Canárias; ou seja, os protestos começaram nas Canárias e depois foram replicados noutras partes de Espanha. Vamos ver como enfrentamos este verão e o próximo, porque sei que há uma rutura algo elementar que tem a ver com o facto de muitas pessoas de Barcelona já não poderem viver na cidade. Portanto, não é algo contra o turista. Vai para lá do slogan “tourist go home”. Temos de ir além do slogan e do graffiti e mais contra o modelo.
Apesar deste protesto, nunca houve tantos turistas em Barcelona como no ano passado.
E muitas vezes os patrões dos hotéis dizem que já não é possível ficar em Barcelona, que reina o caos e que os turistas já não querem ir para lá. Isso é falso. A capacidade continua a ser muito alta, continua a ser uma indústria extremamente lucrativa, mas cada vez mais vão descobrir que uma parte da população, dos cidadãos, quer ver o que é deles. Estamos a oferecer tudo, até as nossas casas, sem querer, e portanto o que queremos é uma distribuição mais justa e obviamente alguns limites ao turismo.
Falou há pouco sobre a separação entre o bom e o mau turista. O que pensa das medidas que alguns governos locais ou nacionais implementaram em relação ao turismo — por exemplo, o aumento das taxas turísticas de dormida?
Há o perigo da elitização. Não sei se o conceito de turismo de qualidade está tão na moda aqui, mas agora é a palavra “chiclete” que se repete em Barcelona. Ou seja, afastar-se do turismo de bêbados, do turismo dos pobres, do turismo dos visitantes de cruzeiros e apostar nesse outro turista que supostamente é aquele que mais daria à cidade. Mas para mim isto são falácias que têm a ver com esta ideia de tornar as viagens cada vez mais exclusivas e obviamente os efeitos continuam a ser os mesmos, se não piores. Aquilo de que temos falado muitas vezes é que há uma tendência para estigmatizar as práticas turísticas dos pobres — diz-se que são sujos, que se embebedam, que cheiram mal, que quase ferem os olhos. E o que estamos a ver é que os turistas de luxo têm um maior consumo de água, por exemplo, devido às próprias instalações do hotel. Os turistas de luxo gastam dinheiro em lojas como, por exemplo, a Loewe em Barcelona, que não têm um grande impacto na população local. E o que alguns dos trabalhadores dos hotéis também me contaram é que os turistas de luxo também são barulhentos, também são por vezes sujos. Tive camareiras a contar-me como tiveram de limpar quartos cheios de porcaria [“caca”] de grandes presidentes ou de pessoas muito importantes que lá estavam, e que, por outro lado, parece que as questões associadas à higiene ou à incivilidade dos ricos nunca são explicadas, porque eles gozam de impunidade também nesse sentido, gozam de maior discrição.
Seguindo a sua lógica, se encararmos a cidade como um espaço performativo, os turistas de luxo não serão também os que mais facilmente ficam desagradados por esta não corresponder às suas expectativas?
Sem dúvida. E como também geram espaços que nada têm a ver com a cidade de destino, para ajustá-la exatamente às suas expectativas. E é por isso que as cidades estão cheias de rooftops de luxo, lojas de luxo, restaurantes de luxo, para que se possam deslocar e mudar de cidade para cidade, mas sentindo sempre o conforto das suas próprias aspirações. E é por isso que é importante não dar ouvidos a esses cantos de sereia que estigmatizam sempre algumas pessoas e também pensar que todas estas ideias de turismo de qualidade são muito tendenciosas e podem ser perigosas.
▲ "É claro que o que estamos a ver é que muitas pessoas se dedicam ao turismo, mas muitas vivem mal precisamente por causa dele".
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Ao longo desta conversa e do livro, tem sido usada uma linguagem tradicionalmente associada à esquerda — falou-se de classe, de ideologia dominante, das contradições do capitalismo, do turismo como mercadoria. Como é que se pode sensibilizar o grande público para esta questão sem correr o risco de o alienar?
É uma grande questão para a qual não tenho resposta e na qual muitas vezes me escuto, me vejo, tento também rever-me nesse sentido. Chega a este ponto, de que muitas dessas, por terem sido tão repetidas, perderam todo o sentido, que consigo perceber que quando alguém me lê ou ouve…
Crie anticorpos imediatamente?
Sim. Mas como é que podemos continuar a comunicar e a dar de outra alguma forma? Porque muitas vezes também corremos o risco de acabar por minimizar e neutralizar muito a mensagem, sendo até condescendentes ou paternalistas em relação ao público em geral. Portanto, é uma grande questão para a qual não tenho resposta. Gosto de uma frase de uma autora, Carmen Martín Gaite, que surge num livro de correspondência entre ela e Juan Benet, em que ela se pergunta como é que se pode ser lúcido e espontâneo ao mesmo tempo. E acho que é uma frase que tento aplicar, mas não é nada simples.
No final do livro, apela à construção de “alternativas definitivas a um consumo desesperado de evasão”.
Sim, exatamente. É essa questão de que a liberdade é não ter de fazer certas coisas. Acreditamos que somos constantemente livres, que todas as decisões são tomadas a partir de uma maturidade e de uma liberdade em que tudo é possível, temos todas essas possibilidades e escolhemos. Mas o que estamos a ver, no fundo, é que também estamos cativos, em certa medida, das modas, das tendências, e que é questionável a liberdade que temos para fazer certas coisas. Mesmo o trabalho em si não é obviamente uma escolha, trabalhamos porque somos obrigados, mas também as roupas que compramos, as viagens que fazemos, as atividades que realizamos, foram de alguma forma capturadas. É preciso, de certa forma, reencantar a sociedade, o mundo nesse sentido, pensar que pode haver outra forma de viver. Mas como? Não é fácil.